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7 Tempo e sono

COOPER, J. C. Fairy Tales: Allegories of the Inner Life. Wellingborough: Aquarian Press, 1983.

1. A fórmula ritual “Era uma vez”, assim como outras aberturas míticas e maravilhosas, situa os acontecimentos fora das limitações ordinárias do tempo e do espaço, instaurando um eterno agora em que tudo se torna possível e cuja ausência de começo e fim se prolonga na felicidade definitiva dos protagonistas.

2. O tempo dos contos corresponde ao Primeiro Tempo mítico, quando o mundo surgiu e deuses, seres humanos e animais compartilhavam uma mesma linguagem e condição de existência, aproximando-se da experiência mística e do mundo da alma, nos quais desaparecem as distinções entre antes e depois e a duração se concentra num presente absoluto.

3. O reino das fadas existe além das coordenadas temporais e espaciais comuns, permitindo que aventuras prolongadas correspondam a instantes humanos ou que poucos momentos equivalham a séculos, de modo que o retorno ao mundo mortal revela a ruptura entre a experiência encantada e o transcurso ordinário da existência.

4. As terras célticas de bem-aventurança suspendem o envelhecimento e a percepção do tempo, mas aqueles que delas regressam podem encontrar um mundo transformado por séculos e sofrer imediatamente o peso dos anos acumulados, envelhecendo ou morrendo ao retomar contato com a condição mortal.

5. A mesma suspensão temporal ocorre em reinos aquáticos encantados, como na história estoniana do jovem que se casa com uma sereia e, depois de violar as proibições de nomeá-la e observá-la durante seu recolhimento, retorna à praia como um ancião solitário, sobrevivente de todos os seus conhecidos.

6. Algumas tradições não célticas apresentam desfechos diferentes, permitindo que os visitantes retornem do reino das fadas com presentes e poderes ampliados.

7. A natureza ilusória do tempo manifesta-se também nas danças feéricas que se prolongam por anos ou séculos, embora seus participantes julguem ter transcorrido apenas algumas horas.

Dormir e fiar

1. O sono milagroso suspende o tempo e o espaço em narrativas de diferentes culturas, permitindo que personagens durmam durante décadas e que castelos desapareçam ou palácios sejam reencontrados, como exemplificam Epimênides, tradições cristãs e corânicas e a história de Rip van Winkle.

2. O sono mágico pode provocar esquecimento, impedir perseguições ou iniciar um período de separação ritual, sendo produzido por objetos encantados, pelo ato de pentear os cabelos ou por uma picada, enquanto a princesa adormecida no alto de uma montanha e cercada de fogo reúne os símbolos do casamento sagrado, do Paraíso inacessível e do eixo do mundo.

3. A princesa adormecida pode representar o subconsciente ou, espiritualmente, a alma ainda não desperta, cujo longo recolhimento corresponde à meditação iniciática necessária à descoberta da identidade interior, ao segundo nascimento e à iluminação.

4. A passagem do sono ao despertar transforma reações infantis e automáticas em ações conscientes e integradas, simbolizando o renascimento da alma e sua união com o espírito, enquanto o encantamento em pedra pode expressar a mesma suspensão anterior à renovação, vencida mediante provas que restauram a vida e possibilitam o casamento.

5. Quando o encantamento abrange o palácio e a paisagem, o despertar da heroína restitui a beleza, a fertilidade e a prosperidade ao lugar, exprimindo a ligação entre a vida do mundo e sua alma, cuja sabedoria reanimada vivifica tudo ao redor.

6. A subida da princesa até o aposento mais elevado, assim como sua permanência numa torre ou na copa de uma árvore, simboliza a ascensão iniciática, enquanto a anciã que apresenta o fuso exerce a função tradicional de introduzir a jovem nos mistérios da maturidade, articulando iniciação sexual, morte ritual e renascimento espiritual.

7. O fuso reúne o significado fálico à condição de atributo da Deusa Mãe e das divindades lunares que tecem o destino, enquanto as fadas benfeitoras e destrutivas exprimem nascimento, vida e morte, e a exclusão da última adverte contra a omissão e a recusa de reconhecer o lado obscuro da natureza e do próprio ser, capazes de produzir desequilíbrio e discórdia.

8. A anciã fiandeira manifesta o aspecto perigoso da Grande Mãe e da Grande Aranha, relacionando o tecido da vida ao passado, presente e futuro e aos poderes destrutivos das Parcas, num simbolismo incorporado aos contos quando fiar e tecer constituíam atividades domésticas femininas centrais.

9. As proibições de fiar durante períodos ritualmente caóticos exprimem o perigo de agir num estado ainda indefinido, permitindo interpretar a infância da princesa como uma fase de formação incompleta e sua história como representação da aurora e da primavera.

10. A fiação e a tecelagem associam-se aos poderes mágicos femininos e articulam a urdidura vertical, solar e ativa à trama horizontal, lunar e variável, formando o tecido da existência pela combinação dos opostos, cuja atração e reconhecimento mútuo também se exprimem no encontro imediato entre príncipe e princesa.

11. A cerca de espinhos que oculta o castelo adormecido simboliza a morte iniciática, a renúncia ao mundo e o retorno ao ventre, reunindo aspectos fálicos e protetores, enquanto suas barreiras e variantes de lâminas, fossos e lanças representam etapas e perigos da iniciação, advertindo que o acesso ao conhecimento exige preparação e não admite a precipitação de quem tenta ultrapassar sua própria maturidade.

12. O beijo que desperta a Bela Adormecida representa a transmissão do sopro vital e aproxima-se de imagens míticas de comunicação da vida e das águas da inspiração, embora um beijo enganoso possa produzir o efeito contrário e provocar esquecimento.

13. O herói adormecido distingue-se da princesa por sua função messiânica, aguardando o momento de retornar e restaurar a luz e a bondade, como na última manifestação de Vishnu ao término da era de obscuridade.

14. Deuses e heróis adormecidos de diferentes tradições aguardam o chamado para defender a luz ou uma causa nobre, enquanto o despertar dos protagonistas e a transmissão do reino exprimem o eterno retorno e a renovação constante das estações e dos grandes ciclos cósmicos.

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