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LAWAIH

YRJL

Ibn Arabi e Lawaih

  • Várias obras de Jami fazem referência expressa a Ibn Arabi (560-638/1165-1240), mestre árabe-andaluz que exerceu influência muito forte sobre o sufismo e a teosofia xiita, notadamente no Irã, sendo indispensável apresentar as grandes linhas de sua doutrina, uma vez que as Lawaih a ela se referem várias vezes.
    • A intuição fundamental de Ibn Arabi é a da realidade profunda do mundo sensível — é preciso guardar-se da armadilha da consciência ingênua que coisifica os fenômenos como se fossem substâncias ontologicamente definidas.
    • Os fenômenos são “lugares teofânicos”: sua realidade é um dado fundamental de nossa percepção, mas não uma realidade em si; eles remetem a uma Existência fundamental única e permanente.
    • Os fenômenos são reais enquanto lugares onde se manifesta essa existência, que sem eles estaria isolada em sua solidão eterna.
    • O princípio de tudo está neste hadith qodsi — palavra de Deus revelada ao Profeta fora do Alcorão: “Eu era um Tesouro oculto e aspirei a ser conhecido. Então criei as criaturas a fim de ser por elas conhecido.”
  • Deus não se revela a seres que existiriam fora d'Ele — Ele se revela primeiramente a Si mesmo, numa primeira epifania que se ampliará ao infinito, até compreender o universo inteiro por etapas ontológicas.
    • O mistério dessa teofania é a unidade essencial do Ser divino oculto tornando-se multiplicidade aparente no mundo dos fenômenos.
    • A primeira diversificação ocorre no Conhecimento divino, no nível em que são concebidas — e portanto postas na existência — as essências individuais eternas, as hecceidades imutáveis dos seres do universo.
    • À medida que o processo de individuação e determinação dos seres prossegue, eles perdem seu caráter de absolutidade, mas sem ganhar uma existência autônoma — trata-se sempre da mesma existência única que se derrama nas individuações.
  • Para fazer compreender o mistério da unicidade da existência — vahdat al-vojud — os místicos da escola de Ibn Arabi empregam várias imagens que se encontram nas Lawaih.
    • A imagem do Oceano, único, do qual se percebem exteriormente apenas as ondas, múltiplas.
    • A imagem do espelho de inúmeras facetas, que dão imagens em número infinito de uma realidade única — conforme Izutsu em Unicidade da existência.
  • Para melhor compreender a terminologia rigorosa utilizada por Jami na esteira de Ibn Arabi, é útil referir-se ao esquema que ele próprio fornece na Iluminação XXIV — a Essência divina está além de toda individuação e de toda “entrave” à sua absoluta unidade; numa primeira individuação, ela engloba todas as individuações por vir; em seguida se estreita na unidade divina, e de novo se abre, fazendo emanar de si os Nomes e as Presenças; num terceiro movimento de sístole-diástole, ela engloba em sua unidade as individuações do mundo do devir e as libera enfim na realidade do universo.
  • Tal é, em linhas gerais, a cosmogênese que Jami faz descobrir nas Lawaih — mas a ideia diretriz do texto não é um ensinamento filosófico nem uma análise ontológica do ser: Jami convida verdadeiramente a inserir-se existencialmente nessa visão do mundo.
    • A mensagem das Lawaih — expressa claramente a partir da sexta Iluminação — é a descoberta da relação que se tem com os seres e com o Ser, e da inserção corpo e alma nessa relação; não uma ratiocínio sobre a realidade à maneira dos filósofos.
    • Na teofania aqui descrita, o lugar do peregrino em busca se revela central — ele é ele mesmo Deus amante, e é o espelho amoroso indispensável para fazer conhecer o ser-desejável e o ser-amado de Deus (Iluminação XXI); tudo o que ele faz, é Deus quem o faz nele (XXX).
    • A análise da epifania revela a identidade essencial da forma epifânica — o lugar onde o Ser se revela — com o próprio Ser (XXXI): toda reivindicação da criatura para atribuir a si o mérito de seus atos torna-se insensata, pois a criatura não é senão o lugar onde Deus se revela.
  • O desinteresse de tudo não significa indiferença de não-participação, mas uma harmonia tal com o mundo que falar mais seria um ato de violência, uma indiscrição culpável.
    • Nas últimas quadras, Jami exorta o “peregrino” a encontrar essa quietude, a abandonar os julgamentos morais sobre o bem e o mal, o vício e a virtude.
    • É preciso adotar a atitude de contemplação dos sufis naqshbandi, fechar os olhos e recolher-se humildemente em seu hábito.
    • Então — derradeira quadra — o amor inefável de Deus rasgará esse envoltório carnal e fará do peregrino um homem ressuscitado para o qual a linguagem não é de nenhum socorro.
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