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Jean-Pierre Fussler

FUSSLER, Jean-Pierre. Les idées éthiques, sociales et politiques de Paracelse (1493–1541) et leur fondement. Presses Universitaires de Strasbourg, 1986

Introdução

  1. Paracelso foi longamente ignorado pelos historiadores da filosofia por razões profundas e não apenas circunstanciais, tendo sido visto apenas como um médico célebre ou original do início do século XVI, sem que se reconhecesse a relação essencial entre sua medicina e uma complexa filosofia da natureza, e, embora hoje seja mais conhecido, sua obra teológico-política ainda é pouco estudada sob o aspecto da filosofia política que desenvolve, apesar do considerável trabalho de edição de Kurt Goldammer e de publicações anteriores que reúnem textos representativos desse aspecto de sua obra, escritos essencialmente entre 1528 e 1538.
  1. Uma interpretação do saltério de Davi constitui o escrito mais volumoso desse conjunto, mas tais textos não são mencionados na França em obras sobre história da filosofia política ou das ideias políticas, nem sobre doutrinas políticas alemãs e sua história, e não se encontram sequer no livro de referência de Pierre Mesnard sobre o desenvolvimento da filosofia política no século XVI.
  1. O trabalho em questão pretende contribuir para atrair a atenção sobre textos não apenas interessantes mas essenciais para a história da filosofia política e, ao mesmo tempo, ampliar a representação que se pode fazer da obra de Paracelso, que propõe não somente uma nova visão da natureza mas também uma abordagem radicalmente original da realidade social e política.
  1. Torna-se necessário interrogar por que esses textos foram negligenciados, pois explicações baseadas na língua ou em preconceitos provincialistas seriam ingênuas, já que na França se estudaram outras obras com dificuldades de acesso análogas, como a obra política de Lutero, os anabatistas e Thomas Müntzer, cuja obra suscitou um número impressionante de estudos, o que se deve ao interesse em encontrar nesses autores elementos originários da modernidade e novos em relação a uma tradição, tornados bem comum da filosofia e da política ocidentais sob forma dominante ou dominada, independentemente das paixões que opõem defensores e detratores de Lutero ou estudiosos de Müntzer.
  1. Tudo se passa como se fossem valorizados os aspectos do passado que o presente retém em função de seus problemas, seja para saber se Lutero lançou as bases de um luteranismo político conducente a uma exaltação perigosa da autoridade, seja para justificar uma crítica das Igrejas oficiais estudando a história e as doutrinas dos diversos anabatistas, seja para dar à revolução que os democratas radicais encontraram para a Alemanha, a Guerra dos Camponeses, um chefe político de certa estatura, Thomas Müntzer, retendo-se e exaltando-se ou criticando-se em ambos os casos atitudes e ideias políticas que valorizam o Estado nascente ou reconhecem as necessidades implicadas pela essência do político, a saber, um certo recurso à violência.
  1. Em todos os casos reteve-se a exaltação dos sujeitos que reivindicam para si a soberania, isto é, o poder político e o direito absoluto de dirigir as ações dos homens de uma comunidade ou coletividade dadas, podendo tais autores ser facilmente inseridos numa imagem do século XVI na medida em que a chamada Renascença faz do homem o sujeito de sua ação elaborando outro estatuto para a criatura, vendo-se neles, ao lado de Thomas More, Maquiavel e Erasmo, os heróis de um recomeço radical e os instituidores de uma história que quer dar ao homem grande liberdade na determinação dos fins e dos meios, mesmo que isso valha, como em Lutero, apenas na ordem profana e para os príncipes.
  1. A tentação é grande de inscrever Paracelso nessa história, embora se saliente que ele não teve a influência dos espíritos mencionados, podendo-se encontrar em seus textos éticos e políticos ideias e teses que se pensa reconhecer sem risco de erro, donde nasceram diversas interpretações que contêm verdades parciais ao menos em primeira aproximação, como a de Menrad que em 1902 salientou aspectos socialistas de certos escritos, a de Kurt Goldammer que afirma que o pensamento social de Paracelso se caracteriza ao mesmo tempo pelo utopismo e pelo arcaísmo e vê nele essencialmente um teólogo cujas teses sociopolíticas beiram por vezes o anarquismo, a de J.-F. Marquet que o considera um utopista que clama por um império totalitário anunciando Fichte, a de Hartmut Rudolph que insiste sobretudo na crítica da Igreja, no humanismo e no milenarismo, e a de Ernst Kaiser que interpreta a divisa de Paracelso num sentido individualista conforme o que se pensa ser o espírito da Renascença.
  1. Tais categorias correm o risco de fixar a visão que se pode ter de Teofrasto von Hohenheim, pois, extrapolando a partir de certos aspectos de sua obra ético-social e política, desconhece-se a unidade da visão de que procedem as ideias que constituem essa obra e corre-se o risco de desconhecê-lo como filósofo, perspectiva que se quer criticar e que é expressa nitidamente por uma frase demasiadamente citada do grande historiador Leopold von Ranke segundo a qual as inspirações de Müntzer, as tentativas socialistas dos anabatistas e as teorias de Paracelso corresponderiam perfeitamente umas às outras e, reunidas, teriam transformado o mundo.
  1. Busca-se, portanto, colocar maior ênfase no que separa todos esses pensadores e mostrar que essa correspondência suposta é extremamente problemática, pois as teorias de Paracelso comportam um aspecto ético-social e político próprio e irredutível, e, se correspondência há em certos pontos, ela não deve mascarar as diferenças essenciais.
  1. Pretende-se contribuir para afinar a concepção que se pode fazer da filosofia política alemã do século XVI e, mais precisamente, tentando restituir a unidade das visões e concepções ético-sociais e políticas do filósofo, buscar-se-á construir a alternativa filosófica em que se inscreve sua obra em relação ao espírito do tempo, pois se está demasiadamente inclinado a ver nessa época nas Alemanhas apenas as oposições que o presente julgou pertinentes ou que desempenharam um papel histórico direto, quando o que aparece como historicamente mais importante não é necessariamente, do ponto de vista filosófico, o mais significativo.
  1. Se se pode falar de Renascença é na medida em que a época, sobretudo a primeira metade do século XVI, constitui um momento privilegiado em que possíveis filosóficos pertinentes para quem se interessa pela filosofia política se atualizam por ocasião da conjunção de processos e eventos que transtornam esse tempo e as Alemanhas em particular, como a constituição de Estados soberanos, o nascimento do capitalismo, a afirmação do individualismo, as Reformas e a guerra dos camponeses, e nesse contexto Paracelso parece abrir novos caminhos que permaneceram ignorados devido ao caráter intempestivo de sua visão social e política, situada para além do idealismo e do realismo.
  1. Trata-se de mostrar que a leitura dos textos de Teofrasto von Hohenheim convida a revisar as representações comumente feitas das origens da filosofia política alemã e da filosofia política em geral, quando se privilegiam Lutero, ou a oposição entre Lutero e Müntzer, ou a antítese entre Erasmo e Lutero, entre Erasmo e Maquiavel, entre este último e Thomas More, pois nesses casos a originalidade de uma reflexão filosófica é desconhecida em proveito dos grandes textos reconhecidos da filosofia política, e o pensamento de Paracelso convida a refletir sobre essa originalidade e a relativizar indiretamente as escolhas operadas pela história e pela história da filosofia posteriores.
  1. Trata-se, pois, de mostrar que a leitura dos textos do autor coloca em presença de um pensamento cuja força ainda não se terminou de experimentar, o que significa que, quando Paracelso se define como um filósofo à maneira alemã, é preciso entender essa palavra em sentido prospectivo, vendo nela a afirmação do desejo de abertura do campo da investigação filosófica concernente à prática ou às práticas humanas, e também no sentido sugerido pela etimologia da palavra deutsch, do povo, pois Paracelso fala voluntariamente a língua deste último para fazer dela aquilo em e pelo qual a originalidade de sua atenção ao presente pode se expressar.
  1. Essa atenção ao presente do mundo humano remete à atenção à natureza, e a fórmula citada convida a tomar como horizonte da investigação a relação entre essas duas escutas cuja unidade constitui uma interpretação do mundo, sendo o propósito esclarecer essa afirmação programática enquanto essa filosofia quer propor certa visão da ética, do social, do político e de suas relações, e inseri-la num pensamento para o qual o sentido da ação é revelado ao homem quando ele se põe à escuta da natureza, pondo em luz a originalidade da visão de Paracelso, originalidade que ele pensa como alemã.
  1. Trata-se, portanto, primeiro de restituir essa palavra apresentando de maneira organizada as ideias ético-sociais e políticas de Paracelso, expressas em obras dispersas que na época não foram impressas mas difundidas sob forma de manuscritos copiados que circularam de modo subterrâneo, pois o filósofo não deixou nem uma suma teológica nem um tratado teológico-político, mas sabe-se que queria dar uma apresentação organizada de toda a sua filosofia, sendo necessário, de certa maneira, tentar fazer-se o alquimista dessa obra, ao menos da filosofia prática que ela propõe, isto é, trazer ao explícito os princípios e fundamentos das ideias éticas e políticas do autor, revelar e até aperfeiçoar sua organização inaparente para deixá-las falar.
  1. Esses textos dizem essencialmente que Paracelso recusa de maneira radical todas as concepções que na época tentam fazer do homem o princípio último da ação, e, afirmando o caráter incondicional, absoluto e transcendente para a liberdade humana dos princípios éticos, recusa a independência e o livre-arbítrio sem freio que o humanismo arrisca sancionar, desenvolvendo por isso mesmo uma concepção unificada da prática subordinada à moral concebida como o conjunto das leis absolutas segundo as quais se deve agir, concepção que denuncia a redução dessa moral às regras da prudência, pois a liberdade não deve ser liberdade de indiferença.
  1. Na ordem social e política, tal princípio conduz Paracelso a afirmar que o homem não pode dispor do homem assim como não pode dispor da natureza, isto é, a recusar e denunciar, desvelando os princípios de que procedem, todos os projetos de domínio das comunidades humanas e todos os projetos de dominação política que se fundam numa filosofia que visa promover e exaltar um sujeito radical e absolutamente livre, individual ou coletivo, não sendo o exercício de um poder que é totalmente recusado, mas sim a afirmação da autonomia real de sua essência e o recurso a um além que justifica essa autonomia demasiado humana e as técnicas de dominação e objetivação dos homens que dela constituem a expressão e os meios.
  1. Há um sentido além do político que determina a essência deste na relação de subordinação absoluta à ética, e o além do poder liberta os homens do subjetivismo em Paracelso, que segue e põe a descoberto e em questão essas tentativas subjetivistas que uma razão puramente instrumental e calculadora, dita pagã pelo autor, justifica e quer pôr em obra, tentativas construídas de Maquiavel a Hobbes e além, passando por Lutero e talvez pela utopia, apesar de todas as diferenças que parecem a priori distinguir esses pensamentos, criticando Paracelso as representações alienantes do poder, jurídicas e religiosas, que os autorizam.
  1. Disso decorre que o catolicismo de Paracelso não é tanto uma posição teológica quanto uma atitude filosófica que vê a liberdade, como M. Braun salientou fortemente a propósito da relação do homem com a natureza, no renúnciamento à vontade de domínio.
  1. Por um estudo diferencial permanente concernente ao que parece pertinente para cada aspecto estudado, tratar-se-á de pôr a descoberto o que eventualmente Paracelso deve a certas obras da época, mas também e sobretudo o que a época lhe deve enquanto filósofo, porque soube designar os limites inaceitáveis dessas obras, limites que a modernidade não soube reconhecer como tais nos fatos mas celebrou como progresso, a saber, a separação da moral e da política como condição de uma abordagem dita científica desta última, a valorização do indivíduo e de sua liberdade que se mede por tudo o que possui ou acapara, o privilégio dado ao desejo como raiz da conduta humana, a constituição de sujeitos soberanos em política como únicos detentores do poder de determinar normas, o egoísmo ou ao menos o utilitarismo que se orgulha de ver o homem tal como é, tendo-se em todos os casos excluído o possível da visão do ser.
  1. Paracelso pressente de algum modo um destino individualista e subjetivista que a Renascença inaugura, estando-se, portanto, em presença de uma visão aguda dos limites do presente e do futuro, e, para além da determinação de certos objetivos que concretizam a crítica dos obstáculos denunciados, como a necessidade de uma reforma da Igreja, da sociedade e do Império, Paracelso quer reintroduzir o sentido do possível no pensamento filosófico em política e mostrar a dimensão necessariamente histórica das condições da coexistência humana para unificar em profundidade natureza e liberdade, ser e dever-ser.
  1. A filosofia da natureza fornece-lhe o princípio ontológico de um pensamento do devir social que vê o ser como envolvendo o possível que se revela numa frutificação imanente e que não o reduz ao dado, e nesse sentido o mundo é o Paraíso para quem está atento a tal desvelamento, sendo o fundamento último da advertência que Paracelso exprime no limiar da modernidade de algum modo uma filosofia da esperança, que não deve ser confundida com as ideias milenaristas apesar de certas analogias quanto às imagens e ao vocabulário empregados, que vê o mundo humano como animado de um movimento de autotransformação que exprime o movimento mesmo da natureza ou que lhe é aparentado, para retomar o vocabulário sugestivo de M. Braun.
  1. A filosofia ética e política de Paracelso repousa sobre sua concepção aberta da natureza na qual todo processo é maturação, sendo a atenção à natureza igualmente essencial para a filosofia prática e conferindo-lhe grande parte de sua originalidade, e Paracelso quer-se filósofo alemão para marcar a importância dessa atenção ou escuta da qual deve proceder a filosofia humana.
  1. Implicado na vida do mundo, o filósofo não deve desviar-se dele, mas nele pressentir a figura das relações interumanas que pode advir sem violência e tornar o homem disponível a essa espera, e, interpretando o mundo, indica o sentido de sua perfeição, existindo uma homologia desse ponto de vista entre a natureza, a sociedade e o homem, mas o filósofo é também aquele que sabe que o princípio dessa homologia é Deus, que sabe que Deus está em toda parte como o espírito está em seu corpo e que o mundo é uma expressão orgânica dele, sabendo ao mesmo tempo que Deus é transcendente em relação ao homem e que o homem deve buscar estar nele, podendo fazê-lo desde que compreenda que a idade de ouro está à sua frente porque está nele.
  1. A cultura é obra a aperfeiçoar como a natureza, e o ser se inscreve nesse descompasso entre o panteísmo e o panenteísmo, na tensão entre o ente e o possível que se resolve no crescimento que é deificação do mundo, processo do qual Deus mesmo é o alquimista, e a abertura dessa filosofia prática deixa entrever a epifania progressiva de um homem restituído à sua vocação, habitando um mundo que, como já foi escrito, envolve o Paraíso.
  1. Tais são os elementos dessa filosofia que o estudo quer explicitar em vista de uma revisão da obra e das origens da própria filosofia alemã em seu aspecto prático, e serão examinados primeiro os princípios essenciais da filosofia política e social de Paracelso e seu fundamento ético, para mostrar em seguida como conduzem a uma crítica aprofundada do direito positivo e do poder político, antes de dar uma vista sintética dos problemas que a organização de uma política cristã deveria permitir resolver mas também coloca, e, por fim, serão apresentados os elementos da antropologia e da filosofia da natureza que autorizam em Teofrasto von Hohenheim a esperança do advento desta última.
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