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mitologia:vernant:1997:2

2 Olho do espelho

FRONTISI-DUCROUX, Françoise; VERNANT, Jean-Pierre. Dans l'œil du miroir. Paris: Éditions Odile Jacob, 1997. (Coleção “Le temps de la pensée”).

I Espelho, espelhinho…

1. Laís, cuja beleza esplendorosa o tempo murchou, não suporta nenhuma prova de sua idade e de suas rugas e, odiando o espelho, testemunha cruel de seu brilho passado, consagra-o a Afrodite, cuja beleza nada tem a temer do tempo, como companheiro de sua juventude.

2. O nome de Laís, cortesã cuja figura e carreira logo ganharam dimensões lendárias, aparece repetidas vezes na Antologia Palatina em epigramas fúnebres e epitáfios, remetendo a duas grandes heteras homônimas frequentemente confundidas, uma amante de Alcibíades e outra modelo do pintor Apeles e amante de Demóstenes, do filósofo Aristipo, que se arruinava por ela dois meses por ano, e de Diógenes, o Cínico, que a desfrutava de graça.

3. O poema sobre Laís pertence a um grupo de epigramas votivos que acompanham a dedicação de um espelho a Afrodite e celebram a aposentadoria da célebre cortesã, cuja beleza submeteu a Grécia invicta diante dos medos, e, embora tardio, obra de Juliano, prefeito do Egito sob Justiniano no século VI, segue fielmente a tradição de outros poetas que trataram o tema.

4. Num epigrama atribuído, de modo contestado mas sugestivo, a Platão, a cortesã que zombava da Grécia inteira com riso altivo e tinha à porta um enxame de jovens consagra seu espelho à deusa de Pafos porque não quer ver-se como é e não pode ver-se como era.

5. Os mesmos ingredientes compõem esses exercícios de virtuosismo, a mulher desejada por todos, o tempo que passa, a beleza arruinada e o espelho oferecido a Afrodite, padroeira das profissionais da beleza e do amor, e em epigramas menos convencionais sobre cortesãs obscuras, como Nícias aposentada aos cinquenta anos ou Calicleia que se casou, o espelho figura entre outros objetos funcionais e simbólicos da profissão, sandálias, cachos postiços, cinto dourado, fitas, sutiã transparente, pente e olisboi, mas goza de um estatuto à parte, como companheiro e amigo capaz de representar sozinho a mulher em sua relação com a beleza e o amor.

O mundo das mulheres

1. O espelho grego é coisa feminina, como atestam todos os testemunhos, a começar pelos próprios objetos, cujos cabos ou suportes têm frequentemente forma de mulher nua ou vestida, às vezes com pomba ou Amores, designando Afrodite, ou de sereia sedutora, sendo raras as figuras masculinas, em geral Eros quando aladas.

2. As imagens dos vasos confirmam essa relação exclusiva, mostrando o espelho apenas nas mãos das mulheres ou para definir um espaço feminino, e quando excepcionalmente um homem o segura trata-se de um presente de corte amorosa destinado a uma mulher, enquanto ao jovem rapaz se oferecem lebre, galo ou pernil.

3. Os textos explicitam a relação utilitária e quase física entre a mulher e seu espelho, num face a face permanente, como no poema anacreôntico em que o amante deseja ser espelho, túnica, água e perfume para tocar continuamente a amada, definindo o mundo feminino pela toalete e pelo adorno, numa submissão cortês rara e tardia na literatura grega, que na época clássica a condenava como feminização, e que coloca excepcionalmente a mulher como sujeito do olhar e o homem, amante-espelho, como objeto, embora mantenha como enunciador o domínio do discurso.

4. Os romanos partilhavam esse escrúpulo, como mostram Ovídio, que exorta os contemporâneos a não se envergonharem de segurar o espelho para a amada, evocando Hércules submisso a Ônfale, e a fábula de Fedro em que uma menina feia, ciumenta do irmão mais bonito, o denuncia ao pai por ter tocado numa coisa de mulher.

5. No plano simbólico, o espelho torna-se significante do feminino, como na Chave dos sonhos de Artemidoro, para quem o homem apaixonado sonha não com a amada, mas com cavalo, espelho, navio, mar, fera fêmea ou roupa feminina, lista que opõe elementos naturais e incontroláveis, como o mar e os animais selvagens, à mulher fera ou pantera como a cortesã, temida como Laís de selvageria rapace, a objetos fabricados, como o navio, metáfora do recipiente, e a roupa, metonímia do corpo, enquanto o espelho vale ao mesmo tempo como sinédoque, prolongamento da mão feminina, e como metáfora, já que a raça das mulheres descende de Pandora, joia perniciosa modelada e adornada pelos artesãos divinos, mais perigosa que o espelho de bronze que os homens se proíbem de olhar.

6. A lista de Artemidoro revela uma chave do imaginário masculino grego, que define a mulher não em simetria com o homem, mas como radicalmente outra, numa alteridade que oscila entre os polos da selvageria e do artifício, no qual o espelho ocupa posição extrema como objeto de luxo produtor de falsas aparências, duplos vãos, ilusórios e enganosos.

7. A intimidade entre mulher e espelho manifesta-se em seus aspectos mais misteriosos na afirmação de Aristóteles de que se forma uma nuvem sanguínea na superfície dos espelhos quando as mulheres se contemplam durante a menstruação, mancha indelével nos espelhos novos e lisos, de modo que o metal polido revela não tanto a beleza feminina, disputada pelo jovem rapaz aos olhos masculinos, quanto o sinal de sua diferença essencial e de uma alteridade irredutível.

Homens no espelho

1. Nas comédias de Aristófanes, as mulheres disfarçadas de cidadãos adotam manto e bengala dos maridos, ao passo que o espelho feminiza o homem, como o poeta Agathon, “homem-mulher” de rosto branco e cuidadosamente barbeado, cujo espelho, incompatível com o pelo masculino e destinado às cabeleiras femininas, figura entre robe, frasco, rede e sutiã, enquanto o parente de Eurípides, disfarçado de mulher contra a vontade, diz ver no espelho não a si mesmo, mas o notório invertido Clístenes, expressão da alienação e despersonalização que o espelho provoca no homem, e evoca com Ésquilo a estranha aliança do espelho e da espada, em que a espada designa o masculino trágico diante do espelho feminino.

2. Num epigrama galante bizantino, a oposição entre espelho e espada reaparece no amante que desembainha o gládio em sinal de submissão de Ares a Afrodite e se mira nesse companheiro seco e afiado como ele, consumido de amor, que lhe basta como espelho até libertá-lo de seus sofrimentos.

3. Homens que têm por armas apenas espelhos perdem o estatuto masculino, como os guardas asiáticos de Helena no Orestes de Eurípides, servos encarregados de espelhos e perfumes, provavelmente eunucos, tão covardes que Orestes renuncia a matar um ser que não nasceu mulher nem pertence aos homens.

4. Essas criaturas indecisas são bárbaros efeminados, mas a barbárie pode surgir numa cidade grega sob a forma da tirania, como em Cumas, onde um tirano, após eliminar os homens adultos, inverteu a pedagogia cívica criando os meninos como meninas, com vestes longas, cachos e flores, na sombra, entre preceptoras, amas e vasos de perfume, com o espelho como último instrumento de sua servidão.

5. Para o homem livre e cidadão o uso do espelho é raro e quase vergonhoso, pois sonhar com espelho anuncia ao homem uma mulher pública segundo Artemidoro e, para Sêneca, a natureza não nos deu a capacidade de nos ver para depilar a barba diante do espelho, e mesmo a exceção de Demóstenes, que mandou fazer um espelho de corpo inteiro para ensaiar seus discursos como diante de um mestre, uso profissional, não o livrou da acusação de homossexualidade passiva lançada por Ésquines.

6. O espelho do filósofo, outra infração tolerada, atravessa a Antiguidade, atribuído a Sócrates ou a Bias como recomendação aos jovens para que, belos, se tornassem dignos de sua beleza e, feios, a compensassem pela educação, mas esse álibi do conhecimento de si não desfez os preconceitos, como mostra Apuleio, que, acusado de possuir um espelho sendo filósofo, defende-se com argumentos embaraçados, louvando o espelho por refletir o movimento e a mudança e justificando seu uso masculino pela mesma razão que leva as mulheres a abandoná-lo com a idade, a necessidade de se ver envelhecer, enquanto Luciano zomba do cínico surpreendido com perfume, navalha, espelho e dados na sacola.

7. O homem só tem direito de ver o rosto no espelho no barbeiro e em público, onde pode dar livre curso à vaidade examinando o corte de cabelo, como descreve Plutarco, sem jamais tocar no espelho ou na navalha, instrumentos da profissão manejados pelo artesão, como no epigrama paródico em que um barbeiro tessálio abandona espelho, navalhas e tesouras para seguir os epicuristas, num jogo de palavras entre koureus e Epikouros, mas, faminto, volta ao ofício.

8. Quando o homem é convidado a mirar-se, o espelho só reflete feiura, rugas e calvície, como no poema helenístico em que as mulheres zombam do velho Anacreonte e no epigrama de Paladas, que, em vez de contemplar o rosto, prefere afogar a melancolia no vinho, pois é no vinho, no banquete em companhia viril e nas pinturas das taças que o homem grego encontra mais frequentemente seus espelhos.

9. O espelho é proibido sobretudo ao jovem rapaz, que na erótica antiga ocupa diante do adulto um papel paralelo ao da mulher, e no diálogo Amores atribuído a Luciano, enquanto o espelho integra o arsenal feminino de frascos e caixas de feitiços, o rapaz deve levantar-se cedo, lavar-se em água pura, andar de olhos baixos e dividir o tempo entre exercícios e estudo, tendo por espelhos as tabuinhas e os livros e depois os olhos do amante, em acordo com Platão, para quem o espelho masculino é o olho de outro homem, semelhante e igual, como Sócrates e Alcibíades se mirando um no outro e o amado que se vê no amante como num espelho, afirmando assim o valor pedagógico e formador da relação homoerótica.

Da identidade e dos sexos

1. Nas representações dominantes, o espelho grego não está associado ao conhecimento de si, que, salvo exceções filosóficas marginais, não passa por ele e parece até excluí-lo, já que a questão da identidade e do sujeito só diz respeito ao homem, a quem o espelho é proibido, interdição significativa, assim como sua reserva exclusiva à mulher, que pode revelar algo sobre uma inapreensível “identidade feminina” se se ultrapassar o discurso oficial masculino, detectando suas contradições e examinando como os gregos resolveram ou se recusaram a colocar a questão feminina.

2. O olho masculino, único espelho aceitável para o homem, não é inteiramente masculino, pois a imagem que se forma nele, o eídolon, é assimilada a uma figura feminina, e a pupila, sede da visão, chama-se em grego kórē, a moça, de modo que o cidadão viril que reserva à mulher a reflexividade do espelho e recusa o face a face consigo mesmo, preferindo mirar-se no alter ego, acaba por ver-se sob a forma frágil da mais inquietante figura do feminino, a jovem.

3. O espelho é constitutivamente ambíguo, pois, coisa feminina e signo discriminante do gênero, serve para denunciar o escravo bárbaro, exibir a feminização dos invertidos ou revelar, como à revelia, a parte feminina secretamente oculta em cada homem.

Beleza divina

1. A ligação entre espelho e beleza é igualmente ambígua, porque a beleza é sempre ambivalente e, desde Helena e a guerra de Troia, fonte de males infinitos, como lembram as troianas cativas de Eurípides ao evocar a filha de Zeus com espelhos de ouro, instrumentos do encanto das virgens, e porque a beleza quase divina da cortesã é igualmente perigosa, como a de Laís, que teve mais amantes que pretendentes a filha de Tíndaro, considerada um monstro de rapacidade e protegida pela inquietante Afrodite Melênis, a Sombria de Corinto, que lhe anunciava em sonho amantes ricos.

2. A beleza concedida por Cípris às mortais é apenas imagem fugidia da que só a deusa possui verdadeiramente, logo desvanecida assim que captada pelo espelho, e por isso os espelhos dos epigramas, embora associados à brancura da pele, ao brilho das faces e dos cabelos, já nada refletem senão rugas, cabelos brancos e rostos murchos, evocados apenas para dizer o fim dos amores e remetendo sempre ao passado, companheiro fiel transformado em delator e objeto de ódio, que Laís oferece à deusa como testemunho e contradom da beleza fugaz de outrora, passando a testemunhar uma beleza imune ao tempo.

3. As dedicatórias gravadas em espelhos encontrados pela arqueologia mostram que Afrodite não é a única nem a principal destinatária dessas oferendas, superada por Ártemis, a Limnátis das margens das cidades e a Brauronia, a quem as jovens atenienses consagravam espelhos na preparação para o casamento, e acompanhada por Atena, Ilítia, Hera e Perséfone, de modo que qualquer deusa pode receber um espelho, pois todas, mesmo as que recusam o amor ou só o aceitam no casamento, possuem para sempre a beleza e a graça, das quais as mortais, até Laís, a “Citereia mortal”, recebem apenas um reflexo efêmero.

O julgamento de Páris

1. Quando três deusas disputam a beleza diante do pastor Páris, Afrodite vence, mas nas representações figuradas o espelho não é necessariamente seu atributo, sendo ela mais reconhecível pela presença de Eros, pela maçã ou pela pomba, de modo que a deusa com espelho só pode ser Hera, como numa cratera lucana em que Hera contempla seu reflexo enquanto Afrodite está com Eros, de um lado o amor e a beleza, de outro o espelho.

2. No tribunal da beleza, quem julga não é um disco metálico, mas o olhar masculino do príncipe pastor Páris, que ganhará o amor da mais bela das mortais, mas que desde a epopeia é qualificado de efeminado como conhecedor da beleza feminina e sedutor de Helena, sugerindo que esse espectador atento já seria um amante-espelho.

3. Alguns autores associam explicitamente o espelho a Afrodite, como Sófocles em seu Julgamento perdido, que mostrava Afrodite Hedonê perfumando-se e mirando-se no espelho enquanto Atena, Sabedoria e Virtude, untava-se de óleo e aquecia os músculos, e Calímaco, que opõe a deusa vaidosa a arrumar os cachos diante do bronze a Hera e sobretudo a Atena, que desdenham o espelho, já que a beleza de Afrodite se define pela cabeleira e a de Atena pelo olhar de brilho insuportável, de Górgona, e seus espelhos, como os dos homens, não são femininos, mas armas, como o escudo que reflete para Perseu a face mortal da Górgona, ou superfícies acidentais, como o rio ou o espelho de um sátiro em que viu o rosto inchado pela flauta que inventara, face gorgônica que revela sua natureza de virgem terrível de sexualidade impensável, de modo que seu desdém pelo espelho exprime ao mesmo tempo recusa da feminilidade e sinal de virilidade.

4. O escudo, preferido pela deusa, opõe-se nas representações gregas ao espelho feminino e, de bronze e circular como ele, fornece ao homem seu espelho de guerreiro, enquanto na paz o cidadão se mira na taça de beber, buscando seu reflexo no vinho e nas imagens pintadas, e em ambos os utensílios masculinos equivalentes ao espelho feminino figura a Górgona, fêmea barbuda e aterradora, como brasão no escudo ou à espreita no fundo das taças, termos que Plínio usará para explicar aos leitores eruditos os espelhos côncavo e convexo ao lado do espelho plano.

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