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Anões

LECOUTEUX, Claude. Les nains et les elfes au Moyen Age. Paris: Imago, 1988.

O Anão na Literatura de Romances

  • Os anões na literatura de romances jamais ocupam papel central nas narrativas — à exceção de Aubéron/Oberon — e aparecem em funções secundárias que variam conforme o gênero literário, sem que sua morfologia ou vestimenta sejam objeto de observações que abram janelas para um horizonte mítico.
    • Na epopeia, o anão integra os exércitos pagãos e povos monstruosos que habitam as fronteiras do mundo civilizado, geralmente no Oriente
    • Agrapart, o Barbudo, é o melhor representante desse tipo — rei que comanda tropas no exército sarraceno em Aliscans, chanson de geste do século XII sobre a lenda de Guilherme de Orange: ágil como um macaco, corcunda, pegajoso, feio, peludo, olhos vermelhos como brasas, unhas afiadas como garras de grifo, medindo apenas três pés de altura
    • Rainouart despacha Agrapart para o além com uma pancada de seu tinel — sua clava
    • No Prosa Lancelot do século XIII, dos oitenta anões que aparecem, apenas um é nomeado — Groadain
    • Chrétien de Troyes introduziu o personagem do anão no romance arturiano entre 1170 e 1181 — seus predecessores Gildas, Godofredo de Monmouth e Wace jamais os mencionaram
    • Chrétien de Troyes descreveu na cerimônia de casamento de Érec e Enida: “Veio então o senhor dos anões, Bilis, rei das Antípodas… era ele próprio um anão e irmão de Bliant. Bilis era o menor de todos os anões, e Bliant, seu irmão, o mais alto, pois media meio pé ou uma palma a mais do que qualquer outro cavaleiro de seu reino… Bilis trouxe em seu séquito dois reis que eram anões e detinham suas terras dele — Gribalo e Glodoalan”
    • Quando um anão é chamado a desempenhar papel importante, é assimilado ao mundo cortês e perde boa parte de suas características — Chrétien descreve Guivret como “pequeno de estatura, mas corajoso e bravo” e lhe confere o título de cavaleiro e senhor dos irlandeses
    • Casos raros revelam comportamentos inexplicáveis oriundos de crenças folclóricas — um anão moendo pimenta num almofariz que Désiré encontra numa floresta; no Lancelot médio-holandês, um anão sopra no rosto de Gawain e o transforma também em anão
  • O episódio do anão condutor da carroça em O Cavaleiro da Carreta de Chrétien de Troyes esconde sob uma racionalização cortês um substrato mítico que associa o anão à morte e ao além.
    • Meleagant rapta a Rainha Guinevere; Lancelot, a pé após a morte de seu cavalo, encontra um anão guiando uma carroça e pergunta se viu a rainha passar
    • O anão responde: “Se quiser subir na carroça que estou guiando, saberá amanhã o que aconteceu com a rainha”
    • A carroça era uma espécie de pelourinho sobre rodas em que criminosos eram expostos à condenação pública
    • Chrétien acrescenta um provérbio: “Quando encontrar uma carroça, faça o sinal da cruz e reze para que Deus poupe você de tal desonra”
    • Jean Frappier propôs a seguinte hipótese: “Antes de ser a carroça da infâmia, ela teria sido, no plano mítico, a carroça da morte — especialmente na Bretanha”, fazendo alusão clara à carroça de Ankou
    • Caradoc de Llancarfan, sacerdote galês, escreveu antes de 1136 a Vita sancti Gildae, cujo cotejo com o romance de Chrétien sustenta a hipótese de Frappier

A Literatura Celta

  • Na literatura celta medieval, os anões são escassos nos textos escritos, mas revelam, quando presentes, uma natureza profundamente entrelaçada com o além, habitando ilhas, lagos, mares e reinos subterrâneos e possuindo objetos mágicos de ressonância mítica inequívoca.
    • V. J. Harward recorreu a antologias de contos e lendas mais recentes para concluir — erroneamente — que todos os anões da literatura arturiana derivariam de um deus anão chamado Beli
    • Tom Peete Cross compilou um índice de motivos que serviu de corpus para estudos sobre o tema
    • Em A Jornada do Povo de Luchra e a Morte de Fergus, do século XIII ou XIV, Iubdan é soberano de uma raça de anões chamados leprechauns — do irlandês antigo luchorpán, “corpos pequenos” — e visita o lendário rei Fergus mac Léti
    • Iubdan é negro, mas seus súditos são brancos; é belíssimo, tem voz clara, nunca mente e parece crer em Deus; oferece a Fergus sandálias de bronze branco que permitem caminhar sobre a água como se fosse terra firme
    • Iubdan possui escudo que o torna invulnerável, lança que resiste a cem inimigos, banheira que triplica a esperança de vida, caldeirão que transforma pedras em pratos deliciosos e tambor que toca sozinho; monta um cavalo de cascos verdes — cor sinal inequívoco de pertença ao além
    • As sandálias de bronze remetem a amuletos encontrados em túmulos e tumulis — os escandinavos antigos atavam “sapatos de Hel” aos pés dos mortos; Hel era a deusa dos mortos
    • O caldeirão mágico é prerrogativa das divindades do além; a banheira conecta-se ao mito da fonte da juventude
    • Segundo textos do século XII, os leprechauns vivem debaixo d'água — Fergus capturou três deles que o haviam raptado e recebeu como recompensa pela liberdade deles a capacidade de viajar sob cachoeiras, lagos e mares
    • O topônimo Loch Luchra — “Lago dos Anões” — aparece no Colóquio dos Ancião, escrito entre 1142 e 1167
    • Num conto do século XI intitulado O Encontro de Cuchulainn com Senbec, um anão navega no rio Boyne dentro de uma cesta; capturado, oferece uma camisa e manto que protegem contra morte por fogo e afogamento, além de escudo e lança que garantem a vitória
    • O poeta galês medieval Taliesin declara: “Sei quais anões vivem sob o mar”; O Livro Negro de Carmarthen (1170—1230) também menciona anões que residem num reino subaquático
    • A palavra galesa afanc — nome de uma criatura que mata os filhos do Rei do Sofrimento no romance Peredur — é etimologicamente equivalente ao irlandês abacc, “anão”, e relacionada ao galês afon, “rio”; também significa “castor”, e curiosamente existe um anão chamado Bifurr — “castor” — na literatura escandinava antiga
    • Peredur mata o Afanc com o auxílio de uma pedra mágica dada por uma dama que só a oferece em troca da promessa de amor exclusivo — mas o texto já não compreende o significado da palavra Afanc
    • O gorr ou corr, relacionado ao armoricano korrigan, aparece como mago em Culhwch e Olwen, conto galês do primeiro quarto do século XII — Gwyddolwyn Gorr possui garrafas maravilhosas que conservam o calor de uma bebida do Oriente até o Ocidente
    • Os Korranyeit ou Corraniaid eram uma das três invasões opressivas da ilha da Bretanha no tempo mítico — podiam ouvir toda conversa sussurrada na ilha; Lludd os eliminou por meio de um estratagema, envenenando-os
    • O Colóquio dos Anciãos apresenta o anão músico Cnu Dheireoil — quatro punhos de altura, o melhor músico da Irlanda, encontrado por Finn num túmulo funerário no momento em que deixava os Tuatha Dé Danann, raça de fadas que vive em palácios subterrâneos, por ciúme de outros músicos
    • Por volta de 1100, o autor anônimo do Lebor na hUidre — Livro da Vaca Parda — atribui a origem dos anões à maldição de Noé sobre seu filho Cam: “É dele que nascem os anões, os Fomorians, os homens com cabeças de cabra e as criaturas deformadas que habitam entre os homens… Cam é o primeiro ancestral dos monstros. Eles não descendem de Caim”

A Literatura Germânica da Idade Média

  • O anão germânico medieval, com sua primeira aparição literária por volta de 1023—1050 no romance latino Ruodlieb, habita montanhas ocas, conhece segredos ocultos, prevê o futuro e vive em sociedade hierárquica que espelha a sociedade feudal, reunindo ao mesmo tempo traços de figura mitológica e de ser humano.
    • Ruodlieb captura um anão à entrada de uma caverna; em troca da vida, o anão revela o esconderijo do tesouro dos reis Immunch e Hartnuch e prediz o futuro do cavaleiro — ele conquistará a bela Heriburg, mas ao custo de muito sangue derramado se não seguir seus conselhos; a esposa do anão, descrita como “muito bela apesar de seu tamanho pequeno”, serve de refém
    • Os anões habitam montanhas ocas que são palácios subterrâneos cintilantes de pedras preciosas; possuem esposas, filhos, suseranos e vassalos; há uma nobreza com um rei à frente, artesãos e servidores — ferreiros, alfaiates e até sapadores
    • Os anões germânicos experimentam as mesmas paixões que os homens — tormentos do amor, ambição — e travam guerras entre si para conquistar outras montanhas ocas; têm como inimigos hereditários os gigantes e os dragões
    • Suas diversões correspondem às do mundo humano — música, canto, dança, boas refeições com vinho ou hidromel, justas e torneios nos prados diante de seus palácios
    • Os anões germânicos podem aparecer como velhos calvos e barbados, como crianças extremamente belas ou como cavaleiros — o tipo cavaleiro predominou na literatura, enquanto os dois primeiros, mais antigos e menos contaminados, quase desapareceram dos textos mas sobreviveram na tradição oral
    • O rei Laurin — que habita uma montanha oca no Tirol e possui um jardim de rosas maravilhoso — é descrito em longo poema: cavalo malhado do tamanho de um veado, sela de marfim com rubis cintilantes, armadura temperada com sangue de dragão que nenhuma espada pode cortar, elmo de ouro vermelho incrustado de rubis e carbúnculos que iluminam a noite mais escura, escudo de ouro jamais partido com um leopardo pronto para saltar
    • Os anões germânicos medem geralmente entre sessenta e oito e cento e doze centímetros, mas possuem a força de doze a vinte homens — força às vezes atribuída a objetos mágicos
    • O anão conhece todos os segredos da natureza — virtudes das águas, pedras, metais e ervas; pode tornar-se invisível por meio de um manto mágico — Tarnkappe — ou de um elmo mágico — Tarnhelm — objeto central na lenda de Siegfried
    • O anão possui anéis com pedras maravilhosas, cintos que multiplicam a força do usuário, gemas que colocadas sob a língua permitem compreender e falar línguas estrangeiras, previnem a sede e impedem o ataque de dragões
    • O anão conhece o futuro — poder que uma explicação racional posterior redefiniu como resultado do estudo da necromância, sinônimo de feitiçaria na Idade Média
    • Laurin rapta a bela Künhild e Goldemar rapta a filha do rei de Portugal — mas esses eventos raramente terminam tragicamente, pois o anão germânico é fundamentalmente cortês
    • Dois aspectos contraditórios emergem: sua vida social e privada é a dos seres humanos, mas seu conhecimento, habilidade, objetos mágicos, poderes misteriosos e habitat o conferem traços de figura mitológica
  • O cotejo dos dossiês das três grandes literaturas medievais revela que os anões pré-existiam à literatura escrita e têm sua fonte em tradições vivas, mas ao ingressarem no universo literário sofreram profunda transformação — racionalizados, adaptados ao gosto contemporâneo e despersonalizados, conservaram apenas alguns traços míticos, convertendo-se em clichês literários destinados a satisfazer o gosto do público que, por volta de 1130—1150, se tornava cada vez mais ávido pelo maravilhoso.

Conclusão

A análise das obras em que aparecem anões chamados Alberîch revela que essas figuras não podem ser identificadas com Aubéron, ao contrário do que tem sido frequentemente afirmado e apesar dos argumentos de Pierre Ruelle em favor dessas hipóteses errôneas. Ruelle concluiu a discussão com estas observações:

Ortnit […] faz com que uma figura chamada Alberîch desempenhe um papel importante. Trata-se de um anão dotado de poderes sobrenaturais que ajuda um herói a realizar feitos lendários durante uma viagem ao Oriente, da qual ele retornará com sua noiva. Em termos de atividade e caráter, e até mesmo de seus próprios nomes, Alberîch e Aubéron se assemelham. No entanto, não podemos aceitar a premissa de que o autor de Huon tenha se inspirado em Ortnit. Vemos muito poucas concordâncias nos detalhes das duas aventuras.1

Mas, ao contrário do que Pierre Ruelle acredita, também não é possível afirmar que o autor de Ortnit tenha tomado emprestadas de Huon as características que atribui a Alberîch. Na verdade, precisamos reconhecer que ambos esses “anões” provêm de fontes comuns, que só podem ser tradições orais e crenças populares, uma vez que não houve nenhum empréstimo direto de uma obra literária. A única explicação satisfatória para a inegável afinidade das figuras que aqui apresentamos seria a presença de indivíduos semelhantes cuja existência tenha servido de inspiração para a literatura.

Aubéron e Alberîch representam um tipo completo e isolado de “anão” nas literaturas medievais, e surgem numa época em que o tipo predominante de anão nas regiões germânicas era o anão-cavaleiro (do qual Laurin é o melhor exemplo), enquanto na França os tipos predominantes eram o anão-servo ou o anão astuto. Nossas duas figuras, portanto, vão contra a corrente das tendências literárias da época, mas são demasiado completas e bem definidas para não terem uma origem mais antiga. Quando Alberîch aparece no Nibelungenlied, ele já possui uma longa história, e o mesmo deve valer para Aubéron, que não surgiu do nada no século XIII. O próprio fato de ambas as figuras apresentarem traços de contaminação fala a favor de sua antiguidade. Em suma, tudo nelas reflete tradições folclóricas que conhecemos por meio dos contos populares.

O leitor certamente terá notado que não tentei definir o termo “anão”, nem identifiquei seu campo semântico. Em vez disso, empreguei a palavra como faziam os escritores da Idade Média, e isso foi deliberado da minha parte: a discrepância entre o termo e as criaturas que ele designa torna-se, assim, ainda mais marcante, e permite-nos perceber que “anão” deve, de fato, abranger uma série de realidades diferentes.

Consegui determinar que a figura dos duendes, que também são de natureza composta, influenciou a dos “anões”. Isolamos vários elementos-chave associados aos sprites, sendo o mais importante deles o elemento aquático — um elemento que muito provavelmente é uma das chaves para o problema colocado pela natureza dos “anões”, tal como o encontramos no afanc galês, bem como nos sprites dos romances, em Aubéron e na lenda de Siegfried.

Outro tema que foi esclarecido é a metamorfose característica de Andvari, e da mesma forma de Malabron em Gaufrey e de Zephyr. Tal metamorfose é, portanto, característica de uma criatura chamada “anão” no domínio germânico e “duende” no mundo dos romances.

Uma característica de nossos pequenos personagens merece atenção: Aubéron, o Alberîch de Ortnit e Malabron (Gaufrey) agem todos como espíritos guardiões, e em dois desses casos (um de um poema em alto-alemão médio, o outro de uma chanson de geste em francês antigo) esse comportamento é justificado por laços de sangue. Mas Alberîch é chamado de “anão” e Malabron de “duende”.

A morfologia de nossas figuras abre outras perspectivas. A insistência com que o autor de Huon de Bordeaux fala da beleza de Aubéron, a comparação quase constante desse anão com o brilho do sol, fazem do pequeno rei do Reino das Fadas um anjo da perspectiva cristã, ou um herói solar da visão pagã da questão. Acontece que essa característica é confirmada por Ortnit: observamos que Alberîch aparece na forma de uma criança muito bela, e que Ortnit o descobre graças a um anel mágico cujo poder está ligado ao sol. No entanto, Alberîch às vezes aparece como um jovem e outras vezes como um ancião. Qual é a característica verdadeiramente específica desse indivíduo? A literatura não nos permite responder a essa pergunta, por isso devemos buscar a resposta em outro lugar.

Além dessas revelações dos textos, temos alguns elementos muito vagos que, de uma forma ou de outra, sugerem fortemente que os “anões” mantêm uma relação com a morte e o Outro Mundo, entendido aqui como o reino dos mortos e não como o reino das fadas. Há o habitat e o nome dos Nibelungos, que lembra tanto o Mundo da Névoa (Niflheimr) da mitologia nórdica, e da montanha nublada onde Picolet reside. E embora o duende francês corresponda muito de perto ao “anão” alemão, ainda há o comportamento estranho do pai de Robastre.

Em suma, podemos supor que o anão literário possui outra dimensão além daquela redutora fornecida pelos poetas e escritores — uma dimensão mais profunda do que um mero estereótipo, um cenário para a aventura, um elemento exótico, uma simples maravilha e um ser divertido e mágico. Vimos como a literatura explorou essa criatura, mas o que exatamente ela estava explorando? Para descobrir, vamos agora nos voltar para os mundos da mitologia e das crenças populares.

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