Espelho
FRONTISI-DUCROUX, Françoise; VERNANT, Jean-Pierre. Dans l'œil du miroir. Paris: Éditions Odile Jacob, 1997. (Coleção “Le temps de la pensée”).
1. Em três partes e a duas vozes, a abertura e o fechamento narram a reconquista progressiva por Ulisses de sua identidade e de seu estatuto de rei de Ítaca, só plenamente alcançada pela boa vontade de Penélope, enquanto o centro se ocupa do espelho, objeto cultural privilegiado cuja forma esquemática, o círculo sobre a cruz, ainda hoje simboliza o feminino como espelho de Vênus em oposição ao arco de Apolo, círculo com flecha oblíqua que designa o masculino, e que na Grécia antiga funcionava como operador simbólico para pensar a relação entre os dois sexos.
2. Tanto no espelho quanto em Ulisses está em jogo a identidade masculina, única forma de sujeito na Antiguidade, numa busca de si em que as mulheres, não reais e sem voz, mas pensadas e fantasiadas pelos homens, estão sempre presentes como figuras necessárias para que o homem se pense e se defina, usadas porém de modo muito diverso segundo as épocas, pois nos poemas homéricos aparecem como auxiliares indispensáveis num contexto de complementaridade dos sexos e reciprocidade de papéis no casal, ao passo que na época clássica são relegadas a uma alteridade radical em que servem sobretudo de contraste negativo, revelando um hiato incontestável entre o mundo de Ulisses e o mundo do espelho.
3. A exploração desses setores de um imaginário coletivo remoto, mas que ainda marca fortemente o universo cultural contemporâneo, resulta do trabalho de dois autores que atuaram mais pela complementaridade do que pela diferença, com textos claramente delimitados e atribuídos, mas sustentados por um diálogo de amizade antigo e constante.
