====== Estórias ====== //Jean-Claude Carrière. Le Cercle des menteurs. Contes philosophiques du monde entier.// ** Aqui há luz ** * As histórias passam de boca em boca e dizem o que mais nada pode dizer * Algumas circulam dentro de um mesmo povo, enquanto outras atravessam muralhas invisíveis entre diferentes povos * Uma entrada bizarra conhecida (um sujeito procurando um objeto perdido dentro de um círculo de luz) já aparecia em coletâneas árabes e hindus a partir do décimo século * A anedota tem um sentido oculto: é melhor procurar na luz porque, mesmo não achando o objeto perdido, pode-se achar outra coisa, ao contrário da escuridão * Essa história sobreviveu a guerras, invasões e ao desaparecimento de impérios, resistindo aos séculos e caminhando pelas memórias * A força do conto está em transportar o ouvinte a um outro mundo * O conto permite dominar o espaço e o tempo, movimentar personagens impossíveis e povoar outros planetas * Criam-se criaturas sob as ervas dos lagos ou entre raízes de carvalhos, além de mundos sem limites e sem regras * O contador é aquele que vem de outro lugar e reúne numa praça de aldeia aqueles que nunca sairão dali, fazendo-os ver outras montanhas, luas, terrores e rostos * O contador é o mascate das metamorfoses * O “era uma vez” introduz a metafísica na infância de cada indivíduo e possivelmente na dos povos * Após o encantamento e o transporte, a história contada torna-se a base das crenças * A história não se limita à transgressão, pois, por obrigação natural, relaciona-se sempre com o público que escuta e, às vezes, com o próprio contador * A história é como um espelho falante, sendo pública e falando ao ser contada * A narrativa está amplamente presente nos filmes e na televisão * Nunca antes se teve tantos dramas, comédias, folhetins e sagas históricas disponíveis * A história contada, mais difundida do que nunca, subsiste nos meios de comunicação modernos, ainda que mais enfraquecida e vulgarizada * A história serve ao divertimento, fazendo esquecer a feiura sangrenta do mundo ou sua monotonia estúpida * A história hábil traz de volta ao mundo do qual se acreditava ter se libertado * No espelho da ficção, reconhece-se a si mesmo * A história pode ser clandestina, escondendo-se em toda parte sem que se saiba * Tudo é história, inclusive a História, pois tudo é contado como uma série de ações sucessivas * Os jornais informativos, passando pela pessoa de um intérprete, são inevitavelmente dramatizados * Vive-se dentro da própria história e nas histórias de pessoas próximas * Nunca se está satisfeito com os contadores ou roteiristas, pois nenhum espelho pode ser totalmente satisfatório * Todos os povos, em todos os tempos, foram decepcionados por seus autores e contadores, desejando histórias melhores * A vida é feita também de outros elementos, mas sem narrativa e sem possibilidade de dizê-la, não se é ou se é pouco * A história é movimento de um ponto a outro, com um início e um fim * A história popular dita ao ouvido, sem nome de autor, não tem a ambição de solidez * Ela se acomoda com a negligência e longos períodos no esquecimento * Como diz um antigo poeta sufi: “A noite se acabou, e minha história não está terminada. Em que a noite é culpada?” * Contar uma história é uma maneira de se escoar no tempo enquanto se o nega * Um tempo de narração se instala quase sem esforço, fazendo o tempo real perder momentaneamente sua influência * O interesse dramático tem a ver com a afirmação implícita do domínio do contador sobre o tempo * Um homem normal, segundo o neurologista Oliver Sacks, é aquele capaz de contar sua própria história * O indivíduo sabe de onde vem, onde está e acredita saber para onde vai, estando situado no movimento de uma narrativa * Se essa relação indivíduo-história se rompe, a pessoa fica à deriva, projetada fora do curso do tempo, sem saber quem é nem o que deve fazer * O que se diz de um indivíduo pode ser dito de uma sociedade * Não poder mais se contar, se identificar e se colocar normalmente no curso do tempo pode levar povos inteiros a se apagar * Povos africanos e sul-americanos estão em perigo de silêncio, expostos à censura comercial ** Das fábulas e dos contos fantásticos ** * Foram deixados de lado os contos maravilhosos de fadas, gênios, fantasmas e monstros * Tais contos povoam o edifício inacabado onde a imaginação busca um outro mundo que prolonga e ameaça o nosso * O sentido desses contos é secreto, mesmo para os autores, expressando medos reais e desejos sombrios * Pode-se falar em ingenuidade, necessidade infantil de sonho e um jogo contínuo entre terror e felicidade * Os monstros também revelam os povos, pois a realidade estrita é impotente para dar conta do que se foi * Foram eliminadas, salvo uma dúzia de casos, as histórias breves que tendiam a uma moralidade * A moralidade parece sempre artificial, discutível e inútil * A sabedoria das nações é contraditória, com provérbios que se opõem entre si * As fábulas, do Panchatantra a La Fontaine, fecham em vez de abrir ** Dos contos filosóficos ** * O autor buscava um outro tipo de conto, difícil de classificar, presente em toda parte * Trata-se de histórias situadas sempre neste mundo, mas que o ultrapassam e o revolvem * Oferecem um ou vários sentidos escondidos, sendo histórias refletidas e elaboradas para ajudar a viver e eventualmente a morrer * Chegam a tempo de semear a dúvida, reforçar ou abalar as leis, refinar e perverter as relações familiares e sociais * Essas histórias merecem o nome de “contos filosóficos” * Surpreendem e fazem rir, técnica para colocar em alerta e desarmar * Frequentemente terminam com uma nota indefinida que recusa concluir, ampliando o olhar e prolongando a situação até as fronteiras do mistério * São belas, e a beleza é filosófica antes de qualquer outra qualidade * A antiguidade dessas histórias é extremamente variável e a origem geralmente desconhecida * Não se hesitou em colocar lado a lado antigas parábolas e histórias chamadas engraçadas de hoje * Como se observa uma “luz fóssil” em astrofísica, podem-se ouvir murmúrios de antes da história * Os sonhos de outrora são parentes dos atuais * A queda súbita no sono durante o sonho poderia vir do tempo muito antigo em que se era ainda lêmure ou macaco, dormindo em árvores com medo de cair na boca das feras * Pode ser que algumas narrativas já se contassem nos esconderijos da pré-história, há trezentos séculos ou mais * A civilização pode ser reconhecida pelo momento em que alguém, afastando-se da tradição mítica, inventa uma situação, personagens, uma ação estruturada e uma palavra final * Nasce o autor, ainda anônimo, o primeiro mentiroso coletivo * Sua história é uma falsidade, mas agrada e entra na existência cotidiana, tornando-se o mestre para viver e o traço de união * Outro tipo de história aparece, que se poderia chamar de metafísica * Obriga a deformar este mundo, a temperá-lo e a deixá-lo para melhor retornar * No momento em que a civilização se afirma, algo diz, de forma irônica e discreta, que só se tem um rascunho ou um detrito ** Do perigo de se refugiar no outro mundo ** * O verdadeiro perigo na arte de inventar contos é preferir o outro mundo a este * Pode-se refugiar na companhia de anjos ou fadas, acolher espectros todas as noites e conversar com planetas * Pode-se também deixar este mundo, montar brutalmente num cometa passageiro e buscar repouso definitivo numa distante Sirius * O espírito se curva sobre si mesmo e se passa a acreditar na realidade das próprias divagações * Felizmente, as histórias são frequentemente conscientes desse desvio * Permanecem abertas a outra coisa, como uma janela entreaberta por onde se esgueiram perfumes misturados do jardim e ecos de uma festa abafada * Sabem trazer de volta a si mesmo quando necessário, mostrando-se severas e irrisórias * Lembram a todo momento seu engano e a ilusão de que são capazes * As histórias são vivas, desconcertantes e leves * São como flores ou doces que os convidados trocam sorrindo no final de uma refeição, sem pretensão de altura de pensamento * Montaigne dizia que contava, não que ensinava * O contador que anuncia a obra no início do Kaidara, o jantol peul, avisa: “Sou fútil, útil, instrutivo” ** Das origens das histórias ** * Certos povos amaram as histórias com paixão, depositando nelas a maior parte de suas verdadeiras preocupações * Destacam-se as histórias do budismo zen e da tradição sufi, onde a história foi considerada a própria ferramenta do conhecimento * Essas duas fontes são relativamente recentes e bebem em reservatórios mais antigos: tradição indiana, africana, chinesa * O mundo islâmico, além do sufismo, aguçou maravilhosamente a arte do relato, entrelaçando-o, ornando-o, costurando-o de ouro e sombra * No mundo judeu, sob outras influências e efeito de um humor persistente, as mesmas histórias tomam outro tom e outro sentido * A maneira de contar a história é pelo menos tão importante quanto a história mesma * A tradição judaica supõe por trás das palavras, da ordem das palavras e do lugar das letras uma estrutura secreta, uma outra mensagem que é a verdadeira ** Do contador e de sua função ** * A única ambição do contador é aparecer necessário, como um camponês ou um padeiro * As histórias que conta desvelam aspectos do espírito não perceptíveis de outro modo * Civilizações poderosas o colocaram no centro das encruzilhadas ou no centro do palácio * A santa padroeira é uma mulher, a muito ilustre Sherazade * A importância de uma narração bem conduzida é tal que ela brinca com a vida e com a morte * Uma visão alegórica apresenta o contador em pé sobre uma rocha, contando suas histórias ao oceano * Se um dia o contador se calar ou for silenciado, ninguém pode dizer o que o oceano fará * O contador jamais deve falar de si mesmo * Faltar a essa regra é permitir que o oceano varra a rocha * O verdadeiro contador é quase uma bruma, uma alta torre furada por acaso, por onde se precipitam ventos portadores de mensagens distantes * É um erro comum acreditar que se pode fortalecer uma história plantando-a na realidade * Muitos começam dizendo que algo extraordinário aconteceu a um tio ou a uma pessoa conhecida, contando uma mentira estranhamente sincera que é uma história velha de vários séculos * A beleza de uma história vem quase sempre da obscuridade, e os grandes autores são desconhecidos * As belas histórias não pertencem verdadeiramente a ninguém * Nenhum contador pode afirmar que uma história é sua * A boca de sombra fala para todos * O topo da glória é, em última análise, o anônimo * As histórias mudam de cores, formas e nomes conforme o tempo que as conta * Às vezes, o próprio sentido é misteriosamente falseado * Quando Victor Hugo adapta a Kena Upanishad em um poema de A Lenda dos Séculos, muda deliberadamente o fim, enfraquecendo o poder do deus Indra * Por respeito à obscuridade, não se acrescentou nenhum comentário a essas belas histórias * Indica-se apenas a origem suposta, com toda reserva * Banir a erudição, que tanto quer catalogar o vento ** Da repetição e da transmissão ** * A expressão popular nasce no movimento sinuoso da multidão, numa certa espera e numa vaga necessidade * Escapa ao rótulo e à análise, sendo fugidia, instável e ambígua * Toda classificação sistemática correria o risco de sufocar essa imperfeição preciosa * A história (com h minúsculo) gosta de se repetir incansavelmente * O que um dia se ouviu e agradou, sente-se como uma necessidade, um dever leve de transmitir * No final de uma refeição, um convidado conta uma história e outro lhe responde, desejando fazer melhor, podendo isso ocupar a noite * Cada vez que uma história é contada, ela se reduz, se transforma, às vezes se desfaz e às vezes se enriquece * A repetição da história lembra os relatos sempre recomeçados dos mitos * O mito se diz verdadeiro, a história se diz falsa — eis uma maneira sumária de distingui-los * Ambos se repetem porque ambos estão ameaçados * Verdade e mentira voltam regularmente aos lábios, ambos indispensáveis ** Da organização das histórias no livro ** * Um grande número das histórias seguintes foi contado ao autor ou encontrado em livros * Tentou-se relatá-las simplesmente, com um mínimo de literatura, apagando-se conforme o uso, para colocar o relato à frente do contador * Toda transcrição desse tipo de conto é necessariamente falha, pois não foi feito para ser lido * Lembrou-se da antiga incapacidade de ler um Manual de Filosofia * Por que não tentar um dia escrever o próprio manual, composto apenas de histórias? * Um manual de tudo e de nada, evocando as questões que às vezes são feitas, as luzes que chamam, as surpresas que divertem, as ilusões que desorientam * Compuseram-se capítulos dispondo histórias neles, pondo títulos nesses capítulos e brincando com as peças desse jogo imenso * O que guardar e o que eliminar? O que pôr depois de quê? * A percepção do mundo não segue nenhuma ordem de conhecimento, e as reações são caóticas * Tentou-se traçar com o fio das histórias escolhidas uma espécie de caminho hesitante * Um caminho com sombras, paradas, escarpas, terras áridas, encontros alegres e outros menos, pontes, vaus, bifurcações mal indicadas e marcos semi-enterrados nas ervas * Um caminho que teria sonhado em se perder definitivamente nos arbustos, tornando-se inutilizável * É apenas uma proposta feita ao viajante, incentivando-o a pular as valas e derrubar as paliçadas