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GNOSE

THE MYSTICS OF ISLAM. Reynold A. Nicholson. Routledge, Kegan Paul, London, 1914

Os sufis distinguem três órgãos de comunicação espiritual: o coração (kalb), que conhece Deus; o espírito (rūḥ), que O ama; e a parte mais recôndita da alma (sirr), que O contempla.

Adentrar-se-ia em águas demasiado profundas caso se pretendesse esclarecer o sentido desses termos e a relação que entre si mantêm. Julga-se suficiente dizer algo acerca do primeiro deles, kalb, que, embora ligado de modo misterioso ao coração físico, não constitui, na realidade, um órgão de carne e sangue. Ao contrário do que ocorre quando se interpreta figuradamente a palavra coração na linguagem corrente, o kalb é antes um órgão intelectual do que sentimental. A inteligência não pode alcançar um verdadeiro conhecimento de Deus; somente o kalb conhece as essências de todas as coisas e, quando a fé o ilumina e o conhecimento o esclarece, reflete o conteúdo total do pensamento divino; razão pela qual o Profeta diz: «Minha terra e Meu céu não Me contêm, mas encontro-Me encerrado no coração de Meu fiel servo».

Essa revelação constitui, contudo, uma experiência em certo sentido rara. O mais comum é que o coração esteja “velado” ou obscurecido pela negrura do pecado, embaciado pelas imagens e impressões sensíveis, agitado entre a razão e a paixão: é como um campo de batalha no qual lutam pela vitória os exércitos de Deus e os do Demônio. O coração recebe por uma porta o conhecimento imediato de Deus; por outra, precipita-se nas ilusões dos sentidos. «Um mundo de cada lado, e eu me sento no limiar», como dizia Jalaluddin Rumi. Por isso o homem é, em potência, inferior ao bruto e superior ao anjo:

O anjo e o bruto constituem a admirável mistura do homem; inclina-se ao bruto, e torna-se inferior a ele; aspira assemelhar-se ao anjo, e o ultrapassa.

É inferior ao bruto porque este carece do conhecimento que lhe permitiria elevar-se; é superior ao anjo porque este não está sujeito à paixão nem à queda.

Como conhecerá o homem a Deus? Não por meio dos sentidos, pois Ele é imaterial; nem pelo entendimento, porque é impensável. A lógica jamais transcende o finito; a filosofia contempla apenas o dual; a ciência dos livros estimula e alimenta a ilusão do eu e obscurece a ideia da Verdade sob nuvens de palavras vãs. Dirigindo-se aos teólogos escolásticos, pergunta Jalaluddin Rumi, em tom depreciativo:

Conheceis um nome ao qual não corresponda alguma coisa? Arrancastes alguma vez uma rosa de R.O.S.A.? Se pronunciais Seu nome, ide buscar a realidade a que a palavra se refere.

Buscai a lua no céu, não no mar. Se desejais elevar-vos acima dos meros nomes e letras, libertai-vos de vós mesmos, de uma só vez. Purificai-vos de todos os atributos do eu, para que possais contemplar vossa própria essência de luz.

Sim, contemplai em vosso coração o conhecimento do Profeta, sem livro, sem mestre, sem guia.

Esse conhecimento advém ao homem por iluminação, revelação e inspiração. «Olhai em vosso coração», diz o sufi, «porque o Reino de Deus está dentro de vós».

Aquele que verdadeiramente se conhece, conhece a Deus, porque o coração é um espelho no qual se reflete a qualidade divina. Contudo, assim como o aço polido perde seu poder de reflexão quando se cobre de ferrugem, assim também o sentido espiritual íntimo, aquilo que os sufis denominam o olho do coração, permanece obscurecido à luz da glória celeste enquanto não se dissipa inteiramente a nuvem sombria do eu aparente, com todas as contaminações dos sentidos. Para que tal purificação se realize de modo efetivo, é necessária a operação divina, ainda que se exija certa interiorização por parte do homem, em cooperação com a obra de Deus. «A quem quer que combata por nossa causa, guiá-lo-emos por nossos caminhos» (Corão, 29, 69). Falsa e vã é a ação quando se crê que procede de si mesmo; o místico iluminado, ao contrário, considera que Deus é o verdadeiro agente de toda ação, e por isso não atribui importância às suas boas obras nem deseja recompensa por elas.

A palavra ʿilm emprega-se para designar o conhecimento no sentido comum, mas, quando se trata do conhecimento místico, os sufis utilizam o termo maʿrifat ou ʿirfān. Já se indicou anteriormente que maʿrifat difere fundamentalmente de ʿilm, razão pela qual se deve empregar outro vocábulo para traduzi-lo. Não é necessário procurar longamente um equivalente adequado, pois o maʿrifat dos sufis corresponde à gnose da teosofia grega, isto é, ao conhecimento direto de Deus fundado na revelação e na visão apocalíptica. Não surge como fruto de nenhum processo mental, mas depende inteiramente da vontade e do favor divinos, que o concedem como graça àqueles seres criados com a capacidade de recebê-lo. Trata-se de um fulgor da graça divina que irrompe no coração e anula toda outra faculdade humana com o brilho ofuscante de seu raio. «Aquele que conhece a Deus permanece em silêncio».

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