User Tools

Site Tools


Action unknown: copypageplugin__copy
folktale:graal:viseux:viseux-peredur

CONTINUAÇÕES DO PERCEVAL E A SOLUÇÃO DE PEREDUR

VISEUX, Dominique. L'initiation chevaleresque dans la légende arthurienne. Paris: Dervy-Livres, 1980

A questão de saber qual deveria ter sido o verdadeiro desfecho da Aventura de Perceval pode se resolver de diversas formas, com, no entanto, margens diferentes de incerteza. O método “histórico” que é o mais frequentemente empregado a este respeito apresenta numerosos inconvenientes, entre outros, o de ser um método cego que se preocupa pouco com seu objeto. O método “literário” que procura ver por toda parte influências e paternidades legítimas ou não, seja no estilo ou na “matéria literária”, não entra mais no quadro do presente estudo; quanto ao método “tradicional” que consideramos aqui como o primeiro em legitimidade, ele não saberia se limitar à comparação e à estimação dos elementos simbólicos e de sua proveniência.

Como já sublinhamos, existe um pensamento “simbólico” que se distingue em numerosos pontos, de toda outra forma de pensamento. O pensamento simbólico que sozinho, pode ser qualificado de universal porque comum a todas as civilizações tradicionais, tem por característica principal de se fundar sobre a analogia que existe entre as diversas ordens da realidade. Neste ponto, ele se distingue do pensamento alegórico que, embora utilizando por vezes um aparato simbólico análogo, não deixa de ser degenerado em seus próprios princípios. Com efeito, enquanto a alegoria emprega, entre outros, o processo da personificação que é de certa forma a justaposição convencional de uma ideia abstrata a um personagem concreto, por exemplo, o símbolo empresta por sua vez a via da identificação que resulta bem mais da união, da coincidência e do conhecimento das diversas ordens da realidade do que de uma aproximação acidental e convencional. A isso, é preciso acrescentar que a alegoria se apresenta frequentemente como a degradação e por assim dizer a materialização do próprio símbolo, seguindo os próprios princípios de toda degenerescência: perdendo pouco a pouco o conhecimento das correspondências analógicas do universo, a alegoria não conserva mais do símbolo senão o próprio processo, ou seja, a união de uma forma a um conceito que se torna desta forma puramente convencional, queremos dizer: sem justificação universal.

Esta distinção fundamental entre pensamento simbólico e pensamento alegórico permitirá evidenciar bem as continuações legítimas do Perceval e afastar de imediato os prolongamentos alegóricos mais recentes. Como já sugerimos a propósito do Lancelot em prosa, “a Busca do Santo Graal”, que constitui uma das continuações maiores do Perceval, apresenta várias vezes este caráter alegórico do qual acabamos de falar e que se manifesta notadamente nos episódios da montaria diabólica e da nau misteriosa.

Quando Perceval cavalga por engano, um cavalo preto no qual se encarna o “Maligno” que não para de precipitar o Herói em um abismo ou que este se vê prestes a sucumbir à provocação carnal de uma Dama vestida de preto (que não é senão uma outra encarnação do “inimigo”) que aborda a ilha de Perceval, em uma nau misteriosa, nos encontramos diante de uma utilização típica da alegoria tal como acabamos de a descrever: o cavalo, como a nau e a Dama são de fato elementos simbólicos pré-existentes aos quais vem se sobrepor um conteúdo alegórico, do qual diremos, no mínimo, que é de curto prazo. Com efeito, como se constata na leitura, a história da montaria diabólica não tem estritamente nenhuma repercussão sobre o caminho ulterior de Perceval, nem, aliás, o episódio da nau misteriosa que constitui como o precedente, o tipo mesmo da provação, em um sentido puramente exotérico. Este aspecto exotérico aparece, aliás, com nitidez quando se percebe que Perceval deve “fazer o sinal da cruz” para escapar do cavalo diabólico como da Dama de preto, ou que esta última é incomodada pelo fato de Perceval citar o evangelho em suas falas. Ora, como se pode constatar, o simbolismo tradicional empregado nas lendas se acomoda mal de referências diretas a uma teologia e a um exotérismo determinados, estes últimos tendo sempre tendência a restringir “o ângulo de visão” e o alcance do relato.

Para apoiar o que acabamos de indicar, assinalaremos um outro episódio de “a Busca do Graal” bastante revelador destas adaptações. Trata-se do combate que se desenrola diante de Perceval entre um leão e uma serpente e que é a réplica exata daquele que se encontra em “o Cavaleiro do Leão” de Chretien de Troyes. Mas enquanto a situação de Yvain apresenta um caráter puramente simbólico com todos os prolongamentos que dele decorrem (o leão se torna inseparável de Yvain), em “a Busca do Graal”, a situação análoga no início, desemboca no fim em um sonho puramente alegórico e não tem, por assim dizer, sobre Perceval senão uma repercussão totalmente “teórica” e demonstrativa. Com efeito, o sonho em questão encena duas Damas montadas, uma em um leão, a outra em uma serpente e que são supostas representar respectivamente a Igreja (ou a Nova Lei) e a Sinagoga (ou a Antiga Lei) confirmando assim a atitude de Perceval, mas de uma forma retroativa cuja eficácia pode ser posta em dúvida. Este exemplo mostra bem como, de uma situação simbólica dada (o combate do Leão e da Serpente), podem ser feitas duas aplicações diferentes, uma simbólica (em Yvain), a outra alegórica (em Perceval).

Não insistiremos mais sobre as continuações que “a Busca do Graal” propõe, em primeiro lugar porque os elementos propostos são muito fortemente cristianizados para fornecer uma resposta lógica ao problema inicial de Perceval; em segundo lugar porque o interesse desta obra não reside nesta continuação, mas, como veremos mais longe, na exposição literal dos princípios da iniciação cavalheiresca, vista desta vez através do esoterismo cristão.

Entre as soluções propostas pelos outros continuadores de Perceval, reteremos certos episódios onde um outro gênero de desvio se manifesta: trata-se do que poderíamos chamar de uma transposição simbólica e que encontramos notadamente nos episódios do Monte Doloroso e do Assento Perigoso. O tema do Monte Doloroso (ao qual ninguém pode aceder sob pena de ser atingido de loucura, a menos de ser o Melhor Cavaleiro do Mundo) é absolutamente tradicional em Si mesmo, já que ele não apresenta, em suma, senão uma réplica do Centro do Mundo, tanto mais que esta “Montanha Cósmica” inacessível é ela mesma superada por uma coluna mágica que se identifica evidentemente ao Eixo do Mundo. O fato de Perceval poder amarrar lá seu cavalo sem ser atingido de loucura também não tem nada de surpreendente se pensarmos no que já indicamos a propósito do simbolismo do cavalo: o domínio da força vital é aqui bastante nitidamente posto em relação com o acesso ao Centro Supremo do Ser, que seria fácil no caso de identificar ao que o yoga designa por Susumna, ou a via que Kundalini empresta, após seu despertar.

No entanto, esta versão do mito está longe de ser satisfatória em certos aspectos. Aprende-se, de fato, que a coluna foi erguida por Merlin, que sua filha (?) tem a guarda dela e que ao termo desta provação, Perceval se torna o Melhor Cavaleiro do Mundo. A isso, devemos opor várias razões que tornam impossível esta transposição simbólica: em primeiro lugar, Merlin não pertence ao ciclo de Perceval mas ao de Lancelot, mesmo se esta pertença é tardia; em segundo lugar, a posteridade de Merlin tem aqui todas as aparências da gratuidade e esta Dama, cujo papel é copiado sobre o da Virgem do Graal, teria tido mais verossimilhança ao se apresentar sob a identidade da “Filha do Rei Pescador” tanto mais que ao termo da provação, ela indica a Perceval o castelo deste último. Enfim, em terceiro lugar, o título de Melhor Cavaleiro do Mundo não tem realmente importância senão nas relações entre Lancelot e Galaad que disputam esta qualificação (no Lancelot-Graal) e não pode, portanto, ser transposto tão facilmente de uma lenda para a outra. O mesmo acontece com a provação do Assento Perigoso que aparece igualmente nas continuações. Esta qualificação, como acabamos de sublinhar, só tem sentido porque ela expressa a primazia de um estado existencial do Ser (Galaad) sobre um outro estado existencial que lhe é anterior (Lancelot) e, consequentemente, menor.

Não insistiremos mais sobre estes fenômenos de transposição simbólica que constituem como indicamos uma outra forma de desvio, tendendo a suprir os fragmentos perdidos por empréstimos de outras lendas, mas cujos efeitos, quando não são prejudiciais, são no mínimo deslocados.

Nestes mesmos continuadores encontramos, no entanto, passagens totalmente dignas de interesse e cuja autenticidade parece não fazer nenhuma dúvida. O episódio dos quarenta cavaleiros, por exemplo, parece bem não ter sofrido nenhum desvio e apresenta mesmo certas analogias de forma com outras lendas:

Perceval encontra, no curso de sua errância, Gorneman, aquele que outrora o havia instruído e que é diariamente assediado com seus quatro filhos por quarenta cavaleiros traidores que, embora todos mortos à noite, renascem pela manhã com tanto vigor. O pai, muito ferido, não pode mais combater e Perceval o substitui. O Herói combate um dia inteiro, mata os quarenta cavaleiros, depois promete a Si mesmo passar a noite junto aos cadáveres decapitados. É então que ele se dá conta de que uma feiticeira reanima um por um os cavaleiros mortos por meio de bálsamos de cura que ela aplica na boca dos cadáveres. Perceval a detém imediatamente e lhe corta a cabeça.

Como vimos, Gorneman apresenta certas analogias com Gauvain que se pode ainda discernir aqui mesmo. Com efeito, como este último, Gorneman encarna as virtudes cavalheirescas mas humanas e este personagem é apresentado como um herói diurno, vencido pelo aspecto noturno de sua natureza, assim como Gauvain é um herói solar, cuja força cresce ao meio-dia e decresce para a noite. O aspecto incompleto destes dois heróis aparece assim nitidamente e cabe a Perceval ultrapassar em eu o estágio “Gauvain-Gorneman”, de completar a outra face de seu ser, realizando assim a união do diurno e do noturno, do sol e da lua. O simbolismo dos números é, por outro lado, interessante de levantar: os quatro filhos de Gorneman representam aqui a ação de Gorneman sobre o mundo (no sentido de “a expansão do Ser”) enquanto Gorneman se situa no centro desta ação; isto explica por que Perceval substitui Gorneman, mas não seus quatro filhos, cujo fracasso era devido apenas à falha do Pai. Os quarenta cavaleiros são evidentemente os poderes elementares do ser, análogos aos anões e a todos os seres noturnos e seu número faz alusão direta ao aspecto catártico da provação. O papel subconsciente destes poderes é evidentemente nefasto para o Ser, em sua manifestação psíquica notadamente, já que elas se produzem essencialmente à noite, mas é suprimindo o próprio princípio de sua vitalidade que o herói pode se livrar delas. Este princípio é encarnado pela feiticeira, imagem da natureza maléfica e noturna, da destruição e da morte. O simbolismo da decapitação (destruição do princípio) é mais uma vez muito claro. Como acabamos de mostrar, nenhum desvio pôde ser constatado neste episódio que, além disso, possui certas analogias de simbolismo com o das feiticeiras de Kaer Loyw na lenda de Peredur, o que só garante a autenticidade e a legitimidade dele.

Resta-nos agora examinar um outro gênero de desvio que havíamos mencionado ao iniciar a história de Perceval e que concerne diretamente à continuação de Wolfram.

Quando Perceval reaparece enfim após a longa digressão sobre a aventura paralela de Gauvain, é para se opor a este último pelas armas e de uma forma totalmente fortuita. Ao se reconhecerem, os dois heróis cessam então o combate e Perceval retorna por algum tempo à corte de Arthur. A história de Gauvain termina rapidamente da melhor forma, enquanto Perceval retoma sua errância para encontrar um cavaleiro pagão chamado Feirefis, que se revela ser seu irmão, no desfecho de um combate onde Perceval quebra sua espada. Cundrie, mensageira do castelo do Graal intervém então para anunciar que Perceval é designado Rei do Graal. Acompanhado de Feirefis, ele se dirige ao castelo onde Anfortas, o Rei Pescador, ainda sofre de suas feridas. Perceval faz enfim a pergunta tão adiada e o Rei recupera imediatamente a saúde, designando o Herói como seu próprio sucessor. Condwiramour (equivalente de Blanchefleur, em Wolfram) acompanhada dos dois filhos de Perceval (Kardcis e Loheran-grin) se junta a Perceval no castelo e todos se reencontram. Só Feirefis não pode, no entanto, contemplar o Graal, pois ele não é batizado. Desejando se casar com Repanse de Joie, a Virgem do Graal, ele recebe pouco depois o batismo e parte para a Índia na companhia de sua esposa. O poema de Wolfram termina na Aventura de Lohengrin.

Nosso objetivo não é, neste estudo, colocar em questão os fundamentos esotéricos da obra de Wolfram, que são inegáveis, mas há, apesar de tudo, no poema uma ruptura muito nítida da trama simbólica ou do Mito, tal como o havíamos definido no início, e que determina o que chamamos de desvio literário. Em primeiro lugar, a história de Gauvain, encenada de forma já surpreendente por Chretien, termina aqui sem deixar rastros. Wolfram não dá de fato nenhuma explicação sobre o papel de Gauvain na Busca de Perceval. Por outro lado, o encontro do irmão pagão que, sozinho, pode rivalizar com Perceval, trai em Wolfram alguma intenção ou preocupação estranha ao mito. Que este encontro expresse uma relação histórica com este ou aquele exotérismo, isso parece não ter nenhuma dúvida, infelizmente a relação entre esta intervenção de Feirefis e o mito original se estabelece mal e isto é característico da continuação de Wolfram. Um outro detalhe mostra o aspecto heterogêneo do relato: é dito, com efeito, que Feirefis não pode ver o Graal, pois ele não é batizado, e isto se junta ao que já sublinhamos quanto às incursões de um exotérismo determinado em uma lenda cujo alcance é manifestamente mais distante. Enfim, a questão maior que ficou em suspenso em Chretien, encontra em Wolfram uma resposta um pouco apressada ou no mínimo simplista. Seria muito surpreendente, de fato, que Perceval pudesse devolver a Vida ao Rei Pescador, adotando simplesmente a atitude à qual ele havia se esquivado outrora. Há nesta solução uma impossibilidade quase metafísica, nem que seja pela repetição idêntica de duas situações, distintas no plano existencial do Ser.

Antes de começar o estudo da última continuação dada pela lenda de Peredur que nos interessa mais diretamente, lembraremos um detalhe da cena no castelo do Graal que não é sem interesse para o desfecho do drama: antes de assistir às evoluções rituais da estranha procissão, o Rei Pescador faz entregar a Peredur uma espada, comandando-o a quebrar um enorme anel de ferro fixado no chão. Por três vezes, Peredur quebra em dois o anel e a espada que se reajustam milagrosamente. Na terceira vez, no entanto, os pedaços não podem se ressoldar e o Rei Pescador anuncia a Peredur que ele só possui dois terços de sua força e que lhe resta o terceiro a adquirir. O simbolismo da ação é aqui muito eloquente: sabemos que a espada constitui para o Cavaleiro a arma do Conhecimento e que o poder de a quebrar e de a ressoldar indica nitidamente o grau de domínio atingido por este último. Quanto ao anel, seu simbolismo não é menos claro: sua forma circular faz referência ao “enrolamento da vida” que se reencontra na imagem do Ouroboros ou a serpente sem fim mordendo sua cauda, símbolo da manifestação cíclica e guardião das potencialidades do Ser. A imagem do anel é, aliás, muito largamente difundida no pensamento mítico indo-europeu e notadamente na lenda germânica dos Nibelungen. Assim, torna-se claro que Peredur tem o poder de quebrar o anel da Vida e da Fatalidade, mas apenas sobre os dois terços de seu “espaço mental”. Em outras palavras, se nos referirmos à teoria hindu dos três Gunas, pode-se dizer que Peredur ultrapassou o estado “tamasico” e “rajasico”, mas que ele ainda não possui o estado “sattwico”. É sobre este ponto, precisamente, que teremos que voltar quando examinarmos o desfecho da lenda. Este não é, aliás, sem complexidade:

Peredur se dirige para o castelo das Maravilhas onde ele penetra. No interior, ele avista um jogo de xadrez, se senta à mesa e descobre que os peões adversos jogam sozinhos e o vencem. Peredur fica com raiva e joga o tabuleiro de xadrez em um lago. Então aparece uma Donzela que o repreende por seu gesto. Peredur procura repará-lo e deve para isso combater um homem preto que devasta o domínio de sua mestra. Peredur vence o homem em questão e aprende que ele só verá a mestra do castelo depois de ter matado um veado devastador. Ele encontra então o animal, corta-lhe a cabeça que uma cavaleira de repente lhe rouba, comandando-o a se dirigir a uma colina para lá combater um outro homem preto. Quando Peredur o encontra, este último lhe rouba seu cavalo. Peredur avista então um castelo para onde ele se dirige e lá reencontra seu cavalo na companhia daquele de Gwalchmai (Gauvain). Ele sobe para a grande sala do castelo onde ele encontra, de fato, reunidos Gwalchmai e o Rei Pescador. É então que um jovem se joga aos joelhos de Peredur e lhe diz que ele mesmo tomou os traços da jovem no jogo de xadrez, da cavaleira misteriosa, do portador da Lança que sangra e da tábua contendo a cabeça do filho do Rei Pescador. Ele lhe revela enfim que são as feiticeiras de Kaer Loyw que mataram este último e que também feriram o Rei, seu pai. Após estas revelações, Peredur e Gwalchmai chamam Arthur e seu exército para combater as feiticeiras de Kaer Loyw, o que terá como consequência a cura do Rei Pescador. É preciso assinalar a este propósito que outrora, Peredur havia ele mesmo recebido das feiticeiras de Kaer Loyw seus ensinamentos sobre o ofício das armas, depois que elas foram vencidas por ele e constrangidas a entregar seus segredos. Peredur detém, portanto, o mesmo poder que as feiticeiras, o que impede o exército de Arthur de sucumbir sob seus malefícios. A história termina evidentemente com a morte das feiticeiras de Kaer Loyw.

Não seguiremos em nossas explicações o detalhe das provações que conduzirão novamente Peredur ao castelo do Rei Pescador. Estas não apresentam, de fato, interesse senão em sua sucessão e é por uma espécie de reviravolta perpétua, recuando incessantemente o prazo do sucesso, que elas se manifestam ao herói. É evidente que a Dama está sempre presente neste labirinto de questões e de confrontos e que é ela que, como revela o jovem do castelo, levará Peredur ao cumprimento. Um episódio, no entanto, reterá nossa atenção: trata-se da partida de xadrez que Peredur trava com um adversário invisível que se revela não ser, no final das contas, senão sua própria Dama, seu Si imanente com o qual ele deve uma última conta. Sabemos, de fato, que resta ao herói adquirir o terceiro terço de sua força, o mais difícil, pois totalmente informal, “invisível”, sendo o do Conhecimento do Si em seu mais alto grau. A partida de xadrez se revela, aliás, pouco proveitosa a Peredur que deverá novamente reparar seu transbordamento de orgulho. O fato de jogar o tabuleiro de xadrez com raiva em um lago determina nitidamente o retorno de Peredur à natureza indiferenciada, a um ponto de partida perpétuo. É lá que o herói deverá, aliás, realizar sua obra de purificação: como a imagem da Mãe em Perceval, são as nefastas feiticeiras de Kaer Loyw que ainda retêm cativa a alma de Peredur. Ora, sabemos o que o manejo das forças sutis tem em comum com o estado “rajasico” que é sempre o de Peredur: o terceiro terço da força reside também na vitória e na superação do “mundo intermediário”. Peredur deve antes de tudo se libertar da Natureza e de seus malefícios “noturnos” antes de reencontrar definitivamente o estado primordial, o do Rei “curado de sua ferida”.

Passaremos em silêncio o último combate de Arthur contra as feiticeiras que dá ao relato uma conclusão bastante límpida. Notaremos, no entanto, a breve reaparição de Gauvain que demonstra bastante nitidamente por sua presença no castelo e sua impotência para curar o Rei Pescador, o caráter incompleto do personagem. Gauvain (ou Gwalchmai) espera como o Rei Pescador ou como Gorneman (na continuação de Perceval) o retorno do herói que soube realizar a União do Diurno e do Noturno e pode sozinho agora ultrapassar o grau da humanidade comum. De fato, o nó do mistério se desata nas revelações do jovem que se joga aos joelhos de Peredur: depois de ter revelado seu curioso androgino (mas o Si não é, no final das contas, andrógino?), ele anuncia ao herói que o Rei Pescador é seu tio, que a cabeça banhando-se no sangue da tábua é a do filho do Rei (portanto do primo de Peredur) e que ele mesmo é o primo do Herói. Isto mostra em definitivo a identidade que existe fundamentalmente entre os dois irmãos (o jovem e o Sacrificado), identidade que existia já como havíamos mostrado entre o pai e o filho. O Si encarnado diretamente pelo jovem (que não é, na verdade, senão a sobrevivência do Sacrificado) reclama assim de Peredur a vingança e a cura do Rei, ou seja, em última análise o sacrifício último do Herói. Este sacrifício, Peredur, deverá o realizar na pessoa das feiticeiras que ainda fazem parte integrante de seu ser, devolvendo assim ao Si imanente, supremo Senhor do Universo, o que ele havia se apropriado para o cumprimento de suas potencialidades.

folktale/graal/viseux/viseux-peredur.txt · Last modified: by 127.0.0.1