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mitologia:vernant:1997:1

1 Ulisses em pessoa

FRONTISI-DUCROUX, Françoise; VERNANT, Jean-Pierre. Dans l'œil du miroir. Paris: Éditions Odile Jacob, 1997. (Coleção “Le temps de la pensée”).

1. No primeiro amanhecer de seu retorno a Ítaca, depois de vinte anos de provações, errâncias e sofrimentos, Ulisses desperta na praia onde os marinheiros feácios o deixaram adormecido, diante de uma paisagem facilmente imaginável e já duas vezes descrita, a enseada cercada por dois promontórios rochosos, a grande oliveira, a ampla gruta abobadada onde outrora oferecia sacrifícios às Náiades e, dominando a baía, o monte Nérito coberto de bosques.

2. Ao abrir os olhos, Ulisses permanece cego para o cenário tantas vezes percorrido, pois Atena derramou à sua volta uma nuvem para que não reconhecesse nada, de modo que portos, rochedos, trilhas e árvores lhe parecem estranhos e ele, de pé diante da terra paterna, lamenta-se de ter sido novamente lançado num país desconhecido, talvez entre um povo selvagem e malfazejo.

3. O herói celebrado desde os primeiros versos como aquele que viu e conheceu tantos países e povos e cuja ideia fixa era ver os seus e sua casa sofre, na hora do reencontro com Ítaca, um desconhecimento súbito, ou antes uma metamorfose do olhar que converte as formas familiares e tranquilizadoras do lar, evocado nostalgicamente por Du Bellay, num espetáculo desconhecido e inquietante, fenômeno que exige explicação.

Feliz quem como Ulisses…

1. A nuvem com que Atena envolve Ulisses em Ítaca repete um gesto anterior, pois quando um deus cobre alguém de nuvem é para escondê-lo e torná-lo invisível, como fez a deusa na Feácia, disfarçada de menina, ao guiá-lo invisível até a sala de Alcínoo e só dissipar a nuvem quando ele já abraçava os joelhos da rainha Arete, surgindo subitamente diante dos espectadores maravilhados e silenciosos.

2. Em Ítaca, porém, a mesma nuvem não torna Ulisses invisível ao olhar alheio, mas torna outro aquilo que seu próprio olhar vê.

3. Se a névoa da Feácia responde a evidentes exigências de segurança, a ordem de Atena para que Ulisses não olhe ninguém de frente revela que a invisibilidade só é plena sob a condição de não cruzar o olhar de quem poderia vê-lo, pois entre ver e ser visto impõe-se uma reciprocidade tão rigorosa que a melhor maneira de escapar à vista de alguém é não procurar também encará-lo, fazendo-se cego para quem não deve, ao vê-lo, conhecê-lo.

4. Em Ítaca não se trata de permanecer invisível, mas de mudar inteiramente de aparência para ser tomado por outro, estrangeiro na própria casa, visto em carne e osso sem jamais ser identificado, de modo que Ulisses, ao ver enfim os seus, deve entrar na pele de outro, deixar de ser ele mesmo e tornar-se irreconhecível até para os mais íntimos, pois a nuvem visa a que nem esposa, nem povo, nem amigos o conheçam antes que puna a violência dos pretendentes.

5. Assim como na Feácia a invisibilidade exigia não olhar o rosto alheio, em Ítaca o incógnito exige, em contrapartida, que o olhar de Ulisses desconheça o cenário mais familiar de sua ilha, e Atena, antes de dissipar a nuvem, precisa pô-lo à prova para certificar-se de que ele, ansioso por ver os seus, saberá assumir intimamente a aparência e a pessoa de um estrangeiro e jogar até o fim sem falha o jogo da alteração, quando então lhe mostra o porto de Fórcis, a oliveira, a gruta das ninfas e o Nérito e a terra se deixa ver.

6. No mundo de Ulisses, sociedade do face a face e cultura da vergonha e da honra em que cada um só se conhece no espelho da imagem que os outros lhe devolvem, o estatuto social e pessoal é inseparável do aparecer, isto é, da maneira como se é visto, conhecido e reconhecido em seu nome, origem e valor, de modo que mudar de identidade exige não apenas trocar nome, pátria e roupas, mas tornar irreconhecível o prósopon, o rosto apresentado de frente à vista, e o corpo inteiro com sua estatura e porte, numa dissemblança em relação a si mesmo que pode operar-se para cima, por sobreassimilação que realiza o herói como “semelhante a um deus”, ou para baixo, por subassimilação que o desfigura até perder a figura humana e não ser mais ninguém.

7. Para cada pessoa existe, a partir da forma comum de seu aparecer, uma margem de variação em dois sentidos, cujos limites extremos são a restauração completa de sua figura na plenitude de seus valores, à semelhança de um deus, e a degradação total na indignidade de uma completa dissemblança em relação ao humano.

8. Partindo da ilha de Calipso em sua jangada e navegando dezessete dias sem dormir, com os olhos fixos nas estrelas, Ulisses avistou as costas da Feácia no décimo oitavo dia, quando Poseidon o viu e desencadeou a tempestade que o teria matado se Ino Leucoteia não o socorresse, e, após dois dias à deriva, alcançou a terra com a alegria de filhos que veem reaparecer um pai após longa doença, escondendo-se sob folhas para não ser surpreendido, até que Atena lhe derramou nos olhos o sono como nuvem escura.

9. Despertado pelos gritos das servas de Nausícaa, Ulisses saiu do mato como leão montanhês, horrível e com o corpo arruinado pelo mar, fazendo fugir todas exceto a princesa, a quem encantou com palavras que desmentiam sua aparência sórdida, comparando-a à jovem palmeira de Delos, e Nausícaa, julgando-o nem vilão nem tolo, deu-lhe roupas e óleo, e após o banho que o purificou da sujeira, Atena o fez parecer maior e mais forte, derramando-lhe graça sobre a cabeça e os ombros como artista que funde ouro sobre prata, de modo que voltou à praia radiante de beleza.

10. A passagem do Ulisses horrendo como leão de olhar assassino ao Ulisses radiante de graça opera-se em dois tempos, primeiro pela limpeza higiênica que restitui ao corpo seu aspecto normal e depois por um acréscimo que só a divindade pode dar, pois o mesmo poder que permite a Atena derramar sobre um homem a nuvem que o esconde ou adormece permite-lhe derramar sobre ele um fluxo de luz que o faz parecer maior, mais belo e mais esplêndido.

11. Nausícaa resume a metamorfose na fórmula de que o homem antes lhe parecia aeikelios, dessemelhante e inconveniente, e agora semelhante aos deuses, mostrando que para voltar a ser plenamente ele mesmo Ulisses deve parecer mais que ele mesmo, enquanto a degradação oposta é a que visa a aeikía, o ultraje ao cadáver inimigo, que, ao entregá-lo a cães e aves, arrastá-lo na poeira como Aquiles fez com Heitor ou deixá-lo apodrecer ao sol, privado dos ritos da bela morte e da glória imperecível, busca reduzir sua figura ao grau zero da conveniência e da semelhança e destruir inteiramente sua identidade e seu valor.

12. A desfiguração de Ulisses diante das servas não atingira o grau extremo e ocorrera sem sua vontade, ao passo que em Ítaca Atena precisa estar convencida de que ele está decidido a disfarçar seus traços e assumir a identidade de um velho mendigo miserável, arte em que o mentiroso consumado já provara sua mestria, como narra Helena a Telêmaco ao contar como, ferido por golpes desfigurantes e vestido de farrapos, semelhante a um escravo, ele penetrou em Troia sem ser reconhecido por ninguém senão por ela.

13. O relato da espionagem em Troia funciona como prelúdio ao retorno de Ulisses, quando Atena o torna aeikelios, como antes e depois o torna semelhante aos deuses, murchando-lhe a pele, fazendo cair seus cabelos loiros, cobrindo-o de farrapos horrendos e turvando-lhe os belos olhos, de modo que o mendigo que encarna, antípoda do herói de excelência, com rosto desfigurado, valor aviltado, brilho obscurecido e honra aniquilada, não é verdadeiramente ninguém para quem o olha.

14. Ninguém, Outis, foi o nome que Ulisses escolheu para enganar o Ciclope, mas sob ele transparece, num jogo de palavras irônico, a métis, a inteligência astuta que lhe dá o poder de enganar e disfarçar-se, privilégio seu na terra como de Atena entre os deuses, de modo que aquele que não é ninguém é o próprio Ulisses de mil astúcias.

15. Desembarcados junto à caverna do Ciclope, Ulisses e doze homens saqueiam queijos e cabritos, mas ele, contra os apelos dos companheiros para fugir, insiste em ver o morador e conhecer seu caráter, exigência de saber de visu da qual vêm todas as desgraças, pois o Ciclope, ao chegar e vê-los, ouve a resposta prudente e mentirosa de Ulisses sobre um navio despedaçado e um pedido de hospitalidade, devora dois homens de imediato e repete o banquete no dia seguinte, enquanto Ulisses prepara o plano de fuga.

16. A armadilha montada contra o Ciclope compreende, dentro da gruta, o vinho e a embriaguez, o nome Outis que torna Ulisses indiscernível, o sono do monstro e a estaca em brasa que destrói seu olho único, e fora dela a fuga, o embarque e a bravata final em que Ulisses revela seu verdadeiro nome, passando de dentro para fora escondido com os companheiros sob o ventre dos carneiros, na espessa nuvem lanosa, onde o Ciclope cego não pensa em procurar, pesando mais no carneiro favorito não o corpo de Ninguém, mas os pensamentos densos e sem falha que fazem de Ulisses o herói da métis, não mais Ninguém, mas Ulisses em pessoa.

17. O drama do Ciclope, apesar do horror dos banquetes canibais, comporta um aspecto cômico, lembrado por Eurípides, centrado no fato de que Ulisses, como o poeta da Odisseia, manipula procedimentos linguísticos para inverter uma situação desesperada, pondo a palavra em contato direto com o real, pois ao adotar um nome falso adequado que o define ocultando-o modifica seu aparecer tão eficazmente quanto em Troia com os golpes desfigurantes, já que nome, rosto, aspecto visível, honra e glória estão tão ligados que não se pode agir sobre um sem transformar o conjunto.

18. Encantado com o vinho, o Ciclope esboça uma relação humana de hospitalidade e pede o nome de Ulisses para dar-lhe um presente, pois a troca hospitaleira que une dois estrangeiros como parentes exige que cada um saiba quem é o outro, como Alcínoo exigira de Ulisses, sem astúcia, seu nome, terra e povo antes de lhe dar os dons de partida, ao que Ulisses respondera revelando-se como filho de Laertes famoso por suas astúcias, ao passo que ao Ciclope declara chamar-se Ninguém, nome pelo qual o chamariam pai, mãe e companheiros.

19. As duas declarações de identidade respondem-se como espelhos opostos, embaralhando a realidade de Ulisses, pois quando diz sem disfarce seu verdadeiro nome deve mencionar suas astúcias, inseparáveis de sua glória, e quando mente sob o nome de Outis revela pelo jogo outis-métis o espírito astuto que o torna conforme ao que é no mais profundo, de modo que esse nome “conhecido” é falso mas verdadeiro, evocando também o kléos, a fama de Ulisses no presente e no futuro, e se ele é o enganador incorrigível que Atena zomba em Ítaca, é quando mente sobre si que diz sua própria verdade, segundo fórmulas paradoxais apreciadas pelos gregos.

20. Indiferente a sutilezas como o paradoxo do mentiroso de Epimênides, o Ciclope responde que comerá Ninguém por último como presente de hospitalidade, sem saber quanto acerta, e, cego, ao chamar os vizinhos dizendo que Ninguém o mata, ouve deles que, se ninguém o violenta, nada podem fazer, e partem enquanto Ulisses-Ninguém ri em seu coração.

21. Já fugindo no navio, Ulisses não resiste a provocar o Ciclope, que lança rochas cegamente em direção à voz, e numa última zombaria revela-lhe sua verdadeira identidade, filho de Laertes, saqueador de Troia, homem de Ítaca, para que o nome do inventor da brilhante astúcia não se perca na obscuridade do esquecimento.

22. Ninguém não se apaga diante de Ulisses com sua métis como a ilusão diante da verdade, pois o Ciclope, lembrando a profecia de que seria cegado por Ulisses, não desconfiou porque aquele que se dizia Ninguém era de fato um nada, e, mesmo ao ouvir a voz do verdadeiro Ulisses, continua a julgá-lo um homenzinho fraco e insignificante, em vez do homem grande, belo e forte, semelhante a um deus, que esperava, de modo que, na evidência de seu aparecer, quem o venceu não era verdadeiramente ninguém.

23. Ulisses, que não era ninguém, deverá voltar a sê-lo e permanecer assim durante anos e até em seu retorno, para pagar o olho que matou pela astúcia, enfrentando a cólera de Poseidon, pai de Polifemo, que atenderá à prece de impedir seu retorno ou, se seu destino for rever os seus, fazê-lo voltar após muitos males, com todos os companheiros mortos, num navio estrangeiro e para encontrar novas dores em casa.

24. As errâncias infinitas de Ulisses partem desse olho cegado, como indicam Zeus, Tirésias e Atena, que justifica seu abandono do protegido pela recusa em combater Poseidon, e conduzirão os gregos a ofender o olho por excelência, o Sol, fonte de toda luz e visão, provocando uma maldição que o próprio Zeus assumirá.

25. Ao deixar a ilha do Ciclope, Ulisses entra num mundo de lugar nenhum, um espaço do além em que, assim como Polifemo foi apartado da luz por sua mão, ele é apartado do universo dos homens comedores de pão, onde cada um existe sob o olhar alheio com rosto, nome, reputação e estatuto, permanecendo por dez anos dado por desaparecido, solitário, desconhecido, escondido de todos os olhares, abandonado até por Atena, sem nome nem glória, como engolido pelo invisível, privado de identidade, anônimo e estrangeiro até em seu retorno.

Do mundo de Lugar Nenhum à boca das trevas

1. Ao abordar o país dos Ciclopes, Ulisses atravessa uma fronteira rumo a um outro mundo, fora das rotas marítimas e inacessível aos pilotos, cujos seres isolados são a figura do inalcançável, de modo que perder-se ali é menos enfrentar tempestades e povos hostis do que explorar, nas margens do mundo, os limites extremos da condição humana de criatura civilizada, mortal, vivente, vidente e visível à luz do dia, pondo à prova em cada etapa seu enraizamento, fidelidade, estatuto e identidade, até os confins dos Cimérios onde se abre a boca das trevas, e o que está em jogo é a divisão em polos contrastados das referências que orientam a existência terrestre, luz e treva, dia e noite, vigília e sono, memória e esquecimento, aparecer e ocultar-se, glória e desprezo, brilhar como um deus ou apagar-se na vergonha.

2. Tudo muda na viagem quando a frota dobra o cabo Maleia, pois Ulisses, julgando-se prestes a chegar a casa, é arrebatado por ventos mortais durante nove dias rumo a outro espaço, o dos Lotófagos, e o Maleia funciona, segundo François Hartog, como a câmara de passagem do espaço humano dos comedores de pão ao espaço não humano dos relatos feitos a Alcínoo, enquanto antes dele os episódios dos Cícones, com pilhagem, batalha, derrota, mortos e tempestade, seguiam o curso esperado das guerras entre homens e das vicissitudes do mar.

3. Os Lotófagos não atentam contra a vida dos estrangeiros, mas lhes oferecem seu alimento de flores doce como mel, primeiro afastamento do regime alimentar humano que marcará todos os seres encontrados depois, Ciclopes, Lestrigões, Circe e Calipso, e os três gregos que o provam deixam de ser o que eram, esquecendo família, pátria, companheiros, missão e o próprio desejo de retorno, querendo ficar ali para sempre, até que Ulisses os embarca à força.

4. Além do Maleia, o esquecimento implica reciprocidade como o olhar, pois esquecer o retorno e os seus é também sair da memória daqueles que deixaram de habitar seu pensamento, ficando apartado do próprio mundo e engolido, seja corajoso ou covarde, nobre ou vilão, nas trevas da multidão anônima dos não memoráveis, os “sem nome”, desaparecidos inteiramente do horizonte dos vivos por não terem deixado rastro de sua pessoa e glória.

5. A pequena ilha vizinha à terra dos Ciclopes é um lugar noturno e invisível ao olhar dos pilotos, onde os gregos abordaram guiados por algum deus em meio à névoa, sem lua e sem ver as ondas antes de encalhar, de modo que a aventura que desencadeará a vingança de Poseidon começa mais como conto de fadas do que como relato de viagem, sem nada da arte náutica que Ulisses demonstra em outros momentos, como quando conduz o leme por nove dias até avistar Ítaca ou quando, sozinho, guia sua jangada pelas estrelas até ver surgirem os montes da Feácia.

6. Os deuses do Olimpo vivem eternamente jovens numa luz inalterável e os deuses infernais e a multidão dos mortos numa obscuridade compacta, enquanto a vida humana se divide em fases alternadas de dia e noite e cada homem traz em si uma parte noturna, sono, esquecimento, velhice, morte, cegueira do espírito, feiura, indignidade, e o maior perigo para a identidade de Ulisses é que essas potências de obscurecimento, internas e externas, estendam sua sombra até ocultar toda a luz que o torna visível e vidente.

7. Depois da tempestade e do Ciclope, quando, graças a Éolo, Ulisses vê enfim bem perto a terra da pátria, um doce sono cobre de trevas seus olhos exaustos de vigília.

8. Com Ulisses adormecido, os companheiros desatam o odre em que Éolo prendera os ventos, e as rajadas reconduzem a frota à ilha flutuante cercada de bronze, onde Éolo, que antes o acolhera e honrara como testemunha dos feitos de Troia, agora o expulsa como o mais vil dos viventes, odiado pelos deuses, de modo que Ulisses, mergulhado no sono no momento em que via Ítaca, reembarca como ninguém, sem guia algum num horizonte desconhecido.

9. A mesma falha atinge o olho do chefe na ilha do Tridente, onde pastam as vacas do Sol, com preço muito maior, a morte de toda a tripulação, apesar da advertência de Tirésias de que a única chance de retorno era respeitar o rebanho de Hélio, olho divino que tudo vê e tudo torna visível, mantendo sempre o retorno na memória mesmo sob a fome e o desejo de carne.

10. O episódio das vacas do Sol está sob o signo de quatro potências obscuras que a Noite, segundo Hesíodo, gerou sozinha de sua própria substância tenebrosa, a Morte, o Sono, o Esquecimento e a Fome.

11. Após Caríbdis e Cila, os sobreviventes exaustos rejeitam a proposta de Ulisses de evitar a ilha do Sol, e por boca de Euríloco fala o ventre, o gaster odioso e fonte de todo mal segundo Homero, exigindo comer e obedecer à noite negra, de modo que Ulisses cede, impondo o juramento de não tocar no rebanho e comer apenas o pão e o vinho dados por Circe.

12. Retidos um mês na ilha pelo vento Noto, os homens respeitam o rebanho enquanto há pão e vinho, mas, esgotadas as provisões e reduzidos a caçar aves e pescar, sofrem a fome que lhes torce o ventre, e Ulisses, afastando-se para rezar aos deuses, recebe deles nos olhos o mais doce dos sonos.

13. Com Ulisses adormecido, Euríloco, esquecido do juramento e do retorno, convence os companheiros a abater as vacas para não morrer de fome, e Ulisses desperta com o cheiro das carnes assadas, lamentando o sono cruel, enquanto Hélio ameaça ir brilhar para os mortos no Hades se não for vingado do sacrifício invertido de homens reduzidos a ventres entregues à Fome, filha da Noite, e Zeus, após seis dias de banquete apesar dos prodígios, fulmina o navio em alto-mar, deixando os corpos a flutuar como gralhas e Ulisses sozinho, levado de volta a Caríbdis e Cila, isolado de toda presença humana até a Feácia, fora de todo vínculo social, ninguém.

Luz da lembrança, obscuridade do esquecimento

1. Perder a identidade, para um grego arcaico, significa apagar as marcas que conferem ao indivíduo o estatuto humano, nome, terra, pais, linhagem, passado e glória, sem as quais todo mortal, por grande que seja, deixa de ser ele mesmo, sem lugar no mundo dos comedores de pão, e sua figura, nome e memória afundam na mesma Noite em que mergulham os mortos sem rastro, fantasmas sem rosto nem lembrança perdidos na multidão dos “sem nome” opostos por Hesíodo aos heróis brilhantes.

2. Não ter nome, como lembra Alcínoo, é estar fora da humanidade como um animal, prova imposta por Circe aos companheiros de Ulisses, a quem oferece uma bebida enfeitiçada para apagar a lembrança da pátria e, com um toque de varinha, transforma em porcos, mantendo intacto neles o nous, a capacidade de pensar, de modo que, perdida a identidade humana, não se tornam verdadeiros animais e, restituídos à forma por Ulisses graças ao antídoto de Hermes, reconhecem-no de imediato, sinal de que a metamorfose animal não vai tão longe quanto a morte, que priva os fantasmas de todo conhecimento, exceto Tirésias, que conservou o espírito no Hades porque, cego à luz em vida, via o invisível e circulava como Hermes entre o dia dos vivos e a noite dos mortos, conhecendo o presente, o passado oculto e o futuro.

3. Encerrados em corpos de animal, os companheiros enfeitiçados vivem um entre-dois semelhante, nem homens nem bichos, esquecidos do retorno mas com o mesmo nous vigilante, e essa experiência extrema na fronteira do humano funciona como renovação iniciática que exige passar por uma morte fictícia, pois, restituídos, aparecem mais jovens, belos e altivos do que antes e lembram a Ulisses, no momento certo, que é hora de recordar a pátria.

4. Quando esquecem novamente o retorno ao devorar as vacas de Hélio, a punição é imediata e sem apelo, pois, fulminados por Zeus, desaparecem inteiramente no invisível, sem sepultura nem rastro na terra, seus cadáveres flutuando como gralhas entre os destroços.

5. O episódio de Calipso forma par com o de Circe, duas deusas que quiseram reter Ulisses como esposo e que ele recusou, aventuras paralelas que não se repetem, mas se iluminam pelo contraste e se completam mutuamente.

6. Ulisses narra em detalhe a etapa em Circe, mas menciona apenas de modo breve e alusivo os sete anos com Calipso, conhecidos pela narração objetiva do poeta, pois Calipso ocupa lugar central na economia da Odisseia, lida como o percurso de Calipso a Penélope passando por Nausícaa, tema anunciado desde o primeiro canto e resolvido pela decisão dos deuses reunidos no Olimpo, na ausência de Poseidon, de enviar Hermes para ordenar à ninfa que liberte Ulisses.

7. A etapa em Circe é um acidente de percurso que diz respeito mais aos marinheiros que a Ulisses, a quem a ninfa queria transformar em porco, e ilustra sua astúcia e sangue-frio ao inverter a situação, restituir a identidade humana aos companheiros e conquistar a benevolência inalterável da antiga inimiga, que os deixa partir sem objeção, dá conselhos e provisões, envia o vento rumo ao país dos Cimérios e, no retorno dos Infernos, os reconforta e prevê os perigos do caminho.

8. Na ilha de Calipso, ao contrário, é Ulisses sozinho que é posto em questão em sua identidade e estatuto humano, recolhido como náufrago exausto por uma deusa que deseja apenas um face a face amoroso infinito na solidão, um eros estranho aos deuses e aos homens que a exclui do divino e a lança fora do mundo, onde já estava em sua ilha nos confins, longe de cidades e do Olimpo, a “escondida” e “a que esconde”, cujo idílio só pode durar em segredo, até que Hermes chega com a ordem de Zeus e ela, obedecendo, denuncia o ciúme dos deuses, que não suportam ver uma deusa partilhar abertamente o leito com um mortal.

9. Para Ulisses, a existência clandestina naquele recanto perdido rompe todos os vínculos que manifestavam sua identidade, natural de Ítaca, filho de Laertes, esposo de Penélope, saqueador de Troia famoso por suas astúcias, e Calipso, para que aceite permanecer incógnito, oferece-lhe imortalidade e juventude eterna em troca do esquecimento do retorno, da pátria, da esposa e do passado, de modo que, apagado da memória dos homens presentes e futuros, renunciaria a provações, feitos e fama, enterrados com ele no silêncio, sem que ninguém os pudesse cantar.

10. Circe impunha aos simples marinheiros o esquecimento do retorno excluindo-os da condição humana por uma metamorfose para baixo, em animais, ao passo que Calipso nada impõe a Ulisses.

11. Calipso propõe a Ulisses um pacto, fazê-lo sair da condição humana por cima, livrando-o das enfermidades mortais e tornando-o deus, ao preço de que seu nome e sua pessoa permaneçam ignorados em vez de celebrados, numa não morte impessoal e anônima como a multidão obscura dos mortos sem memória, quando, segundo Píndaro, nenhum feito deve ficar escondido no silêncio, de modo que, se Ulisses ficasse escondido e eternamente jovem com Calipso, não haveria Odisseia para cantar suas aventuras de geração em geração.

12. O dilema de Ulisses é inequívoco, entre instalar-se num cotidiano de amor interminável, sem desgaste nem morte, mas sem o brilho da glória, ou voltar à dura vida dos homens, com provações, sofrimentos, velhice e morte inevitáveis, mas com a garantia de uma glória imortal além da morte.

13. Recluso na ilha de Calipso, Ulisses não é nem vivo entre os vivos nem morto entre os mortos, mas está fora do jogo, já apartado da memória humana, como diz Telêmaco a Atena disfarçada de Mentor, ao afirmar que os deuses fizeram de seu pai o mais invisível dos homens, desaparecido sem rastro como arrebatado pelas Harpias, sem túmulo nem herança de glória para o filho, eclipsado sem fama, o que para um herói que aspira à glória imperecível equivale a não ser ninguém.

14. Na ilha que parece a Hermes um paraíso em miniatura, Ulisses não está na gruta, mas chora no promontório onde passa os dias, imune às seduções e encantamentos com que Calipso tenta fazê-lo esquecer Ítaca, desejando apenas ver a fumaça subir de sua terra, revelando-se na prova decisiva o herói da memória e da fidelidade aos seus, ao passado e a si mesmo, enraizado em sua vida mortal e em seu destino singular de criatura efêmera.

15. Sentado num rochedo diante do mar, na ilha onde uma palavra bastaria para torná-lo imortal, Ulisses dissolve-se em lágrimas, deixando escoar seu aiôn, sua seiva vital, pela saudade da esposa, assim como Penélope, no outro extremo do casal, consome o seu chorando por ele, e, sem eros nem desejo pela ninfa, deita-se com ela por necessidade, ele que não a quer, ela que o quer, a ponto de, preso naquele isolamento de imortalidade, desejar apenas morrer.

16. Por decisão divina a situação se desbloqueia e Ulisses retoma o mar na jangada que construiu, iniciando ao chegar à Feácia, terra de passadores entre dois mundos, um caminho que o reconduz por etapas ao país dos homens e a seu palácio, tornando-se novamente ele mesmo através do olhar daqueles que reconhecerão no mendigo esfarrapado o próprio Ulisses, mas é no espelho dos olhos de Penélope, que lhe devolvem intacta sua imagem, que ele reconquista plenamente sua identidade heroica e seu lugar de esposo, pai e rei.

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