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folktale:1001:apresentacao:al-rashid

Harun al-Rashid

R. CANSINOS ASSENS, in Libro de las mil y una noches: el de los conocimientos maravillosos y las historias entretenidas, peregrinas … 5 ̇ed ed. Madrid: Aguilar, 1992.

  • Harun al-Rashid ocupa o centro de um zodíaco de anedotas que integram o tesouro de histórias das Mil e uma noites.
    • Descrição física do califa como um árabe sedentário de corpo levemente obeso e rosto largo como a lua cheia do Ramadã.
  • Harun al-Rashid constitui o personagem central do livro, assumindo o papel de noites originalmente atribuídas ao monarca sasânida Schahriar.
  • Os contos inspirados na vida noturna do quinto califa abássida formam o fundo histórico das narrativas imaginárias.
  • A lua de Bagdá estabelece a regra e a medida para as lendas que flutuam em um limbo vago e impreciso.
  • O primeiro contato da obra com a realidade cronológica e controlável ocorre na História do carregador e das jovens.
  • A presença de Harun al-Rashid introduz figuras históricas de existência comprovada e biografias atestadas por suas obras e mortes.
    • Menção à esposa Sobeida, ao vizir Jafar e ao oficial Mesrur.
    • Referência ao satírico Abu Nuwas, comparado a Quevedo, ao filósofo Al-Asmai, ao jurista Abu Yusuf e ao músico Ibrahim al-Mausili.
  • A história penetra nas Mil e uma noites como um grande rio que tinge o mar da fábula com o peso da realidade.
  • A confluência entre as águas do Tigre e do Ganges resulta da obra dos engenhos literários do Islã que unem lendas indianas ao sabor árabe.
  • O livro desvia-se de seu rumo inicial como tratado de moral para tornar-se uma crônica fantasiada do glorioso reinado abássida.
    • Comparação do plano primitivo com obras indianas como Calila e Dimna e o Hitopadesa.
    • Aproveitamento de elementos antigos pelo rapsodo como pedras veneráveis na construção de um novo edifício.
  • As Mil e uma noites configuram-se como um palimpsesto onde a caligrafia árabe sobrepõe-se aos caracteres originais persas.
    • Substituição da escrita zenda ou pehlevi por caracteres ondulantes e serpentinos.
  • A figura salomônica do califa preside a composição da obra e resolve impasses de destinos remotos em relatos fabulosos.
  • Rapsodos árabes fazem Harun intervir em todas as tradições, conferindo-lhes o selo de seu duplo triângulo.
    • Analogia com o comportamento dos talmudistas hebreus em relação a Salomão.
  • A proximidade temporal e espacial do califa confere categoria de história a tudo o que é autorizado sob seu nome no livro.
  • O nome do califa permite distinguir o real do fictício através de uma análise literária do texto confuso.
    • Utilização de materiais comprovados como a História dos abássidas por Ibn Qutaiba.
    • Vinculação dos contos ao período de domínio da dinastia abássida entre os séculos segundo e sétimo da Hégira.
    • Hipótese de que as histórias circulavam oralmente por jograis e cortesãos antes do século décimo.
  • O ato de escrever constitui uma precaução contra a amnésia e uma fixação de rastros que se apagam na memória.
  • Histórias e biografias funcionam como velórios da memória humana.
  • As Mil e uma noites representam o grande mausoléu da raça árabe escrito sobre lápides de sepulcros.
  • A Bagdá do século oitavo da Hégira apresentava um aspecto desolado após as invasões mongóis e turcas.
    • Comparação de Bagdá com as ruínas de Nínive, Troia, Palmira e Jerusalém.
    • Evocação melancólica de séculos de esplendor por rapsodos em cortes de sultões persas como a de Mahmud de Ghazni.
    • Dispersão de sábios e poetas por cortes da Pérsia e do Egito para cobrir a indigência atual com o passado esplêndido.
  • O início da vida escrita do livro ocorre no momento em que o esplendor físico de Bagdá desaparece.
    • Inexistência de ruínas imponentes na Bagdá moderna que recordem a grandeza cesárea.
    • Citação do viajante francês Flandin sobre a ausência de rastros de Harun al-Rashid e Sobeida.
    • Menção ao romancista português Ferreira de Castro sobre a decadência da cidade em sua obra Volta ao Mundo.
    • Referência à elegia niilista de Villaespesa sobre Granada aplicada a Bagdá.
  • A antiga Bagdá permanece viva nas páginas das Mil e uma noites através das aventuras noturnas de seu rei poeta.
  • A glória de Harun al-Rashid torna-se eterna ao ingressar definitivamente no domínio da lenda.
  • O califa é exaltado em versos como o Rei Sol do Islã, cujas aventuras noturnas em Bagdá perfumam a história.
    • Figura comparada a Salomão e a Luís XIV de França.
    • Referência ao peso do reino assegurado por Jafar e ao sangue servido por Mesrur.
    • Caracterização do califa como terno, cruel e colecionador de cabeças, incluindo a de seu amigo Jafar.
  • As Mil e uma noites pertencem integralmente à literatura árabe na forma em que chegaram à atualidade.
  • O povo árabe recriou a tradição estrangeira em suas próprias entranhas, conferindo-lhe os traços de sua raça ardente.
  • A obra constitui a epopeia em prosa de um povo que não possuiu um equivalente a Firdusi para versificá-la.
  • O Alcorão e as Mil e uma noites são as duas grandes criações do gênio árabe que completam a visão dessa raça.
    • O Alcorão representa o religioso e eterno; as Mil e uma noites, o temporal e profano.
  • Ambos os livros assemelham-se pela técnica de mosaico e por funcionarem como enciclopédias de um trabalho coletivo.
    • Analogia entre Maomé, que reuniu tradições hebreias, cristãs e gnósticas, e os compiladores do livro profano.
    • Uso de fontes como a Bíblia e o Talmude para enriquecer as obras.
  • As Mil e uma noites encerram o ciclo das tradições profanas como o último grande livro da imaginação poética humana.
  • O esplendor das Mil e uma noites eclipsa todas as demais obras de fantasia na cultura semítica.
  • A lua funciona como o símbolo da raça semítica, brilhando com um fulgor refletido que hipnotiza e detém as horas.
  • A valorização da noite é um traço comum entre o livro sagrado e o livro profano.
    • Recomendação de Maomé para a leitura noturna e a importância da noite do destino.
    • Alternância entre as noites sagradas do Ramadã e as lunas alegres dos meses profanos.
  • A correspondência entre o Alcorão e as Mil e uma noites manifesta-se na nutrição mútua entre a vida temporal e a eterna.
  • O gênio do povo árabe construiu o palácio do vice-regente de Deus na terra através das Mil e uma noites.
  • A obra é a epopeia racial dos árabes por abrigar seus anais, lendas e o destino imposto por Deus.
    • Comparação com a Ilíada grega e a presença do fado.
  • O fundo histórico-legendário da obra estende-se desde a época pré-islâmica até o fim da dinastia abássida.
  • Histórias específicas do livro elevam-se à dignidade épica nacional com exércitos, amazonas e gestas cavalheirescas.
    • Menção às histórias do rei Omar bin al-Nu'man e de Gharib e Ajib.
    • Comparação com o Livro dos Reis de Firdusi e as obras de Ariosto e Tasso.
  • Elementos de poemas épicos ocidentais encontram-se antecipados na narrativa do rei Omar e de seus filhos.
    • Referência ao Orlando Furioso e à Jerusalém Libertada como ecos das Cruzadas.
  • A guerra e o comércio serviram como formas de comunicação e intercâmbio de ideias entre Oriente e Ocidente.
  • Os árabes atuaram como distribuidores de cultura, permitindo que a Europa recuperasse o conhecimento grego esquecido.
    • Papel de Bagdá e Córdoba como centros culturais superiores a Bizâncio.
    • Introdução do livro Calila e Dimna na Europa através da versão de Ibn al-Muqaffa e das obras de Afonso, o Sábio.
  • As Mil e uma noites resumem o caráter de um povo da mesma forma que o Dom Quixote representa a Espanha.
    • Referência a Dostoiévski sobre a apresentação de uma obra literária como justificativa diante de Deus no dia do Juízo.
  • O livro abrange todo o Islã e permite vislumbrar a Cristandade através de suas janelas orientais.
    • Comparação entre a Cristandade de Dom Quixote e o Islã das Mil e uma noites.
  • A obra absorve a essência de historiadores e geógrafos profissionais para compor sua estrutura.
    • Menção a Ibn Qutaiba, Ibn Khaldun e al-Maqqari.
  • A multidão islâmica ganha vida real no livro, fornecendo o melhor documento psicológico sobre aquela sociedade heterogênea.
  • Cidades extintas e criaturas mortas permanecem preservadas no cosmorama imutável destas noites.
  • O Oriente eterno e imutável torna-se acessível através das páginas que transportam o leitor para além do tempo atual.
    • Presença do pregador religioso, dos mercadores com rosários de âmbar e das mulheres veladas.
  • O segredo da alma árabe reside na leitura conjunta do Alcorão, dos Poemas Suspensos e das Mil e uma noites.
  • As Mil e uma noites representam a quintessência da literatura de raça ao unir o fervor da fé à crença no destino.
    • Reflexo do conflito entre o desejo individual e a limitação cósmica presente na canção andaluza.
  • O humanismo semítico do livro estabelece uma democracia igualitária que eleva mercadores e artesãos à categoria de heróis.
  • A invenção da literatura picaresca pelos árabes funciona como uma reivindicação dos humildes e marginalizados.
    • Referência ao interesse aristocrático pelas vidas obscuras da plebe, exemplificado por Hurtado de Mendoza e o pequeno Lázaro.
  • A picaresca evolui para o folhetim moderno de cunho social, transformando a dor das massas em matéria literária.
    • Influência em autores como Victor Hugo, Eugène Sue, Gogol e Gorki.
    • Personagens como o príncipe Rodolfo e Rocambole como figuras redentoras do povo.
    • Transição para a objetividade científica de Zola na representação das massas proletárias.
  • A picaresca é definida como a cavalaria dos plebeus, mantendo uma aspiração messiânica de reparação das injustiças.
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