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1. TESTEMUNHA DO REAL

CJAE

«Não te basta que teu Senhor seja uma testemunha presente em todas as coisas?»: Sadra cita esse versículo em seu prólogo ao Livro das Penetrações Metafísicas, e essa citação esclarece a concepção que ele tem de toda a sua obra. Deus testemunha a si mesmo em todas as suas manifestações, que são todos os existentes provenientes de sua luz e de seu ato de ser infinito. Em troca, o filósofo é a testemunha do real, restituindo a Deus o testemunho cuja fonte só pode estar em Deus, e praticando assim a shahâda mais autêntica.

A concepção que Sadra tem da sabedoria (hikma) envolve a definição que ele dá da metafísica. Ela pressupõe a hermenêutica do Alcorão e das tradições dos Imames, pois se propõe, antes de tudo, fiel ao sentido interior do Livro Sagrado: «Sabe-se que a compreensão dos símbolos do Alcorão, de suas profundezas e de seus segredos não pode ser alcançada pela perspicácia do pensamento e por múltiplas análises e pesquisas, se não houver a peregrinação dos Puros no caminho da purificação pelo esotérico e da educação pelo mistério, pelo retorno às Pessoas da casa da amizade divina, a aquisição das luzes da sabedoria no tabernáculo da profecia e na fonte do que realizam os profetas perfeitos e os Imames imaculados, a iluminação produzida por suas luzes, o seguimento de seus segredos, a fé em sua orientação e a fidelidade às suas luzes, para que se realize, para o peregrino, o alcance de uma parte das luzes do Livro e da tradição, e que ele se liberte das palavras inovadoras.»

Em seu sentido último, o conhecimento do ato de ser é a compreensão da revelação concedida aos profetas e de sua interpretação concentrada no ensinamento espiritual dos Imame. Inversamente, a letra corânica recebe da metafísica uma parte essencial da exegese que acessa seu sentido oculto. Na medida em que é um filósofo xiita, Molla Sadra se considera, antes de tudo, um “gnóstico”, um ’ârif, praticante da gnose (’irfân) que é transmitida à luz do imamato. Ele situa sua busca no cerne do sentido literal (aparente, zâhir) do Livro, para elevá-lo até o sentido oculto (bâtin), de modo que a metafísica perderia todo o seu alcance sem esse horizonte hermenêutico. Mas não é menos importante constatar que, por esse mesmo motivo, a abordagem da metafísica tem o poder de guiar até a realidade efetiva (’haqiqa) do ser, de sustentar o esforço de intuição espiritual que apreende a verdade concreta do existir, na qual se concentra a própria essência de Deus.

A filosofia não é uma disciplina separada da exegese, é um de seus estilos, mesmo que utilize seus próprios meios, que são os do julgamento e da demonstração. A metafísica permanece em estreita conexão com os outros procedimentos hermenêuticos, uma vez que seu objeto, o ser, só deve ser concebido como o real, e coincide com a natureza de Deus, e que Deus se dá a conhecer na revelação escritural. Podemos falar de uma filosofia exegética, de uma exegese filosófica de Deus, de uma exegese do Livro e de seus intérpretes, de uma exegese de si mesmo.

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