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5 Companheiros

DANIÉLOU, Alain. Shiva et Dionysos: La religion de la Nature et de l'Éros; De la préhistoire à l'avenir. Paris: Fayard, 1979.

Os companheiros do deus

Ganas e Coribantes, os delinquentes do céu

1. Os companheiros de Rudra-Shiva aparecem no Rig Veda como Maruts, deuses das tempestades que conjugam a fúria dos animais selvagens com a inocência das crianças, correspondendo à comitiva de seres demoníacos que acompanha Dioniso na tradição grega.

2. Os Ganas constituem uma comitiva juvenil, irreverente e aventureira que corresponde aos Coribantes cretenses e aos Korrigans celtas, encarnando a alegria, a coragem e a liberdade em harmonia com a natureza, enquanto desafia o moralismo urbano, protege os devotos perseguidos e ridiculariza os poderosos.

3. Os Coribantes são companheiros sobrenaturais de Dioniso ligados à deusa das montanhas, enquanto os Curetes correspondem principalmente a jovens iniciados nos ritos orgiásticos, aproximando-se dos sátiros pela dança, pela música, pela embriaguez e pelo erotismo como manifestações do êxtase.

4. Os Curetes, nutridores do deus menino e participantes dos ritos da Grande Mãe, desempenham funções iniciáticas que retiram os jovens da condição infantil e os conduzem, por uma morte simbólica e um renascimento ritual, à participação plena na comunidade.

5. Os Coribantes, Curetes, Silenos e outros espíritos associam-se à possessão, ao êxtase e às perturbações mentais, formando uma comitiva de seres noturnos cuja designação encontra correspondência no nome Nishachara, aplicado aos espíritos seguidores de Shiva e ao próprio deus.

Os bhaktas ou bacantes (participantes)

1. A identificação dos devotos com os companheiros celestes do deus e a imitação de seu comportamento tornam imprecisas as fronteiras entre seres sobrenaturais e participantes humanos, favorecendo a aproximação entre Coribantes e Curetes, assim como entre Ganas e bhaktas.

2. A denominação bhakta exprime participação no culto extático e aplica-se tanto ao deus quanto aos seus seguidores, apresentando uma possível correspondência com os termos gregos Bacchos e bacantes, igualmente compartilhados entre Dioniso e aqueles que participam de seus mistérios.

3. Os bhaktas podem abandonar família e posses para dedicar-se à peregrinação, à dança extática e à poesia mística, nas quais amor humano e divino se confundem, buscando uma comunhão com seres e forças que aproxima suas práticas das experiências dos bacantes dionisíacos.

4. O Rig Veda preserva a figura do devoto de Shiva-Rudra de cabelos longos, nu ou vestido de trapos, cuja possessão divina e ingestão de uma substância associada ao deus permitem acompanhar seres celestes e animais selvagens, compreender seus pensamentos e vencer resistências.

5. Os ascetas errantes de Shiva, reconhecidos por seus cabelos desgrenhados e práticas extáticas, foram simultaneamente venerados e condenados como heréticos por recusarem normas védicas, enquanto a admissão de pessoas de todas as castas permaneceu uma característica dos bhaktas apesar das perseguições às correntes mais radicais.

6. Os ascetas e leigos envolvidos em práticas extáticas viviam à margem da sociedade ariana e podiam ser considerados estrangeiros, condição semelhante à dos bacantes no mundo grego.

7. As antigas descrições de seitas ascéticas apresentam modos de vida marcados por nudez, vestes precárias, proximidade dos cemitérios, Yoga e práticas mágicas, enquanto os Kapalikas aparecem sob a imagem transgressora de devotos que desprezam convenções religiosas e sociais.

8. As acusações de criminalidade, embriaguez e desregramento dirigidas aos vrâtyas no Mahabharata encontram paralelos nas descrições dos bacantes por Tito Lívio, constituindo argumentos recorrentes da sociedade conservadora para justificar a perseguição de comunidades extáticas e de seus sucessores místicos.

9. Shiva e Baco compartilham a condição de deuses da embriaguez, do vinho e do êxtase orgiástico, permitindo aproximar o estado de bacante da bhakti e reconhecer a origem essencialmente xivaíta da via devocional, extática e mística.

10. O estado dos bacantes envolve uma aproximação ritual aos companheiros celestes da deusa e uma entrega à loucura sagrada, pela qual os participantes procuram sair de si e ser possuídos pela divindade em uma experiência de delírio extático.

11. As confrarias báquicas preservaram durante séculos reuniões e aclamações rituais associadas a Dioniso, enquanto os Lupercos romanos manifestavam uma forma juvenil e corporal de celebração da fertilidade ao percorrer nus a cidade e atingir mulheres com correias de pele de cabra.

12. A proteção divina dos bhaktas impede que sua nudez ou seu comportamento semelhante ao de crianças e loucos sejam tomados como motivos de condenação, pois desprezar esses devotos equivale a atacar o próprio Shiva e a expressão do princípio que eles manifestam.

13. A encarnação de Shiva como Lakulisha vincula o ascetismo, a presença nos cemitérios e o poder do Yoga à formação de discípulos que praticam os ritos Pashupata, veneram o falo e alcançam uma realização espiritual conducente ao céu de Rudra.

14. A vida de Lakulisha é situada entre o início e a primeira metade do século II d.C., embora a tradição dos Pashupatas que lhe atribui sua fundação pareça remontar a uma antiguidade maior.

15. Os ritos dos vrâtyas incluem funções litúrgicas desempenhadas por bardos e uniões sexuais cerimoniais, exigindo distinguir a união conjugal como hierogamia das práticas orgiásticas destinadas à fertilidade ou à proteção mágica, cuja elaboração tântrica transforma a sexualidade em operação sacramental.

16. A concentração dos estudos ocidentais no xivaísmo adaptado ao vedismo obscurece a continuidade popular de sacrifícios sangrentos, danças extáticas e consumo ritual de bebidas e substâncias intoxicantes, práticas que preservam afinidades com as celebrações dionisíacas antigas.

Titãs, demônios e gênios

Titãs e Asuras

1. Os Rakshasas, Asuras e Pretas pertencem à comitiva de Shiva e representam potências dominantes dos primeiros tempos do mundo, embora a decadência dessas antigas divindades tenha levado o próprio deus a colaborar com sua destruição ou a tolerá-la.

2. A unidade fundamental da existência estabelece correspondências entre conflitos humanos, animais e divinos, de modo que a substituição de antigos seres por novas formas de vida encontra expressão celeste na derrota dos Titãs e Asuras, sem que essa sucessão implique superioridade moral dos vencedores.

3. Os Asuras representam potências sagradas de uma idade anterior e devotos de Shiva, cuja derrota diante dos novos deuses corresponde ao conflito entre povos xivaítas e invasores arianos, sendo atribuída à influência jainista que teria substituído a comunicação ritual com o divino por abstinência e moralismo individual.

4. O conflito entre Asuras e Devas organiza grande parte das narrativas dos Puranas como uma história simultaneamente humana e divina, acompanhada de confrontos equivalentes entre espécies animais que não receberam descrição explícita nos textos conservados.

5. As guerras de Dioniso reproduzem o conflito entre antigos seres e a nova ordem divina, pois o deus combate seus seguidores desviados, mas pode conceder-lhes liberdade ou reintegrá-los à sua comitiva, preservando a ambiguidade entre destruição e reconciliação.

6. Os textos védicos apresentam os Asuras como uma família divina mais antiga dotada de poderes mágicos, enquanto os tratados rituais posteriores desenvolveram amplamente o relato de seu confronto com os jovens deuses.

7. A vitória dos Devas associa-se ao triunfo de Indra sobre os adversários vinculados aos antigos habitantes da Índia, que são lançados nas trevas enquanto os vencedores se apropriam de suas potências sagradas e capacidades mágicas.

8. O abandono dos sacrifícios teria privado os Asuras do apoio de Agni e permitido aos Devas tomar sua palavra mágica, configurando a soberania de Indra como uma usurpação comparável à ascensão de Zeus mediante o combate aos Titãs e ao próprio pai.

9. A conquista das cidades dos adoradores do falo aparece no Rig Veda como uma vitória de Indra obtida por violência e astúcia, vinculando o conflito religioso à apropriação das riquezas dos povos vencidos.

10. A tradição líbia do combate entre Zeus-Ammon e Cronos atribui a Dioniso a derrota dos Titãs e a civilização do Egito, mas a instalação de um descendente titânico no poder preserva a continuidade da antiga tradição apesar de sua aparente derrota.

O incêndio de Tripura

1. A destruição das cidades dos Asuras exige a participação do próprio Shiva contra seus devotos, pois a fidelidade religiosa não admite compromissos com o abandono de seus princípios, atribuído à influência jainista e comparado ao castigo dos Titãs pela fulminação de Zeus.

2. A morte do Asura Taraka por Skanda corresponde à destruição de um monstro por Dioniso, embora a crueldade desse adversário contraste com a descrição geralmente favorável dos Asuras como seres disciplinados, honestos, corajosos e fiéis.

3. Os filhos de Taraka procuram recuperar a soberania por austeridades e, diante da impossibilidade de obter imortalidade, recebem três cidades quase invulneráveis, cuja destruição dependeria de um raro alinhamento e de uma intervenção de Shiva que julgavam incompatível com sua devoção.

4. O arquiteto Maya constrói cidades de ouro, prata e ferro distribuídas pelo céu, pela atmosfera e pela terra, dotando-as de palácios preciosos e veículos aéreos que exprimem sua riqueza e seu extraordinário desenvolvimento.

5. As cidades dos Asuras reúnem templos e sacerdotes de Shiva, instalações militares, animais, instrumentos de medição do tempo e espaços destinados ao jogo e ao estudo, articulando devoção religiosa e organização material refinada.

6. Os habitantes de Tripura desfrutam riqueza, vigor e prazeres sob a proteção de Shiva, governando-se por seus preceitos e conciliando o culto fálico com a realização dos desejos e a expectativa de alcançar o paraíso.

7. Após as derrotas dos deuses, Shiva consente na destruição das três cidades por uma única flecha de fogo e energia explosiva, produzindo uma devastação total que não poupa seus próprios devotos e reproduz, em escala urbana, o incêndio cósmico do fim dos tempos.

8. A destruição dos Titãs por Zeus apresenta uma conflagração semelhante, na qual relâmpagos, calor e fogo atingem a terra, as florestas, os mares e o abismo, tornando o combate divino uma convulsão que envolve a totalidade do mundo.

9. A lembrança das três cidades dos Asuras reaparece no universo celta sob a forma dos três reinos de Merlin, preservando uma correspondência entre tradições mitológicas distantes.

Rakshasas, demônios e fantasmas

1. A comitiva de Shiva reúne espíritos ligados às florestas, águas, tempestades e regiões infernais, frequentemente dotados de formas animais ou híbridas, encontrando paralelo nos acompanhantes de Dioniso e tornando por vezes indistinta a separação entre seres sobrenaturais e seus equivalentes humanos.

2. Os Pretas pertencem aos servidores de Shiva como deus da morte e correspondem a espíritos de pessoas mortas violentamente, cujos elementos sutis permanecem associados por um período variável após a destruição do corpo físico.

3. Os Rakshasas são apresentados como seres aparentados aos Asuras que se tornaram cruéis e ferozes, passando da condição originária de guardiões à de potências devoradoras e atormentadoras, aproximadas aos vampiros e aos demônios infernais da tradição cristã.

Heróis e semideuses

1. Os heróis do tantrismo xivaíta são iniciados que adquirem pelo Yoga domínio sobre os mundos físico e sutil, enquanto as tradições posteriores lhes atribuem ascendência divina, feitos extraordinários e culto após a morte, formando um conjunto de figuras protetoras presentes em diferentes civilizações.

2. A divinização de mortos privilegiados em Creta preparou práticas das religiões de mistérios e deixou sobrevivências nas narrativas gregas sobre a imortalização de heróis, cuja passagem ao mundo divino preserva crenças anteriores à civilização helênica.

3. As mulheres também podem alcançar uma condição heroica pela virtude e pelo amor, como mostram figuras transformadas em estrelas ou capazes de vencer a morte, evidenciando que generosidade e desprendimento caracterizam o heroísmo mais profundamente do que a coragem isolada.

4. Rama e Krishna ocupam posição central na religião popular indiana como príncipes não arianos de pele escura, reunindo feitos amorosos e guerreiros, enquanto o culto de Krishna menino substitui formas anteriores do deus infantil e sua participação no Mahabharata o vincula ao conflito entre arianos e dravidianos.

5. Animais e seres híbridos também podem assumir funções heroicas e protetoras, como o Minotauro e as encarnações de Vishnu que vencem demônios, resgatam a terra submersa ou conduzem a arca para um lugar seguro.

6. A encarnação de Shiva como Hanuman permite que o próprio deus participe da derrota de Ravana, apesar de este ser seu devoto, integrando ao Ramayana uma narrativa heroica cujas fontes são condensadas no Shiva Purana.

7. Hanuman manifesta força e audácia desde a infância e, aliado a Rama, atravessa o mar para encontrar Sita, devasta Lanka, transforma sua captura em oportunidade de incendiar a cidade e retorna para organizar a construção de uma passagem marítima com o exército dos macacos.

8. A veneração do emblema fálico de Shiva precede a invasão de Lanka por Rama, enquanto Hanuman comanda o exército, derrota numerosos Rakshasas e salva Lakshmana mediante uma cura associada à potência geradora do touro.

9. A vitória sobre Ravana e a submissão dos Rakshasas fazem de Hanuman um protetor e propagador do culto de Rama, cuja condição de encarnação de Shiva reúne força heroica, socorro aos devotos e mediação entre o deus e o mundo.

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