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esoterismo:cattiaux:start

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 +====== CATTIAUX, LOUIS ======
  
 +Louis Cattiaux (1904-1953)
 +
 +Artista plástico e poeta com uma obra consagrada, //"A mensagem reencontrada ou o relógio da noite e do dia de Deus"//. A mensagem é disposta em uma tabela de 3 colunas, onde a primeira e a terceira coluna correspondem aos dois homens que há em cada um de nós, o homem carnal e o homem espiritual, o homem exterior e o homem interior, assim como há trevas e luz. Assim a coluna da esquerda oferece geralmente o sentido terrestre: moral, filosófico e ascético; a coluna da direita oferece o sentido celestial: cosmogônico, místico e iniciático. Por vezes sentidos terrestres e celestiais são complementados por uma coluna do meio, pondo em acordo esquerda e direita, segundo o sentido alquímico, que une céu e terra e toca o mistério divino da criação e do homem.
 +
 +//CATTIAUX, Louis. Le Message retrouvé. Bruxelles: Les Amis de Louis Cattiaux, 1978.//
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 +----
 +
 +<tabbox Arola>
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 +//AROLA, Raimon. La Actualidad Del Hermetismo: El Mensaje de Louis Cattiaux. 1st ed ed. Barcelona: Herder, Editorial S.A, 2020.//
 +
 +  * A vida de Louis-Ghislain Cattiaux (1904-1953) foi marcada pela dedicação à pintura e à busca de espaço no ambiente vanguardista parisiense do entre guerras, até que, já na casa dos trinta anos, o interesse pela arte cedeu lugar à busca do Absoluto e à redação de //Le Message Retrouvé, ou l'Horloge de la Nuit et du Jour de Dieu//.
 +    * Cattiaux participou de concursos, expôs em diversas salas, fundou a galeria Gravitations e integrou o movimento artístico Transhylisme.
 +    * O termo "Absoluto" é empregado pelo biógrafo Bernard Dorival para caracterizar a nova orientação de Cattiaux.
 +    * A criação pictórica foi relegada a segundo plano a partir dessa virada interior.
 +
 +  * Cattiaux relutava em publicar //A Mensagem// sob seu próprio nome, pois considerava o livro ditado pelo Espírito, e pretendia assiná-lo com um pseudônimo hermético.
 +    * O livro é composto de mais de seis mil aforismos.
 +    * Um dos versículos declara que o autor é tão ignorante ao terminar o livro quanto o era ao começá-lo.
 +
 +  * A prática de assinar obras com pseudônimos ou sob nomes de sábios ilustres era recorrente entre os antigos alquimistas, que assim ocultavam sua identidade exterior.
 +    * Didier Kahn explica que os alquimistas atribuíam suas obras a autoridades como Alberto Magno e Tomás de Aquino.
 +    * Louis Claude de Saint-Martin assinou seu primeiro livro como "O filósofo desconhecido", alegando que lhe fora ditado por um "agente desconhecido".
 +
 +  * Cattiaux pode ser denominado o filósofo da alteridade, pois o autor de //A Mensagem// não é o personagem que vivia e pintava em Paris, mas uma outra realidade que o habitava, identificada com a docta ignorantia de Nicolau de Cusa.
 +    * A sabedoria de //A Mensagem// não descreve o saber particular deste-mundo, mas a vida do mundo-por-venir.
 +    * Entre Cattiaux e quem escreveu //A Mensagem// existe uma alteridade completa.
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 +  * A alteridade entre Cattiaux e a voz de //A Mensagem// remete ao mistério da palavra inspirada, presente no hermetismo e nas tradições espirituais, conforme ilustra o comentário de Amador Vega à frase do Mestre Eckhart "A saída de Deus é sua entrada".
 +    * Para Vega, o que é dito exteriormente é vão enquanto houver distinção entre quem fala e o que é dito.
 +    * A pronúncia do Verbo só é possível quando se é já o próprio Verbo.
 +
 +  * O individualismo contemporâneo dificulta a compreensão da mensagem da alteridade, chegando-se a preferir diagnósticos psicopatológicos, como a esquizofrenia, à admissão da revelação ou da inspiração.
 +    * A recusa da alteridade sufoca o mistério.
 +    * A questão levantada é se ainda há lugar para o espírito nesse contexto.
 +
 +  * As tradições antigas denominaram de diversas formas o conceito da alteridade, sendo o verbum dimissum ou "palavra perdida" da maçonaria um dos mais próximos historicamente, explicado por René Guénon como a perda do estado primordial.
 +    * Após a expulsão do Paraíso, essa realidade primordial permanece oculta no interior do ser humano.
 +    * Quando desvelada pelo dom do Espírito Santo, ela se torna a palavra reencontrada, o Verbo, que René Guénon relaciona ao Nome hebraico de Deus, HaShem.
 +
 +  * Diversos versículos de //A Mensagem// aludem ao estado primordial perdido, identificado com o eu profundo e íntimo de todo ser humano.
 +    * Um versículo afirma que muitos estão adormecidos em ocupações vãs e poucos estão despertos o suficiente para buscar-se nos livros santos.
 +    * Outro versículo declara que os que rejeitam o Livro rejeitam sua própria vida sem o saber.
 +
 +  * //A Mensagem// emerge dessa raiz original adormecida no homem que, ao despertar e unir-se ao seu complemento celeste, torna-se mensageira da mensagem, conforme indica um acréscimo manuscrito de Cattiaux na primeira prova do versículo 4 do livro 35.
 +    * O acréscimo autógrafo vincula a unificação no centro secreto ao fato de tornar-se o Mensageiro Reencontrado.
 +    * O "outro" é definido como aquele que conhece a Unidade do divino interior e do divino exterior ao homem.
 +
 +  * Cattiaux é chamado filósofo da alteridade porque em sua obra não descreve sua realidade caída, mas a realidade paradisíaca como lugar próprio do espírito, sendo o texto escrito não pelo homem Cattiaux, mas pelo Deus desperto, a interioridade adormecida em cada homem.
 +    * Ao rejeitar o Deus das religiões exteriores, o homem ocidental apagou também o que é propriamente humano.
 +    * A separação entre Deus e homem é atribuída ao peso extremo da ignorância que nega a alteridade e impede que o espírito repouse em seu lugar.
 +
 +  * Três versículos consecutivos de //A Mensagem// explicitam a alteridade da obra ao identificar o verdadeiro autor e o verdadeiro leitor com o pronome LVI, "ele", que Cattiaux converteu no nome do Deus que ditou o livro. ([[mensagem-reencontrada-32|Livro XXXII]])
 +    * //A Mensagem// é dedicado "À glória de Deus e para o serviço dos homens".
 +    * O nome "Deus" na dedicatória é acompanhado de asterisco que remete à nota: "LVI: O fogo secreto que suscita os Universos, que os mantém e que os consome".
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 +  * LVI é o lugar onde o espírito encontra sua morada, e //A Mensagem// se dirige ao serviço dos homens porque o hermetismo nele proposto, como o do Renascimento, pretende criar um lugar físico e puro para que o espírito universal habite no mundo.
 +    * Uma sentença do Midrash Raba afirma que o Santo-bendito-seja é o lugar do mundo, mas o mundo não é o seu lugar.
 +    * Carlos del Tilo explica que o mundo está contido em Deus, e não Deus no mundo, sendo Deus quem dá ao mundo sua consistência a partir de sua residência nele.
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 +  * O lugar onde ocorre o encontro do céu e da terra não está nem no mundo inferior nem no mundo superior, mas na escada que Jacob viu em sonhos, por onde subiam e desciam os anjos, imagem que os rabinos associam ao coração como ponto de partida da subida.
 +    * Os filósofos herméticos situam esse lugar na escada que une os mundos superior e inferior.
 +    * O texto bíblico especifica que os anjos subiam e desciam, e a pergunta rabínica sobre de onde subiam recebe a resposta sutil do coração.
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 +  * Thomas Vaughan, filósofo hermético-cristão, alquimista e irmão do poeta Henry Vaughan, descreveu em 1650 a escada de Jacob como o maior mistério da cabala, interpretando o sono de Jacob como a morte mística denominada pelos cabalistas mors osculi, a morte do beijo.
 +    * Vaughan situa Jacob em um extremo da escada, embaixo, e Deus no outro, em cima.
 +    * Vaughan declara não pronunciar nem uma sílaba sobre essa morte mística.
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 +  * Os lugares de culto, os ritos e os símbolos exteriores são reflexos do espírito quando este está em seu lugar, e podem guiar o homem na busca, mas não substituem a experiência que representam.
 +    * Quando o símbolo é confundido com a experiência, a verdade de Deus se dilui na absurdidade da vida exilada.
 +    * Quando o espírito está em seu lugar, a união do espírito e do lugar revela o ser-que-é-Deus.
 +
 +  * O propósito de Le Message Retrouvé é articular todos os seus temas em torno da impossibilidade de separar Deus da humanidade e o espírito de seu lugar, núcleo da dignidade humana segundo Pico della Mirandola e da ciência hermética.
 +    * O versículo final citado, //A Mensagem// Reencontrado 15,4, convida a acrescentar, ao comentar qualquer Escritura, rito ou símbolo, que se trata de uma entre as numerosas interpretações da Verdade Una.
 +    * O versículo conclui que Deus é o único senhor do véu e da nudez.
 +
 +<tabbox Guénon>
 +
 +Este livro se apresenta a primeira vista sob uma forma singular e mesmo inusitada: cada um de seus capítulos está dividido em duas colunas paralelas, contendo duas séries de aforismos ou versos destacados que se correspondem um ao outro. É evidente que, nestas condições, é impossível dar uma análise ou qualquer resumo; parece portanto feito para fornecer de algum modo temas de meditação do que para ser lido de uma maneira seguida do início ao fim. A correspondência entre os versos das duas colunas não parece sempre muito clara; mas vale mais reproduzir a explicação dada pelo autor: "As duas colunas se assemelham naturalmente como réplicas da Terra e do Céu e de sua necessária união que assim faz todo o mistério da encarnação da vida e da tomada de consciência daquilo que a habita. Assim a coluna da direita é uma equivalência, mas não uma explicação da coluna da esquerda, e em examinando os sentidos múltiplos destes duplos versos, pode-se religá-los pela síntese do misticismo primeiro da criação sempre mais ou menos presente pela virtude do sentido alquímico".
 +
 +A multiplicidade de sentidos da qual se trata não é intencional, "mas decorre por geração natural da raiz-mãe", quer dizer do sentido alquímico que o autor considera como o sentido central e último de sua obra. Ela teria sido escrita sob uma espécie de inspiração, e eis porque contém mais do que se queria expressamente, embora seja difícil determinar a parte exata de cada um dos elementos que aí colaboraram. Não se pode dizer que se associa a uma tradição definida, embora se destaque um hermetismo de fundo, mais precisamente um hermetismo cristão. Dizemos de modo geral, pois se se entra nos detalhes, percebe-se que certas coisas, conscientemente ou não, parecem vir de alhures: assim, reparamos certos versos que fazem lembrar máximas taoistas.
 +
 +A importância primordial que o autor dá ao sentido alquimista define bem a "perspectiva" do conjunto, assim como marca seus limites, que são mesmo do ponto de vista "hermético". Encontram-se, no entanto algumas estranhezas do gênero que se encontram em escritos de cunho esotérico ocidental: assim os títulos das colunas da esquerda são todos formados por uma série de anagramas a partir do primeiro, o que dá um efeito curioso; mas também, o que é mais incômodo é que certos enunciados se apresentam sob uma forma enigmática que nos parece verdadeiramente pouco útil (segundo Guénon problemas reconhecidos pelo autor e objetos de revisão em edições subsequentes da obra).
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 +Guénon conclui que o livro "merece ser lido e estudado com cuidado por todos aqueles que se interessam a este aspecto particular da tradição".
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 +</tabbox>
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 +{{tag>Cattiaux}}