folktale:graal:jung:4
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| + | ====== 4 Castelo do Graal ====== | ||
| + | //JUNG, Emma; FRANZ, Marie-Luise von. The Grail legend. London: Hodder & Stoughton, 1971.// | ||
| + | **A primeira visita de Perceval ao Castelo do Graal** | ||
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| + | 1. Numa época em que entregar-se por tempo demais à homenagem às mulheres era considerado efeminado e indigno de um verdadeiro cavaleiro, falta chamada acídia por muitos poetas contemporâneos, | ||
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| + | 2. Cavalgando ao acaso, Perceval chega a um rio profundo, supondo que a casa da mãe esteja na outra margem, mas não há travessia e a estrada não prossegue, até que, como em resposta a uma prece para encontrar o que busca, avista um pescador que lhe indica o caminho do Castelo do Graal, onde não encontra a mãe, mas aquele outro mundo que lhe corresponde, | ||
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| + | 3. A entrada num domínio do outro mundo anuncia-se pela mudança da atmosfera, que se torna mágica, em consonância com o papel desse outro mundo nos contos bretões e na fantasia celta, cujos povos, segundo César, tinham por ancestral Dis-pater, deus do mundo subterrâneo e provavelmente sucessor de uma divindade materna mais antiga, mundo imaginado ora sob a terra, nas colinas funerárias onde os Tuatha Dé Danann viveriam em eterna juventude em palácios chamados sidh, ora como Mag Mor ou Mag Mell, Terra da Juventude, Terra dos Vivos e Terra Prometida, ora sob as águas ou além do mar, como Ilha Verde do Ocidente ou Ilha das Mulheres, ora no meio do mundo cotidiano, oculto por uma névoa mágica e visível apenas em condições especiais e a pessoas determinadas, | ||
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| + | 4. A qualidade sobrenatural dos domínios do Graal levou a associá-los ao mundo subterrâneo, | ||
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| + | 5. O senhor do castelo, grisalho, ricamente vestido e com gorro de zibelina, saúda o recém-chegado, | ||
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| + | 6. A natureza singular dos acontecimentos legitima tratar todo o episódio como sonho ou descida ao inconsciente coletivo, tanto mais que os grandes sonhos, decisivos para a vida posterior do jovem, ocorrem frequentemente na puberdade. | ||
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| + | 7. Após breve conversa, um pajem entrega ao rico homem, como é chamado o senhor do castelo, uma espada enviada pela donzela loura, sua sobrinha, para que a ofereça a quem quiser, uma das três únicas existentes, cujo ferreiro morrerá sem poder fazer outras, forjada em aço tão verdadeiro que só se quebrará em circunstâncias perigosas conhecidas apenas por quem a fez, e o anfitrião a oferece a Perceval como arma raríssima e preciosa a ele destinada em particular. | ||
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| + | 8. Em Wolfram a espada está ausente, substituída pelo manto que a sobrinha do rei empresta a Parzival, enquanto na maioria das outras versões a espada está partida em pedaços e espera-se do cavaleiro destinado a guardar o Graal que seja capaz de restaurá-la à integridade. | ||
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| + | 9. Depois de contemplar a espada por algum tempo, Perceval a deposita junto às outras armas, ao que se segue a verdadeira visão do Graal, merecedora, por sua extrema importância, | ||
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| + | 10. Na sala iluminada por grandes velas como as de altar, um pajem atravessa, entre o fogo e os dois homens sentados, levando uma lança branca de cuja ponta de ferro uma gota de sangue escorre pela haste até sua mão, e Perceval, fiel à advertência do mestre de não fazer perguntas demais, nada diz, assim como diante dos pajens com candelabros de ouro, da donzela que traz um graal de ouro puro cravejado de pedras, cujo brilho ofusca as velas, e da outra que carrega uma travessa de prata, e durante a refeição, servida em mesa de marfim sobre suportes de ébano, com cervo ao molho de pimenta e vinho em taças de ouro, o Graal passa de novo, inteiramente descoberto, a cada prato, sem que ele ouse perguntar seu sentido, decidindo indagá-lo de manhã a um servo, mas ao despertar, após o rei ter sido levado por quatro servidores, encontra as armas ao lado, ninguém para ajudá-lo, portas fechadas sem resposta, o cavalo selado, o portão aberto e a ponte levadiça que se ergue enquanto ainda está sobre ela, obrigando o cavalo a saltar, e ninguém responde ao seu chamado, restando-lhe seguir caminho. | ||
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| + | 11. Em Wolfram, o episódio do Castelo do Graal segue curso muito semelhante, mas apresenta variações que justificam sua exposição detalhada. | ||
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| + | 12. Parzival deixa Belrapeire e sua esposa Condwiramurs para conquistar mais fama como cavaleiro, faltando aqui o ponto psicologicamente importante do desejo de procurar a mãe, e em vez de um rio chega a um lago, onde também encontra um pescador que lhe indica o castelo. | ||
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| + | 13. Os acontecimentos no castelo, especialmente a procissão do Graal, são descritos em Wolfram com muito maior riqueza e magnificência, | ||
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| + | 14. A procissão solene e colorida lembra vivamente os festivais de mistérios da Antiguidade, | ||
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| + | 15. Terminada a refeição e recolhido o cortejo, Parzival entrevê pela porta aberta o mais belo ancião que jamais vira, de cabelos brancos como a neve, o mesmo velho rei a quem em Chrétien a hóstia é levada no Graal, e, seguindo ao pé da letra a advertência do mestre, cala as perguntas que o assaltam, sendo conduzido a um leito luxuoso, servido por pajens e por quatro donzelas com suco de amora, vinho e frutos do Paraíso, mas seu sono é perturbado por pesados sonhos que lhe anunciam sofrimentos futuros, como acontecera à sua mãe. | ||
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| + | 16. Como em Chrétien, ao despertar encontra o castelo vazio e silencioso e parte sem ver ninguém a quem pudesse interrogar sobre o estado das coisas naquele lugar. | ||
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| + | 17. Perceval viu o castelo misterioso, o rei enfermo, a lança sangrenta e o Graal, mas, por não perguntar seu sentido, tudo desaparece sem que nada descubra, o que confere ao episódio o caráter de um sonho, de um sonho de iniciação. | ||
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| + | 18. Querendo voltar à mãe, Perceval chega ao castelo difícil de encontrar, situado no inconsciente, | ||
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| + | 19. No Castelo do Graal, porém, Perceval não encontra um mundo de mães, mas de pais pertencentes ao lado materno, pois o Rico Pescador é seu primo e o velho rei a quem se leva a hóstia no Graal é seu tio, irmão da mãe, figura à qual as sociedades primitivas frequentemente atribuem o sentido de pai espiritual, e em Wolfram Anfortas é irmão da mãe de Parzival e Repanse de Schoye sua tia, o que sugere que o relato materno sobre o pai e os irmãos, ouvido com total desinteresse, | ||
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| + | 20. É significativo que em Wolfram o guardião do Graal seja irmão da mãe de Parzival, ou seu avô ou antepassado materno, o que pode ligar-se ao destaque dado ao elemento feminino no serviço às mulheres da época ou a traços matrilineares de uma ordem social mais antiga, talvez de influência celta, dispersos por essa literatura, mas deve-se mais provavelmente à predominância do inconsciente, | ||
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| + | 21. Sejam antepassados maternos ou paternos, são sempre figuras de pai que o herói encontra no Castelo do Graal, com exceção da Portadora do Graal, que pode ser tomada como figura de anima. | ||
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| + | 22. Os ancestrais ou seus espíritos desempenham papel importante nos sonhos e cerimônias de iniciação dos povos ditos primitivos, cuja essência reside no estabelecimento da relação com eles, condição para que o jovem se torne membro pleno da tribo, e do mesmo modo Perceval, já admitido numa confraria pela investidura de Gornemant, é iniciado no Castelo do Graal ao conhecer seus antepassados espirituais, | ||
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| + | 23. Assim como nos ritos primitivos o noviço é instruído nos mistérios da tribo pelos ancestrais, os tesouros guardados pelo Rei do Graal são mostrados a Perceval como relíquias sagradas da tribo, num contexto em que o masculino não se refere ao pai físico nem à masculinidade comum, mas ao espírito masculino correspondente ao mundo do pai, entendido como estado superior de consciência que faltava ao jovem movido apenas pelos instintos, e a insistência numa linhagem matrilinear e sobretudo espiritual, com a mãe irmã do eremita Trevrizent e do velho Rei do Graal, ambos extremamente desapegados do mundo, o eremita alimentado de pão e uvas trazidos diariamente por um anjo e o velho rei sustentado apenas pela hóstia levada no Graal, indica tratar-se de um parentesco psíquico e espiritual, referente ao Perceval espiritual, o homem superior interior. | ||
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| + | 24. Nas versões que ligam o Graal a José de Arimateia, a ascendência do Rei do Graal remonta a José ou a Nicodemos, e quem conquista o Graal deve provar pertencer a essa família, o que o aproxima de Cristo e confirma que o herói do Graal designa o homem superior em sentido religioso, introduzindo dois aspectos presentes em toda a obra, o dos acontecimentos como representações simbólicas do desenvolvimento arquetípico do herói e o de uma dimensão profunda que remete ao problema da era cristã, no âmbito do qual Perceval parece destinado a um papel salvífico específico, | ||
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| + | 25. Na procissão do Graal aparecem também figuras femininas, sobretudo a Portadora do Graal, sobrinha ou filha do Rei do Graal, ou em Chrétien irmã do Rico Pescador e tia de Perceval, figura de anima e personificação das realidades psíquicas interiores, à vontade no mundo onírico em que os acontecimentos se desenrolam, cabendo-lhe tornar visíveis as imagens do inconsciente, | ||
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