====== 6 O tolo e o embusteiro ====== //COOPER, J. C. Fairy Tales: Allegories of the Inner Life. Wellingborough: Aquarian Press, 1983.// 1. O herói aparentemente tolo, geralmente o caçula desprezado diante de irmãos habilidosos, triunfa onde a razão convencional fracassa porque sua espontaneidade, abertura à experiência e disposição para receber auxílio permitem reconhecer possibilidades inacessíveis ao pensamento estritamente racional, equilibrando-o com as faculdades instintivas e intuitivas. 2. A inocência do tolo aproxima-se da confiança infantil e constitui uma forma de proteção e sabedoria que ultrapassa os critérios habituais de utilidade, como demonstram as narrativas em que compreender a linguagem dos animais permite superar perigos, romper encantamentos e alcançar uma posição elevada. 3. A abertura do filho desprezado contrasta com a estreiteza dos irmãos e favorece a percepção do sentido das situações, enquanto sua bondade para com animais ameaçados lhe proporciona auxiliares e objetos mágicos que permitem vencer traições, recuperar o que perdeu ou conquistar a princesa, combinando frequentemente esse motivo com a condição humilhada de Cinderela. 4. O tolo rejeitado pode receber auxílio de objetos que realizam desejos e asseguram alimento, riqueza ou proteção, como mesas inesgotáveis, bolsas sempre cheias, asnos que produzem ouro e bastões capazes de agir por si mesmos. 5. A perseguição do caçula pelos irmãos, seguida de sua prosperidade e generosidade para com eles, aproxima numerosos contos da história de José e pode relacionar-se a costumes de herança e culto ancestral que atribuíam ao filho mais novo a permanência no lar, a conservação da propriedade familiar e a responsabilidade pelos funerais e pela sepultura dos pais. 6. O tolo, assim como o bufão medieval, utiliza o disfarce das brincadeiras para comunicar sabedoria e pronunciar críticas e verdades que os demais não ousam expressar. 7. O triunfo do aparentemente insensato sobre os considerados sábios revela os limites da sabedoria mundana e do apego literal às normas, enquanto perguntas paradoxais e enigmas metafísicos desorientam a razão e abrem caminho à intuição e ao conhecimento da natureza oculta das coisas. 8. O Tolo Sagrado, exemplificado por Parsifal, costuma ser criado humildemente por uma mãe viúva e permanecer ignorante de sua origem e dos costumes do mundo, condição que remete ao culto da Mãe Terra e simboliza a ausência de identidade anterior à iniciação e ao segundo nascimento. **O embusteiro** 1. O embusteiro personifica a ambivalência e o paradoxo presentes no mito e no simbolismo, reunindo criação e destruição, generosidade e recusa, engano dos outros e autoengano, numa figura que desafia divisões rígidas e se aproxima de concepções religiosas que associam o mal à ignorância. 2. Presente no bufão medieval e no palhaço moderno, o embusteiro assume nas tradições indígenas norte-americanas formas como lebre, coiote, corvo ou ancião sem idade, desempenhando funções de criador ou restaurador do mundo e manifestando uma dualidade comparável à de Shiva e às travessuras de Ganesha. 3. Os contos de fadas atenuam a sexualidade e as mudanças de sexo do embusteiro mítico, mas preservam sua liberdade diante das convenções, sua imprevisibilidade e seus poderes de transformação, aproximando-o de Hermes e do Mercúrio alquímico como figura simultaneamente animal, divina e salvadora, enquanto as botas do Gato de Botas exprimem emancipação e capacidade extraordinária de deslocamento. 4. O embusteiro distingue-se das figuras infantis por enfrentar ogros, bruxas e poderes malignos mediante uma superioridade deliberada de engenho. 5. Enquanto a criança é protegida pela inocência, o embusteiro recorre a estratagemas para fazer o fraco vencer o forte, exprimindo a superioridade da inteligência sobre a força e podendo agir por interesse próprio ou, quando movido pelo altruísmo, representar a passagem da inconsciência caótica e amoral à consciência responsável. 6. Associado ao ego e à existência material, o embusteiro combina astúcia e estupidez, mas suas experiências desenvolvem capacidades necessárias à realização superior, tornando-o simultaneamente salvador e bufão ou, quando contraposto ao herói, representante do corpo diante da alma e do espírito. **João e o pé de feijão** 1. João e o pé de feijão combina o jovem simplório, filho de uma viúva pobre e ignorante da riqueza paterna, com o embusteiro que supera gigantes por meio da astúcia e se apropria de objetos mágicos, reproduzindo a vitória do engenho sobre a força e aproximando suas aventuras dos instrumentos rituais da iniciação masculina e dos trabalhos de Hércules. 2. O pé de feijão e suas variantes, como cipós, raízes e árvores que alcançam o céu, simbolizam o eixo do mundo e a comunicação entre seres humanos e deuses, compartilhando com montanhas, pilares, escadas, postes e o arco-íris a função de ligar os domínios terrestre e celeste. 3. A subida representa o esforço para alcançar o domínio divino e obter benefícios ou realização espiritual, enquanto a alternância entre ascensão e descida exprime a aquisição iniciática de conhecimento sobre diferentes dimensões de um mesmo mundo, mesmo quando o protagonista desconhece o sentido profundo de sua aventura. 4. A árvore mágica geralmente oferece proteção e acesso ao céu a personagens pobres ou perseguidos, conduzindo-os a um domínio de abundância habitado por gigantes, fadas e imortais, cujos habitantes podem conceder presentes voluntariamente ou resistir à entrada humana por ciúme de suas riquezas. {{tag>Cooper folktale contos-de-fadas}}