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Juízos

R. CANSINOS ASSENS, in Libro de las mil y una noches: el de los conocimientos maravillosos y las historias entretenidas, peregrinas … 5 ̇ed ed. Madrid: Aguilar, 1992.

Como todas as obras de duplo fundo que expressam verdades profundas em estilo popular e aparentemente ingênuo, As mil e uma noites têm sido julgadas e apreciadas de modos muito distintos

  • A primeira impressão que produzem é a de um quebra-cabeça, um revoltijo disforme de inverossimilhanças e absurdos misturados com algum destelo de sabedoria e sublimidade
  • É a mesma impressão que produziram em seu tempo os livros de cavalaria e sua réplica o Quixote
  • A impressão contraditória que na Oriente causara este livro, entusiasmando as plebes e escandalizando os seletos, produziu-se na Europa quando Galland o deu a conhecer

Na Inglaterra, houve quem as qualificasse de “sonhos da desatempada fantasia do Oriente”

  • Guilherme Jones, o tradutor de Shakuntala, foi dos que mais as denegriram, afirmando que aquele fárrago incoerente não podia comparar-se com os livros sânscritos de linha tão limpa e clara
  • Carlyle, o grande Carlyle de Os heróis, qualificou-as, sem rodeios, de mentiras rotundas e fechou sua casa a semelhante “literatura malsã”
  • Em contrapartida, o doutor Pusey, em suas Notitiae Codicis MI Noctium, escreveu que As mil e uma noites, traduzidas às línguas de quase todos os povos cultos, fazem as delícias de todos e andam nas mãos de todos

Burton relata a anedota do grave personagem sir James Stewart, lorde advogado para a Escócia

  • Ele surpreendeu um sábado suas filhas embebidas na leitura de As mil e uma noites e as repreendeu severamente por dedicar a vigília do domingo a essas frivolidades
  • Impelido pela curiosidade, pôs-se a ler o livro e foi tal a fascinação que nele obraram aquelas “absurdas” histórias, que a aurora do dia seguinte o surpreendeu com o livro nas mãos

Sempre seguirão divididas as opiniões sobre livros que misturam mentira e verdades, sublimidades e chocarrice

  • Como o Quixote e o Gargântua, As mil e uma noites são um livro que faz rir e faz pensar e, se se apura muito a coisa, faz chorar
  • O livro lembra aquele livro mágico que Harunu-r-Raschid lia rindo e chorando na História de Ataf o generoso (Noites 681 a 695)
  • Tudo depende do grau de cultura e sensibilidade do leitor

As mil e uma noites aborrecem as mesmas pessoas que não podem tragar a Ilíada de Homero, o Ramáiana, a Eneida e a Divina Comédia

  • Entre os muçulmanos corre o refrão de que quem lê As mil e uma noites morre, dando a entender que o matam o tédio e o cansaço
  • A obra ganha o favor do público em versões selecionadas, abreviadas e depuradas como a primitiva de Galland, sendo possível que em edições integrais aborreça o leitor

É necessário entrar a fundo nessas obras de duplo fundo para interessar-se por elas e descobrir os tesouros que guardam

  • Todas elas têm mais ou menos um sentido esotérico, já original, já efeito dos séculos, que tudo enchem de ferrugem e pátina
  • Quando se examinam bem, As mil e uma noites deixam de ser um atalho de pornografias e loucuras para se converter em um livro sério e até inquietante
  • A aparente frivolidade e descoco do livro serve de contrapeso e alívio às coisas tão graves e transcendentais que nele se dizem

A alegre mascarada de As mil e uma noites é uma dança macabra bailada por esqueletos neuróticos

  • Cada noite morre simbolicamente Xerazade e com ela todos seus personagens
  • A morte ronda e os tártaros de Calajã estão sempre à porta do festim abássida, como Ciro, na Bíblia, à porta de Baltasar
  • O que despista no livro é sua estrutura medieval, seu ar talmúdico de linha confusa, que mistura o alegre e o sério, o sublime e o vulgar, abusando das especiarias fortes e das cores cruas
  • Essa é a razão da disparidade de juízo que inspira, mas também a razão de seu perene sucesso
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