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esoterismo:hanegraaff:2012:1

1 História da verdade

HANEGRAAFF, Wouter J. Esotericism and the Academy: Rejected Knowledge in Western Culture. Cambridge: Cambridge University Press, 2012.

1. A história do pensamento humano surgiu como objeto de fascínio entre os humanistas italianos do século XV, nascendo com ela a historiografia do esoterismo ocidental, pois a recuperação das fontes da Antiguidade clássica obrigou os pensadores cristãos a repensar a relação entre razão humana e revelação divina e a traçar suas origens históricas, numa época em que, sem ideal de neutralidade crítica, essa história assumia a forma de uma história da verdade destinada a demonstrar as fontes da verdadeira sabedoria e sua concordância com a doutrina cristã, projeto conhecido como prisca theologia ou philosophia perennis.

2. A ideia de uma história da verdade metafísica, aparentemente contraditória para a consciência histórica secular moderna, não o era para os humanistas renascentistas, que tomavam as verdades reveladas como fundamento evidente da investigação, de modo que, embora tenham dado os primeiros passos rumo à história da filosofia como disciplina autônoma e ao estudo comparado das religiões antigas, seu projeto era essencialmente doutrinal e teológico, uma forma de teologia apologética cristã cujo vigor e urgência religiosa derivavam do desafio intelectual da literatura pagã recém-descoberta.

3. Esse projeto renascentista gerou uma poderosa grande narrativa que desafiou as perspectivas tradicionais sobre a relação entre filosofia e teologia, razão e revelação, permanecendo influente no pensamento católico até seu declínio diante do discurso antiapologético protestante do século XVII, sobrevivendo após a vitória deste no século XVIII como contracorrente difundida mas oficialmente desacreditada, aceita pela maioria dos autores e praticantes associados ao esoterismo ocidental e influente até mesmo sobre os principais estudiosos modernos do campo, o que suscita a questão decisiva de saber se estes foram atraídos pela narrativa da sabedoria antiga apesar de sua incompatibilidade com a cultura acadêmica pós-iluminista ou precisamente por causa dela.

4. A história das batalhas apologéticas e polêmicas em torno da sabedoria dos pagãos, com vencedores e vencidos, mas sem vitória definitiva, reflete a cada passo os processos de secularização e modernização e, mais ainda, o confronto entre apologistas da sabedoria antiga e seus inimigos antiapologéticos moldou o surgimento da modernidade numa medida raramente reconhecida.

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