Orientalismo
R. CANSINOS ASSENS, in Libro de las mil y una noches: el de los conocimientos maravillosos y las historias entretenidas, peregrinas … 5 ̇ed ed. Madrid: Aguilar, 1992.
Para completar o estudo literário de As mil e uma noites, procede tocar no ponto do ambiente de formação das histórias e suas tangências com literaturas exóticas
- As histórias de noite datam de data remotíssima e existiam muito antes da invenção da escrita, sendo o Verbo anterior à letra
- Os autores da obra foram apenas rapsodos, refundidores ou simples notários, deixando no anônimo seus inspiradores e a si mesmos
- No livro encontram-se muitas coisas que também se acham em outras literaturas, sem que se possa falar de plágio, mas de um mesmo processo de gênese
Mitos e tradições populares da Índia reaparecem no ciclo de Artur, introduzidos pelos celtas
- Burton sinaliza a presença de histórias semelhantes nas Gesta Romanorum, oriundas da Índia dos brâmanes
- As mil e uma noites recolhem argumentos e pormenores de livros sânscritos e iranianos, como do Hitopadesa em ponto de fábulas e apólogos
- Burton sinalizou o Kathá Sárit Ságara (Mar das correntes da História), de Somadeva (século XI), que apresenta curiosas coincidências de linha argumental
- No Kathá Sárit Ságara lê-se a mesma história do efrit e da jovem raptada e dos dois irmãos reis Xariar e Xá-Zamán, com desenlace totalmente distinto
Na Pérsia, devem ser sinalizadas, em relação a As mil e uma noites, as obras de Mirjond e Najschabi
- A obra de Mirjond (século IX da Hégira), Riazu-s-Safá (Jardim da Pureza), já apresenta a cabeça falante da História do rei Yunán (Noite 4)
- O livro do persa Najschabi (século VI da Hégira aproximadamente), Tutil-Námeh (Livro do papagaio), é análogo ao sânscrito Suka Saptati (Setenta histórias de papagaios)
- Do Tutil-Námeh foi tomada a picante História do marido e o papagaio (Noite 5)
Os rapsodos introduziram na obra livros inteiros, como o famoso Sindbad-Námeh ou Livro de Sindibad
- O Sindbad-Námeh aparece incorporado com o epígrafe de Histórias que tratam de enganos e maroteiras das mulheres (Noites 344 a 365)
- Esse livro persa de autor desconhecido deu a volta ao mundo traduzido como Os sete sábios, Os sete (os dez ou os quarenta) vizires
- A versão espanhola do século XII leva o título de Livro de Sendebar
- Al-Masûdi, em suas Pradarias de ouro (século III), e Al-Yakubi (século II da Hégira) mencionam o Sindibad que escreveu Os sete vizires
- O Sindbad-Námeh inspirou o Dolopathos, do trovador Habers (século XIII), e Os sete sábios, de João Holanda (século XIV)
Os sete viajes de Simbad, o marinho, chamado por Burton de Odisseia árabe, descendem de um manuscrito copta intitulado O marinheiro náufrago
- O manuscrito, que se crê datar da XII dinastia (3500 antes da era comum), conserva-se em Leningrado
- A montanha magnética contra a qual se estrela a nave de Simbad aparece também na novela rimada de Henrique de Waldeck (1160 da era comum)
- O Ancião do Mar ou Xeique do Mar figura na novela de Kamaraupa, traduzida ao inglês por Franklin
As mil e uma noites realizam uma labor de absorção, mostrando-se no centro de uma corrente de inspirações exóticas
- Burton supõe que Boccaccio deve ter tido notícia da obra ao traçar o Decamerão, convertendo as noites em dias
- Nas Piacevoli Notti (século XVI), de Giovanni Francesco Straparola, a semelhança é ainda mais marcada
- A ação inspiradora se transparente no Heptamerão, da rainha de Navarra, Margarida de Angulema (morta em 1549)
- Seguem-se o Hexamerão, de A. de Torquemada (1610), e o Pentamerone, de Giambattista Basile (1637)
- Antes de Galland as dar a conhecer, As mil e uma noites já haviam irradiado na Europa de modo anônimo
Na literatura ibérica, há tangências mil-e-uma-noitescas no Livro de Alexandre, no Cavaleiro Cifar, no Arcipreste de Hita e no Quixote
- As mil e uma noites podem ter entrado na literatura ibérica por meio de lendas e contos orientais transmitidos por mouros e judeus
- Al-Harizi, o toledano, imita em suas Maqamats a seu quase homônimo Al-Hariri, o egípcio
São inumeráveis as aderências da obra com o Talmude hebraico
- Uma atmosfera talmúdica envolve todo o livro arábico, com lendas de Salomão e Alexandre, o Grande
- Da lenda de Salomão procedem as informações sobre as hostes de gênios bons e maus, seus poderes mágicos e seu sepulcro além dos sete mares
- A célebre alfombra voadora, forma primitiva do monoplano, procede do mágico bazar salomônico
- Toda a magia da obra é de origem judaico-talmúdica, embora às vezes misturada com elementos gregos e egípcios
- Os escribas mil-e-uma-noitescos tomaram do Talmude infinidade de histórias edificantes, catequísticas e milagreiras das vidas dos santos rabinos
Da lenda talmúdica de Alexandre Magno, os contistas tiraram a visão do grande conquistador como instrumento de Deus
- Os judeus pagavam a Alexandre a liberalidade com que os tratou ao ocupar Jerusalém, inventando-lhe uma biografia apologética
- Aos judeus se deve atribuir a idealização do guerreiro macedônio, que inspirou ao persa Nizami seu famoso poema
Somem-se a esses influxos alienígenas os irradiados pelos sufis
- Os sufis, gnósticos que se introduzem em toda parte e incorporam toda corrente mística, atuam sobre as massas por meio de seus dervixes
- As mil e uma noites refletem em sua forma incoerente todas as mutações espirituais de seus tempos médios
- A obra é uma fita registradora de ideias e sucessos cujas ondas chegam ao Ocidente e voltam dele
Entre os árabes estão também os judeus, banqueiros natos de moedas e ideias, distribuidores universais
- Os judeus possuem o dom especial de línguas e são viajantes por instinto e até por maldição, como o Judeu Errante
- A eles se deve, em grande parte, a nascença e difusão de As mil e uma noites, obra tão racial e, no fundo, tão cosmopolita
