vedanta:sankara:espectador:start
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| + | ===== Como discriminar o espectador do espetáculo ===== | ||
| + | //Le Drg Drshia Viveka (Comment Discriminer le Spectateur du Spectacle) de Shamkara. Tr. Marcel Sauton. (1946)// | ||
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| + | I | ||
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| + | Primeiramente, | ||
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| + | O mental e as suas modificações passam, enfim, à categoria dos objetos percebidos: é o Espectador (sâksin) que, em última instância, percebe realmente, e a esse Espectador ninguém pode perceber. | ||
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| + | COMENTÁRIOS | ||
| + | |||
| + | É pelo conhecimento direto e imediato do atman (ou do Si) que se acede ao estado de libertação. Se se compreende a plena significação do mantra sagrado « tat tvam asi » (Aquilo, tu o és, tu também), o fim supremo da existência é atingido; mas, para interpretar corretamente este mantra, faz-se necessário apreender previamente o valor exato dos diferentes vocábulos que o compõem; os cinco primeiros slokas deste tratado explicam o sentido de « tu ». | ||
| + | |||
| + | Para o vedanta, as coisas do espetáculo são, primeiramente, | ||
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| + | Não conviria empregar aqui o qualificativo « inconsciente » em lugar de inanimado, porquanto não se encontra, no mundo das aparências, | ||
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| + | II | ||
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| + | Este sloka retoma o pensamento precedentemente expresso e o desenvolve ainda: | ||
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| + | É em razão de distinções deste gênero: tal coisa é azul ou amarela, grosseira ou sutil, curta ou longa, etc., que o olho, enquanto unidade, percebe a multiplicidade das formas. | ||
| + | |||
| + | COMENTÁRIOS | ||
| + | |||
| + | As formas são objetos de percepção que mudam incessantemente. Apenas é permanente, apenas não muda, o sujeito que percebe. Os múltiplos objetos parecem, sem dúvida, ser distintos uns dos outros; mas, se são percebidos em suas mudanças sucessivas, é porque o olho é ele próprio uma unidade de percepção. Pertencem todos à mesma categoria: em bloco, constituem o espetáculo. E, relativamente aos objetos, o olho é deveras o espectador. | ||
| + | |||
| + | Todos os objetos possuem uma característica comum: a mudança; ora, a mudança não pode operar-se senão nas coisas que são imaginadas a propósito de um substrato, o que sucede, por exemplo, com a serpente, o filete de água, o bastão, a grinalda, etc., que se vê, por erro, onde existe apenas um simples pedaço de corda. Todas essas ideias estão sujeitas à mudança. | ||
| + | |||
| + | Ao contrário, o Espectador possui como característica o ser imutável. Os objetos mudam, porém o sujeito que os percebe permanece sempre o mesmo. As aparências — as da serpente, do filete de água, do bastão, etc. — passam, mas o pedaço de corda que lhes serve de substrato permanece aquilo que nunca cessou de ser: é sempre o mesmo pedaço de corda. | ||
| + | |||
| + | A ideia expressa nos quatro primeiros slokas consiste em que o espectador possui, em todos os escalões, um caráter de unidade relativamente ao conjunto do espetáculo. O percipiente é a própria unidade, e é na unidade que a multiplicidade encontra toda a sua realidade. | ||
| + | |||
| + | Aos graus inferiores que são primeiramente perspectivados, | ||
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| + | III | ||
| + | |||
| + | Em razão de sua natureza sujeita à mudança, o olho é, também ele, um objeto, e é o mental que o percebe: | ||
| + | |||
| + | O olho é penetrante ou turvo; por vezes mesmo, cessa de funcionar. O mental tem a capacidade de conhecer todas essas mudanças, porque é uma unidade. E a mesma constatação aplica-se no que concerne a qualquer outro órgão: ouvido, pele, etc. (para as percepções que lhe correspondem). | ||
| + | |||
| + | COMENTÁRIOS | ||
| + | |||
| + | Ainda que, relativamente à multiplicidade das formas, o olho seja o sujeito percipiente, | ||
| + | |||
| + | O olho é, com efeito, afetado pelas mudanças, e tais mudanças são percebidas pelo mental: é o mental que pensa: « Sou cego; sou zarolho; vejo claramente, etc. ». O mental tem conhecimento de todas essas mudanças, pois é ele próprio uma unidade de percepção. | ||
| + | |||
| + | A mesma constatação se aplica a todos os órgãos sensoriais outros que a visão. Posto que o olfato, o tato, o paladar, etc., sejam, com relação aos seus objetos particulares, | ||
| + | |||
| + | Poder-se-á quiçá objetar que o mental não percebe realmente o órgão sensorial; eis a resposta: | ||
| + | |||
| + | O termo « indriya » possui duas significações; | ||
| + | |||
| + | Por outro lado, admitindo-se que o olho, por exemplo, percebe um objeto, e que, em última instância, o verdadeiro sujeito da percepção é a testemunha interior, deve-se aceitar igualmente que, na série ascendente: « objeto, órgão, mental, testemunha », cada um dos termos intermediários é percebido por aquele que lhe é imediatamente superior; a percepção não poderia efetuar-se se, num ponto qualquer da cadeia, faltasse um elo. | ||
| + | |||
| + | IV | ||
| + | |||
| + | Ao mesmo título que os outros órgãos sensoriais, o mental é um objeto percebido por uma entidade distinta de si: eis o que elucida o presente versículo: | ||
| + | |||
| + | A Consciência ilumina múltiplos estados mentais tais como o desejo, a determinação e a dúvida, a convicção e a incredulidade, | ||
| + | |||
| + | Ainda que, para a comodidade da análise, se passe a distinguir no corpo sutil ou órgão interior funções diferentes: aham-kara-buddhi-manas-citta, | ||
| + | |||
| + | Descobre-se assim uma série de termos escalonados, | ||
| + | |||
| + | V | ||
| + | |||
| + | O mental sofre todas essas mudanças; eis uma constatação ao alcance de todos. Ora, em razão mesma de sua natureza inconstante, | ||
| + | |||
| + | Para essa Consciência não há nascente nem poente; jamais ela cresce, jamais tampouco decresce; brilha sempre por seu próprio fulgor e, sem o socorro de uma luz alheia, ilumina tudo quanto é percebido como objeto. | ||
| + | |||
| + | VI | ||
| + | |||
| + | É por penetrar o reflexo da pura Consciência na buddhi que surge um simulacro (de conhecimento empírico), pois a buddhi se revela (simultaneamente) sob dois aspectos: um, como fator de individuação (aham-krti); | ||
| + | |||
| + | O vedanta reconhece o papel proeminente que a memória desempenha na falsa identificação; | ||
| + | |||
| + | Eis todo o problema do erro: o erro ou a falsa identificação produz-se enquanto não se souber, em cada ato de percepção, | ||
| + | |||
| + | VII | ||
| + | |||
| + | Segundo o primeiro sloka, o olho e o mental foram sucessivamente descritos como se, relativamente aos diferentes objetos de percepção que lhes correspondem, | ||
| + | |||
| + | O sábio considera que o reflexo (da Consciência) e o senso do ego, à semelhança do fogo e da esfera de ferro em brasa, não formam senão uma única e mesma coisa. | ||
| + | |||
| + | O corpo identifica-se com o ego (o qual já se identificara com o reflexo da Consciência), | ||
| + | |||
| + | VIII | ||
| + | |||
| + | Eis como o aham-kara se identifica com diferentes unidades: | ||
| + | |||
| + | O senso do ego pode identificar-se seja com o reflexo da Consciência, | ||
| + | |||
| + | A primeira identificação é natural; a segunda deve-se ao carma anterior; a terceira, à ignorância. | ||
| + | |||
| + | IX | ||
| + | |||
| + | Como podem cessar as diferentes identificações do aham-kara? | ||
| + | |||
| + | A identificação recíproca do ego e do reflexo da Consciência é inata; persiste enquanto esse ego e esse reflexo forem tidos por reais; as duas outras identificações desvanecem-se: | ||
| + | |||
| + | As três ordens de identificação acima descritas desaparecem simultaneamente quando o jiva realiza que é Brahman. | ||
| + | |||
| + | O Conhecimento de que aqui se trata não poderia ser de ordem puramente intelectual. Cumpre que seja realizado experimentalmente; | ||
| + | |||
| + | « Se o mental se desvia da linha do Ideal escolhido, põe-se a divagar e vai de queda em queda; tudo se passa então como com a esfera elástica que por descuido se deixa cair na escada: de degrau em degrau, ressalta — e é no último degrau que se detém! » | ||
| + | |||
| + | X | ||
| + | |||
| + | Este sloka descreve a natureza empírica do atman e a associação do atman às três condições da existência humana (vigília, sonho e sono profundo); para que essas três condições se tornem possíveis, faz-se mister que o ego se identifique com o corpo. | ||
| + | |||
| + | Na condição de sono profundo, quando o senso do ego desaparece, o corpo também se torna inconsciente. A condição de sonho é aquela em que não há senão uma semimanifestação do ego; a condição de vigília apresenta-lhe, | ||
| + | |||
| + | A distinção entre o estado de vigília e o estado de sonho é formulada aqui sob o ponto de vista psicológico. | ||
| + | |||
| + | Para os desenvolvimentos metafísicos a que tal problema pode dar margem, consulte-se a obra « Alguns aspectos da filosofia vedântica », pelo [[..: | ||
| + | |||
| + | XI | ||
| + | |||
| + | Explica-se aqui que as experiências da condição de vigília, bem como as alucinações oníricas, não são umas e outras senão simples modificações mentais. | ||
| + | |||
| + | O órgão interno não passa, ele próprio, de uma modificação que se identifica com o reflexo da Consciência; | ||
| + | |||
| + | E esse órgão interno, (identificando-se com o corpo), imagina também, na condição de vigília, relativamente aos órgãos sensoriais, objetos exteriores. | ||
| + | |||
| + | As experiências humanas dão-se invariavelmente « no estado de vigília ». Não se duvida jamais, ao sonhar, da realidade dos objetos percebidos nesse momento; é mister que o sonho haja cessado para que se reconheça que se tratava de uma « ilusão onírica ». Se se tem, por vezes, a impressão de assistir a uma manifestação do sonho, é porque, na verdade, já não se sonha: abandonou-se o espírito ao devaneio. | ||
| + | |||
| + | Experiências de vigília e experiências de sonho têm exatamente o mesmo valor aos olhos do sábio que realizou o nirvikalpa-samadhi. Este sabe que a vida empírica não é senão um sonho, mas, ao mesmo tempo, reconhece em cada percepção o invariável substrato e, para si, Brahman acha-se inteiramente presente em cada ser e em cada coisa. | ||
| + | |||
| + | Convém, não obstante, estabelecer uma distinção: | ||
| + | |||
| + | Observe-se o que sucede nos sonhos: nesse instante, ideias de duas ordens surgem no mental; umas situam-se fora de nós, numa espécie de domínio mental: são os objetos exteriores; outras são internas: são os pensamentos. | ||
| + | |||
| + | O sentido de interioridade (ipseidade) e o de exterioridade (ecceidade) são, por conseguinte, | ||
| + | |||
| + | Ora, tende-se perpetuamente a formular o seguinte juízo: o que é exterior — o objeto — é real; o que é interior — o pensamento — é irreal. | ||
| + | |||
| + | Ao despertar de um sonho, dá-se conta de que os objetos e os pensamentos oníricos procedem da mesma substância sutil e se reabsorvem nesse mesmo substrato. | ||
| + | |||
| + | Raciocinando por analogia, assiste o direito de assimilar a experiência de vigília à alucinação onírica. Também aqui, ipseidade e ecceidade acham-se em função uma da outra; os dois bois integram a mesma parelha, unidos pelo mesmo jugo. Nascidos juntos, trabalham juntos e morrem juntos. Não há pensamento sem objeto, não há objeto sem pensamento. | ||
| + | |||
| + | XII | ||
| + | |||
| + | Descreve-se neste sloka a verdadeira natureza do órgão interno: | ||
| + | |||
| + | O corpo sutil, causa material do mental e do senso do ego, é uma unidade; é, por natureza, inanimado; passa sucessivamente pelas três condições (de vigília, sonho e sono profundo); sofre igualmente o nascimento e a morte. | ||
| + | |||
| + | Se o corpo grosseiro é composto de partes heterogêneas, | ||
| + | |||
| + | A atividade sensorial que se exprime por um dos dois grupos de indriyas (karmendriyas: | ||
| + | |||
| + | XIII | ||
| + | |||
| + | A existência do mundo empírico é um fato de experiência; | ||
| + | |||
| + | Dois poderes são indiscutivelmente atribuídos a maya: o poder de projeção (viksepa-sakti) e o poder de obnubilação (avrti-sakti). | ||
| + | |||
| + | Desde o corpo sutil até o universo grosseiro, tudo é criado pelo poder de projeção. | ||
| + | |||
| + | XIV | ||
| + | |||
| + | Sob o prisma empírico, designa-se Brahman como a causa do universo, porque o mental perquire sempre uma causa, embora Brahman não possa, a rigor, ser causa de coisa alguma. Eis o que expõe o presente sloka, salientando a autêntica natureza da criação: | ||
| + | |||
| + | Em sac-cid-ananda, | ||
| + | |||
| + | Transpondo essa experiência do sonho para a condição de vigília, pode-se reduzir o mundo da vigília a ideias, contanto que se considere o ego sob o mesmo ângulo. A partir do momento em que se admite ser o ego, também ele, uma ideia, assiste o direito de conceder aos demais objetos idêntico valor. Tudo quanto existe, o eu (asmaj-jagat) e o não-eu (yusmaj-jagat), | ||
| + | |||
| + | Reproduz-se, | ||
| + | |||
| + | « Aquilo que a maioria dos homens considera como universo criado não é outra coisa senão Brahman; em realidade, só Brahman existe, com exclusão de qualquer outra coisa. | ||
| + | |||
| + | « O que se designa como o mundo dos nomes e das formas, aquilo que, por conseguinte, | ||
| + | |||
| + | « Eis as diferentes teorias da criação: | ||
| + | |||
| + | a) A criação é a manifestação do poder divino; \\ | ||
| + | b) A criação é a própria manifestação, | ||
| + | c) A criação é a manifestação da vontade divina, fadada a cumprir-se inelutavelmente; | ||
| + | d) A criação é a manifestação decorrente do tempo, permanecendo o próprio Isvara indiferente a essa manifestação; | ||
| + | |||
| + | « Há fundamento para considerar as quatro explicações precedentes como cosmogônicas. As duas seguintes são teleológicas: | ||
| + | |||
| + | e) A criação tem por escopo facultar a Deus o gozo do mundo; \\ | ||
| + | f) A criação é um ato do Jogo divino (lila) ». | ||
| + | |||
| + | Todas essas teorias são refutadas pela simples verificação de que Brahman, cujos desígnios se encontram em perpétuo estado de realização, | ||
| + | |||
| + | « Aqueles que admitem como real o ato da criação e o explicam ulteriormente como tendo a natureza do sonho ou da ilusão esquecem que o sonho e a ilusão são, no fim de contas, irreais; não logram explicar a suposta realidade do ato da criação. A manifestação não é um ato de tal espécie: a vontade divina não poderia de modo algum ser a causa deste universo, visto que toda vontade implica esforço com vistas a satisfazer um desejo insatisfeito; | ||
| + | |||
| + | « O intelecto humano, sujeito a maya, imputa a causa do universo à vontade divina, ao jogo divino, etc., porém tal imputação traz a marca de maya: é, ela própria, maya. | ||
| + | |||
| + | « É manifesto que todo indivíduo que enxerga a criação enquanto tal permanece sob a ação do poder de maya. As doutrinas que em vão procuram explicar a criação devem-se, em verdade, à ignorância do espírito humano que apreende essa criação. | ||
| + | |||
| + | « Sob a perspectiva relativa, maya subsiste seja em Brahman, seja no espírito do sujeito percipiente; | ||
| + | |||
| + | XV | ||
| + | |||
| + | O poder de obnubilação de maya acha-se descrito neste versículo: | ||
| + | |||
| + | O outro poder de maya, o de obnubilação, | ||
| + | |||
| + | XVI | ||
| + | |||
| + | Ficou estabelecido que maya constitui a causa da presente manifestação do universo. Qual é, pois, a natureza do jiva submetido à lei da transmigração? | ||
| + | |||
| + | É na proximidade imediata da Testemunha (saksin) que se ilumina o corpo sutil (linga-sarira), | ||
| + | |||
| + | XVII | ||
| + | |||
| + | Ergue-se presentemente uma dúvida: afirma-se que o jiva da experiência relativa é irreal. Sendo tal jiva irreal, de que serve cogitar de libertação? | ||
| + | |||
| + | O versículo seguinte responde à objeção, demonstrando que a noção de jiva é falsamente sobreposta à Testemunha ou ao Espectador: | ||
| + | |||
| + | O caráter de jiva manifesta-se como efeito de uma sobreposição ilusória projetada sobre a própria Testemunha. | ||
| + | |||
| + | Tão logo se desvanece esse poder de obnubilação, | ||
| + | |||
| + | XVIII | ||
| + | |||
| + | Do mesmo modo que, no plano individual, a Testemunha parece, por força de uma falsa identificação, | ||
| + | |||
| + | É assim que, sob o império desse poder que encobre toda distinção entre Brahman e o universo das aparências, | ||
| + | |||
| + | XIX | ||
| + | |||
| + | Quando o poder de obnubilação é destruído, pode-se distinguir Brahman do mundo das aparências, | ||
| + | |||
| + | Neste caso igualmente, a distinção entre Brahman e a criação (sarga) torna-se perceptível tão logo o poder de obnubilação é aniquilado; eis por que a mudança é percebida na criação, e jamais em Brahman. | ||
| + | |||
| + | Apoiando-se no princípio das variações concomitantes, | ||
| + | |||
| + | XX | ||
| + | |||
| + | Prova-se aqui a identidade entre « tu » e « Aquilo »: | ||
| + | |||
| + | A existência (asti), o fulgor (bhati), a atração (priya), o nome e a forma são as cinco características capitais; as três primeiras aplicam-se a Brahman; as duas outras, ao universo empírico. | ||
| + | |||
| + | O vocábulo composto « nama-rupa » designa a um só tempo o aspecto grosseiro e o aspecto sutil da manifestação: | ||
| + | |||
| + | XXI | ||
| + | |||
| + | A significação do sloka anterior é especificada aqui mercê da aplicação do princípio das variações concomitantes. | ||
| + | |||
| + | Os atributos de Existência (sat), Consciência (cit) e Felicidade (ananda) acham-se uniformemente presentes tanto no éter (akasa), no ar, no fogo, na água e na terra, quanto nos deuses, nos animais e nos homens; são, porém, os nomes e as formas que tornam uma coisa distinta de outra. | ||
| + | |||
| + | As duas formulações « sac-cid-ananda » e « nama-rupa » indicam, a primeira, a natureza de Brahman; a segunda, a de maya. | ||
| + | |||
| + | Em cada ato perceptivo, experimenta-se uma dupla noção: a do Ser e a do Devir; a existência empírica é, portanto, uma mescla indefinível de real e de irreal. | ||
| + | |||
| + | Mediante esforço prolongado, o aspirante consegue afastar a antepara dos nomes e das coisas, apreendendo a pura Realidade. Dessa experiência supranormal extrai uma iluminação definitiva; doravante, sob cada expressão da manifestação, | ||
| + | |||
| + | XXII | ||
| + | |||
| + | Fundando-se no princípio das variações concomitantes, | ||
| + | |||
| + | Uma vez volvido o aspirante indiferente aos nomes e às formas, experimentando ardente devoção a « sac-cid-ananda », deve praticar assiduamente a concentração (samadhi), seja no recesso do coração, seja sobre um objeto exterior. | ||
| + | |||
| + | Idênticos preceitos acham-se assinalados nos « Comentários sobre os Aforismos de Patanjali », pelo Swami Vivekananda. | ||
| + | |||
| + | XXIII | ||
| + | |||
| + | Os sete versículos seguintes descrevem essas duas modalidades de concentração. A concentração « no recesso do coração » constitui matéria dos versículos XXIII, XXIV e XXV. | ||
| + | |||
| + | Dois gêneros de concentração (samadhi) podem ser praticados no coração: o primeiro intitula-se « savikalpa »; o segundo, « nirvikalpa ». | ||
| + | |||
| + | O savikalpa-samadhi subdivide-se, | ||
| + | |||
| + | XXIV | ||
| + | |||
| + | Eis a descrição do savikalpa-samadhi no qual a concentração vincula-se a um objeto (subjetivo): | ||
| + | |||
| + | Os desejos, etc., sediados no mental devem ser perspectivados como objetos de conhecimento. Meditai, pois, na Consciência que permanece como Testemunha constante de todas as modificações do mental. Esse estado denomina-se savikalpa-samadhi associado a um objeto (de conhecimento). | ||
| + | |||
| + | XXV | ||
| + | |||
| + | Este sloka propõe um gênero mais elevado de savikalpa. A concentração vincula-se, nesta instância, a um som qualquer, considerado enquanto objeto. | ||
| + | |||
| + | Sou « sac-cid-ananda », supremamente incondicionado; | ||
| + | |||
| + | Eis o que se conhece como a segunda espécie de savikalpa-samadhi associado a um som (isto é, a um objeto subjetivo). | ||
| + | |||
| + | XXVI | ||
| + | |||
| + | Descreve-se aqui uma concentração superior, em que todas as ideações restam abolidas: | ||
| + | |||
| + | O nirvikalpa-samadhi, | ||
| + | |||
| + | Torna-se então o aspirante indiferente tanto aos objetos quanto aos sons, por achar-se plenamente imerso na bem-aventurança propiciada pela Realização do Si (svanubhuti). | ||
| + | |||
| + | Para a filosofia hindu, vigora entre o nome e o objeto designado por esse nome — isto é, entre o signo e a coisa significada — uma relação incindível: | ||
| + | |||
| + | Revela-se árduo para o espírito ocidental captar essa correlação, | ||
| + | |||
| + | Tal nexo comportaria explicação sob a ótica dos tantras, ensejando a exposição da teoria do « Verbo de Brahman », cuja raiz se deita nos vedas. | ||
| + | |||
| + | Por venerável que seja esse prisma, nem por isso deixa de ser « teológico », preferindo-se ater ao da advaita. Sob este viés, é a epistemologia segundo o vedanta que facultará uma elucidação racional. | ||
| + | |||
| + | Conforme a psicologia hindu, a consciência assume, em qualquer experiência relativa, três modalidades distintas: a consciência subjetiva, a consciência objetiva e a consciência cognitiva; ao tomar um sujeito conhecimento de um objeto, a consciência subjetiva e a consciência objetiva fundem-se em unidade, enlaçadas pela consciência cognitiva. A cognição daí resultante mostra-se tanto mais exata e precisa quanto mais íntima houver sido a identificação; | ||
| + | |||
| + | Retornando ao plano comum, o sábio não traça distinção alguma entre o nomeante e o nomeado, o interior e o exterior, o pensamento e o ato, o sujeito e o objeto, porquanto para ele « tudo isto (nama-rupa) não é senão Brahman ». | ||
| + | |||
| + | Por essa mesma razão a upanisad recomenda ao aspirante sequioso de conhecer Brahman a meditação no « om », o Verbo sagrado, tido pela sruti como o esteio (ou símbolo) por excelência. | ||
| + | |||
| + | Acrescente-se que o sono profundo e o nirvikalpa-samadhi possuem uma característica comum: a ausência de manifestação; | ||
| + | |||
| + | Esse estado não é « tamásico » senão do ponto de vista da vigília; sob esse prisma, acha-se envolto pela ignorância, | ||
| + | |||
| + | Tal sono, consciente e voluntário, | ||
| + | |||
| + | Essas duas condições — morte física e morte do ego —, conjugadas entre si, constituem o estado de nirvikalpa-samadhi. | ||
| + | |||
| + | A esse respeito, confiram-se as conferências do Swami Siddheswarananda: | ||
| + | |||
| + | XXVII | ||
| + | |||
| + | Entregando-se ao samadhi anteriormente descrito, alcança o aspirante a realização do seu próprio Si, cuja natureza é « sac-cid-ananda ». E essa concentração pode outrossim ser praticada com o concurso de um objeto qualquer do mundo exterior, realizando-se então a natureza de Brahman e a da criação, porquanto Brahman e o atman (ou o Si) são termos equivalentes. | ||
| + | |||
| + | O primeiro gênero de samadhi pode ser atingido por meio de um objeto qualquer, seja interno (subjetivo), | ||
| + | |||
| + | Nesse samadhi, o nome e a forma são dissociados daquilo que é san-matra (isto é, de Brahman, o Absoluto, enquanto pura Existência: | ||
| + | |||
| + | A Bhagavad-Gita assevera a esse respeito: « O irreal não possui existência; | ||
| + | |||
| + | XXVIII | ||
| + | |||
| + | Eis o outro gênero de samadhi, associado ao som (enquanto objeto) e praticado mediante um objeto exterior: | ||
| + | |||
| + | A Realidade, que possui sempre a mesma natureza, que é incondicionada e caracterizada por « sac-cid-ananda », é indubitavelmente Brahman. | ||
| + | |||
| + | Uma contemplação ininterrupta desta ordem denomina-se « absorção intermediária »: é o savikalpa-samadhi associado a um som (considerado enquanto objeto). | ||
| + | |||
| + | XXIX | ||
| + | |||
| + | Descreve-se aqui o nirvikalpa-samadhi suscetível de ser exercitado mediante o método objetivo: | ||
| + | |||
| + | A impassibilidade do mental em face dos objetos exteriores, descrita precedentemente, | ||
| + | |||
| + | XXX | ||
| + | |||
| + | O efeito a que conduz a prática assídua da concentração descrita no sloka anterior é tornar esse samadhi natural e espontâneo. O aspirante culmina por realizar Brahman em cada ser e em cada coisa. | ||
| + | |||
| + | Havendo-se o praticante desvencilhado de todo apego relativamente ao corpo e realizado o atman supremo, experimenta um gênero de nirvikalpa-samadhi qualquer que seja o objeto para o qual se dirija o seu mental. | ||
| + | |||
| + | « Uma vez concluída a purificação, | ||
| + | |||
| + | XXXI | ||
| + | |||
| + | Eis o fruto dessa realização suprema, delineado nas expressões textuais da mundakopanisad: | ||
| + | |||
| + | « Tão logo se O realiza, quer sob o Seu aspecto relativo, quer sob o Seu aspecto absoluto, rompem-se os liames do coração, dissipam-se as dúvidas, extinguem-se os carmas ». | ||
| + | |||
| + | Tão logo se realiza Aquele que é concomitantemente imanente e transcendente, | ||
| + | |||
| + | Aquele que realizou Brahman conquistou em definitivo a libertação (mukti), constituindo essa emancipação o escopo da existência. Eis, em abono, passagens da sruti: | ||
| + | |||
| + | < | ||
| + | « O conhecedor de Brahman atingiu a meta suprema ». \\ | ||
| + | « Ó Janaka, atingiste o estado em que nada mais se teme! » \\ | ||
| + | « Maitreyi, eis até onde alcança a Imortalidade! » \\ | ||
| + | « Ao conhecer-se o Si, ultrapassa-se a morte ». \\ | ||
| + | « Quando o Si, e apenas o Si, constitui verdadeiramente tudo isto (isto é, todo o universo dos nomes e das formas)... » | ||
| + | </ | ||
| + | |||
| + | XXXII | ||
| + | |||
| + | Os versículos precedentes expõem o método que faculta realizar a Verdade suprema. Doravante, o aspirante encontra-se apto a apreender o significado exato de « Aquilo » e de « tu », realizando a sua identidade. | ||
| + | |||
| + | Examinaram-se sucessivamente os graus de concentração, | ||
| + | |||
| + | Se o Espectador é na verdade Brahman, não pode ser o jiva; e se é o jiva, não pode ser Brahman. Em ambas as hipóteses, inútil se tornaria a lição das Escrituras. Cumpre, pois, explanar ao aspirante a autêntica natureza do jiva; os versículos seguintes demonstram que o jiva é, em substância, | ||
| + | |||
| + | O Espectador ou a Testemunha (saksin) toma-se pelo jiva em virtude de, na sua ignorância, | ||
| + | |||
| + | Eis três concepções diversas do jiva: uma decorre das limitações adventícias (corpo, prana, mental, etc.); outra provém da apresentação falaz da Consciência no mental; e, consoante a terceira, o jiva é concebido como num sonho. | ||
| + | |||
| + | COMENTÁRIOS | ||
| + | |||
| + | Segundo a primeira doutrina, a Testemunha (saksin) afigura-se sujeita a múltiplos condicionamentos adventícios — o corpo, o prana, os órgãos dos sentidos, o mental, etc. —, reputando-se um jiva. Assim é que o éter, ao qual limite algum se pode assinalar, aparenta achar-se repartido em porções circunscritas pelo bojo de uma bilha, de um pote, de uma jarra. | ||
| + | |||
| + | Segundo a segunda, a pura Consciência (saksin) projeta-se falsamente no mental, recebendo essa apresentação errônea o nome de jiva. Dá-se aqui o mesmo que com o reflexo do sol na superfície das águas, assumindo o reflexo as propriedades do meio refrator. Por essa razão afigura-se agitado o reflexo solar, quando em verdade são as águas que se movem. De modo idêntico, a projeção da Consciência no mental apropria-se das faculdades deste último, parecendo agir, desejar, querer, etc. | ||
| + | |||
| + | Segundo a terceira, a natureza do jiva assemelha-se à das personagens entrevistas num sonho. Falecendo então o conhecimento da Realidade, imagina-se ser um rei, um deus, um mendigo, etc. Assim também o atman, olvidando a sua essência, toma a si próprio por homem, animal, etc. | ||
| + | |||
| + | Os condicionamentos adventícios que parecem circunscrever o atman constituem, perante o advaita-vedanta, | ||
| + | |||
| + | Para os adoradores da sakti, a questão difere: os upadhis configuram as potencialidades inexauríveis da Energia cósmica. Tais possibilidades não traduzem frações da Energia total, mas a própria Energia em sua infinitude e inteireza. Parte e todo são conceitos que refletem unicamente o prisma empírico e dualista. | ||
| + | |||
| + | A Energia apresenta-se simultaneamente estática e cinética, imutável e móvel. As suas manifestações em nada a vulneram, achando-se a Energia plenamente presente em cada expressão sua, ainda que na mais tênue. | ||
| + | |||
| + | Preste-se aqui homenagem a Sir J. Woodroffe, pioneiro na Europa na difusão da doutrina tradicional da Energia segundo os tantras. | ||
| + | |||
| + | XXXIII | ||
| + | |||
| + | Como se afigura possível a uma entidade limitada (jiva) ser idêntica ao Brahman absoluto? Eis a resposta: | ||
| + | |||
| + | Toda limitação (avaccheda) é ilusória; a Realidade é aquilo mesmo que surge como circunscrito. | ||
| + | |||
| + | A condição de jiva provém da sobreposição de atributos, achando-se a testemunha, em verdade, conatural a Brahman. | ||
| + | |||
| + | Conforme a lição de Ramakrishna, | ||
| + | |||
| + | Brahman ostenta assim dois aspectos: o estático (o Absoluto) e o cinético (o universo). | ||
| + | |||
| + | « Antes de conhecer Brahman, cada ser, sendo ele próprio Brahman, é em realidade idêntico à Totalidade; a ignorância é que sobrepõe a cada indivíduo a ideia de não ser Brahman, de não ser a Totalidade. Assim se toma, por engano, a concha de madrepérola por moeda de prata, figurando-se o céu côncavo, azul ou munido de outros predicados ilusórios ». | ||
| + | |||
| + | O ilusório não é irreal senão em face do estado no qual é desmascarado enquanto tal; por outras palavras, impõe-se colocar-se fora de um estado para extremar o real do irreal. A irrealidade não afeta em nada o substrato sobre o qual o upadhi é imaginado: a concepção ilusória da serpente em nada transmuda a corda em si. | ||
| + | |||
| + | XXXIV | ||
| + | |||
| + | Dentre as três teorias, é a do « jiva limitado » que proporciona a explanação mais cabal acerca da identidade entre o jiva e Brahman. | ||
| + | |||
| + | Os mantras védicos « tat tvam asi » (Tu és Aquilo), etc., asseveram a identidade do Brahman indivisível e do jiva. | ||
| + | |||
| + | Essa identidade aplica-se estritamente ao jiva circunscrito, | ||
| + | |||
| + | Extirpando-se do jivatman os upadhis que aparentam condicionar o atman, desvela-se este em sua majestosa pureza: é a realização do Si. Na sua essência cândida, o jivatman é Brahman, patenteando a Índia, com os seus jivan-muktas, | ||
| + | |||
| + | Eis a tese do vedanta: a pura Consciência que brilha com lume próprio é idêntica ao Si. Isso decorre de ostentar o Si o duplo apanágio de jamais se convolar em objeto de cognição e, contudo, acompanhar infalivelmente todas as modulações da consciência. Sendo o Si manifestado em cada nível da consciência, | ||
| + | |||
| + | Esse Si, denominado atman, difere do jiva jungido às experiências mundanas, sucedendo o mesmo com Isvara, que cumpre igualmente distinguir do atman supremo, de Brahman; Isvara e jiva constituem reflexos do atman na Nesciência primordial. | ||
| + | |||
| + | Se a maioria dos vedantinos equipara maya e avidya, pensadores há que lhes divisam nuanças: em maya prevalece o sattvaguna; em avidya, o tamoguna; há em maya projeção dos elementos puros e, em avidya, dos menos puros, cabendo à primeira criar e engendrar, e à segunda obscurecer e obnubilar, donde os vocábulos correlatos « viksepa » e « avrti ». | ||
| + | |||
| + | Duas concepções propuseram os continuadores de Sankara para elucidar a relação entre cit e a nesciência: | ||
| + | |||
| + | A teoria do reflexo equipara o jiva à imagem do sol refletida na água de uma jarra: ostenta o fulgor do astro, mas ressente-se do plano de refração, maculando-se com as impurezas e agitações do líquido, ao passo que o sol em si permanece inalterado. Sendo os jivas inumeráveis, | ||
| + | |||
| + | A teoria da limitação esteia-se no éter contido no bojo de uma bilha e no delimitado pelas paredes de um aposento: quebrando-se o vaso, o éter une-se ao do recinto, mantendo-se em verdade imodificado por ser omnipresente e incindível, | ||
| + | |||
| + | Alegam os adeptos da avaccheda-vada que a metáfora do reflexo concerne unicamente a objetos providos de forma e cor (rupa), sendo o jiva delimitado pelo antah-karana. | ||
| + | |||
| + | Tais querelas possuem relevância secundária para o vedanta: que Isvara sobrepuje o jiva em pureza e poder ninguém o nega, porém a Suprema Verdade é o Si, o atman, a pura Consciência — Brahman —, constituindo Isvara e jiva superimposições contingentes votadas ao aniquilamento e desprovidas de realidade ontológica. | ||
| + | |||
| + | Sustentam alguns mestres a tese do jiva único (eka-jiva) e de um só corpo (deha), sendo o mundo e os demais indivíduos meras projeções da fantasia desse super-jiva desperto, desvanecendo-se essa fantasmagoria onírica com a sua própria cessação. | ||
| + | |||
| + | Outra corrente postula que cada jiva engendra individualmente a sua ilusão sem arrimo num fundo objetivo comum — doutrina da « drsti-srsti-vada » —, assemelhando-se a dez indivíduos que simultaneamente fogem apavorados ante uma suposta serpente, tendo cada qual urdido a sua ilusão perante o nada factual. | ||
| + | |||
| + | O vedanta ortodoxo sustenta a transitoriedade fenomênica enquanto grau subordinado de realidade em confronto com a Suprema Verdade, substrato perene de todas as impressões sensíveis. | ||
| + | |||
| + | Físicos ou anímicos, os fenômenos consubstanciam modulações da nesciência, | ||
| + | |||
| + | XXXV | ||
| + | |||
| + | Como surge o jiva? Tal aparência resulta das limitações impostas a Brahman. | ||
| + | |||
| + | Maya, dotada dos poderes de projeção e obnubilação, | ||
| + | |||
| + | XXXVI | ||
| + | |||
| + | Este sloka responde a duas questões: qual a natureza do jiva e qual a natureza do universo? | ||
| + | |||
| + | É mercê da apresentação falaz da Consciência na buddhi que um indivíduo pratica diversas ações e lhes colhe os frutos: eis o que se denomina « jiva ». | ||
| + | |||
| + | E todo esse espetáculo, | ||
| + | |||
| + | Segundo o sankhya, a primeira modulação da prakrti é mahat, a Inteligência cósmica; no estádio primordial, o mental acha-se em estado indiferenciado enfeixando o senso de subjetividade (ipseidade) e de objetividade (ecceidade), | ||
| + | |||
| + | Da ecceidade promanam os tanmatras ou essências sutis, universais das especificidades sensoriais. | ||
| + | |||
| + | Fracionam-se os tanmatras pela quintupla mixtura (panci-karana), | ||
| + | |||
| + | * sabda-tanmatra: | ||
| + | * sparsa-tanmatra: | ||
| + | * rupa-tanmatra: | ||
| + | * rasa-tanmatra: | ||
| + | * gandha-tanmatra: | ||
| + | |||
| + | As sensações brotam do contato mediado pelos sentidos, concebidos não como órgãos corporais, mas faculdades mentais instrumentais, | ||
| + | |||
| + | Dos tanmatras derivam os mahabhutas, entidades mensuráveis situadas no espaço, despontando do éter (akasa), sucessivamente: | ||
| + | |||
| + | A evolução processa-se a partir do tanmatra indiferenciado mercê do adensamento contínuo da massa (tamas) e redisposição da energia (rajas), resultando numa escala que vai do éter à terra. | ||
| + | |||
| + | Os bhutas distam da noção ocidental de elementos por comportarem partes constitutivas. | ||
| + | |||
| + | Sob a ótica dinâmica, representam cinco modalidades vibratórias da prakrti primordial: transversal gerando vayu; centrífuga gerando tejas; centrípeta produzindo apas; e a que engendra a coesão e impenetrabilidade gerando prthivi. | ||
| + | |||
| + | A terra contrapõe-se ao éter por ser impenetrável, | ||
| + | |||
| + | O primeiro movimento é colhido pelo ouvido (som/ | ||
| + | |||
| + | A terra configura o que é percebido sob as modalidades de odor, sabor, forma, temperatura e localização espacial. | ||
| + | |||
| + | Pelo mesmo princípio caracterizam-se os demais elementos: o fogo pela luminosidade e calor; o ar pela variação térmica no espaço; o som pela audição que atesta o éter. | ||
| + | |||
| + | Dada a dosagem conjugada de todos os bhutas nos corpos compostos, tudo participa de tudo conforme os tantras, correspondendo-se sons, cores, sabores e odores como traduções sensórias de vibrações moduladas pelos gunas: sattva, rajas e tamas. | ||
| + | |||
| + | Cada emissão sonora vincula-se a uma forma (rupa) ou entidade (artha) que lhe é própria. | ||
| + | |||
| + | A matéria perpassa os estados etéreo, gasoso, ígneo, fluídico e sólido, retratando o universo como agregado de vibrações sutis emanadas de prakrti. | ||
| + | |||
| + | Objetivamente, | ||
| + | |||
| + | O cultor do raja-ioga ascende a centros sutis no seu organismo psicofisiológico, | ||
| + | |||
| + | Expungidas as representações subjetivas, o iniciado percebe o Verbo eterno, o sabda-Brahman. | ||
| + | |||
| + | Para além das línguas corpóreas e do verbo mental inarticulado, | ||
| + | |||
| + | XXXVII | ||
| + | |||
| + | O jiva e o jagat (o ego e o universo exterior) são ambos frutos de maya, só inteligíveis sob o império da ignorância. | ||
| + | |||
| + | O jiva e o jagat subsistem unicamente para quem não alcançou a redenção; desde tempos imemoriais afirmam-se na experiência prática (vyavahara), | ||
| + | |||
| + | Ambos esvaecem com a libertação (jnana), dissolvendo-se os seus componentes na Unidade primordial. | ||
| + | |||
| + | Inexiste demarcação temporal para a gênese de maya, residindo purusa e prakrti fora de qualquer começo no tempo. | ||
| + | |||
| + | Jiva e jagat mostram-se fenomenais (vyavaharika), | ||
| + | |||
| + | Catorze potestades presidem às funções vitais no microcosmo articuladas com o macrocosmo: as divindades retrocedem às esferas superiores tão logo a sakti desocupa o corpo caduco, revelando ser o homem ponto de tangência vivo entre purusa e prakrti, cujo escopo religioso cifra-se na vivência lúcida dessa mística comunhão. | ||
| + | |||
| + | XXXVIII | ||
| + | |||
| + | Ergue-se outra questão: vigorando jiva e universo desde tempos imemoriais até a redenção, como acolher os textos sagrados atinentes à criação, conservação e dissolução cósmica, bem como aos estados de vigília, sonho e sono profundo? | ||
| + | |||
| + | Eis a resposta: | ||
| + | |||
| + | Associado à presentificação ilusória da Consciência (no mental), o sono (nidra), que participa do ocultamento e da projeção, recobre primeiramente o jiva e o mundo conhecidos, ideando novos no decorrer do sonho. | ||
| + | |||
| + | No sono e na dissolução cósmica, o universo mergulha em nidra ou avidya; despertando, | ||
| + | |||
| + | Cumpre avaliar cada estado na sua autonomia intrínseca: | ||
| + | |||
| + | XXXIX | ||
| + | |||
| + | Por que motivo devem ser reputados fictícios o jiva e o mundo do sonho? | ||
| + | |||
| + | Sujeito e objeto do sonho são ilusórios (pratibhasika) por achar-se a sua duração circunscrita ao estado onírico, não tornando o desperto a reencontrar idêntico cenário em sonhos vindouros. | ||
| + | |||
| + | A transitoriedade equipara os fenômenos da vigília e do sonho perante a Suprema Realidade, que paira imune a ambos os polos. | ||
| + | |||
| + | XL | ||
| + | |||
| + | Os três versos seguintes põem em evidência a discrepância entre os três aspectos do jiva. | ||
| + | |||
| + | O jiva da ilusão onírica (pratibhasika) tem a cena sonhada por autêntica, reputando-a fictícia o jiva desperto empírico (vyavaharika). | ||
| + | |||
| + | Ante o confronto de suas mútuas incoerências, | ||
| + | |||
| + | A vigília prima pela captação do Real e o sonho pela apreensão errônea, fluindo perene a intuição do atman sob as intermitências do engano. | ||
| + | |||
| + | XLI | ||
| + | |||
| + | Descreve-se a índole das vivências do jiva real (paramarthika). | ||
| + | |||
| + | O jiva empírico considera real este mundo prático; o jiva ontológico (paramarthika) sabe ser ilusória essa ordem fenomênica. | ||
| + | |||
| + | Pairando o jiva real acima das três condições contingentes, | ||
| + | |||
| + | XLII | ||
| + | |||
| + | O jiva ontológico, | ||
| + | |||
| + | O jiva ontológico sabe ser real a sua unidade com Brahman; nada vê fora d'Ele; e, ocorrendo-lhe semelhante vislumbre, logo o tem por mera fantasmagoria. | ||
| + | |||
| + | Ao discernir a Testemunha do espetáculo, | ||
| + | |||
| + | O jiva desperto que ascende espiritualmente apreende o não-eu como irreal e projeta o cosmos na Causa primordial; o jiva ontológico reconhece como ilusória a própria causalidade, | ||
| + | |||
| + | XLIII e XLIV | ||
| + | |||
| + | Indaga-se como os jivas empírico e onírico, procedendo da insensível avidya, podem ser qualificados como jivas, identificados ao jivatman vivente que a Escritura proclama haver penetrado os elementos sob a multiplicidade dos nomes e formas. | ||
| + | |||
| + | Eis a resposta: | ||
| + | |||
| + | O sabor, o frescor e a fluidez caracterizam a água, afigurando-se pertencer à vaga e, sucessivamente, | ||
| + | |||
| + | Do mesmo modo, a Existência, | ||
| + | |||
| + | O universo e a individualidade empírica consubstanciam sobreposições infundadas sobre Brahman; sob a perspectiva da Realidade em si, desfaz-se qualquer nexo causal entre o Absoluto e os simulacros do devir. | ||
| + | |||
| + | XLV | ||
| + | |||
| + | Mostrada a sobreposição dos atributos do atman sobre o espectador empírico e o espetáculo, | ||
| + | |||
| + | Ao reabsorver-se a espuma na vaga, as suas qualidades de fluidez e frescor fundem-se na vaga; recolhendo-se a vaga no oceano, as qualidades restituem-se ao estado precedente e fundem-se no oceano. | ||
| + | |||
| + | Forma transitória da vaga e da espuma, a água permanece imutável substrato; ao dissolverem-se os acidentes, tudo retorna à substância originária que nunca deixou de ser. | ||
| + | |||
| + | XLVI | ||
| + | |||
| + | Aplica-se doravante a analogia ao objeto nuclear da explanação. | ||
| + | |||
| + | Ao recolher-se o jiva onírico no jiva desperto, a Existência, | ||
| + | |||
| + | Ao desvanecerem-se as ilusões no repouso do sono ou na libertação definitiva (mukti), todas as prerrogativas ontológicas devolvem-se a Brahman, que brilha supremo como substrato exclusivo de tudo quanto existe. | ||
| + | |||
| + | A ordem de resolução delineada no texto perfilha a análise psicológica, | ||
| + | |||
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