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esoterismo:ghyka:1931:6

6 Amor

Le Nombre d'or (1931)

1. Várias vezes, no curso do capítulo precedente, foi-se levado a constatar que a harmonia ritmada, musical ou prosódica, tinha além de seu apelo estético ou cerebral normal, aparentado à ação do princípio de menor esforço hedonístico, essa ação encantatória que se é tentado, à falta de melhor, a chamar de mágica.

2. Admitindo que o termo encantamento deveria em princípio ser reservado à ação obtida pela repetição de uma palavra, de uma fórmula, de uma assonância, de uma periodicidade prosódica ou musical, isto é, à ação de um ritmo, constatou-se que o ritmo e sua ação encantatória são por vezes condensados numa palavra.

3. É por causa de sua operação imediata que se qualifica essa ação de mágica ou quase mágica, sendo seu resultado sensível a mise em estado de êxtase da pessoa submetida à ação do encanto, tornada receptiva e percorrida pelo ritmo de paixão, de embriaguez ou simplesmente de euforia que fizera vibrar o compositor no momento da criação da obra, podendo essa criação ter sido anônima ou coletiva.

4. Por vezes mesmo a virtude, o encanto, parecem inerentes ao símbolo ou à palavra mesma, dotada de um dinamismo condensado que é uma das características da ação mágica.

5. No mundo físico há fenômeno análogo na produção instantânea da corrente induzida na bobina de um enrolamento secundário sob a única ação da corrente elétrica primária, sem contato ou comunicação entre os dois circuitos, ou ainda na imantação de um núcleo de ferro doce envolvido por uma bobina percorrida por corrente, ou na transformação instantânea de um amontoado de limalha de ferro num sistema condutor de eletricidade por uma descarga de alta frequência.

6. No entanto não se chamam mágicos esses fenômenos, não porque se compreenda seu mecanismo, mas porque as energias que põem em jogo são puramente físicas.

7. Essa distinção, que não é obrigatória, revela uma segunda característica do fenômeno mágico, que consiste na condensação e depois na liberação, utilização e aplicação numa direção determinada de energias de essência espiritual, psíquica, provenientes de centros ou reservatórios vivos, transcendentais em relação à matéria não organizada e às energias que não são de natureza psíquica ou espiritual.

8. Esses reservatórios transcendentais de energia, supondo que existam exteriores à psique e aos circuitos vitais do mago e dos recipiendários, podem ser formados pelos psiquismos de todo um conjunto de seres vivos, comunicando entre si à revelia de suas consciências, ou mesmo do conjunto de todos os seres vivos num dado momento, podendo também, segundo a hipótese espírita, comunicar com energias psíquicas desencarnadas, e é aqui somente que começa o ramo da Magia que se pode designar em bloco pelo nome de Ocultismo.

9. Por mais suspeito que seja esse conceito de Magia, sofrendo precisamente de seu parentesco com os de Ocultismo e Ciências Ocultas, cuja má reputação é em parte merecida pelo abuso das vulgarizações superficiais, pelo lado charlatães ou pueril associado às suas práticas e pelo perigo para os que se entregam a elas de cair num misticismo de má qualidade, não se pode, num estudo das forças que agiram sobre a evolução do pensamento humano, especialmente do que se chamou pensamento mediterrâneo, ignorar que a Magia existiu como teoria e como técnica e desempenhou nesse ciclo cultural um papel muito mais importante do que se seria tentado a pensar.

10. Em todo caso, não só a ideia de encantamento, mas as palavras magia e mágico apresentam-se naturalmente em todo ensaio de analisar os efeitos do ritmo musical ou prosódico.

11. Segundo uma explicação do efeito mágico em que essa palavra mesma não intervém, os ritos, que são apenas a mise em ação dos símbolos, têm um poder natural sobre o mundo astral que contém em potência e em germe todo o desabrochar do mundo físico, pois a palavra símbolo quer dizer antes de tudo resumo, quintessência, e ao cumprir uma cerimônia simbólica atrai-se a causa segunda para a órbita da própria vontade e desencadeia-se o dinamismo produtor do fenômeno.

12. Para ser cumprido de maneira eficaz, todo rito exige um estado de alma e mesmo uma preparação do corpo, uma base prévia física, anímica e intelectual, sem a qual seria pueril pensar na manobra das chaves fenomênicas.

13. Esse é o ponto de vista espiritualista, que se pode rejeitar ou afastar como se pode rejeitar o transformismo, o mundo a cinco dimensões de de Sitter ou o subconsciente da psicanálise, mas que nada tem de absurdo nem de incoerente.

14. Pode-se não atribuir ao simbolismo e aos símbolos a ação direta que lhes concede o sistema do mundo de um Yeats, por exemplo, mas não se pode tratar do ritmo e da poesia suprimindo os conceitos de encantamento, símbolo e rito, e se se quer analisá-los, é lógico e pode ser frutífero examinar sem partido tomado as definições e hipóteses em uso entre os pensadores que deles se ocuparam especialmente.

15. Essas ideias de encantamento, símbolo e rito apresentam-se aqui muito estreitamente ligadas umas às outras, podendo-se admitir com Larmandie que o rito é uma mise em ação dos símbolos, sendo o rito sempre fundado num ritmo, ainda que seja o retorno periódico da própria cerimônia, e muitas vezes na encantamento, tendo a religião do antigo Egito sido especificamente baseada na magia ritual.

16. Os pitagóricos haviam especialmente notado o valor purificador e regulador da música e atribuíam a esse efeito, que chamavam catarse, um papel muito importante na disciplina diária dos adeptos, figurando além disso ritos francamente mágicos e mesmo ocultos, como a evocação dos mortos, nas práticas dos iniciados perfeitos, pois deles se encontram traços em toda a literatura neopitagórica.

17. A catarse musical reencontra-se no ritual da Igreja católica, assim como a prática das fórmulas e preces encantatórias, adotadas diretamente das religiões de mistérios grega e egípcia, após eliminação menos das práticas que da vontade de magia, reduzindo-se essa eliminação ao fato de que no cérémonial e no ritual católico a encantamento, a prece e o incenso são uma homenagem a Deus e não meios de captação ou condensação de forças sobrenaturais ou extranaturais ao arrepio da Divindade.

18. Essa eliminação da vontade de magia pela Igreja não é aliás tão absoluta, pois a técnica do exorcismo, da excomunhão e o efeito imediato atribuído aos sacramentos manifestam certas características essenciais da ação mágica, pelo fato de o resultado dever produzir-se infalivelmente pela virtude sacerdotal do oficiante.

19. Do mesmo modo, pelo rito-encantamento deseja-se forçar os fluidos magnéticos, astrais ou mesmo psíquicos, naturais ou extranaturais, a se condensarem ou operar numa direção, evocando-se malgrado sua vontade larvas astrais, mortos ou demônios, e se a técnica mudou, não há grande diferença entre um mago do século XVI e um metapsiquista moderno.

20. Poder-se-ia também dizer que, no ritual católico, a transubstanciação por consagração sacramental na missa é uma operação mágica, porque deve sempre ter êxito, e a absolvição também, que aliás tem êxito de fato como impressão no confessado.

21. Em todo caso, o efeito catártico sobre os fiéis é indiscutível, e também a produção da concentração psíquica que, com a ascese, é necessária para emitir ou receber a corrente mágica ou para extrair dos hipotéticos reservatórios de energia psíquica mencionados acima.

22. Pode-se dizer grosso modo que a magia mediterrânea de que se foi levado a ocupar é de fonte egípcia, sendo magia do Rito, ritmo à segunda potência, magia do Signo e magia da palavra.

23. A palavra, o Logos, o Verbo, pode possuir um ritmo harmônico condensado, uma faculdade de encanto, de sugestão devida a esse ritmo, a seu timbre e às metáforas dormentes que representa em potência.

24. Para a religião egípcia, que como todo o sistema social egípcio era à base de magia, certas palavras tinham um valor encantatório efetivamente mágico, e essas palavras de poder ou hekau são mencionadas já no século XVI a.C. num capítulo especial do Livro dos Mortos, em que desempenham papel ainda mais importante que os talismãs ou os signos simplesmente formais.

25. O Livro dos Mortos mostra que a alma do falecido devia servir-se dessas palavras de poder e palavras de livre passagem durante toda a viagem no outro mundo, e reencontram-se essas palavras de passe nos mistérios, nas tábuas funerárias pitagórico-órficas, depois nas corporações de cortadores de pedra, maçons, franco-maçons profissionais, companheiros e enfim na franco-maçonaria especulativa, estando sua linha de transmissão ligada à dos símbolos gráficos, cujo mais importante é o pentagrama dos pitagóricos, signo do número de ouro.

26. É Isis que no Egito, como sua correspondente Deméter-Ceres dos mistérios de Eleusis, a um tempo deusa da fecundidade e da morte e padroeira das iniciações, é a divindade especialmente afetada às palavras mágicas, o que resulta de diversas passagens do Livro dos Mortos e de numerosas inscrições, sendo a expressão Isis, a dama das palavras mágicas, frequentemente repetida.

27. Isis era especialmente a deusa do mistério e dos mistérios, caráter imortalizado pela famosa inscrição de Saís transmitida por Plutarco no De Iside, em que ela diz ser tudo o que foi, tudo o que é e tudo o que será, e que nenhum mortal jamais levantou seu véu.

28. Isis tem como associado no domínio da Magia o deus Thot-Hermes, senhor das palavras divinas, que na criação condensou em palavras a vontade da Potência criadora desconhecida e invisível, e Platão, no Fedro, reporta a tradição egípcia segundo a qual Thot foi também o inventor da lógica, da aritmética, da geometria, do xadrez e da escrita.

29. Pode-se também dizer que Thot, pai aliás de Isis, é o deus da razão, do Número e do Verbo, tendo na Grécia, como deus da eloquência, o qualificativo de Logios.

30. Thot é também no outro mundo o chefe do protocolo infernal, e como Hermes psicopompo aparece já na Odisseia nessa qualidade de arauto das almas, devendo resultar da fusão dessas duas divindades já constatada por Heródoto uma nova entidade, ora Deus, ora daimon ou super-homem lendário, mago em todo caso, Hermes Trismegisto, que se tornou desde a época ptolomaica o padroeiro dos pesquisadores de segredos, magos, alquimistas, necromantes e cabalistas, numa palavra, de todos os que se ocupam das ciências herméticas.

31. Plutarco cita já no De Iside a literatura hermética ou Livros de Hermes atribuídos a esse personagem lendário, Jâmblico eleva seu número a vinte mil, e eles foram quase todos destruídos no incêndio do Serapeu de Alexandria pelos cristãos e no momento do último saque da famosa biblioteca por Omar, sendo o mais importante dos que chegaram até nós, além do Livro dos Mortos, o Poimandres.

32. Se Thot-Hermes era o deus do Verbo e do Número, especialmente o deus da ciência dos números e da Matemática, a divindade-parceira feminina que lhe corresponde rigorosamente é Maat, deusa da Lei física e moral considerada como ordem harmoniosa, reguladora dos ritmos e Dama da Sala do Supremo Julgamento.

33. Essa deusa da Regra, da Harmonia e da Verdade tinha como símbolo a pluma vertical fincada em seu diadema, e a palavra maat significava originalmente um junco cortado, depois uma régua de medir, depois o que é reto, depois a regra, a lei e a verdade, tendo a palavra grega kanon passado exatamente pela mesma filiação de metáforas.

34. Do radical semítico aparentado qanat, que significa igualmente junco e depois tubo e sopro dos ferreiros, vem também o nome tribal dos cainitas, os ferreiros-mineiros do Sinai, cujos traços misteriosos Robert Eisler esclareceu.

35. Da magia encantatória por palavras de poder sairá a floração fantástica dos encantamentos verbais gnósticos, em que sílabas e palavras egípcias, gregas e hebraicas se combinam em recorrências, assonâncias e aliterações bizarras, desencadeando-se o verbo em fragmentos, anagramas, palíndromos, escadas, triângulos ou quadrados mágicos, cujas arquiteturas abracadabrantes se transmitiram até nossos dias pela filiação ininterrupta dos tratados mágicos do século III ao XVI.

36. Uma categoria de práticas mágicas que releva da magia negra, com fim criminoso ou imoral, e que é também de origem puramente egípcia, é a dos enfeitiçamentos por aplicação de ritos e encantações mágicas a figuras de cera, mencionadas já desde a III dinastia, tendo o último faraó indígena, Nectanebo, sido segundo a tradição grega o mais versado em ciências ocultas e o mais poderoso mago entre todos os soberanos do Egito.

37. O emprego das figurinhas ushabti, duplos do morto, é aparentado a essas práticas, mas como magia benéfica, e a técnica da criação de homúnculos por insuflação de pneuma e inserção de uma palavra mágica escrita na boneca de argila passou tal qual para a Cabala hebraica pelo Sefer Ietsirah ou livro da Criação.

38. O termo hebraico Qabalah significa tradição, e a Cabala nasce no Egito alexandrino ao mesmo tempo que a Gnose, o Hermetismo e a Alquimia, representando a versão hebraica da mística pitagórica dos números, tendo a estada na Babilônia de uma parte dos intelectuais judeus transplantados da Palestina pelos sassânidas tingido fortemente de magia vulgar e de astrologia caldaica a evolução da Cabala entre os séculos IV e VIII.

39. A conquista árabe e a influência intelectualmente fecundante dos primeiros impérios islâmicos enxertam a alta especulação neoplatônica sobre esse neopitagorismo hebraico que penetra na Europa pela Itália, Espanha e meio-dia da França, datando ainda da fase babilônica o Schim Koma ou Medida da Estatura de Deus, mas sendo o livro mais notável dessa época o Sefer Ietsirah, escrito em hebraico na Síria provavelmente no século VI ou VII e já comentado em toda parte no século X.

40. A influência gnóstica e neopitagórica é muito visível no Sefer Ietsirah, em que Deus criou o mundo por intermédio das dez Potências ou Verbas chamadas sefirot e das vinte e duas letras do alfabeto hebraico, sendo a Bíblia da Cabala o livro do Esplendor ou Zohar, composto igualmente por volta do século VI em siríaco-caldeu como o Talmude.

41. O Zohar é um comentário cabalístico e neoplatônico do Pentateuco, em que entre Deus e o Mundo se encontra a década das Ideias-Mães ou sefirot, formando o Macrocosmo ou mundo das emanações, tipo intelectual do mundo material, tendo a primeira sefirah, Kéter ou Coroa, Vontade de Deus, criado as nove outras, e sendo a décima, Malcuth ou Reino, a harmonia do mundo, reconhecendo-se a mônada e a década.

42. À mística acrescenta-se a Cabala prática, com combinações de cifras, letras, nomes mágicos de Deus, dos anjos e dos demônios, clavículas geométricas e enfim os métodos de adivinhação por permutação de palavras, cifras e letras, a gematria, o notarikon e a temurah, a isopsiquia.

43. O triângulo sefirótico substitui na Cabala os abracadabras da Gnose, como o tetragrama inexprimível IHVH substitui o ABRAXAS, sendo o triângulo sefirótico uma década triangular ou escala ascendente composta de dez nomes divinos e a decomposição encantatória do tetragrama inexprimível ou Schem Hamaphoras, condensação da força oculta divina que os profanos pronunciam como Jeová.

44. Essa Cabala hebraica tem duas componentes, uma das quais é precisamente a magia egípcia antiga à base de palavras de poder, podendo a palavra e a encantamento ser escritas em talismãs, e a outra o neopitagorismo alexandrino, em que a mística do Número, década, pentade e tétrade, desempenha como de justo o papel preponderante.

45. Aos símbolos geométricos correspondentes, dodecaedro para o éter-quintessência e para a harmonia cósmica, decágono e triângulo quaternário para a década-tétrade e o Macrocosmo vivente, pentagrama para o Microcosmo e o Amor, a Cabala e a magia acrescentam o signo especificamente hebraico da perfeição no equilíbrio, da ordem cristalina na simetria e na homogeneidade, o duro hexagrama ou selo de Salomão, que se tornará o símbolo do Macrocosmo inorgânico.

46. Dessas duas tábuas de símbolos e unidades mágicas, as palavras e os números, a Cabala tirará naturalmente, pelo fato de a cada letra hebraica corresponder um número, um sistema misto de que sairão os procedimentos de análise simbólica e de adivinhação próprios dessa disciplina, cujo mais conhecido consiste justamente em substituir numa palavra cada letra pelo número correspondente ou reciprocamente, sendo o enigma do Número da Besta no Apocalipse um exemplo famoso dessa isopsiquia.

47. A década fornece assim os dez nomes divinos, desenvolvimento do Schem Hamaphoras, e os dez sefirot, e a tétrade entrega o tetragrama ou nome inexprimível do Deus Supremo, permutando ou combinando nomes de demônios, anjos, santos, planetas e elementos seus símbolos gráficos, alfabéticos ou numéricos, alternando as consoantes hebraicas flamantes com os alfas e ômegas, os IAO, os IO e os ABRAXAS, cintilando nas pontas dos pentáculos e nas casas dos quadrados mágicos, reforçando com sua dupla fermentação de sopros e números as encantações da Gnose.

48. Agora se admite mais facilmente que toda encantamento verbal ou musical tenha êxito, isto é, produza o encantamento, pois as duas noções de uma mesma entidade verbal, encarada ora como ação, ora como efeito produzido, a êxtase, a liberação ou mesmo o enfeitiçamento lato sensu, são um fenômeno que se pode com razão chamar mágico.

49. Podem-se distinguir três variantes importantes dessas ações ou estados mágicos naturais segundo o caráter do efeito produzido, a saber, um tipo de êxtase indeterminado, embriaguez ou euforia geral ou cósmica, em que o encanto decorre da sensação, consciente ou não, de estar em fase com as ondas harmoniosas do Grande Todo, e dois tipos mais diferenciados e especializados, que podem fundir-se no primeiro.

50. O êxtase religioso ou místico é aquele em que a ternura universal se fixa na divindade, mencionada acima a propósito do papel da prece-encantamento, dos ritmos encantatórios à segunda potência que são os ritos.

51. O êxtase amoroso é aquele em que o objeto do amor ou aquele em que se deve crer é um ser humano determinado, e é quando o êxtase é forte e durável e o encaramos sob seu aspecto quase mágico, o enfeitiçamento do amor.

52. Se se quiser analisar a ação encantatória de um ser sobre outro, pode-se dizer que o êxtase amoroso corresponde sobretudo à entrada em ressonância, à mise em fase de dois seres, de dois ritmos, ou se se quiser seu acordo, um acorde de um timbre especial, com o Ritmo da Vida, havendo aí também, no amante e no fiel místico como no poeta criador e naquele que ele toca, um estado durável ou passageiro de transe.

53. Platão, que postula que aquilo a que chama inspiração divina na criação poética se reconhece também no amor, diz no Banquete que o apaixonado é de fato mais divino que o amado, pois o apaixonado é inspirado por Deus.

54. A transe e o enfeitiçamento de amor espontâneos têm muitas vezes essa qualidade importante do fenômeno mágico, que é a de ser imediatos e poder agir à distância, ou ao menos sem outro contato que a percepção visual ou auditiva.

55. Falou-se no começo do capítulo das analogias entre certos dinamismos psicológicos e os fenômenos eletromagnéticos, citando especialmente a imantação instantânea do ferro doce e a produção de correntes induzidas, e pode-se divertir em relevar fenômeno análogo à indução eletromagnética no que se pode chamar os circuitos psíquicos de dois seres em ressonância amorosa.

56. Quando as ondas de desejo ou de fervor provocadas no apaixonado pela presença, pelo olhar e pela voz do ser eleito agem, há imantação instantânea, fecha-se o circuito primário, e a corrente secundária, isto é, induzida no eleito pela corrente primária do apaixonado, poderá estabelecer-se por sua vez.

57. A ação instantânea do golpe de fulminação faz parte dessa ordem de fenômenos que só a música pode traduzir e por vezes produzir, como a encantamento durante o primeiro encontro entre a noiva do velho barão e o Cavaleiro da Rosa na ópera do mesmo nome.

58. A encantamento preliminar pode estar presente tanto no amor dito profano ou físico, o amor gerador, que também faz parte do Ritmo do Grande Todo, com sua gama que vai da grave e terna busca do morango silvestre dos amantes góticos até a orgia e mesmo o stupro, quanto no amor místico, cuja fervor de Dante por Beatriz permanece o tipo perfeito, com essa nuance nova, não discernível na antiguidade, da devoção e da ternura infinita e desinteressada pela mulher amada, sustentadas pela doce certeza de reencontrá-la para nunca mais perdê-la na multidão angélica que aos pés do trono divino participa da eterna beatitude.

59. Essa inefável certeza é a parte especificamente cristã no amor de Dante, mas a ternura fervente e adorante que, apesar da ornamentação alegórica e literária da Vita Nuova, dá uma nota tão apaixonada apesar de seu infinito respeito ao relato da parte terrestre desse amor, e que se reencontra com acento ainda mais intenso na Divina Comédia, é antes a contribuição que se resume pelo epíteto de celtogermânica.

60. Para precisar, esse eu não é tanto a adoração respeitosa do cristão pela Virgem-Mãe que adoçou a atitude para com a mulher dos bárbaros conquistadores da Europa romana, mas o prestígio da mulher nesses clãs de guerreiros livres de estrutura feudal, que transforma em alguns séculos as relações dos sexos, o que se poderia chamar num sentido muito geral a erótica social.

61. Isso inclui a concepção greco-latina em que a mulher, que podia ser infinitamente respeitada como esposa e como mãe, temida como soberana, não era do ponto de vista erótico senão o instrumento e, no máximo, a sacerdotisa da voluptuosidade, variante semítica do Cântico dos Cânticos.

62. Assim como na arquitetura sobre a harmonia geométrica grega e sobre a nitidez e verdade das linhas e volumes árabe-egípcios o enxerto nórdico fez jorrar a floresta de pedra gótica que vestiu de sonho a mais absoluta rigidez geométrica e dinâmica, do mesmo modo ao calor e à nitidez do desejo mediterrâneo pela bacante, pela escrava ou pela deusa vem misturar-se o sentimento celtogermânico, a ternura fervente pela mulher-irmã ou fada.

63. Daí essa nova forma de amor que se chamará gótico, cujo tipo celestial é o amor pela madona, cujo grau místico é o de Dante por Beatriz e cujo tipo que a Idade Média chamou profano é o de Tristão por Iseult, no qual o desejo de união espiritual e carnal com o ser amado, a criatura, é um fim em si, não procurando o apaixonado superar-se a si mesmo nem avançar na contemplação da beleza pura.

64. Esse amor profano ou carnal, que não excluía o que se chamou a ternura celta, mas exigia a posse recíproca como fim em si, recebeu na simbólica da Idade Média um nome encantador, a busca do morango silvestre, cujo gosto exquisito é tão fugaz e não deixa senão melancolia.

65. Jérôme Bosch imortalizou essa busca simbólica no painel central do prodigioso tríptico que Filipe II instalou na sacristia do Escorial e que os catálogos chamam A Ronda dos Deleites Terrestres.

66. Pode-se resumir o que precede constatando que à primeira vista a mulher no amor antigo nunca parece desempenhar o papel de inspiradora que ela conquistou e guardou desde a época dita cavalheiresca, em que o exemplo mais ilustre é o que, pela fidelidade de toda uma vida ao ideal desaparecido, fez compor esse monumento único ao amor que é a Divina Comédia.

67. Pode-se dizer em contrapartida que o ser idealmente amado que na obra de Platão corresponde a Beatriz é Dion de Siracusa, mas desse amor toda componente sexual é afastada, tratando-se, se se lê atentamente o Banquete, que é o epílogo da Divina Comédia de Platão, de um amor completamente sublimado que conduz diretamente à visão do amor divino.

68. No entanto, viu-se no capítulo I que certos tratados de Nicômaco de Gerasa são dedicados a uma patrícia desconhecida, e o livro sobre Ísis e Osíris é dedicado por Plutarco a uma certa Cléa, patrícia igualmente e muito culta, a quem ele oferece também seu tratado Sobre a Virtude das Mulheres.

69. Plutarco pergunta a Cléa quem melhor que ela poderia saber que Osíris é o mesmo que Dionísio, pois ela é a primeira das Tíades de Delfos e seu pai e sua mãe a consagraram aos mistérios osiríacos, e não se deve esquecer que a revelação sobre o amor transmitida por Sócrates aos convivas do Banquete é posta na boca da pitagórica Diotima de Mantineia.

70. Estamos tão habituados à idealização da mulher como supremo fim do amor humano que a concepção antiga, que escolhia o adolescente de preferência à adolescente como incarnação do encanto da juventude, exige hoje do homem normal certo esforço de transposição.

71. É útil a esse respeito pensar nas condições sociais da vida helênica, em que nem a mulher nem a moça apareciam, estando o adolescente de boa nascença ao contrário em primeiro plano na cidade antiga, com o espírito cultivado por mestres como Sócrates ou Platão e o corpo cuidado como o de uma cortesã e temperado pelos exercícios do estádio.

72. Quando o efebo imberbe de cabelos encaracolados, a fronte cingida por uma faixa de ouro ou de tecido, vestido quase como uma mulher de hoje, com uma túnica lilás ou púrpura, aparecia no meio de seus mais velhos, fosse num banquete ou na altis de Olímpia, era ele que atraía os olhares, suscitava a admiração, a ternura e toda a gama desses sentimentos, incluindo os êxtases da fervor e os tormentos do ciúme.

73. Para precisar um aspecto desse fenômeno que nos desconcerta até nos sonetos de Shakespeare, a moda propriamente dita, hábil e penteado, desempenha papel capital na moda erótica.

74. O fenômeno inverso reencontra-se hoje em dia, pois assim como na época de Péricles, de Platão e de Alexandre o efebo masculino realizava para a maioria das pessoas cultas dos dois sexos o encanto hermafrodita e virginal da adolescência, hoje essa cristalização se faz sobre o efebo feminino.

75. Como no tempo de Platão, nosso ideal físico e sentimental é andrógino, e como outrora a moda vestimentar e esportiva e o próprio penteado são a causa ou o efeito dessa oscilação do desejo, sendo indubitável que o Antínoo do Vaticano e tal São João de Leonardo têm um apelo mais feminino que tal garçonne de hoje, com seu Eton crop severo e torso assexuado.

76. Todos temos, em porcentagens variadas, o que se pode chamar uma componente homossexual, e é ainda um mito de Platão que nos dá aí não uma demonstração científica, mas um resumo simbólico, a bela lenda dos andróginos cortados em dois por Zeus em punição de seu orgulho.

77. Desde então o amor é inato nos homens, reconduz-nos à nossa primitiva natureza e esforça-se por fazer um só ser de dois e reparar a infelicidade da natureza humana, e o gênero humano inteiro seria igualmente feliz se cada um completasse seu amor e encontrasse o ser amado que pudesse reconduzi-lo a seu primeiro estado.

78. Deve-se desculpar por ter falado tanto de encantamento, encanto e enfeitiçamento a propósito do amor, ou antes por ter, a propósito do ritmo e da encantamento, introduzido essa pedante dissertação sobre o Amor, pois encantações, ritmo e magia espontânea reencontram-se em todos os tipos de amor, apelo vibrante da aranha macho, prelúdio do banquete nupcial e fúnebre em que ela será a um tempo sacerdote e holocausto de um Eros muito ritual, canto nupcial das aves, palavras e carícias tornadas preces e ritos ou espiritualizadas em poemas do amor humano ou celeste.

79. Quanto às encantações de amor conscientes e à vontade de magia aplicada à realização do desejo amoroso, formam um importante capítulo da magia operativa, e por mais legítimas que sejam as prevenções que se possam nutrir a esse respeito, é pueril negar o papel da magia e das disciplinas afiliadas numa esboço do desenvolvimento do pensamento humano em geral e do pensamento mediterrâneo em particular.

80. O conjunto da magia operativa mediterrânea será reencontrado no tomo II com seu caráter especificamente geométrico e numérico, figurando aí naturalmente o pentagrama como emblema de Afrodite Gamélia, deusa do amor gerador, e como o símbolo mágico por excelência utilizado em toda encantamento ritual.

81. Num talismã de amor em cobre, metal de Afrodite-Kypris, reproduzido por Paracelso, vê-se com efeito Vênus com um grande pentagrama acima da cabeça, e o famoso quadrado mágico cujas casas são ocupadas pelas letras do misterioso SATOR AREPO TENET OPERA ROTAS é já dado num tratado sobre as mulheres atribuído a Alberto Magno como talismã eficaz para a sedução das virgens.

82. Esse quadrado é pentádico, com cinco casas em cada lado, e ocupa no arsenal das armas mágicas com fim erótico o lugar da encantamento condensada, arma de bolso e recurso rápido, enquanto a grande encantamento amorosa do rito clássico é ao contrário uma operação muito longa e complicada, exigindo como todas as grandes encantações desse tipo uma preparação moral e material tão difícil e uma tal concentração e emprego de força nervosa que poucos aprendizes magos terão a tenacidade de prepará-la e executá-la.

83. Como para as outras encantações, pode-se admitir que, se existem camadas ou ondas de energia psíquica captáveis, constituídas pelas emanações de pessoas vivas ligadas consciente ou inconscientemente à psique do operador, ou por psiquismos extranaturais como os que postula a tese espírita, uma concentração tão formidável de ritos e símbolos, fundada numa tradição tão antiga, pode de fato realizar uma ação de condensação e de mise em jogo desses dinamismos pelo menos tão eficaz quanto as técnicas mais recentes de transmissão de pensamento e sugestão.

84. Tem-se sempre esses três elementos cujas proporções respectivas são desconhecidas, a sugestão e autossugestão devidas à fé do operador e eventualmente do operado, a ação encantatória natural dos ritos e símbolos e, enfim, e é aqui o ponto de interrogação, a força direta, intrínseca e realmente concentrada nos símbolos.

85. Muito interessante a esse respeito é o relato que parece verídico e excessivamente prudente como conclusões da famosa encantamento executada em Londres em 24 de junho de 1854 por Eliphas Lévy, o abade Courtois, a pedido de Lady Lytton.

86. Mas deixe-se aqui a magia operativa para encerrar esse incidente sobre o Amor e suas encantações naturais, pois se viu que se pode encarar ou sentir o amor como o acordo, a mise em fase dos ritmos de dois seres e depois por vezes sua unissonância com um Ritmo mais geral e mais vasto como amplitude, que eles perceberão como uma grande Harmonia envolvente e penetrante, música das Esferas, voz das sereias planetárias, do amor que arrasta o sol e as outras estrelas.

87. É nesses momentos de ressonância perfeita com o Grande Ritmo que podem reunir-se e confundir-se as três variedades de êxtase ou estados mágicos naturais enumerados no começo do capítulo, a euforia cósmica, o amor terrestre e o amor divino.

88. A via de acesso ao amor divino escolhida por Platão não é a do renunciamento ascético inicial, mas a que passa pelo amor terrestre e pelo amor da beleza mesmo física, não certamente a busca das voluptuosidades fáceis, mas a perseguição ardente do myste vestido de peles de cervo através do reino sombrio de Perséfone, entre as imagens doces ou terríveis que se debruçam sobre seu caminho, até a revelação final reservada aos que creram no Amor, revelação que Platão com efeito compara à iluminação do myste tornado enfim vidente.

89. Não se poderia terminar melhor que pelas palavras postas no Banquete na boca de Diotima de Mantineia, que diz talvez ter chegado a iniciar Sócrates também nos mistérios do amor, mas que atingir o grau supremo e a epoptia dessa iniciação, para a qual tudo o que acaba de dizer não é senão preparação, ela não sabe se mesmo seguindo um bom guia ele seria capaz.

90. Aquele que tiver sido guiado nos mistérios do amor até o ponto em que se está, até a contemplação metódica e exata das belezas particulares, uma vez chegado ao grau supremo de sua iniciação, aperceberá subitamente uma beleza de natureza maravilhosa, aquela mesma que era antes o fim desejado por todos os seus esforços, beleza eterna, incriada, imperecível, que não é bela por aqui e feia por ali, bela num tempo e não noutro, bela para uns e feia para outros.

91. Essa beleza não é tal verbo ou tal ciência, não reside num outro ser que ela mesma, mas permanece por si mesma eternamente idêntica a si mesma, e quando, portanto, dessas belezas particulares se elevou até essas belezas perfeitas e se começa a contemplá-las, então quase se atingiu a epoptia dos mistérios do amor.

92. Passando de um só belo corpo a dois, de dois a todos os outros, indo dos belos corpos às belas atividades e às belas ciências, até que dessas ciências se chegue a essa ciência que não é outra que a ciência do belo, e que se chegue a conhecer enfim a beleza tal como é em si, ó Sócrates, se a vida vale para o homem a pena de ser vivida é a partir do momento em que ele contempla essa beleza absoluta.

93. Vê-se que a mística gelada do Número puro não impediu seus adeptos mediterrâneos de se elevarem a uma visão do Amor mais vibrante e mais humana e divina a um tempo que tudo o que foi entreviso por outros partidos em rotas menos áridas, tendo os fundos aritmológicos da Divina Comédia sido recentemente estudados por René Guénon.

94. Na própria Vita Nuova fica-se surpreso por uma verdadeira obsessão do número Nove, Enéade, muito especialmente, e o grande visionário que termina a Grande Obra de sua vida pela invocação ao amor que move o sol e as outras estrelas e o autor do Timeu puderam um e outro, como Jacó após sua longa luta com o anjo de Penuel, contemplar sem morrer o rosto cintilante, e poderiam como ele clamar que olharam seu Deus face a face e que sua vida está salva, pois esse rosto era o do Amor.

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