====== Introdução ====== //[[.:start|UR & KRUR]]// * Há momentos na vida de certas pessoas em que todas as certezas vacilam, as luzes se apagam e as vozes das paixões e afeições se calam, levando o indivíduo de volta ao seu centro e ao problema fundamental: o que sou eu? * Nesse estado, tudo o que se faz na vida ordinária e no domínio dos valores superiores revela-se como distração que cria a ilusão de um propósito. * Rotinas cotidianas, códigos morais, crenças, filosofias, embriaguez dos sentidos e até disciplinas aparecem como meios de ocultar a escuridão interior e fugir da angústia da solidão fundamental. * Em alguns casos, essa crise pode ter desfecho fatal; em outros, uma energia animal que não quer morrer reage, inibe o que foi brevemente intuído e leva o indivíduo a crer que foi apenas um pesadelo ou um desequilíbrio nervoso. * Novos ajustes são feitos para retornar à "realidade". * Há os que, incapazes de encarar o problema como um todo, o convertem em mero "problema filosófico", retomando o jogo com uma nova "verdade" e um novo "sistema". * Uma solução equivalente é o abandono passivo a estruturas tradicionais e formas dogmáticas e estereotipadas de autoridade. * Existem, porém, os que se mantêm firmes: algo novo e irrevogável ocorreu em suas vidas, e eles estão determinados a romper o círculo que os aprisiona, renunciando a todas as fés e esperanças em busca do autoconhecimento e do conhecimento do Ser. * Para esses, não há retorno. * Esse é um dos caminhos pelos quais, especialmente na era moderna, algumas pessoas se aproximam das disciplinas iniciáticas; outros chegam ao mesmo ponto por uma espécie de recolhimento e dignidade natural, com a sensação clara de que este mundo não é o verdadeiro mundo e de que existe algo mais elevado do que a percepção dos sentidos. * Tais pessoas anseiam pela visão direta da realidade como em um despertar completo. * Em ambos os casos, a pessoa percebe que não está sozinha e sente a proximidade de outros que chegaram ao mesmo ponto por caminhos diferentes, aprendendo então sua verdade. * Além do intelecto racional, das crenças e do que hoje se chama ciência e cultura, existe um conhecimento superior no qual a angústia do indivíduo cessa, a escuridão e a contingência da condição humana se dissolvem e o problema do Ser se resolve. * Esse conhecimento é transcendente também no sentido de que pressupõe uma mudança de estado, alcançável somente pela transformação do modo de ser e da consciência. * Tal como é absurdo esperar que a dor cesse sem largar o carvão em brasa, é absurdo abrir um caminho além da escuridão fundamental da existência sem que o indivíduo se transforme. * Essas realizações devem ser compreendidas como algo inteiramente positivo, tendo como pressuposto necessário a capacidade de considerar apenas a relação concreta, real e nua com o eu e com o mundo. * As variedades do que se chama "espírito" são mero contraponto da existência física, e seus valores não constituem uma lacuna em relação ao que o Ser humano é na hierarquia dos seres. * Por isso, uma crise ou uma reviravolta radical é necessária, assim como a coragem de pôr tudo de lado e desprender-se de tudo. * Esse conhecimento, que é ao mesmo tempo sabedoria e poder, é essencialmente não-humano e pressupõe a superação ativa e efetiva da condição humana. * O homem moderno, aprisionado há muito em um círculo mágico, quase nada conhece desses horizontes, e, como Joseph de Maistre assinalou corretamente, os chamados "cientistas" de hoje formaram uma verdadeira conspiração, fazendo da ciência seu monopólio e não querendo que ninguém saiba mais do que eles ou de maneira diferente da deles. * O ensinamento aqui tratado tem título muito melhor do que a religião predominante no Ocidente para dizer quod ubique, quod ab omnibus et quod semper (o que está em toda parte, de todas as coisas e para sempre), correspondendo a uma tradição unitária encontrada nas tradições de todos os povos. * Essa tradição se expressa como sabedoria de antigas elites reais ou sacerdotais, como conhecimento oculto em símbolos sagrados, mitos e rituais de origens perdidas em tempos primordiais, como escritos alegóricos, mistérios e iniciações, como teurgia, Yoga ou alta magia. * Em tempos mais recentes, manifesta-se como conhecimento secreto de correntes subterrâneas que afloram aqui e ali na história ocidental, chegando até os Hermetistas e os Rosacruzes. * Esse caminho corresponde também a uma ciência precisa, rigorosa e metódica, transmitida de chama em chama, de iniciado em iniciado, em cadeias ininterruptas raramente visíveis para os profanos. * Essa ciência não se ocupa de coisas e fenômenos externos, mas foca as energias mais profundas da interioridade humana, procedendo experimentalmente com os mesmos critérios de objetividade e impessoalidade das ciências exatas. * Tal como as disciplinas científicas modernas, essa ciência prevê os mesmos efeitos na presença das mesmas condições e operações, independentemente de sentimentos, moralidade e especulação abstrata. * Essa técnica "divina", tradicional no sentido superior da palavra, oferece possibilidades reais tanto àqueles que, após a crise mencionada, encontram em si a força e a serenidade para superá-la positivamente como catarse, quanto àqueles poucos indivíduos em quem, de modo misterioso, um legado antigo reaparece como instinto de outra raça desaparecida no curso dos milênios. * O cérebro humano já deu tudo o que tinha a oferecer, e agora o que importa é tornar o corpo inteiro um instrumento de consciência que, superando a limitação do indivíduo, penetre as camadas vitais onde operam as energias escuras e profundas de um Ser superior, até que a entrada do caminho para o "palácio fechado do Rei" seja reencontrada. * Esta coletânea de ensaios visa apresentar pistas, sugestões e técnicas dessa ciência secreta, que em sua essência não é transmitida em um corpo de crenças e conceitos, mas torna-se uma luz de despertar interior que brilha de espírito a espírito. * O critério geral adotado foi evitar ao máximo qualquer discussão sobre as coisas, captando em vez disso sua essência. * Onde permanecerem obscuridades, isso não se deve à vontade dos autores, mas à natureza do próprio assunto, pois o conhecimento superior é antes de tudo experiência, inteligível apenas por meio de uma experiência análoga. * Os temas abordados limitam-se a quatro âmbitos: exposição de métodos, disciplinas e técnicas; relatos de experiências iniciáticas reais e históricas; republicação ou tradução de textos raros ou pouco conhecidos das tradições oriental e ocidental; e doutrinas reconhecidas colocadas em contexto apropriado para desafiar a visão rígida do homem, do mundo e da história prevalente desde o advento da civilização moderna. * Os ensaios se complementam e estão dispostos de modo que todos os elementos necessários à compreensão de cada um já tenham sido fornecidos anteriormente. * Os colaboradores desempenharam o papel de partes orgânicas de uma tarefa comum. * Seguindo uma prática encontrada na antiga Índia, nas escolas medievais ocidentais, entre os pitagóricos e hermetistas, nas guildas iniciáticas medievais, entre os rosacruzes e em alguns autores monásticos e parcialmente nos jesuítas, foi adotado o princípio do anonimato. * A personalidade do colaborador não importa, pois tudo o que ele tem de significativo e válido a oferecer não é sua criação ou descoberta, mas reflete um ensinamento superindividual e objetivo. * Os editores procuraram impedir que os ensaios ecoassem as correntes particulares com que seus autores eram mais familiarizados, focando as "constantes" presentes em toda disciplina iniciática autêntica. * A maior concessão feita foi o uso da palavra magia no título, que aqui assume sentido metafórico, caracterizando apenas uma assunção particularmente ativa das disciplinas tradicionais e iniciáticas. * Os colaboradores compartilham a oposição às variedades do "espiritualismo" moderno, das sessões espíritas vulgares à Teosofia anglo-indiana, ao "ocultismo", à Antroposofia e tendências similares. * Essas correntes são vistas como desvios sem relação com o ensino iniciático tradicional autêntico, sendo misturas híbridas de fragmentos de verdades antigas, distorções mentais modernas, correntes visionárias e filosofia de segunda categoria com verniz moralista e evolutivo-humanitário. * O leitor desta obra não encontrará facilmente em outro lugar tal riqueza de ensinamentos especializados apresentados com precisão e clareza, e caberá a ele decidir até onde limitar-se a uma leitura informativa ou, descobrindo uma vocação superior, ousar, trabalhar e silenciar. * Segundo um ensinamento iniciático, os que se esforçam com seriedade interior e fervor raramente serão deixados sozinhos. * Para alguns, o contato com UR poderá ser apenas o primeiro, a ser seguido por outros no momento adequado, em virtude de uma lei inescapável: os que, tendo deixado uma margem para trás e ainda debatendo-se nas "águas", já lutam para alcançar a outra margem.