PALLIS
Marco Pallis (1895-1989)
MARCO PALLIS nasceu de pais gregos em Liverpool, Inglaterra, em 1895, estudou em Harrow e na Universidade de Liverpool e serviu no exército britânico durante a Primeira Guerra Mundial. Era amplamente respeitado como professor e autor de obras religiosas e metafísicas, além de ser um talentoso músico e compositor, bem como alpinista. Suas viagens ao Himalaia o levaram a abraçar o budismo tibetano e, em 1947, ele visitou o próprio Tibete. Entre seus outros escritos estão o clássico best-seller Peaks and Lamas, uma mistura única de relato de viagem, conhecimento botânico e ensaios discursivos sobre a civilização tibetana, e A Buddhist Spectrum: Contributions to Buddhist-Christian Dialogue, um compêndio de seus escritos que apareceu originalmente na revista britânica Studies in Comparative Religion. Marco Pallis faleceu em 1989.
Budismo
PALLIS, Marco Alexander. A Buddhist spectrum: contributions to Buddhist-Christian dialogue. Bloomington, Ind: World Wisdom, 2003.
Prefácio
- Encontrar um bom título para um livro é uma das tarefas mais difíceis, pois ele deve expressar a natureza da obra sem soar acadêmico, excessivamente pitoresco, pesado ou complicado.
- As armadilhas à espera de quem busca um título são inúmeras
- A obra reunida não é um tratado consecutivo sobre o budismo, mas um conjunto de ensaios sobre temas budistas de primeira importância que formam, entre si, uma visão coerente do mundo e do destino humano realizável neste mundo, visto pelos olhos budistas.
- Cada cor do espectro é distinta e brilhante, mas todas se fundem imperceptivelmente umas nas outras
- Na linguagem búdica da Terra Pura, todas essas cores se reúnem para formar o halo de Amitabha Buda, cujo nome significa luz infinita
- A luz, ela mesma sem cor mas contendo todas as cores possíveis, é o símbolo mais característico da Budeidade
- A analogia entre o espectro e uma série de estudos separados mas interdependentes agrupando-se em torno de uma ideia comum é suficientemente clara
- Os dez ensaios reunidos na coletânea foram compostos em épocas distintas, alguns há muito tempo, outros concluídos recentemente, e a maioria em resposta a pedidos específicos de outras pessoas.
- Esse fato explica certa quantidade de repetições que afetam citações e outros elementos ilustrativos
- Rever algo já visto antes pode servir de estímulo à mente ao intensificar a impressão anterior
- Examinar o mesmo material sob ângulos diferentes ajuda a ilustrar o caráter polivalente do dharma revelado pelo Senhor Buda
- Dois ensaios — o terceiro e o oitavo — exigem explicação especial, pois sua conexão com o budismo não é imediatamente evidente.
- O terceiro ensaio foi originalmente composto para ser lido diante de um grupo predominantemente cristão, que esperava um trabalho sobre algum tema da tradição tibetana
- Pareceu mais proveitoso abordar um tema que as mentes cristãs notoriamente acharam problemático, aplicando a ele uma técnica dialética caracteristicamente budista — o budismo aparece no ensaio, mas apenas incidentalmente, ao lado de outras tradições
- O oitavo ensaio tem seu tema inseparavelmente ligado a motivos cristãos, pois a polifonia musical jamais encontrou lugar entre os recursos artísticos de qualquer religião oriental
- Sua inclusão justifica-se indiretamente pelo fato de que, sem o conhecimento dos ensinamentos sobre o samsara — o ciclo existencial tal como exposto pelas tradições indianas — a analogia oculta com o contraponto musical dificilmente teria ocorrido
- A longa experiência pessoal no manejo da música contrapontística tornou essa analogia ainda mais expressiva
- O ensaio sobre anatta é o tema mais desafiador já abordado, e só após hesitações recorrentes se decidiu empreender a tentativa.
- Do ponto de vista budista, anatta constitui uma ideia fundamental — é um dos traços que distinguem o budismo de suas tradições irmãs na Índia e, a fortiori, das formas semíticas de sabedoria
- Na prática, anatta tem gerado muita confusão entre aqueles que escrevem sobre ela em línguas europeias, sejam expositores ou críticos da doutrina
- O animus sectário também por vezes entrou em cena para obscurecer ainda mais a questão
- Seria temerário afirmar ter produzido uma explicação exaustiva do assunto — parte do que se procura mostrar é precisamente por que tal esgotamento nunca poderia ser o caso
- O não-eu se defende, por assim dizer, contra toda tentativa de racionalização autossuficiente
- Expressa-se a esperança de que os pensamentos reunidos sobre o tema possam ser de alguma ajuda ao leitor empenhado em penetrar o mistério para o qual a palavra anatta pretende ser uma chave — e não mais um obstáculo
- O décimo ensaio surgiu como um acréscimo imprevisto, provocado pela leitura de um texto de outro autor no qual o tema dos arquétipos era brilhantemente exposto, deixando, porém, certas partes do campo ainda por lavrar.
- O tema dos arquétipos como um todo era terreno pouco familiar — explorá-lo exigiu esforço, mas um esforço que valeu a pena
- O princípio arquetípico possui ampla aplicabilidade prática, independentemente do caminho religioso que alguém siga, ou mesmo se ainda permanece na condição de buscador
- A palavra arquétipo não parece remontar a muito antes do Renascimento, mas a ideia em si não é nova — nenhuma religião pode prescindir dela, por mais variadas que sejam as formas de expressar essa verdade
- A pergunta que se colocou ao ler o texto do colega foi como esse tema específico deveria ser encarado do ponto de vista budista — o ensaio marca uma tentativa de responder a essa questão
- Fontes cristãs foram também amplamente utilizadas — trata-se de um caso em que dois modos de tratar o mesmo tema se reforçam mutuamente, sem suscitar questões embaraçosas
- Prólogo
- Viver seu karma
- O casamento da Sabedoria e do Método
- Há um problema do mal?
- O Budismo dá lugar a graça?
- Considerações sobre a alquimia tântrica
- O nembutsu enquanto recordação
- O dharma e os dharmas como princípio de comunicação entre religiões
- Metafísica da polifonia musical
- Anatta
- Os arquétipos vistos por um olhar budista
Tibete
PALLIS, Marco. The Way and the Mountain: Tibet, Buddhism, and Tradition. 1st ed ed. New York: World Wisdom, Incorporated, 2008.
- Os nove ensaios reunidos nesta coletânea, compostos em intervalos distintos e em resposta a solicitações específicas, articulam-se em torno de um tema comum que os atravessa e unifica.
- O conjunto gira em torno do conceito de tradição, tratado como leitmotif central
- A obra anterior Peaks and Lamas — publicada pela Cassell, Londres, 1939, e pela Alfred Knopf, Nova York, 1949 — já havia explorado esse mesmo tema
- Peaks and Lamas narra o acesso, por meio de episódios de viagem pelo Himalaia, a um mundo tradicional ainda íntegro e vigoroso: o do budismo em sua vertente tibetana
- Em 1947, uma segunda jornada levou o autor e seu companheiro Richard Nicholson ao coração do Tibete independente, então ainda existente
- A participação plena nessa experiência permitiu coordenar, clarificar e, quando necessário, rever impressões anteriores
- A presente obra é, em múltiplos sentidos, fruto direto dessa experiência
- Por tradição entende-se algo de alcance transcendente, para além do mero costume consolidado pelo tempo, ainda que o uso corrente tenda a restringir o termo a essa acepção mais limitada.
- A tradição, sendo informe e suprapessoal em sua essência, escapa a qualquer definição exata nos termos da linguagem ou do pensamento humano
- Uma tradição completa implica necessariamente a presença de quatro elementos fundamentais
- O primeiro elemento é uma fonte de inspiração ou, em termos mais concretos, de Revelação
- O segundo é uma corrente de influência ou Graça que emana dessa fonte e se transmite sem interrupção por diversos canais
- O terceiro é uma via de verificação que, seguida com fidelidade, conduz o sujeito humano a posições sucessivas onde lhe é possível atualizar as verdades comunicadas pela Revelação
- O quarto é a encarnação formal da tradição nas doutrinas, artes, ciências e demais elementos que determinam o caráter de uma civilização normal
- Os quatro elementos constitutivos da tradição não estão todos igualmente sujeitos à corrupção ou ao desaparecimento.
- Os dois primeiros elementos — a fonte de Revelação e a corrente de Graça — situam-se além de qualquer possibilidade de corrupção
- O terceiro elemento, a via de verificação, é igualmente incorruptível em seu princípio, mas pode ser obscurecido pelo descuido humano diante das oportunidades e meios que oferece
- O quarto elemento, a forma tradicional, está necessariamente exposto às vicissitudes que afetam toda forma enquanto tal — manifestação em forma implica limitação e condicionamento, o que equivale à sujeição à tríplice fatalidade da mudança, da decrepitude e da morte eventual
- Apenas a Talidade divina é não nascida e, portanto, não sujeita à morte — sem limites e, por isso, não limitante — livre e, assim, sede da Libertação
- A voz da tradição é o convite à liberdade sussurrado ao ouvido da existência aprisionada
- É tradicional tudo aquilo que ressoa essa mensagem em qualquer grau ou distância; é não tradicional e humanista tudo que deixa de fazê-lo, independentemente de quaisquer realizações aparentes no plano mundano
- Diante das seções da obra que tratam da tradição tibetana, impõe-se responder antecipadamente à questão sobre a sobrevivência dessa tradição sob a dominação que então se instaurava.
- O Tibete havia caído sob o domínio de homens pouco afeitos à terneza em relação às instituições tradicionais ou aos sentimentos daqueles que desejavam preservá-las
- Seria de esperar que os senhores sino-marxistas tentassem remodelar o Tibete segundo o padrão totalitário vigente, embora o termo ambíguo autonomia pudesse continuar a ser utilizado ocasionalmente por razões de aparência política
- A espiritualidade tibetana enfrentava pressões cuja gravidade seria uma imprudência minimizar
- Seria, contudo, um equívoco prejulgar o resultado final, que dependia de fatores complexos, alguns dos quais permaneciam obscuros
- A ameaça física sobre o Tibete persistia, com sinais de que os agressores cogitavam sufocar a resistência por meio do progressivo preenchimento do território por colonos chineses.
- Uma superpopulação aterradora colocava nas mãos dos governantes da China esse instrumento devastador
- Por não implicar necessariamente derramamento de sangue, tal estratégia seria classificada como pacífica pelos fariseus do mundo
- Reduzido o próprio nome tibetano à condição de memória, os murmúrios da consciência seriam, sem dúvida, comodamente silenciados
- A Bíblia anuncia que o escândalo é inevitável no mundo — e diante disso cabe perguntar se essa seria a única forma de consolo oferecida ao povo tibetano, robusto, amante da liberdade e profundamente religioso, caído entre ladrões e clamando por socorro.
- — É preciso que haja escândalo neste mundo — como registra a Bíblia
- A escolha dos temas reunidos no volume resulta de uma intenção deliberada de abarcar correntes tradicionais diversas, e não apenas aquela à qual o próprio autor se filia.
- A obra não se destina a leitores de uma única orientação espiritual
- Aspira-se a que qualquer leitor espiritualmente inclinado encontre aqui algo para sua necessidade — ainda que seja apenas uma prova extrínseca e provável, para usar expressão de São Tomás de Aquino — que o confirme no caminho indicado pela sua própria tradição
- Contemplar-se no espelho de outra forma de espiritualidade aprofunda a compreensão da própria — e isso já é grande ganho
- Para aqueles que ainda buscam um lar tradicional, o que se oferece é o discernimento entre o verdadeiramente tradicional — e o termo ortodoxo não precisa ser evitado — e um sectarismo pseudomístico que prolifera facilmente no solo desnaturado da frustração materialista
- Esse sectarismo, com suas promessas anunciadas por todos os lados, exerce atração contínua sobre os insuficientemente informados
- Em matérias do espírito, é fundamental distinguir o que pertence à essência daquilo que, sendo de ordem derivada ou contingente, é como uma chave que dá acesso a um santuário — não devendo ser confundida com o tesouro a ser alcançado no interior, após girar essa chave
1 O CAMINHO E A MONTANHA
2 A VIDA ATIVA
3 SOBRE ATRAVESSAR FRONTEIRAS RELIGIOSAS
4 ALGUMAS REFLEXÕES SOBRE SOLICITAR E TRANSMITIR CONSELHOS ESPIRITUAIS
5 O LUGAR DA COMPAIXÃO NA ESPIRITUALIDADE TIBETANA
6 O BUDISMO NO SIQUIM HOJE E AMANHÃ
7 AS ROUPAS FAZEM O HOMEM?
8 O DALAI LAMA
9 A TRADIÇÃO TIBETANA
POSFÁCIO – A MENSAGEM ETERNA
APÊNDICE I – AS DUAS FONTES DE PODER
APÊNDICE II – DESCOBRINDO A VIDA INTERIOR
APÊNDICE III – UMA GUIRLANDA BUDISTA PARA O JAGADGURU
NOTAS BIOGRÁFICAS
GLOSSÁRIO
Lamas
PALLIS, Marco. Peaks and Lamas, 1939
Notas Introdutórias
- Um prefácio formal seria dispensável nesta obra, cabendo às notas introdutórias apenas esclarecimentos práticos sobre a grafia de nomes de lugares e o uso de termos especiais.
- Tudo o que haveria a dizer encontrou lugar mais adequado na própria narrativa
- Não haveria sentido em preparar o leitor para aquilo que ele mesmo descobrirá a seu tempo
- O uso dos termos Tradição e Lama suscita dificuldade terminológica ao tratar de doutrinas hindu e budista tibetana, pois a palavra religião revela-se insatisfatória para essas tradições.
- As três religiões típicas do mundo — cristianismo, islã e judaísmo — expressam a doutrina de modo adequado à mentalidade de povos onde predominam tendências sentimentais
- Essa concessão ao sentimento caracteriza o ponto de vista propriamente religioso: o aspecto Pessoal da Divindade é enfatizado, o Conhecimento aparece como Fé, os interesses morais e sociais são muito destacados, assim como as oposições entre fiéis e pagãos
- O hinduísmo e o budismo tibetano diferem marcadamente desse modo de pensar
- A palavra filosofia é ainda menos satisfatória do que religião, por estar demasiado associada a sistemas fechados e às figuras de seus fundadores
- Rejeitam-se expressões como religião hindu ou filosofia tibetana por serem enganosas — adota-se a formulação Tradições Hindu e Tibetana
- Para precisar ainda mais a distinção: — a religião cristã é um modo especial de Tradição peculiar ao Ocidente
- A Tradição, por seu caráter abrangente, não é fácil de definir, mas abarca a totalidade de uma civilização em todos os seus modos e departamentos
- Nenhum elemento pode ser dito existir independentemente da influência tradicional — não há lugar para um ponto de vista profano
- Uma civilização tradicional tem suas raízes numa doutrina de ordem puramente metafísica, além da limitação mesmo da Personalidade, doutrina que fornece ao todo seu princípio ou causa suficiente
- Os demais constituintes da Tradição — éticos, sociais, artísticos — até as atividades mais corriqueiras do cotidiano, derivam sua autoridade dessa doutrina, exercida dentro das esferas que lhes são prescritas
- Ideias de ordem metafísica são o cimento que une todas as partes; o conjunto do pensamento deve ser visto como uma hierarquia, com a metafísica pura no topo
- O mecanismo pelo qual a Verdade circula pelo corpo é a Tradição de Mestre a discípulo, que se estende ao passado e alcança o futuro
- Por essa doutrina transmitida, todas as partes se relacionam entre si, derivando dela estabilidade e elasticidade
- Nenhuma fronteira fixa pode ser reconhecida pela Tradição como um todo — ela só pode ser tomada como equivalente do próprio Conhecimento
- Quando empregada em seu pleno sentido, a palavra é grafada com T maiúsculo; apenas no uso corrente e frouxo, como equivalente de costume, aparece sem maiúscula
- Dois exemplos ilustram a distinção: a Tradição de Buda, mas as tradições de Harrow
- Uma distinção semelhante ocorre no uso das palavras Lama e lama, sendo a grafia com maiúscula reservada ao sentido técnico e espiritual do termo.
- Com maiúscula, Lama designa um santo, um diretor espiritual pessoal, ou um daqueles abades do Tibete venerados como Encarnações de seus predecessores — impropriamente chamados de Budas Vivos
- Com minúscula, lama refere-se a clérigos ou monges no sentido habitual em inglês: assim, o Lama que fundou a Ordem Amarela dos monges, mas um grupo de lamas na aldeia
- O termo Lamaísmo, em voga entre escritores recentes sobre o Tibete, é rejeitado por ser ofensivo ao se referir à Tradição Budista Tibetana.
- A forma da palavra é depreciativa, como Romanismo ou Papismo — alguns de seus introdutores pretenderam que assim fosse, outros a copiaram inocentemente ou sem reflexão
- Expressa-se o desejo de que o termo seja abandonado por todos
- O uso da palavra nativo exige atenção ao contexto, pois pode ser ofensivo ou neutro conforme a situação.
- O caráter insultuoso do termo foi reconhecido por ninguém menos que Mussolini, que alguns anos antes proibiu seu uso em referência aos habitantes da Somália italiana
- Há, porém, muitos casos em que é inteiramente inofensivo — expressão como artes nativas não oferece objeção alguma, ao contrário de experiência em governar nativos, que soa com desprezo
PARTE UM - GANGES E SATLEJ — 1938
- O NASCIMENTO DE UMA EXPEDIÇÃO
- O CAMINHO DO PEREGRINO ATÉ GANGOTRI
- CARREGADORES E SAHIBS
- O SATOPANTH CENTRAL (POR C. F. KIRKUS)
- A DIVISORA DE ÁGUAS GANGES-SATLEJ
- A ESTRADA HINDUSTÃO-TIBETE
- RIWO PARGYUL
- “DE VOLTA À CIVILIZAÇÃO”
PARTE DOIS - SIQUIM — 1986
- A ANTECÂMARA DO TIBETE
- DERROTA EM SIMVU
- A RODA DA EXISTÊNCIA
- O ERMITA E O PEREGRINO
- DOS MISSIONÁRIOS E MARIPOSAS
PARTE QUATRO - REFLEXÕES FINAIS
- O ESTADO ATUAL DA ARTE TIBETANA
- ARTE TIBETANA (CONTINUAÇÃO) - SUAS CONEXÕES COM A DOUTRINA
- ARTE TIBETANA - PERIGOS À FRENTE
- EDUCAÇÃO NAS TERRAS FRONTEIRIÇAS
EPÍLOGO
ÍNDICE REMISSIVO
