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MASSIGNON

ELMARSAFY, Ziad. Esoteric Islam in modern French thought: Massignon, Corbin, Jambet. London New York (N.Y.) Oxford: Bloomsbury Academic, 2021.

A centralidade do desejo na obra de Louis Massignon é afirmada a partir da identificação do desejo como um atributo absoluto e não contingente, que define a própria essência divina e a relação do místico com Deus.

  • O desejo é apresentado como o Absoluto na pré-eternidade das pré-eternidades, sendo um atributo que mata e restaura a vida, conforme a interpretação de Massignon do poema de al-Hallaj.
  • A frase atribuída a al-Hallaj — “O Desejo, na pré-eternidade das pré-eternidades é o Absoluto; Nele, por Ele, dEle Ele aparece; nele Ele apareceu” — ilustra a natureza primordial e divina do desejo.
  • A declaração de Massignon a Mary Kahil sobre a Badaliya ser considerada uma ilusão ou um sonho de amantes serve como ponto de partida para compreender a noção de substituição mística como um ato de desejo extremo.

A figura central de al-Hallaj e sua influência sobre Massignon O místico muçulmano al-Hallaj, executado no século X, é apresentado como o centro do universo intelectual e espiritual de Massignon, a ponto de ser difícil separar um do outro.

  • Massignon chama al-Hallaj de “Cristo corânico” e acredita que ele teria morrido como um católico cristão devido à forma de seu suplício, ao mesmo tempo em que o considera “primeira e finalmente um muçulmano” e testemunha do Alcorão.
  • Al-Hallaj é descrito como o “amante perfeito” de Deus e sua declaração teofânica “Ana al-Haqq” (Eu sou a Verdade Criadora ou Eu sou o Real) é interpretada como uma expressão da união com o divino sem confusão de naturezas.
  • A vida e a obra de al-Hallaj fornecem um modelo para a abertura do eu ao outro, seja este humano ou divino, envolvendo uma hospitalidade que permite a transformação ou o apagamento completo de si mesmo.

Experiências fundadoras na vida inicial de Massignon A juventude e as primeiras viagens de Massignon, particularmente seu mergulho na língua e cultura árabe no Egito e no Iraque, estabeleceram os fundamentos para seus conceitos centrais de hospitalidade e abandono de si.

  • O encontro com o espanhol convertido ao Islã Luis de Cuadra ensinou a Massignon que “para compreender, é preciso se dar”, uma versão inicial de seu credo de que para entender o outro não é necessário anexá-lo, mas tornar-se seu hóspede.
  • As aventuras na “hospitalinguagem” incluíram um relacionamento intenso e erótico com Cuadra, descrito como “escravidão voluntária” e completo abandono ao desejo, onde a hospitalidade total poderia incluir amor e sexo como cura para a classificação rígida entre eu e outro.
  • A missão arqueológica perto de Bagdá terminou em uma crise nervosa quando Massignon foi ameaçado, resultando na “Visitação do Estrangeiro”, uma experiência onde Deus surge como o hóspede supremo e a linguagem falha totalmente, sendo reconstruída a partir dos nomes do próprio Massignon, de Jabbūri (que representa o desejo) e de al-Hallaj.

A verdade criadora e a natureza performática da linguagem A verdade divina é compreendida como a própria capacidade criadora de Deus (“Veritas Creatrix”), uma noção que, quando internalizada pelo asceta, o torna incapaz de não se expressar e de não testemunhar.

  • A frase “É como Criador que Deus é verdade” fundamenta a visão de que o “al-Haqq” (o Real, a Verdade Criadora) se opõe à criação (“al-Khalq”) e é a substância criativa divina pura, transcendendo atributos ou acidentes.
  • A disciplina ascética, incluindo jejum e práticas orais, serve para limpar a alma e prepará-la para receber o “hulul” (descida do espírito divino), que imprime a graça no coração do místico, transportando-o a um estado de unidade permanente de ser.
  • Para al-Hallaj, a experiência da verdade criadora leva à expressão involuntária (“a expressão é vômito”), e a recitação da basmala (“Em nome de Deus”) é vista como a atualização do fiat criativo divino (“Sê!”), concedendo ao hóspede divino o direito sagrado de asilo e hospitalidade.

Desejo como alfa e ômega da existência O desejo (“‘ishq”) não é apenas um mecanismo central na relação do Islã com Deus, mas é identificado como o próprio ser de Deus, sendo o começo e o fim da criação, uma visão que coloca al-Hallaj em oposição direta aos teólogos de sua época.

  • Al-Hallaj é descrito como “um homem de desejo”, cujo misticismo é orientado por esse desejo, e a ideia de que aqueles que são mortos pelo desejo recebem a vida eterna é central para interpretá-lo como mártir e testemunha messiânica.
  • Em contraste, Ibn Dawud, o promotor no julgamento de al-Hallaj, via o amor como uma doença diagnosticável por sinais externos, inaplicável a Deus, enquanto al-Hallaj reinscreve o desejo como algo infinito, incognoscível e identificado com o próprio ser de Deus.
  • A mensagem de al-Hallaj é descrita como uma “psicagogia”, um termo que evoca tanto a liderança de almas quanto a necromancia, sublinhando os aspectos incontroláveis de um processo que visa não apenas purificar indivíduos, mas restaurar uma ordem social caída através de uma síntese de luta e voto, ação e desejo.

A hospitalidade e a língua árabe como estruturas de acesso ao outro A língua árabe, com sua estrutura de raízes triliterais e involução (“tadmin”), é apresentada como um meio privilegiado para a verdade (“al-Haqq”) precisamente por evocar constantemente a ausência e inacessibilidade de Deus, exigindo uma completa descentração do sujeito.

  • A verdade contida no árabe é a inacessibilidade de Deus, e ele é descrito como a língua das lágrimas daqueles que sabem que, se Deus vem, é como um Estranho que interrompe a vida normal.
  • O método para entender o outro envolve uma “descentração copernicana”, onde o sistema de coordenadas retangulares (centrado no eu) é substituído por coordenadas polares centradas no eixo do outro, uma operação análoga ao que al-Hallaj chamava de “aproximar-se das coisas nelas mesmas” através da substituição interna.
  • A salvação de Massignon como hóspede dos árabes no Iraque o ensinou a “religião da hospitalidade”, cujas regras de asilo (“dakhilak”) devem fundamentar o aprendizado de qualquer língua, pois a linguagem é exogâmica e a saudação ao estrangeiro é o próprio começo da linguagem e da hospitalidade.

Hospitalidade, testemunho e ação política contra o colonialismo A conexão entre hospitalidade, verdade (“Satyagraha”) e ação política é desenvolvida através da leitura de Gandhi, fornecendo a base para uma posição anticolonial que rejeita tanto o comunismo materialista quanto o capitalismo em favor de uma abertura ao sagrado.

  • Massignon introduz as ideias de Gandhi ao público francófono em 1921, destacando o “Satyagraha” (apego à verdade) como um princípio que aproxima Gandhi de al-Hallaj, formando um programa espiritual de libertação e justiça política.
  • A unidade é o valor que preside esse processo, manifesto na união entre o divino e o humano (al-Hallaj) e entre os povos (Gandhi), e a “hospitalidade sagrada” é apresentada como a única obra de misericórdia, que confia no Hóspede (Deus) que se coloca à mercê do anfitrião.
  • A crítica ao colonialismo europeu é central: o colonizador participa das cerimônias de saudação e hospitalidade como um ritual mágico, enquanto para o muçulmano são atos canônicos de sua religião abraâmica, mostrando que o europeu esqueceu a Bíblia e o pacto divino selado com Abraão.

A dimensão feminina da hospitalidade e a defesa da Terra Santa A hospitalidade está intrinsecamente ligada ao feminino, exemplificado por Maria e Fátima, e à recusa da partilha violenta da Terra Santa, que deveria ser um “jardim de infância da humanidade reconciliada” regido pelo direito universal de asilo.

  • Na vida do homem, a mulher representa a visitação do Estranho e o signo da hospitalidade, substituindo o parentesco legal patrilinear por uma genealogia espiritual matrilinear, cujo ápice é a conceição virginal de Maria.
  • A hospitalidade é o modo de ser da unidade entre a natureza divina e a humana, e o hóspede (sempre divino para Massignon) abre futuros inesperados, mantendo vivo o núcleo sagrado do mundo.
  • Massignon opõe-se veementemente à partição da Palestina, propondo que Jerusalém tenha o estatuto de metrópole mundial e sede da ONU, rejeitando o “choque de culturas” e afirmando que a soberania terrestre se adquire mais propriamente pela obediência aos preceitos divinos (como a hospitalidade de Abraão) do que pela despossessão violenta do outro.

Conclusão sobre a não conversão e a preservação das diferenças Apesar de sua profunda imersão no Islã, Massignon não se converteu a ele porque sua doutrina da Verdade era fundamentalmente cristã, e sua hospitalidade do desejo depende da manutenção das diferenças em um “mosaico” de humanidade reconciliada.

  • A preservação da convicção, nascida das visitas de muitos estranhos, depende da impossibilidade da certeza absoluta, mantendo em aberto a pergunta da Visitação do Estranho: “Qual de nós dois é o amante?”.
  • A mística da substituição (“Badaliya”) depende da absoluta irremplaçabilidade daqueles que são substituídos, e a abertura messiânica ao outro não implica uma fusão que abole as diferenças, mas um tornar-se hóspede e descentrar-se em direção ao eixo do Outro.
  • A questão sobre quem é o amante deve ser resolvida pelo aluno de Massignon, Corbin, através de uma fusão do crente e do observador, sugerindo que o pensamento de Massignon abre caminho para um projeto intelectual posterior.
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