User Tools

Site Tools


Action unknown: copypageplugin__copy
esoterismo:ghyka:1931:9

9 Esoterismo e política

Le Nombre d'or (1931)

ESOTERISMO E POLÍTICA. DA CAVERNA DE PLATÃO ÀS LOJAS MAÇÔNICAS

1. A República dos Filósofos, ou Liga Crotoniata, dirigida pelos chefes da Confraria pitagórica, após ter controlado durante cerca de cinquenta anos os destinos políticos de grande parte da Sicília e do sul da Itália, viu seu poder desmoronar-se na sequência de uma revolta popular cujo último ato a tradição situa no incêndio e no massacre dos chefes pela plebe sublevada em Crotone e em Metaponto.

2. Entre os poucos dirigentes escapados à catástrofe, alguns, como Filolau, consagraram-se ao ensino da filosofia e das matemáticas, penetrando assim no domínio público intelectual a doutrina metafísico-matemática da harmonia, à qual Platão deveria emprestar o encanto de seu estilo e de sua própria harmonia, e alguns segredos geométricos da Escola, como a construção do dodecaedro e as proporções entre incomensuráveis.

3. Outros irmãos escapados ao massacre reformaram na própria Magna Grécia, em Locros, Régio, Fliunte e Síbaris, pequenas comunidades iniciatórias onde a doutrina do Mestre e o ritual da Sociedade eram transmitidos, mas de onde toda atividade política efetiva estava excluída.

4. Uma só, mas brilhante exceção a essa prudência foi a república pitagórica fundada pelo grande matemático Arquitas de Tarento na cidade do mesmo nome, tendo o Estado regido por Arquitas, Regente e sete vezes generalíssimo, sido próspero e respeitado, como se viu, mesmo pelos tiranos sicilianos.

5. Mostrou-se também que à influência do ensinamento científico do Regente de Tarento sobre Platão desde sua primeira viagem à Magna Grécia, com a teoria da analogia e a das proporções em geral estabelecidas por Arquitas, somou-se a influência ainda mais importante de sua filosofia e de suas ideias políticas, sendo o ideal político de Platão justamente a República dirigida pelos filósofos e pelos geômetras.

6. Um passo capital da VII carta, de que se citaram numerosos extratos no capítulo I, mostra que precisamente do ponto de vista político a ambição de Platão era não deixar a reputação de um teórico puro, declarando-se forçado a afirmar que, por causa desse estado de coisas, a humanidade não poderia ser salva de sua miséria se os filósofos não chegassem ao governo do Estado ou se, com a ajuda de Deus, os Governos não fossem iniciados na filosofia.

7. Foi isso que Platão tentou sem sucesso junto a Dionísio o Jovem, pois toda a sua esperança e a de Dion repousava nesse ensaio de ganhar à filosofia o soberano de uma cidade poderosa, bastando-lhe ganhar a suas ideias um só jovem para conduzi-las para sempre à vitória, e temendo sobretudo, se ficasse em seu lar em vez de voltar à Sicília para tentar essa conversão, ter de julgar-se a si mesmo como um homem bom apenas para o pensamento, mas que teria recuado diante do esforço de fazer seguir a ação ao pensamento.

8. Viu-se que essa ambição de Platão não foi realizada, e que o assassínio de Dion no momento em que este acabava de apoderar-se do poder em Siracusa não só pôs fim a uma amizade que, como outrora a dedicada a Sócrates, representava na afeição de um ser humano por outro um grau supremo de fervor, mas também, cortando seu laço com a ação, fez o velho filósofo recolher-se doravante ao domínio do pensamento puro, longe daquela Sicília onde esperara realizar a terra prometida de seus sonhos políticos.

9. Restam apenas os ecos do sonho, nessa carta patética aos partidários de Dion e na República.

10. Voltando ao período itálico, ou segunda fase subterrânea, do pitagorismo social, já se viu que as pequenas comunidades pitagóricas ou heterias do sul da Itália, após terem continuado sua existência iniciatória durante dois séculos, muitas vezes fundindo-se com as seitas órficas locais, voltam a fazer falar de si e firmam-se em Roma na aristocracia republicana, querendo Cícero mesmo atribuir ao pitagorismo primitivo uma influência preponderante sobre o desenvolvimento das instituições romanas.

11. Por volta de meados do século I a.C. esse entusiasmo retoma formas que o poder central desaprova, e o senador P. Nigídio Figulo, como se viu, constituíra não só um círculo acadêmico ou uma capela, mas uma verdadeira loja pitagórica cujo caráter misterioso é mencionado por Aulo Gélio, sendo exilado por César ao mesmo tempo que são suprimidas a maioria das corporações de artesãos por causa de sua tendência a se ocupar de questões políticas.

12. Em 26 a.C., outro pitagórico de marca, Anaxilau de Larissa, pitagórico e mago segundo São Jerônimo, é expulso por Augusto.

13. Essa desconfiança marcada dos poderes públicos em relação aos pitagóricos, não por causa de suas doutrinas, mas por causa do segredo que presidia a suas reuniões, continua sob os primeiros imperadores, com a expulsão dos magos e matemáticos pelo senatus-consulto do ano 52 d.C. e a desgraça e o suicídio de Statilius Taurus em 53, continuando paralelamente, pelas mesmas razões, a severidade das autoridades imperiais em relação aos colégios de artesãos enquanto focos de ritos baseados no segredo.

14. Exemplo característico é a resposta de Trajano ao pedido de Plínio o Jovem, procônsul da Bitínia, de autorizar a fundação de um colégio de bombeiros em Nicomédia, recusando o imperador e declarando que todos os colégios se tornam facilmente heterias ou sociedades secretas.

15. Sabe-se também, por uma passagem de Suetônio e pela famosa carta do imperador Cláudio aos habitantes de Alexandria, que a polícia imperial considerou os inícios do cristianismo como uma ação política subversiva fomentada por sociedades secretas judaicas.

16. Não há detalhes precisos sobre a existência das lojas pitagóricas políticas em Roma após o primeiro século, pois elas não foram mais perseguidas, tendo a fobia das sociedades secretas desaparecido, com as aventuras religiosas e os mistérios mais na moda que nunca, e podendo as corporações, tanto no Ocidente quanto em Bizâncio, transmitir em toda tranquilidade seus ritos muito influenciados precisamente pelos ritos iniciatórios órficos, eleusínios e pitagóricos.

17. A adoção ou superposição de novos padroeiros, como os Quatro Santos Coroados para os maçons e cortadores de pedra, deu-lhes logo o cunho exterior cristão, doravante indispensável.

18. Já se traçou no capítulo precedente a persistência dessas corporações através da noite do alto Medievo, e reencontraram-se no século XII fazendo parte integrante da vida municipal reconstituída.

19. Por vezes, apesar da adaptação perfeita dessas guildas e confrarias ao ritmo católico da cidade, a Igreja se inquieta e, como outrora os Césares, troveja contra os que formam associações para se socorrerem mutuamente em toda espécie de negócios, portando pena contra os que se opõem a seus estatutos e expondo seus membros ao perjúrio, como no sínodo de Ruão de 1189.

20. Após a regulamentação oficial, vigiada na França pelo poder central, das maîtrises e ofícios jurés, as corporações parecem consagrar-se inteiramente a seus interesses profissionais, e mesmo a formidável organização da Bauhütte estudada no capítulo precedente só se ocupará da educação profissional e da vigilância técnica dos arquitetos, mestres e companheiros, que compõem e erguem suas sinfonias de pedra à glória do sublime arquiteto, do Grande Ordenador dos mundos.

21. Seus segredos e ritos, sua Geometria fundamental, transmitem-se piedosamente até a Renascença e para além dela, até o momento em que, por seu confluente inesperado com as agitações da ideologia rosacruciana, passam de novo das mãos dos construtores de templos às dos construtores de sistemas.

22. Antes de chegar a isso, devem-se notar duas tentativas, uma abortada e outra bem-sucedida, de pôr uma organização fundada sobre o segredo absoluto e a disciplina ritual ao serviço de uma ideia, de um sistema ou de uma ambição política ou religiosa, a Ordem dos Templários e a Companhia de Jesus.

23. A Ordem do Templo, fundada em 1118 em Jerusalém por Hugo de Payens e oito outros cavaleiros, deveu seu título oficial de Pauperes Commilitones Christi Templique Solomonici ao fato de sua primeira sede ter sido, como outrora a sala de reunião dos Silenciosos ou Essênios, um edifício contíguo ao local do antigo Templo de Salomão, tendo Balduíno II, rei de Jerusalém, cedido-lhes a parte de seu palácio construída perto do Santo Sepulcro, acima desse local.

24. Sabe-se o rápido crescimento de potência militar, financeira e política dessa milícia do Cristo, que no começo do século XIV possuía nove mil castelos-fortes ou manoirs, enclaves extraterritoriais chamadas Templos em todas as capitais da cristandade, e que graças a suas riquezas materiais se tornara também uma espécie de Banco Internacional de Pagamentos, recebendo depósitos, abrindo créditos e concedendo empréstimos à maioria dos soberanos, até que um Rei e um Papa tivessem de se unir para abater o orgulhoso Beauséant, estandarte da Ordem, no qual figurava o estranho grito de guerra Vive Deus Santo Amor.

25. Na sexta-feira 13 de outubro de 1307, todos os templários da França são presos por ordem de Filipe o Belo, e com a aprovação do papa Clemente V começa o processo que termina em 18 de março de 1314 com o suplício de Jacques de Molay, Grão-Mestre do Templo, queimado vivo na Place Dauphine com Geoffroi de Charnai, preceptor da província da Normandia, tendo cinquenta e quatro outros cavaleiros já perecido na fogueira em 1310.

26. Conhecem-se os principais chefes de acusação enumerados contra a Ordem, com o relatório oficial de acusação contendo oitenta e sete artigos, entre eles cerimônias de admissão clandestinas e noturnas, com um ritual compreendendo beijos obscenos, renúncia ao Cristo com ultraje blasfemo do Crucifixo e juramento solene pelo Santíssimo Sacramento e sob pena de morte de nunca revelar os segredos da Ordem.

27. Os cavaleiros não ousavam mesmo falar entre si das cerimônias de admissão, e os membros da Ordem não tinham permissão de se confessar a outros padres que não os capelães da Ordem, que dela faziam parte, ou mesmo em caso de necessidade a seus dignitários laicos.

28. Em certas cerimônias adoravam uma cabeça de velho barbudo, em madeira prateada, chamada Baphomet, a sodomia era encorajada e, enfim, a regra suprema era que todo procedimento sem exceção era bom para aumentar a potência da Ordem.

29. Muitos cavaleiros, submetidos à tortura, confessaram, no todo ou em parte, as práticas sacrílegas ou simplesmente perigosas para a ordem pública de que eram acusados.

30. Sabe-se também que o Grão-Mestre negou esses chefes de acusação e citou, sobre sua fogueira, o Rei e o Papa a comparecerem no ano diante do tribunal divino, tendo Clemente V morrido em 20 de abril do mesmo ano e Filipe o Belo em 29 de novembro.

31. Os Templários foram sempre suspeitos de terem emprestado parte de seus ritos secretos e de seus vícios às seitas religiosas e políticas da Síria e do Egito com as quais estiveram com efeito em contato perpétuo, sabendo-se que até a retomada de Jerusalém por Saladino a residência do Grão-Mestre da Ordem estava efetivamente em Jerusalém, passando depois a Chipre e depois a Paris.

32. O que é certo é que, apesar da má reputação provavelmente justificada dos Templários do ponto de vista moral, uma corrente favorável à sua memória se estabeleceu em certas ordens de cavalaria, na Escócia por exemplo, e em certas sociedades secretas profissionais, especialmente as de construtores, em cujas tradições o Templo de Salomão ocupa sempre, por mais que se recue nos documentos, um lugar importante.

33. O motivo do assassínio iníquo do Mestre por rivais invejosos está também sempre presente, sendo na origem Adon Hiram, o arquiteto tirio de Salomão, traído e morto por três companheiros, sendo Hiram na Bíblia, filho de uma viúva, o mestre fundidor tirio que fundiu as duas colunas do templo e a famosa mar de bronze.

34. Coisa curiosa, uma tradição que parece histórica associa a um assassínio desse gênero a cerimônia de lançamento da primeira pedra da torre da catedral de Estrasburgo pelo arcebispo Conrad de Lichtenberg em 1277, quando dois mestres maçons disputaram a honra de cavar as fundações alegóricas sob os olhos do bispo, e no curso da rixa que se seguiu um deles foi morto, sendo o trabalho interrompido nove dias e os fundamentos rebenditos.

35. Vê-se que em todo estudo relativo às origens das corporações de construtores a lenda, a história e o símbolo se enlaçam em recorrências analógicas desconcertantes, e que o fato histórico segue por vezes a lenda ou o símbolo.

36. Quanto ao Grão-Mestre dos Templários, sua lembrança está especialmente associada a essa dissidência do movimento corporativo francês já mencionada sob o nome de companheirismo, que, à base de cerimonial iniciatório secreto, signos e palavras de reconhecimento, como as lojas da Bauhütte germânica, agrupa os companheiros na defesa de seus interesses contra os privilégios e a tirania crescente dos mestres, apoiados estes pela autoridade real e eclesiástica.

37. É precisamente sob Filipe o Belo que se desenha o movimento democrático nas corporações, indo o Rei até suprimir as confrarias, mas nas Flandres as comunas infligem ao exército real comandado por Robert d'Artois a sangrenta derrota das Esporas de Ouro em Courtrai em 1302, e o tratado de 1305 consagra a vitória temporária dos sindicatos sobre o Rei e as guildas burguesas, tendo a feudalidade francesa sua revanche em Cassel em 1328.

38. A ditadura do proletariado quase triunfa em Florença, onde os companheiros Ciompi se apoderam do poder por alguns meses em 1378, e nas Flandres, quase ao mesmo tempo, a revolução dos tecelões gantois tenta de novo sacudir a tutela das maîtrises, mas é finalmente vencida, após a extraordinária epopeia dos Artevelde, nos campos de Rosebeke em 1382.

39. Nos dois casos são patrícios ou grandes burgueses, como Silvestre de Médicis e Jacques e Philippe van Artevelde, que organizam o proletariado operário, e são os excessos sangrentos e as divisões das facções populares que trazem o triunfo final da reação e das maîtrises burguesas.

40. Na própria França, desde 1501, as confrarias companheirísticas de maçons e carpinteiros são suspensas por decreto do Parlamento, e um decreto de 10 de março de 1506 proíbe aos Companheiros assembleia, jantar ou banquete sob pena de prisão, mas o companheirismo resiste.

41. Em 1665, o Duque de Orléans, irmão de Luís XIV, é recebido companheiro chapeleiro sob o nome de Intrépido o Guépin, devendo responder às perguntas rituais, recebendo a palavra de guarda para a corporação e conformando-se em tudo ao dever da associação.

42. O companheiro buscou em organizações rivais da corporação garantias e meios de defesa, e é no último século da Idade Média que começam a se multiplicar as associações de companheirismo, as Bruderschaften na Alemanha, cobrindo-se pelo segredo ou pela observação de ritos misteriosos.

43. Esses sindicatos operários quebram o quadro estreito da cidade, estendem-se a regiões e países inteiros, concluem entre si tratados de aliança e reciprocidade, organizam viagens de cidade em cidade e de país em país, tours de France e tours d'Allemagne, estes durando até cinco anos, com suas festas, banquetes e reuniões secretas, como as dos operários da construção, os livres maçons, com iniciações, juramentos e meios de correspondência.

44. É a primeira Internacional operária, que coexiste com outros agrupamentos, as confrarias, cujo objeto é sobretudo religioso, mas cujo quadro serve igualmente aos companheiros para organizar entendimento e defesa apesar das desconfianças e interdições prodigalizadas pela Igreja e pelos poderes públicos.

45. A Assembleia Constituinte tenta em vão suprimir as sociedades companheirísticas que resistiram à ab-rogação das corporações e ofícios, e o companheirismo retoma com o romantismo operário do século XIX um prestígio que, na sequência do Companheiro do Tour de France de George Sand, o faz entrar na literatura.

46. O segredo dos ritos do companheirismo, em razão mesma da perseguição e da desconfiança dos poderes públicos, foi bem mais absoluto que nas guildas ou corporações oficiais, sendo regra comum a todos os deveres, nome tradicional da associação companheirística num ofício dado e segundo um rito dado, que em tal dia do ano todos os papéis serão queimados e as cinzas misturadas ao vinho que será bebido à roda, completando a outra regra de que os segredos do companheirismo não podem ser postos por escrito, e arquivos com muito poucos documentos só aparecem após a Revolução Francesa.

47. Para voltar à lembrança dos Templários, nota-se que todo um grupo de deveres companheirísticos, o dos Companheiros do Dever, chama-se também Companheiros ou Filhos de Mestre Jacques, sendo o padroeiro assim designado o Grão-Mestre supliciado da Ordem do Templo.

48. Os Templários, segundo a tradição em honra nesses agrupamentos, haviam sido, como construtores de Templos e castelos-fortes tanto no Oriente quanto no Ocidente, em relações cordiais de iniciados a iniciados com as associações viajantes de construtores, enquanto um outro grupo de deveres, tendo guardado relações mais calorosas com a Igreja, intitula-se os filhos de Soubise.

49. Enfim, os membros de um terceiro grupo de deveres, pretendendo ater-se à verdadeira tradição dos mistérios corporativos antigos, chamam-se Companheiros estrangeiros do Dever de Liberdade, do rito de Salomão.

50. Não só essas federações, que na França parecem ter conservado mais autenticamente os ritos corporativos antigos e mesmo o que resta dos mistérios antigos propriamente ditos que as maîtrises e ofícios jurés, foram olhadas com desconfiança pelos poderes públicos e sempre suspeitas de ações subversivas, mas sobretudo no meio-dia seu espírito combativo deu por vezes lugar, entre deveres de rito diferente, a longos conflitos e mesmo a verdadeiras batalhas campais, como a mortífera batalha da Crau em 1730 entre Devoirants e Gavots.

51. Os Companheiros cortadores de pedra acrescentam a seu apelido companheirístico o nome de sua primeira cayenne ou de sua cidade natal, costume que se transmitiu da Idade Média até nossos dias, tendo os companheiros três graus de iniciação, jovem homem, aprendiz aspirante, companheiro e primeiro companheiro ou mestre para os cortadores de pedra.

52. Desde 1874 existe uma Federação Companheirística, que em 1899 tomou o nome de União Companheirística.

53. Muito comovente é a menção, numa revista companheirística, do encontro numa cervejaria, durante a ocupação do Ruhr, entre companheiros franceses e companheiros alemães, que os primeiros reconhecem por sua maneira de se cumprimentar.

54. Reencontrar-se-á mais adiante o motivo ou complexo dinâmico da Vingança dos Templários.

55. O outro exemplo de Sociedade que parte também do princípio de uma comunidade cujos membros, ligados pela obediência e pelo segredo, são recrutados e triados como outrora os noviços da Sociedade pitagórica, na sequência de uma longa preparação espiritual e intelectual, é a Companhia de Jesus, ou ordem dos Jesuítas, fundada por Inácio de Loyola em Montmartre em 15 de agosto de 1534 e confirmada em Roma em 1540 pelo papa Paulo III.

56. Sabe-se por que vicissitudes passou essa associação religiosa, estabelecida desde o início sobre um modelo não monástico mas político, científico e militar, sendo seu Superior ou Papa negro ainda chamado o Geral dos Jesuítas, expulsos alternadamente dos países onde sua influência fora mais forte, de Portugal em 1759, da França em 1762 e depois em 1880, suprimidos completamente em 1773 por Clemente XIV, restabelecidos por Pio VII em 1814, tendo sempre emergido das tempestades e perseguições e constituindo ainda atualmente uma formidável potência a um tempo política e intelectual, oculta por seus meios se não por seu fim.

57. A leitura das Constituições de Santo Inácio e dos regulamentos internos que governam a ordem é das mais instrutivas, encontrando-se nelas o documento mais profundo de organização político-mística que existiu desde as regras, de que só se conhecem fragmentos, da Sociedade crotoniata.

58. É possível aliás que sua lembrança tenha inspirado Santo Inácio, como havia outrora influenciado as associações ascéticas dos terapeutas do Egito, os Essênios e seus sucessores imediatos, os primeiros monges da Tebaida.

59. O paralelo com os Templários foi feito muitas vezes, como também com uma outra Sociedade Secreta de base não religiosa mas iniciatória, de que se vai tratar agora, a Franco-Maçonaria.

60. Trata-se da Franco-Maçonaria especulativa ou política, fundada em Londres no começo do século XVIII por um grupo compreendendo maçons honorários, accepted masons, filiados às lojas maçônicas operativas de que se tratou no capítulo precedente, e sábios interessados no complexo de ideias e tendências agitadas desde cerca de cem anos no continente e na própria Inglaterra pelos adeptos da fraternidade misteriosa dos Rosa-Cruz.

61. O costume de eleger membros de honra existia já na antiguidade para as sociedades secretas constituídas pelos filiados aos mistérios propriamente ditos, havendo a prova de que, principalmente na época imperial, foi moda para os imperadores e outros grandes personagens serem iniciados nos graus superiores dos ritos de Eleusis por ocasião de suas viagens à Grécia.

62. É provável que esse costume existisse também, se não para a Sociedade pitagórica primitiva, ao menos para as confrarias neopitagóricas cujo sucesso se viu nos primeiros séculos da era cristã, encontrando-se em todo caso para os colégios de artesãos, por exemplo os de mestres arquitetos e maçons, que, como o leitor pôde constatar, emprestaram todo ou parte de seus ritos às confrarias iniciatórias religiosas e devem ter sido especialmente influenciados pela ideologia e pelo simbolismo geométrico e técnico das lojas neopitagóricas, cujo Deus era o technites theos, artesão e artista por excelência, de Nicômaco de Gerasa.

63. Os patronos honorários, patroni, são mencionados na inscrição relativa à constituição do colégio dos barqueiros de Óstia no ano 152 d.C., havendo a mesma prova para os colégios funerários, em que os patronos se chamavam pater ou mater, e para as confrarias religiosas propriamente ditas, ou sodalitates romanas organizadas para um culto especial, como a dos Irmãos Arvais, cujas atas foram decifradas nas paredes de um pequeno templo secreto no bosque sagrado da misteriosa Dea Dio.

64. As festas e o ritual desempenhavam grande papel na vida interna dos colégios técnicos, e sabe-se pelo texto de Plutarco relativo às corporações que cada uma delas tinha as assembleias, festas e cerimônias que lhe convinham, sendo a similitude dos ritos para as confrarias puramente religiosas ou iniciatórias e os colégios técnicos confirmada pelo nome de irmãos que se dão entre si os membros da confraria ou do colégio, pelo de Magister reservado ao presidente eleito e em geral pela identidade das denominações dos dignitários correspondentes.

65. Para voltar aos patronos honorários, viu-se mais tarde os imperadores da Alemanha, como Maximiliano, serem recebidos companheiros e mestres honorários, Briefmarrer, da Bauhütte, e o irmão de Luís XIV não desdenhar filiar-se à cayenne dos companheiros chapeleiros do dever de Mestre Jacques.

66. Mas é sobretudo na Inglaterra que, a partir do século XVI, grandes senhores curiosos e intelectuais buscaram sua admissão como free and accepted masons, companheiros ou mestres honorários, nas lojas operativas, mencionando o livro de protocolos, mantido em dia desde 1598, da loja Mary's Chapel de Edimburgo que em 8 de junho de 1600 John Boswell of Auchinleck é recebido como non operative brother, e mais tarde os lordes Eglinton e Cassilis.

67. Em 1618 o conde de Pembroke é mesmo presidente de uma loja, e em 1663 o conde de Saint-Albans é eleito grão-mestre honorário da loja de Saint-Paul com Sir Christopher Wren, que será o arquiteto do novo Saint-Paul, como primeiro vigilante, querendo a tradição dessa loja que Charles II tenha tomado parte em suas reuniões sob o nome de Brother Rowley.

68. É certo que o amigo real de Christopher Wren se serviu da trolha deste último, tornado Grão-Mestre da loja, ao lançar em 1675 a primeira pedra da nova catedral, existindo ainda a trolha, assim como dois castiçais de prata dados por Christopher Wren, no tesouro da loja, que se chamou sucessivamente the old Lodge of Saint-Paul, the Goose and Gridiron, nome que portava em 1717, do nome da taverna que abrigava suas reuniões, depois, tornada loja especulativa, the Queen's Arms, e enfim desde 1768 Antiquity.

69. Na data de 16 de outubro de 1646 encontra-se no diário de Elias Ashmole, célebre humanista, sábio e Rosa-Cruz, fundador da Ashmolean Library, a menção de que foi feito Free Mason em Warrington.

70. A ideia da criação de uma Sociedade de Filósofos dedicando-se em toda tranquilidade de espírito ao estudo das ciências era um projeto longamente acalentado, e viu-se em 1646 Ashmole e em 1682 a admissão de gentis-homens em lojas maçônicas, sendo o movimento preparado pela ideologia rosacruciana.

71. A tradição atribui a Robert Fludd, Elias Ashmole e outros rosacruzes ingleses, que em sua maior parte faziam parte das lojas maçônicas operativas de Londres ou da Escócia como membros honorários, free and accepted masons, a decisão de, mantendo os ritos, símbolos e denominações dessas lojas, e mesmo seus locais de reunião, que em Londres eram no começo do século XVIII tavernas, suprimir completamente seu objetivo teoricamente ainda profissional para guardar apenas o caráter social, filosófico e especulativo que dele se tornara a mola.

72. A ideia de construção permanece, mas os construtores de templos tornam-se construtores de sistemas no plano social.

73. Foi assim que em 24 de junho de 1717 foi fundada a Grande Loja da Inglaterra, reunindo sob sua suserania as quatro principais lojas operativas de Londres, marcando essa data o começo da franco-maçonaria especulativa, o que se chama desde então simplesmente franco-maçonaria.

74. Nota-se que a festa de São João foi escolhida como data dessa refundição ou transformação da Franco-Maçonaria operativa em Franco-Maçonaria especulativa.

75. O primeiro Grão-Mestre foi Antoine Sayer, e em 1723 o reverendo John Anderson, que como maçom aceito das antigas lojas operativas estudara especialmente em seus arquivos tudo o que se relacionava com suas tradições e foi um dos iniciadores da transformação, redigiu as Constituições Maçônicas destinadas a servir de código ritual às lojas que, à imitação dessa Grande Loja de Londres, que tomou o duque de Wharton como Grão-Mestre em 1723, foram sucessivamente fundadas um pouco por toda parte.

76. A antiga loja de York erigira-se em loja especulativa autônoma em 1721, a primeira loja francesa foi estabelecida em 1725 em Paris por Lord Derwentwater, jacobita exilado, no Louis d'Argent, rue de la Boucherie, na Alemanha a primeira loja foi a de Hamburgo em 1733, nos Estados Unidos a de Boston em 1730, nas Índias a de Calcutá em 1730, sendo as datas de estabelecimento de filiais da Grande Loja de Londres 1732 para a França, 1735 para a Holanda, 1740 para a Suíça, 1763 para a Itália, e existindo já em 1766 quatrocentas e oitenta lojas.

77. Elas não se contentavam mais com o lado puramente social e cerimonial de seu ritual, mas, conformemente ao programa das sociedades ocultas de pesquisadores e reformadores sonhadas por Francis Bacon, Michel Meier, Jean-Amos Comenius, Robert Fludd, cujo plano inicial estava agora completamente realizado, desenvolveram logo tendências não só filosóficas mas políticas atuantes.

78. A tradição do segredo absoluto e a da entreajuda entre irmãos franco-maçons em toda circunstância, herdadas também das lojas operativas, conferir-lhes-ão nesse novo campo de atividade uma muito grande potência de ação.

79. Muito rapidamente também os poderes públicos e sobretudo a Igreja se inquietam, e nos países católicos se castiga a franco-maçonaria, expressão que doravante designa apenas a franco-maçonaria especulativa ou política, desaparecendo as lojas operativas, desertadas por seus patronos e mesmo pelos arquitetos em favor das lojas filosóficas, ou entrando completamente na sombra.

80. Assim como no século XIII, bem antes do golpe de força de Filipe o Belo, um papa promulgará a bula De Insolentia Templariorum, antes que Luís XV desse a ordem de suprimir a loja de Paris, o papa Clemente XII em 1738 lança o anátema contra a franco-maçonaria e manda queimar em 1739 a apologia da maçonaria publicada em Dublin, repetindo Bento XIV o anátema em 1751.

81. Pois a Sociedade que acaba de se constituir ou reconstituir é bem desta vez a sociedade política, a grande heteria baseada no segredo, acima das leis humanas, fora da única lei religiosa que Roma admite.

82. Agrippa de Nettesheim chamara o Criador o eterno Mestre de Obra, e os franco-maçons veneram o Grande Arquiteto do Universo, e esse grande arquiteto está mais próximo do Deus de Pitágoras e de Platão que do da Igreja romana.

83. Transmitidos pela Cabala, pela Alquimia e pela Rosa-Cruz, o inexprimível Tetragrammaton e outras palavras de poder aparecem nas lojas sobre os diplomas e insígnias dos irmãos do novo pacto, e no simbolismo das provas de admissão herdadas pelos cortadores de pedra da Idade Média dos collegia antigos vive sempre o das cerimônias iniciatórias que os inspiraram.

84. Nos novos antros de filosofia é a voz do hierokeryx de Eleusis que, por sobre as idades, previne o novo myste da dureza das provas e das penas terríveis que esperam aquele que trair o segredo jurado, e são a gruta de Metaponto, a caverna simbólica de Platão, a sala subterrânea de Maât, talvez também a grande cripta do santuário imemorial dos montes de malaquita, que reaparecem na própria loja onde se reúnem os irmãos, e é enfim o eterno pentagrama pitagórico, mediterrâneo, que, tornado a estrela flamígera, já presente nos atos das últimas lojas operativas inglesas do século XVII, toma o lugar de honra na maioria dos documentos franco-maçônicos propriamente ditos do século XVIII e fulgura, acima do trono do mestre da loja ou do altar, com sempre em seu centro o enigmático G.

85. Apesar do austero simbolismo técnico e geométrico dos acessórios, compasso, esquadro, triângulo, fio de prumo, colunas, pedra cúbica, a Igreja julgou reconhecer o velho inimigo, e se os maçons declaram venerar no G misterioso a primeira letra da palavra Geometria, Roma nele leu a inicial da Gnose.

86. A franco-maçonaria, aliás, recolhe a luva, e sabe-se o papel que desempenhou na preparação da Revolução Francesa.

87. Já num panfleto antimaçônico de 1747, Les Francs-Maçons écrasés, atribuem-se como tendências aos franco-maçons as ideias subversivas de Liberdade, Igualdade e Fraternidade, e num inteligente opúsculo de 1744, La Franc-Maçonne, escrito por uma mulher, seu ideal é apresentado como sendo uma república universal democrática com a Razão como Rainha e a Assembleia dos Sábios como supremo conselho.

88. Em 22 de outubro de 1773, ano da expulsão dos Jesuítas, é fundado o Grande Oriente da França, cujas palavras de ordem são precisamente Liberdade e Igualdade, tendo essa loja grande participação na redação da Declaração dos Direitos do Homem.

89. O astrônomo Lalande, Benjamin Franklin, primeiro enviado dos Estados Unidos à França, e La Fayette fizeram parte da loja Les Neuf Sœurs, mas a loja mais influente durante a própria Revolução foi a dos Amis Réunis.

90. É curioso constatar que uma das componentes ideológicas dessa ação antimonárquica da Franco-Maçonaria francesa foi o espírito de revanche contra os Capetíngios e a Papado, para vingar a dissolução dos Templários e o suplício do Grão-Mestre Jacques de Molay, tendo aliás um dos altos graus do rito escocês ainda como programa de ação a vingança contra os sucessores do Rei e do Papa.

91. Por uma estranha coincidência, é na torre do Templo, último vestígio da residência francesa de Jacques de Molay, que Luís XVI e Maria Antonieta serão encarcerados antes de subir ao cadafalso.

92. As primeiras lojas especulativas inglesas, a Grande Loja da Inglaterra e suas filiais, e alemãs tiveram primeiro apenas três graus, e esses três primeiros graus, entered apprentice mason, fellow-craft mason ou companheiro, e master, constituem a maçonaria joanita clássica, que descende integralmente das lojas de construtores.

93. Estas possuíam igualmente, como se viu, os três graus de aprendiz, companheiro e mestre, e a designação de maçonaria joanita decorre evidentemente do papel misterioso do apóstolo São João e de São João Batista nas tradições das corporações e especialmente da maçonaria operativa.

94. O dia 24 de junho, festa de São João, era o dia ritual de inauguração das conferências e congressos da Bauhütte, sendo aliás também o dia reservado pelos Templários para as cerimônias mais importantes da Ordem, de que São João era o padroeiro.

95. Menciona-se aqui o misterioso reino do Preste João das crônicas da Idade Média e a persistência nos países germânicos do antigo rito do fogo associado à festa de São João, solstício de verão.

96. É igualmente o dia de São João que foi fundada em 1717 a Grande Loja da Inglaterra, e sobre o altar dos templos maçônicos figura muitas vezes o Evangelho segundo São João.

97. Para completar o esboço do papel da Franco-Maçonaria na história, nota-se que ele foi muito importante no século XIX, tendo a ação política da nova Fraternidade, baseada no segredo, na entreajuda e na obediência absoluta a chefes por vezes desconhecidos, tornada acima dos Estados uma força de caráter radicalmente internacional, sido paradoxalmente uma formidável mola na luta das nacionalidades enquanto libertação e reconstituição das nacionalidades oprimidas, com o carbonarismo e o garibaldismo, sendo essa a período romântico da franco-maçonaria.

98. Na França sua atividade política desenrola-se quase à luz do dia desde a ascensão da Terceira República, a luta contra Roma toma tom muito ácido, e o Grande Oriente, de livre-pensador e deísta, torna-se violentamente anticlerical e, quase por descuido, ateu.

99. Também, embaraçado pelo Grande Arquiteto do Universo, suprime na França a menção dele em seus diplomas e documentos.

100. É a período naturalista, utilitária e homaisrica do fim do século XIX, que será marcada pelas leis contra as congregações e, incidentemente, uma vez mais, pela expulsão dos Jesuítas.

101. Os tratados concluídos na sequência da grande guerra consagraram a um tempo o triunfo do princípio das nacionalidades, tal como o desejava a Franco-Maçonaria romântica, e a fundação de um organismo verdadeiramente internacional, a Sociedade das Nações, evocando, guardadas as proporções, a Assembleia e o Colégio dos Sábios com que sonhava o cosmopolitismo dos Rosa-Cruz e dos Franco-Maçons dos séculos XVII e XVIII.

102. Resulta daí uma espécie de distensão, de introspecção e de reagrupamento das ideias e dos objetivos, e mesmo na França a atmosfera utilitária, terrestre, para não dizer terra-a-terra, que emanava das lojas, se colora do que se chama o renouveau iniciatório da franco-maçonaria.

103. Um sopro novo passa, ou antes um sopro muito antigo, e os ritos, os símbolos, um pouco enrugados e laicizados, são de novo perscrutados, e as palavras de passe lentamente soletradas, que vêm de tão longe.

104. Esse Grande Arquiteto do Universo, fórmula poeirenta, alegoria laica pedante, tem a poeira apagada e deixa reaparecer o Grande Geômetra, o Grande Ordenador de Pitágoras e de Platão.

105. O esquadro, símbolo laico ou ângulo de equidade e de verdade, no qual Maât reconhecia o justo na sala do Julgamento, a acácia, a de Hiram ou a de Osíris, e a estrela flamígera, há muito reconhecida.

106. Não se tem a pretensão de ter feito mais neste capítulo que balizar sumariamente certas pistas importantes, mas o que desde já se poderá considerar como adquirido é que essa Fraternidade universal moderna, dispondo de uma influência política cuja potência mesmo os profanos podem medir, liga-se por uma filiação bizarra, série de enxertos, estacas e transmissões de símbolos, aparecendo em seu ritual, sua técnica do segredo e sua ideologia geométrica, através das guildas de construtores da Idade Média, dos colégios de artesãos, das confrarias religiosas e dos agrupamentos iniciatórios da antiguidade, à outra grande Sociedade política que se viu perecer no incêndio de Metaponto.

107. A fênix resistiu à prova do fogo.

esoterismo/ghyka/1931/9.txt · Last modified: by 127.0.0.1