4 O Absoluto como ser, consciência e bem-aventurança
ALSTON, Anthony John. Śaṅkara on the Absolute. London: Shanti Sadan, 1980. (A Śaṅkara Source-Book, v. 1).
1. A definição do Absoluto como “Realidade, Conhecimento, Infinitude”
1. O conhecimento do Absoluto admite diferentes caminhos de aproximação, mas sua realização culmina na transcendência de todas as determinações empíricas, mediante um percurso em que as afirmações iniciais do Si mesmo em formas finitas são progressivamente purificadas pela negação; essas afirmações permitem reconhecer tanto um fundamento positivo que sustenta a aparência do mundo quanto, pela consideração de sua criação e ordenação, um Deus pessoal concebido como princípio criador e governante do universo fenomênico.
2. A experiência de um mundo marcado pela limitação, pela mudança e pelo sofrimento pressupõe um fundamento impessoal livre dessas condições, cuja compreensão exige a investigação metafísica (vicara) que prepara a experiência direta do Si mesmo (anubhava); esse mesmo fundamento pode ser concebido, no âmbito da experiência mundana, como uma divindade pessoal que projeta e governa interiormente o universo, permitindo que a investigação se articule à devoção (bhakti), embora a perspectiva suprema suprima a própria realidade independente do mundo e de seus objetos.
3. A doutrina de Sankara constitui um caminho prático de realização mística no qual a dualidade é gradualmente eliminada, e a definição do Absoluto como “Realidade, Conhecimento, Infinitude” orienta esse percurso pela busca de um princípio autoexistente, de uma Testemunha interior imutável e de uma plenitude sem divisão ou sofrimento; embora a fórmula “Ser-Consciência-Bem-aventurança” não apareça nas obras de autenticidade assegurada de Sankara, a associação entre o Absoluto e a bem-aventurança encontra fundamento nas Upanishads e no ensinamento de seu discípulo Suresvara.
4. A definição, segundo a concepção indiana acolhida por Sankara, distingue aquilo que um termo designa de tudo o mais mediante marcas delimitadoras, privilegiando a extensão do termo em vez da enumeração de seus atributos essenciais, de modo que não depende da combinação entre gênero e diferença específica e pode abranger tanto uma classe quanto um indivíduo, desde que sejam indicadas características suficientes para diferenciá-lo dos demais.
5. A identificação de um indivíduo por características como grandeza, fragrância e cor pressupõe sua pertença a uma classe cujos integrantes apresentam diferenças entre si, mas esse procedimento suscita uma dificuldade quando aplicado ao Absoluto, pois sua unicidade impede que seja distinguido de outros membros de uma mesma classe mediante propriedades particulares.
6. A definição do Absoluto distingue-o de tudo o que não é ele, sem convertê-lo em uma substância dotada de atributos enumeráveis, pois “Realidade, Conhecimento, Infinitude” funciona como indicação delimitadora (laksana), e não como caracterização empírica (visesana); esses termos afastam a mente de todas as determinações estranhas à sua natureza (svarupa), preservando sua transcendência mesmo quando assumem formalmente a aparência de predicados positivos.
7. A fórmula “O Absoluto é Realidade, Conhecimento, Infinitude” reúne três afirmações acerca da mesma natureza, em vez de atribuir três propriedades distintas a uma substância, e, embora seus termos sejam gramaticalmente predicados independentes, seus significados se condicionam reciprocamente; a referência à natureza do Absoluto não permite caracterizá-lo positivamente pela linguagem, cuja função permanece a de excluir tudo aquilo com que ele poderia ser indevidamente identificado.
8. A definição védica do Absoluto visa favorecer sua experiência imediata, e seu sentido deve ser compreendido segundo o contexto das Upanishads e os usos tradicionais dos termos, pelos quais a realidade consiste na permanência inalterável através do passado, do presente e do futuro; assim como os objetos de argila são apenas nomes e formas da argila, as modificações do mundo não possuem realidade independente do Ser, de modo que designar o Absoluto como “Realidade” significa excluir todas as transformações aparentes que surgem e desaparecem.
9. A designação do Absoluto como “Conhecimento” impede que sua condição de fundamento do mundo seja confundida com a de uma causa material inconsciente, enquanto sua definição como “Realidade” e “Infinitude” impede que esse conhecimento seja entendido como ato particular ou atividade de um sujeito diante de um objeto; os três termos indicam a mesma natureza e corrigem reciprocamente suas interpretações inadequadas, excluindo tanto a divisão interna do Absoluto quanto a possibilidade de o Si mesmo conhecer-se como objeto, o que contrariaria sua unidade e tornaria supérflua a revelação védica de sua natureza ainda não reconhecida.
10. O Conhecimento que constitui o Absoluto é a Consciência não atuante que testemunha e ilumina o conhecimento empírico, sendo idêntica ao Ser e irredutível à atividade cotidiana de conhecer objetos; “Realidade” e “Conhecimento” afirmam aquilo que se impõe na experiência sem poder ser negado, mas, condicionados pela “Infinitude”, apenas indicam o princípio absoluto mediante a exclusão de seus contrários, sem lhe atribuir propriedades capazes de limitá-lo.
11. “Realidade, Conhecimento, Infinitude” não constitui uma sequência de negações vazias, pois cada termo conserva a capacidade de indicar o Absoluto enquanto exclui dos demais os sentidos incompatíveis com sua natureza, permitindo reconhecê-lo como aquilo que não é irreal, inconsciente ou finito; essa indicação não o encerra no significado de uma sentença nem o caracteriza por qualidades particulares, preservando-o como realidade inexplicável pelo pensamento ordinário, diante da qual palavras e mente recuam.
12. Os três termos da definição são equivalentes enquanto indicam a totalidade da natureza do Absoluto, mas possuem funções distintas ao eliminar diferentes concepções equivocadas, de modo que o afastamento das representações irreais, inconscientes e finitas conduz ao repouso no Si mesmo por uma transformação que ultrapassa a operação intelectual e normalmente exige disciplina e orientação de um mestre.
2. O Absoluto como princípio autoexistente
1. O método de realização do Absoluto começa por afirmações provisórias em formas condicionadas compreensíveis ao discípulo e culmina na negação de todos os fatores limitadores nelas contidos, tendo como suas expressões afirmativas mais elevadas a compreensão do Absoluto como causa primeira, Consciência autoluminosa e Bem-aventurança.
2. A compreensão do Absoluto como causa do mundo responde à condição de quem ainda considera reais as distinções e os objetos, permitindo reconhecer um princípio eterno do qual as coisas perecíveis procedem e no qual se dissolvem, mas permanece uma definição preliminar que exige posterior correção; diferentemente da definição segundo a natureza própria (svarupa-laksana), essa definição por uma relação externa (tatastha-laksana) emprega a causalidade como indicação provisória, assim como as noções de universal e de Ser puro precisam ser ultrapassadas na apreensão da verdade última.
3. A dependência dos efeitos em relação às suas causas permite reconhecer uma hierarquia na qual cada princípio mais abrangente contém os anteriores, até que o mundo inteiro seja compreendido como manifestação do Ser que o sustenta, autoexistente e consciente; esse Ser se encontra pressuposto em todos os juízos e permanece necessário mesmo quando o universo é concebido como ilusão, pois a aparência ilusória exige uma realidade subjacente que lhe sirva de fundamento.
3. O Absoluto como princípio autoluminoso
1. O princípio autoexistente que fundamenta o mundo é também a Consciência autoluminosa que torna possíveis todas as experiências, enquanto os fenômenos físicos e mentais, por serem compostos e objetivos, carecem de consciência própria e recebem sua iluminação do Si mesmo simples e indiviso; essa luz permanece inalterada na vigília, no sonho e no sono sem sonhos, acompanha todas as cognições sem atuar como agente, independe dos órgãos sensoriais e sustenta até a percepção dos corpos luminosos, embora sua onisciência possa ser concebida, da perspectiva da ignorância, como uma atividade constante que não necessita de instrumentos.
4. O Absoluto como Bem-aventurança
1. A identificação do Absoluto com a Bem-aventurança ocupa um lugar mais discreto nas obras autênticas de Sankara do que nas formulações posteriores de sua escola, como evidencia a diferença entre a frequência desse tema em “A joia suprema da sabedoria”, composta séculos depois e atribuída a ele, e sua presença excepcional no Upadesa Sahasri; o Absoluto é habitualmente definido como “apenas Ser e Consciência”, embora sua natureza de Bem-aventurança permaneça reconhecida em conformidade com as Upanishads.
2. A Bem-aventurança do Absoluto é permanente, independente de objetos e de atividades, manifesta-se no sono sem sonhos quando cessa a ignorância e aparece de maneira fragmentária e transitória nas alegrias mundanas enquanto essa ignorância subsiste; sua realização não constitui uma experiência objetiva nem se confunde com os prazeres extraordinários de estados elevados de yoga, pois o conhecimento do Si mesmo dissolve a identificação tanto com esses estados quanto com o sofrimento, ao desfazer o vínculo ilusório com a mente e com os condicionamentos externos.
