1 Doutrina das Correspondências
HANEGRAAFF, Wouter J. Swedenborg, Oetinger, Kant: Three Perspectives on The Secrets of Heaven. West Chester: Swedenborg Foundation Publishers, 2007.
Uma Chave para os Segredos: a Doutrina das Correspondências de Swedenborg
1. A compreensão dos “Segredos do Céu” exige examinar a doutrina das correspondências, apresentada pela primeira vez não numa obra revelada, mas na “Chave Hieroglífica dos Arcanos Naturais e Espirituais por meio de Representações e Correspondências”, escrito técnico de 1741 ou 1742, anterior à crise religiosa, que, ao tratar das correspondências entre segredos naturais e espirituais, constitui verdadeira chave para os “Arcana Coelestia” e revela a continuidade entre suas últimas obras científicas e a primeira visionária.
2. A “Chave Hieroglífica” não é doutrina mística fundada em revelação suprarracional, mas produto de argumentação racionalista de base matemática, nascida do dilema de Swedenborg diante do reducionismo materialista, que reduziria Deus e a alma a forças mecânicas cegas, e das saídas igualmente inaceitáveis do salto irracional de fé ou do idealismo platônico, que reduziria a realidade material a sombras ilusórias das ideias divinas.
3. A obra, de árido formalismo, estabelece que o conatus, força motriz da natureza que causa o movimento, corresponde no plano psicológico à vontade, que causa a ação, e no plano teológico à providência, raiz da operação divina, configurando três níveis correspondentes de significado.
4. Swedenborg desenvolve sistematicamente essa ideia em vinte exemplos de proposições triplas seguidas de explicações, provas e regras, como o de que não há movimento sem conatus mas pode haver conatus sem movimento, sob pena de destruição do equilíbrio do mundo, assim como há vontade sem ação graças aos freios que moderam os impulsos e há providência divina inoperante diante dos que resistem à graça, para preservar o livre-arbítrio essencial à moralidade.
5. A “Chave Hieroglífica” prefigura várias ideias fundamentais da visão religiosa madura de Swedenborg, apresentadas ali como inferências lógicas numa obra de filosofia racionalista técnica anterior à revelação.
6. Nenhum dos três níveis pode ou deve ser reduzido a outro, não sendo a providência a essência oculta da vontade nem a providência uma forma de conatus.
7. O exemplo de uma sinfonia de Brahms ilustra essa ideia, pois um físico de outro planeta poderia descrever exaustivamente suas frequências sem captar a música que os ouvintes escutam nem sua mensagem emocional, ao passo que os musicólogos, além de fruí-la, perceberiam padrões e conexões ignorados pelos demais ouvintes e só indiretamente inferíveis pelo físico.
8. Brahms acreditava ser canal da inspiração divina, crença que alguns ouvintes aceitam e outros recusam sem que nenhum possa provar sua posição, mas, ao menos para alguns, a sinfonia possui um nível religioso ou divino de significado além do humano e do físico.
9. Coloca-se então a questão de saber em que medida o estudo de um nível permite conhecer outro.
10. O estudo das frequências não aproxima da compreensão dos níveis superiores, pois, embora sem elas não houvesse música, como sem corpo não há humanidade, o conhecimento físico é irrelevante para ouvintes e musicólogos.
11. A audição ou o estudo musicológico da sinfonia não aproxima do nível inferior das frequências, conhecimento de resto irrelevante para o ouvinte.
12. A audição da música pode, pela primeira e única vez, aproximar do nível superior, a mensagem divina, embora o meio musical destinado a transmiti-la não seja a própria mensagem.
13. O acesso ao nível divino nada ensina sobre os níveis inferiores, pois a revelação divina ensina sobre o divino e não sobre a humanidade exterior ou as realidades materiais.
14. A primeira conclusão é que o estudo das realidades físicas nada contribui para a compreensão das humanas ou divinas, o que explica por que Swedenborg abandonou a ciência física após desenvolver a doutrina das correspondências, passando a concentrar-se apenas nos níveis externo e interno, este mundo e o outro, entendendo por mundo externo o mundo da vida humana.
15. A segunda conclusão é que um mesmo fenômeno pode ter três níveis de significado correspondentes, mas discretos, autônomos e irredutíveis, de modo que seria absurdo buscar o sentido da melodia no gráfico de frequências ou o sentido do gráfico na melodia, princípio formulado na “Chave Hieroglífica”.
16. A matéria principal deve ser expressa não por termos idênticos, mas por termos próprios a cada classe e que à primeira vista não parecem significar o mesmo, pois não se compreende de imediato que a vontade corresponde ao conatus e a providência à vontade, ou que a mente racional corresponde à natureza e Deus à mente racional.
17. Vontade e conatus significam ou representam a providência não por terem o mesmo sentido, já que a providência só existe em seu nível próprio, o divino, mas por corresponderem, nos níveis humano e físico, ao que no nível divino é a providência, sem que nenhum se reduza a outro.
18. A terceira conclusão é que o nível humano intermediário é o único cujo estudo permite conhecer, por analogia, outro nível, o divino, fornecendo a base teórica dos “Segredos do Céu”, fundados na experiência visionária direta e na exegese bíblica, pois a correspondência entre o sentido humano e o divino dos termos permite supor que o sentido exterior das Escrituras encerra um sentido interior oculto a ser decifrado, cuja chave, porém, só pode ser revelada pelo contato direto com o nível divino, como a graça necessária para ouvir a mensagem divina da sinfonia.
19. A doutrina das correspondências avançou muito na busca de uma alternativa ao reducionismo materialista e ao idealismo platônico, mas não resolveu inteiramente o problema do estatuto ontológico dos três reinos, acabando Swedenborg por admitir, de modo ambíguo e relutante, uma hierarquia de tipo platônico em que os exemplares estão no mundo espiritual, as imagens e tipos no reino da alma e os simulacros na natureza, o que explica seu abandono relutante da natureza física em favor de uma distinção entre o mundo espiritual dos exemplares e um mundo humano autônomo mas secundário.
20. A doutrina das correspondências atraía Swedenborg não por unir mente e natureza, mas por resolver o dilema cartesiano, permitindo-lhe manter a distinção entre espírito e natureza, ver o espírito como causa ativa e a natureza como substância passiva sem recorrer a mecanismos de causalidade instrumental.
21. Essa análise, válida para o projeto científico original de esclarecer a relação entre alma e corpo, resolvido na “Chave Hieroglífica” por uma correspondência em vez de influência causal, deve ser completada pela constatação de que a distinção de três níveis ultrapassa o dualismo cartesiano e abre novos problemas sobre a relação entre o humano e o divino, de modo que, embora persista um quadro cartesiano na afirmação de que a natureza está morta, os “Segredos do Céu” deslocam a atenção para os níveis humano e divino, também relacionados por correspondência e não por causalidade.
