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Experienciando imortalidade

BALSEKAR, Ramesh S. Experiencing Immortality: A Modern Formulation of the Classical Advaita Metaphysics of Saint Jnaneshwar's Amritanubhava. Los Angeles: Advaita Press, 1984. (2. ed.: Mumbai: Zen Publications, 2004).

Introdução

1. Segundo uma história talvez apócrifa, quando Jnaneshwar apresentou a cópia concluída do Jnaneshwari, seu comentário em marati do Bhagavad Gita, tido como o mais belo já feito, ao irmão e Guru Nivrittinath, este elogiou a obra, mas observou significativamente que se tratava, em essência, de um comentário sobre o que outro dissera, ainda que esse outro fosse ninguém menos que o Senhor Krishna, e sugeriu um tratado independente baseado na experiência pessoal, do qual nasceu o Amritanubhava, feliz resultado e dádiva fortuita à humanidade.

2. A obra se abre com cinco versos introdutórios que saúdam o Absoluto, o qual em sua própria dualidade relativa assume os papéis de criador, mantenedor e destruidor do universo manifestado, e ao mesmo tempo anunciam o tema central de que a dualidade entre o Absoluto imanifesto e o universo manifestado é ilusória e não existe de fato.

3. O primeiro capítulo, com 64 versos, vai direto ao cerne do assunto ao estabelecer que o-que-somos é o númeno subjetivo, o Absoluto essencialmente sem forma que se objetivou dentro de si mesmo como universo manifestado e seus infinitos fenômenos sempre mutáveis, dedicando a maior parte à identidade entre númeno e fenômenos, sendo a manifestação a objetivação da subjetividade suprema, e introduzindo ao final o princípio de que o próprio ser senciente não pode permanecer separado dessa identidade básica, o que implica a entrega do ego individual, e de que a única homenagem possível ao casal primordial conceitual Shiva-Shakti, o aspecto masculino-feminino da criação, consiste em aperceber a identidade essencial de todos os opostos interdependentes que formam a dualidade aparente, sem a qual, como sujeito e objeto, observador e observado, nenhuma manifestação seria possível.

4. O segundo capítulo, “Homenagem ao Guru”, com 80 versos, transborda de profundo amor e fantasia poética por Nivrittinath, embora confesse a impossibilidade de descrever sua verdadeira grandeza, explicando que o nome Nivritti não significa o oposto de Pravritti, mas nem ação nem ausência de ação, e sim a absoluta inação, sem o menor toque de presença ou ausência de ação, que nenhuma inferência ou critério se aplica ao Guru, expressão objetiva do Absoluto, que ele, vivendo além de toda dualidade, não pode ser objeto de adoração, pois ao tentar adorá-lo o adorador se desfaz como entidade individual junto com o Guru, como cânfora e fogo que desaparecem ao se encontrar, sendo o Guru um grande mistério por estar além da tríade de adorador, adorado e adoração, e doando-se como Guru e discípulo ao mesmo tempo.

5. O terceiro capítulo, “A Dívida para com as Quatro Formas da Fala”, com 33 versos, desenvolve a ideia de que o conhecimento relativo à ignorância não é verdadeiro conhecimento, pois o indivíduo, o jiva, firmemente identificado com o corpo, ignora totalmente sua verdadeira natureza, e segundo a tradição hindu o estado de vigília corresponde à palavra vocalizada (vaikhari), o sonho ao pensamento antes de se tornar fala (madhyama), o sono profundo ao pensamento em estágio subconsciente (pashyanti), e o quarto estado, o pensamento básico EU SOU, à consciência impessoal, sendo inequívoca a identificação nos três primeiros, já que mesmo em sono profundo se desperta ao ouvir o próprio nome, e embora se suponha que o estudo das mahavakyas, como “Tu És Aquilo”, e as práticas disciplinares corrijam essa identificação e unam o jiva a Shiva, tal união não é a verdadeira natureza, pois o-que-somos jamais foi cindido em jiva e Shiva, e as práticas apenas fazem a entidade trocar a crença de ser o corpo pela de ser Brahman, permanecendo por baixo de ambas o verdadeiro culpado, a entidade individual baseada no pensamento conceitual das quatro formas da fala, de modo que só com o abandono total da identificação com uma entidade separada se permanece como o-que-somos, na ausência de toda ignorância e todo conhecimento, estado que no caso de Jnaneshwar só se deu ao entregar sua individualidade aos pés do Guru, transcendendo ambos.

6. O quarto capítulo, “O Nada e a Plenitude”, com 43 versos, vai à raiz da questão ao tratar do despertar da consciência, o EU SOU, sobre o estado original da plenitude ou potencialidade pura, quando a consciência não tinha consciência de si, pois somente quando o sentido de presença surge sobre a unidade original a consciência entra em movimento e produz sobre si mesma a totalidade da manifestação, gerando simultaneamente os conceitos de conhecimento, o sentido de presença impessoal, e de ignorância, quando essa presença se identifica com cada ser senciente como entidade separada, dicotomizando a unicidade da plenitude potencial, o Eu-sujeito, em sujeito e objeto, com cada objeto julgando-se pseudossujeito observador diante dos demais, o que constitui a “servidão” conceitual do indivíduo, consistindo a libertação na realização de que a verdadeira natureza é a consciência impessoal e não o aparato psicossomático, realização, a metanoia ou para-vritti, em que o pseudossujeito deixa de ser objeto, torna-se vazio pela sobreposição dos opostos e, por esse vazio, retorna ao Eu-sujeito original, o Absoluto-númeno-plenitude, que não pode ser objeto para si nem para ninguém, sendo essa a própria razão de seu ser, substrato eterno que se manifesta objetivamente estendendo-se no espaço-tempo conceitual para se tornar perceptível como objetos fenomênicos, mas que não pode se oferecer à compreensão sem se tornar objeto, como o olho que tudo vê menos a si mesmo.

7. O quinto capítulo, “Sat-Chit-Ananda”, com 68 versos, esclarece o verdadeiro sentido dos três atributos do Absoluto tão repetidos na filosofia hindu, Sat (ser), Chit (consciência) e Ananda (bem-aventurança), atribuídos a Brahman pelos Vedas, mas que não devem ser considerados separadamente, pois nem em conjunto afetam Brahman, assim como a natureza venenosa do veneno não afeta o próprio veneno, terminando ser e consciência na BEM-AVENTURANÇA suprema, sem existência independente no estado absoluto, onde não há quem experimente nem condições perceptíveis aos sentidos, e essa bem-aventurança, transcendendo experimentador, experiência e experimentar, aniquila os outros dois aspectos e torna inúteis as próprias palavras Sat e Chit, podendo-se conceber relativamente que sobre Sat, a consciência em repouso, surge espontaneamente Chit, o movimento EU SOU com o universo manifestado, e que a realização da identidade entre imanifesto e manifestado, rompendo a separação entre “eu” e “outro”, resulta em Bem-aventurança, restando, quando cessa toda conceituação, um aparente “nada”, ausência fenomênica que numenicamente é presença absoluta, a plenitude potencial, a BEM-AVENTURANÇA indescritível.

8. O sexto capítulo, “Demolição da Palavra (shabda)”, com 103 versos, examina até onde a palavra é útil para revelar a natureza de Brahman e destruir a ignorância, louvando-a por conferir ao mero som a dignidade do significado, por servir de espelho ao imanifesto e indicar o que os sentidos não percebem, permitindo até ao cego ver sua verdadeira natureza, por orientar o que fazer e não fazer na vida diária, por fazer parecer real o universo manifestado, fruto da ignorância, por levar Shiva a se aceitar como entidade encarnada e, ao mesmo tempo, o ser senciente a realizar sua natureza real, e sobretudo por se sacrificar ao apontar o verdadeiro conhecimento do Absoluto, quando cessa toda conceituação, revelando porém seus limites ao tentar lembrar ao Absoluto sua verdadeira natureza, já que não pode expor a ignorância inexistente nem revelar o Absoluto a quem deve a própria existência, sendo tão inútil quanto uma lâmpada acesa ao meio-dia, que nem destrói a escuridão ausente nem é necessária para ver o sol, de modo que a palavra só tem relevância como lembrete na relatividade, sem existência alguma na não conceitualidade, e o Atman, sujeito absoluto, permanece inalcançável por ela ou por qualquer objeto.

9. A palavra é basicamente “pensamento expresso” e, portanto, mera conceituação na dualidade sujeito-objeto, por meio da relatividade de opostos interdependentes, e o pensamento relativo que nela se expressa criou o compreendedor fictício, o pseudossujeito, diante do objeto compreendido, ambos objetos fenomênicos na consciência, mantendo depois esse “ego” fictício sujeito aos conceitos de culpa pessoal e servidão e assumindo por fim o papel magnânimo de lhe oferecer os meios de libertação, razão pela qual tudo o que pensamento ou palavra digam sobre ignorância e conhecimento, servidão e libertação, meros conceitos, não passa de puro disparate, pois a apercepção da Verdade, a natureza real, não pode ser conceituada nem expressa como pensamento vocalizado, produto da mente dividida na dualidade, e o despertar só pode acontecer espontaneamente na ausência total do indivíduo conceitual, numa visão interior integral livre de dualidade e temporalidade, no abismo mais profundo da negação, na ausência absoluta de volição positiva e negativa, nunca a um “eu” ou “você” identificado com uma entidade supostamente autônoma.

10. O sétimo capítulo, “Invalidação da Ignorância”, o mais longo, com 295 versos, desfere um ataque forense devastador e sutil contra a crença na existência própria da ignorância, sustentando que sem o conhecimento a própria palavra “ignorância” jamais teria sido ouvida, que ela é inteiramente ilusória como cavalos pintados que não servem à batalha, e que buscá-la no conhecimento é como esperar ondas de miragem ao luar, argumentando que, se existisse, cobriria por natureza tudo o que tocasse e, tornando ignorante o próprio conhecimento absoluto, só ela existiria, sem ninguém para saber que existe, já que a ignorância não pode conhecer a si mesma, como a prova não pode provar a si própria, e que, se não consegue tornar ignorante o conhecimento absoluto, é inexistente, como uma catarata que não prejudica a visão não é catarata, além de não poder coexistir com seu oposto, assim como sono e vigília, esquecimento e lembrança, frio e calor, noite e dia não coexistem, concluindo-se após exemplos muito apropriados que a ignorância não existe nem com o conhecimento nem independentemente dele, como um peixe de sal dotado de vida não pode existir nem dentro nem fora da água.

11. A ignorância não pode ser apreendida diretamente nem inferida logicamente, pois se existisse seus efeitos também seriam ignorância, da mesma natureza que ela, como o sonho e sua testemunha, e os sentidos, efeitos da ignorância, não poderiam percebê-la, assim como o açúcar não pode provar a si mesmo, não sendo ela causa nem efeito de coisa alguma, únicas coisas diretamente perceptíveis, e a objeção de que o vasto mundo prova a ignorância como sua causa, assim como árvores saudáveis provam que as raízes recebem água mesmo com o solo aparentemente seco, é levantada e logo demolida como tão tola quanto afirmar que o sol é escuridão, pois do ponto de vista do númeno não há fenomenalidade alguma, vindo por fim o golpe de misericórdia: a própria palavra “ignorância” e a afirmação “a ignorância existe” precisam do conhecimento para serem inteligíveis.

12. O longo e importante capítulo termina com a afirmação aparentemente simples de que o sol não encontra escuridão durante o dia e nem mesmo visitando a noite a encontraria, e de que quem espera o sono para saber o que ele é só perde o sono e a vigília, apontando o fato significativo de que a luz não encontra a escuridão, mas sim sua própria ausência, a ausência do que buscava e não algo diferente de si, assim como o buscador espiritual é a luz procurando a escuridão de um “eu” e descobre que não há “quem” nem objeto algum, apenas a ausência da presença do buscador, sendo o não encontrar o próprio encontrar, a descoberta de que todos os objetos, inclusive o ego que buscava, são inexistentes, meras aparências fenomênicas na consciência em que é imanente o sujeito numênico, e de que a ausência fenomênica do buscado é a ausência absoluta de toda conceitualidade, a bem-aventurança da PRESENÇA ABSOLUTA.

13. O oitavo capítulo, “Invalidação do Conhecimento”, com apenas 19 versos, prolonga o anterior ao declarar que jamais houve ignorância e que, pela graça do Guru, se conheceu a natureza real, que não é conhecimento nem ignorância, conceitos interligados, mas o conhecimento puro indicado pelo nome, acrescentando que toda tentativa de ver a verdadeira natureza deve fracassar e fazer corar por ter sido feita, pois a ideia de esforço supõe um conhecedor conhecendo a natureza do conhecedor, três meros conceitos, e a ideia de buscador apoia-se num “eu” que pensa, age, adora e medita, ao passo que a metanoia espontânea, a para-vritti, pressupõe a ausência total de uma entidade separada supostamente autônoma, envergonhando a ideia de uma mera aparência fenomênica, que é tudo o que o ser humano realmente é, tentar aperfeiçoar-se por esforço próprio, sendo o estado em que o Guru coloca inalcançável por pensamento ou palavras e impossível de objetivar, por ser subjetividade pura, e prevalecendo, como conhecimento e ignorância são conceituais, a consciência, o sentido EU SOU, que engoliu ambos os conceitos, de modo que quem sabe pode pensar que não sabe e quem pensa saber pode não saber.

14. O nono capítulo, “O Estado Autorrealizado”, com 69 versos, descreve a experiência unitiva em que desfrutador e desfrutado, vidente e visto se fundem na realização mística da unicidade, como se a fragrância se tornasse nariz para cheirar a si mesma e o som se tornasse ouvido para ouvir a si mesmo, permanecendo toda percepção como puro espelhamento sem interpretação reativa, apenas ver, ouvir e saborear sem a interferência objetiva de um vidente, ouvinte ou provador, de modo que os sentidos podem correr naturalmente para os objetos que os satisfazem, mas não há experimentador separado da experiência, como quem diante do espelho sabe que a imagem não difere do rosto, e enquanto a pessoa comum se identifica com o objeto que vive uma experiência agradável ou dolorosa, o autorrealizado se torna a própria experiência, sem lugar para o Yoga óctuplo, que parece tão sem brilho quanto a lua de dia, sendo o comportamento normal do jnani apenas aparente, pois todas as ações ocorrem espontaneamente sem relação sujeito-objeto, de modo que toda ação é sua disciplina, seu modo de vida livre é seu Samadhi, devoto e Deus se tornam um, o caminho se torna o destino e o universo inteiro, um recanto quieto e isolado, e se nesse estado surgir na manifestação o desejo de desfrutar da relação de mestre e discípulo ou senhor e servo, é a consciência, Deus, que a estabelece entre dois seres sencientes apropriados e cria e desfruta manifestações de amor e êxtase em que nada há além da consciência, manifestações de natureza numênica, como templo, imagem do Deus e imagens dos devotos esculpidos num mesmo bloco de rocha, encerrando-se com a exclamação espontânea ao Senhor Guru pelo estado em que se é doador e receptor, o dar e o receber, e pelo reconhecimento de que só lhe é caro quem, abandonando toda diferença entre “eu” e “outro”, se torna um com ele.

15. O décimo e último capítulo, com 31 versos, é humilde dedicatória a Nivrittinath e ao mesmo tempo belíssimo e brevíssimo resumo da obra, confessando a preferência por desfrutar em paz e sozinho a bem-aventurança da autorrealização, não fosse o desejo do Guru de que essa alegria fosse partilhada com o mundo, reconhecendo o livro como sinal do imenso poder do Guru, pois como indivíduo faltariam autoridade e capacidade para escrevê-lo, e seria tolice abrir mão do grande dom da autorrealização e voltar à servidão da dualidade reivindicando o mérito da obra, e indagando se, guardado o silêncio, a manifestação fenomênica deixaria de ocorrer ou a verdade final seria afetada, verdade que é a identidade de númeno e fenômenos, de percebedor e percebido, e que dispensa qualquer dizer.

16. À pergunta inevitável sobre o porquê de escrever, a resposta é que o tema predileto pode ser o mesmo, mas cada nova discussão traz novo sabor e novo deleite, logo situando tudo em perspectiva com a pergunta sucinta sobre a quem beneficiaria falar, sendo-se consciência que não tem consciência de si, e se essa consciência se perderia caso não se falasse, de modo que, mesmo tendo os lábios falado, o ensinamento é o silêncio do silêncio, pois na verdade não houve fala nem ausência de fala, como desenhar um peixe na superfície da água, e por fim a autoridade, a importância e o impacto do livro são declarados com aparente falta de humildade, mas na verdade com a humildade verdadeira da desidentificação com o conceito de “eu”, afirmando-se solenemente que a apreensão significativa do Anubhavamrita fará o jnani jivanmukta tornar-se o próprio Anubhavamrita, que quem apreende o sentido integral de suas palavras se funde nessa experiência de imortalidade como toda água que corre para o mar se torna o próprio mar, sendo assim o Anubhavamrita o meio pelo qual a felicidade pode saborear a felicidade.

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