====== CHARADA ====== //JOLLES, André. Formas Simples. Tradução de Álvaro Cabral. São Paulo: Cultrix, 1976. (Original alemão: Einfache Formen, 1930)// I. Antologias e metodologia da pesquisa sobre adivinhas * A forma que se cumpre em pergunta e resposta é a adivinha, embora se conheça isso principalmente a partir das formas derivadas que desempenham um papel na vida, como problemas escolares e seções de puzzles de jornais, e se saiba até que ponto a busca por adivinhas pode ocupar os pensamentos. * A erudição – particularmente a etnografia – também examinou a adivinha em detalhe. O livro de Richard Wossidlo, “A Adivinha”, é uma publicação exemplar neste campo frequentemente descuidado. Remete-se ao ensaio sobre ‘Adivinha’ de Wolfgang Schultz na Pauly-Wissowa Encyclopedia of Classical Antiquity (ver também W. Schultz, “Adivinhas Helênicas”), que apresenta uma notável coleção de adivinhas antigas e faz justiça à sua grande variedade. * Mencionam-se também os “Estudos Comparativos de Adivinhas” nos quais o chefe da Escola Finlandesa, Antti Aarne, compilou uma quantidade massiva de material. Robert Petsch abordou “A Adivinha Popular Alemã”. * Compilações como as de Aarne e Wossidlo servirão como base para a abordagem da adivinha, assim como os Acta Sanctorum serviram para o estudo da lenda. No entanto, deve-se chamar a atenção para as diferenças metodológicas entre a etnografia e a história literária. O que se tem nas compilações são formas atualizadas, atualizações. * Numa coleção como a de Wossidlo, encontram-se todas as atualizações circulando em um determinado tempo e lugar – o tempo e lugar da coleta – acumuladas inteiramente sem preconceito e com o que se poderia chamar de absoluta minúcia. O que se tem disponível aqui é um inventário sóbrio das adivinhas disponíveis em Mecklenburg no início do século XX. * Numa coleção como a de Aarne, vê-se algo diferente, já evidente a partir da expressão ‘estudos comparativos’. O compilador não começa com o estoque total de uma área particular, mas com tipos específicos de adivinha. Nem se concentra em um lugar e tempo particulares: em vez disso, examina todos os lugares e tempos onde e quando formas atualizadas que pertencem (ou parecem pertencer) a um dado tipo podem ser encontradas. * Com base nesta massa muito grande de material, Aarne tenta identificar, histórica e geograficamente, o ponto onde tal tipo pode ter se originado. Como na maioria das vezes é impossível estabelecer isso com precisão histórica, ele procede ‘comparativamente’, extrapolando, a partir de um número de variantes de data comum, uma forma original [Urgestalt] que se supõe ter sido a base para todas as variantes posteriores do mesmo tipo. * Ele tenta – novamente, histórico-geograficamente – seguir o caminho ao longo do qual esses tipos devem ter viajado através de épocas e povos, e estudar as transformações que sofreram em sua jornada de cultura para cultura. Aqui o perigo é grande de se mover em círculos: extrapola-se de dados histórico-geográficos para uma forma original, e então se explica as transformações desta forma original hipotética em termos dos mesmos dados histórico-geográficos. * Mesmo quando tal circularidade é evitada, a forma original derivada de inúmeras atualizações ainda permanece, no melhor dos casos, uma forma atualizada, no pior uma forma derivada ou uma forma literária – e mesmo que se possuísse uma coleção razoavelmente completa destas chamadas formas originais, ainda seria preciso encontrar uma maneira de passar delas à verdadeira forma simples e dar sentido a esta última. * Por mais valiosas que tais antologias possam ser para o método morfológico da história literária, também aqui este método prefere tentar definir a natureza da forma simples e da disposição mental que a produziu. Se tiver sucesso nisso, então também será capaz de diferenciar e classificar aqueles tipos, aquelas atualizações historicamente dadas, bem como comparar as novas atualizações que a disposição mental produz continuamente com as ‘históricas’. II. Mito e adivinha * Ao comparar a pergunta e a resposta na adivinha com a pergunta e a resposta no mito, a primeira coisa que se nota é o fato superficial de que onde a forma mito dá a resposta, a forma adivinha dá a pergunta. Mito é uma resposta na qual a pergunta está implícita; adivinha é uma pergunta que exige uma resposta. * Assim como o mito também inclui a pergunta, a resposta também está presente na e através da adivinha. Uma adivinha pode ser feita de tal maneira que seja impossível para o adivinhador adivinhar a resposta; de fato, a resposta correta para uma adivinha pode ser perdida, mas o adivinhador sente que há ou deve ter havido alguém que sabe ou um dia soube a resposta para a pergunta: uma adivinha insolúvel não é realmente uma adivinha. * A forma da adivinha não é apenas tal que o adivinhador sabe que a resposta é ou um dia deve ter sido conhecida por alguém, mas também tal que ele está convencido de que ele mesmo pode encontrar a solução. Esta convicção prontamente se transforma em outra: que ele deve encontrá-la. * Também aqui se pode indicar a disposição mental com o termo conhecer. Mas é um conhecer diferente e um tipo diferente de curiosidade. No mito, o homem inquiriu sobre a natureza do mundo e seus fenômenos, e o mundo se declarou a ele em sua resposta, em uma profecia. Com a adivinha, não há relação do homem com o mundo. Aqui, uma pessoa que sabe pergunta a outra pessoa uma questão – mas ele faz a pergunta de tal maneira que força a outra pessoa a entrar no conhecimento. * Uma pessoa está de posse do conhecimento – ele é aquele que sabe, o sábio; oposto a ele está outro, a quem ele induz por meio da pergunta a empenhar sua força e sua vida para adquirir conhecimento e se apresentar como sábio. O conhecimento em si já está presente no momento em que a pergunta é feita; ao contrário do mito, não precisa ser conquistado a partir da pergunta e resposta. * Na forma do mito, os homens são os perguntadores; na forma da adivinha, os homens são perguntados, e perguntados de tal maneira que devem responder. É por isso que o mito é caracterizado pela liberdade, enquanto a adivinha é caracterizada pela coerção; é por isso que o mito é atividade, a adivinha passividade; é por isso que o mito envolve uma sensação de alívio, a adivinha uma sensação de ansiedade. Não é coincidência que uma palavra do alto alemão antigo para adivinha, tunkal, significa escuridão, obscuridade. * Tanto no mito quanto na adivinha, o cerne do significado é encontrado onde a pergunta e a resposta estão conjugadas, onde a pergunta se resolve em uma resposta. Mas no mito esta conjunção é uma profecia, enquanto na adivinha é um desvendamento. * A diferença entre as duas formas é enfatizada ainda mais fortemente porque os estudiosos que trabalharam mais intensamente na adivinha sentiram a relação com o mito, mas ignoraram o que distingue as duas formas. Os estudos de Wolfgang Schultz que foram mencionados são um exemplo disso; o peculiar livro de Ludwig Laistner, “A Adivinha da Esfinge”, significativamente subtitulado ‘Esboço Geral de uma História Mítica’, é outro. III. Exame – julgamento judicial – adivinha da esfinge – adivinha de ilo – adivinhas de pescoço * No entanto, é Laistner quem primeiro chamou a atenção para algo que permitirá ver a forma da adivinha claramente em ação na própria vida: o conceito de exame. De fato, o exame acadêmico é uma situação que pode ser comparada com a adivinha, por mais diferentes que sejam seu nível e formato. Ali também se tem alguém que sabe, que faz a pergunta, que força o outro a saber, a responder à pergunta ou perecer, a ‘reprovar’. * Esta não é uma pergunta socrática, uma pergunta feita para que um mundo seja criado na resposta, mas uma pergunta já determinada por, e exigindo, conhecimento. Se se compara um diálogo platônico com um catecismo, sente-se a diferença mais fortemente ainda. Em Platão, a forma conversacional é o que gera sabedoria. Um catecismo é também uma conversa, um diálogo, mas as respostas são conhecidas antecipadamente pelo perguntador; se o perguntado responde corretamente, o que resulta dessas respostas não é a sabedoria em si, mas o conhecimento por parte do candidato. * O estado de espírito que prevalece nos exames é um bom indicador de que a pessoa que faz as perguntas, aquele que tem conhecimento e a quem se chama sábio, pode ser pensado como demoníaco, que este perguntador é ao mesmo tempo um monstro que enche de medo, aflige, sufoca. * Além do exame – Laistner não percebeu isso – há outra situação da vida, outro evento, no qual se pode sentir a adivinha como forma: o julgamento judicial. No contexto presente, olhar-se-á para o julgamento não como uma questão de processo, como quando se discutiu a lenda, mas como uma relação entre pessoas. No julgamento judicial, é o juiz que precisa saber, o réu que sabe. Aqui também é um dever vital, uma necessidade vital, para um sondar o conhecimento do outro. * O réu propõe a adivinha; se o juiz falhar em adivinhar a resposta, ele cessa – pelo menos temporariamente – de ser juiz. * Apenas alguns casos são conhecidos de uma adivinha sendo expandida para uma história na qual – por assim dizer – ela comenta sobre si mesma, e esses exemplos mostram claramente como a adivinha aparece como uma forma simples, e como esta situação fornece a disposição mental da adivinha. * Por um lado, há o grupo que se poderia designar como o grupo da ‘adivinha da Esfinge’. Os exemplos são bem conhecidos: incluem a própria história da Esfinge, depois Turandot, Rei João e o Bispo, e o companheiro de viagem de Hans Christian Andersen, com suas muitas variantes. Aqui o examinador é um ser mais ou menos cruel. Pode ser uma princesa encantada que está em aliança com poderes malignos, ou um rei. A versão mais inofensiva é o rei que quer testar as capacidades mentais do pároco cuja barriga três homens juntos não podem abarcar. Mas em cada caso o lema é: adivinhe ou morra! Cada uma é uma pergunta de teste no sentido mais profundo. * Tem-se por outro lado um segundo grupo, frequentemente chamado de ‘a adivinha de Ilo’, após sua atualização mais comum. Wossidlo escreve: ‘Este conto de fadas adivinhatório’ – preferiria apenas chamá-lo de adivinha – ‘está difundido por todo o país. Não encontrei uma única aldeia na qual não fosse conhecido por pelo menos um residente; frequentemente o encontrei em três, quatro ou cinco variantes diferentes dentro de uma única aldeia.’ Na sua versão usual, diz: “Auf Ilo geh ich, / auf Ilo steh ich, / auf Ilo bin ich hübsch und fein, / rat’t, meine herren, was soll das sein.” [Em Ilo ando, / em Ilo estou, / em Ilo sou bonita e graciosa, / adivinhem, senhores, o que pode ser.] A explicação de um informante é: ‘Uma garota foi acusada de matar uma criança; naqueles dias, quando se era condenado à morte, podia-se propor aos juízes uma adivinha, e se eles não pudessem respondê-la, seria libertada. Ilo era o nome do cachorro daquela garota, e ela mandou fazer um par de sapatos com sua pele. No dia, calçou os sapatos, foi aos juízes e perguntou a adivinha. Eles não conseguiram adivinhar, e assim ela se libertou.’ * É como se esses grupos tivessem convergido um para o outro a partir das duas bordas mais distantes da disposição mental. Não ser capaz de responder a uma adivinha significa morrer; propor uma adivinha que ninguém pode responder significa viver. Precisamente porque a vida e a morte aqui dependem da solução da adivinha, esses grupos foram chamados de ‘adivinhas de pescoço’ [Halsrätsel or Halslösungrätsel]. * No entanto, fundamentalmente todas as adivinhas são adivinhas de pescoço, na medida em que carregam dentro de si a exigência de serem respondidas. Diz-se que há muito tempo, no Havaí, aqueles que não resolviam uma adivinha eram lançados na fogueira e seus ossos preservados como troféus. Por esta razão, há famílias que se recusam a responder adivinhas porque seus ancestrais pereceram dessa maneira – aqui Sage e adivinha se roçam. E é por isso que alguns outros, quando chega a hora das adivinhas, dizem: ‘Há sempre uma aposta, nossos ossos.’ Mas, na verdade, vê-se isso em toda parte onde se encontra esta forma simples. Seja a adivinha de um exame ou a adivinha de um tribunal de justiça – onde a adivinha atinge seu significado mais profundo, é uma questão de vida ou morte: está-se jogando pelos ossos. IV. Razões para adivinhar – iniciação e ‘bund’ ou associação * Inicialmente, considerou-se a adivinha primariamente da perspectiva da pessoa obrigada a respondê-la. Isso foi legítimo porque sempre se encontra a adivinha na forma de uma pergunta, e porque esta pergunta é sempre dirigida a nós. Os dois grupos chamados de ‘a adivinha da Esfinge’ e ‘a adivinha de Ilo’ sugeriram então a importância da pessoa que propõe a adivinha, do adivinhador. * Designou-se a atividade do adivinhador com a palavra enträtseln – resolver, decifrar, desvendar. Para ser enträtselt, o que deve ser desvendado precisa primeiro ser verrätselt, encriptado, envolvido em uma adivinha. E com este verbo se pode designar a atividade da pessoa que propõe a adivinha. Mas qual é o objetivo, o propósito desta encriptação? * Viu-se que a pessoa que propõe a adivinha se encontra de posse do conhecimento – ele sabe. Por outro lado, o adivinhador, ao adivinhar, mostra que ele também sabe, que ele é o igual do adivinhador. Assim, propor a adivinha é acima de tudo testar o adivinhador, investigar sua igualdade. A pergunta também inclui uma compulsão. Tomado como um todo, então, do ponto de vista do adivinhador, a adivinha é tanto um teste da igualdade do adivinhador quanto uma questão de forçar o adivinhador a demonstrar sua igualdade. * Aqui se precisa apenas recordar o conceito de exame. É óbvio que este teste e compulsão não se destinam a pessoas aleatórias em tempos aleatórios: o testador deve ter uma razão para testar e compelir, a pessoa testada deve ter uma razão para se submeter ao teste e à compulsão. * Disto se pode concluir que o ponto único ou verdadeiro da adivinha não é a solução em si, mas sim o ato de resolver. A resposta já era conhecida pelo adivinhador, portanto para ele não é uma questão de aprendê-la novamente; o que importa para ele é se o adivinhador é capaz de dar a resposta – se ele pode ser feito para fornecê-la ao adivinhador. * Indica-se novamente a diferença fundamental do mito. No mito, o significado da resposta é encontrado exclusivamente na própria resposta. A adivinha, ao contrário, inclui uma pergunta que é feita para descobrir se o adivinhador pode reivindicar uma certa dignidade ou valor; quando esta pergunta é respondida, isso prova que o adivinhador é digno. * Mesmo nas definições mais superficiais da adivinha, que se aplicam principalmente a formas derivadas, pode-se ler que a adivinha de hoje é um meio de testar a perspicácia do adivinhador. Em um nível mais profundo – que é onde se devem buscar as formas simples – o objetivo é muito menos claramente definido. Aqui se pode dizer que o adivinhador – foi chamado de sábio – não está sozinho, não é independente; em vez disso, ele representa um conhecimento, uma sabedoria, ou um grupo unido pelo conhecimento. * O adivinhador, por sua parte, não é alguém que responde à pergunta de outro, mas alguém que deseja ser admitido a esta sabedoria, ser aceito no grupo, e que prova com sua resposta que está pronto para isso. A solução é assim uma senha, um shibboleth, que proporciona entrada a algo fechado ou oculto. * O adivinhador pode não confrontar o adivinhador na forma terrível de um monstro que ameaça estrangulá-lo, como faz nos contos de adivinha derivados ou na adivinha da Esfinge – mas ainda se sente a compulsão: o acesso àquela coisa oculta é uma questão de vida ou morte, tanto para aquele que exige entrada quanto para aquele que a concede. * A adivinha é assim definida de dois lados: o adivinhador precisa encriptar o material de tal maneira que o adivinhador possa demonstrar seu próprio valor, sua igualdade, no ato de decriptá-lo. * Se se pergunta que tipo de grupo pode ser este que está unido através da sabedoria, descobre-se que muitas respostas são possíveis. Pode-se resumi-las da seguinte forma: esses são grupos que consistem de iniciados e que exigem um ato de iniciação para admissão. Eles abrangem assim desde sociedades secretas até o reino dos bem-aventurados, na medida em que este último é entendido como um lugar a ser alcançado pelo caminho da sabedoria. * Tendo chamado a adivinha de senha, pode-se acrescentar que esta senha leva à indução, que a entrada que ela proporciona é para uma ordem fechada. Mas o propósito e a tarefa da adivinha é para o adivinhador testar se o adivinhador está pronto para admissão na ordem, ao mesmo tempo que permite o acesso ao que foi fechado ou ocultado, e para o adivinhador provar que é digno de admissão na ordem. V. O que é transformado em adivinha? * Isto traz à segunda pergunta: O que a adivinha encripta? A julgar pelas inúmeras adivinhas ditas diariamente por crianças e adultos e impressas em seções de puzzles, parece que absolutamente tudo poderia ser encriptado em uma adivinha. O número de objetos que podem ser assim transformados em adivinhas, de todas as maneiras, é infinito. * No entanto, está claro que estas são formas derivadas, nas quais um método particular de encriptação é aplicado a objetos aleatoriamente. Na melhor das hipóteses, tais analogias podem ensinar algo sobre como a encriptação funciona, mas não são representativas do que, em um sentido mais profundo, as adivinhas encriptam. * A diferença entre as adivinhas que se encontram na seção de puzzles de um jornal e as adivinhas que os etnógrafos coletam e que chamam de ‘verdadeiras adivinhas’, ou adivinhas populares, pareceria depender do fato de que as primeiras, uma vez adivinhadas ou respondidas na próxima edição do jornal, são rapidamente esquecidas, enquanto as últimas ‘são encontradas nas bocas do povo’, estão ‘em circulação’ – isto é, são propostas repetidamente. * No entanto, isso não significa de modo algum que as coleções etnográficas não incluam formas derivadas, ou que as adivinhas encontradas ‘nas bocas do povo’ possam sempre ser entendidas como exemplos de forma atualizada, como formas nas quais a disposição mental, a forma simples, é (ou foi um dia) atualizada. Os exemplos de Wossidlo mostram que não se pode excluir a possibilidade de uma forma derivada às vezes encontrar seu caminho na circulação no vernáculo, e assim expandir o número de encriptações pertencentes ao estoque comum de adivinhas populares. * Mas isto é apenas uma ilusão. A coleção de Wossidlo também demonstra que quando se examina toda a gama de objetos encriptados, seu número diminui consideravelmente – que qualquer modo dado de encriptação tende a ser aplicado repetidamente a objetos idênticos ou semelhantes. E mesmo em casos de aparente variedade, torna-se claro que os grupos tendem a convergir, indicando um ponto de partida comum. * Antti Aarne provou devidamente que várias adivinhas das áreas mais díspares com as soluções gato, cachorro, cavalo, porco, cabra, ovelha, camelo, lebre, são todas rastreadas até um ‘tipo’ que encripta vaca ou boi. * Se se procede na direção oposta e começa com a disposição mental, com a forma simples, então deve-se dizer que as perguntas nas quais a disposição mental se instancia, as adivinhas verdadeiramente atualizadas propostas pelos iniciados ao iniciado, não podem ser nem ilimitadas nem aleatórias. Apenas o que pertence à iniciação pode ser encriptado – o segredo da associação ou Bund, as coisas que são tanto nativas dele [heimisch] quanto seu segredo [heimlich]. * De fato, construindo sobre esta raiz, poderia-se até falar da astúcia [Heimtücke] da adivinha maliciosa. A escolha do que é encriptado é assim determinada pelo significado do que é ocultado. * Deve-se tocar novamente no mito. É possível, e acontece com muita frequência, que o significado da associação repouse em uma questão sobre a criação e natureza do mundo e seus fenômenos, que seu segredo diga respeito a uma profecia, uma revelação recebida em comum, e que sua atividade consista em atos nos quais o significado desta revelação é expresso e repetido sempre de novo. Em outras palavras, o que se tem aqui é uma comunidade cujo elemento vinculante é o mito e cuja atividade se chama ritual. * Neste caso, as adivinhas propostas por esta comunidade terão alguma relação com o mito – haverá um mythos encriptado aqui. Enfatiza-se a palavra mythos porque não é a forma simples que é encriptada, mas sua atualização. As disposições mentais do mito e da adivinha permanecem completamente separadas. Cada vez, o objetivo da associação é criar o mundo em pergunta e resposta; mesmo quando o que é encriptado tem alguma relação com este mito, continua sendo o único objetivo da adivinha permitir ao adivinhador testar o adivinhador – a resposta nunca é uma profecia, sempre um desvendamento. * Essas duas formas podem residir muito próximas uma da outra sem nunca se misturar. Recorda-se o oráculo. Ali, como se viu, eventos futuros se criam como uma forma simples a partir da pergunta e resposta. No entanto, isso acontece no próprio oráculo. A pessoa que ‘usa’ o oráculo é digna de conhecimento de tal criação? Isso não está claro antecipadamente, tem que ser testado, tem que ser provado. E como é testado? O próprio oráculo encripta sua profecia. * Se na história de Heródoto – mencionada acima em relação ao mito – Creso resolve a adivinha, então ele provou assim seu valor, então ele acessou o que estava oculto, então o oráculo pertence a ele; se ele não pode decifrá-la, e assim falha no teste da iniciação, então – aqui como de costume, tem-se uma adivinha de pescoço – está tudo acabado para ele. * Por outro lado, Temístocles prova a si mesmo como um iniciado ao resolver a adivinha do τεῖχος ξύλινον, teichos xulinon (‘muralha de madeira’), e assim apreender o sentido dos eventos por vir. O oráculo como mito contém a resposta suficiente e inequívoca, a profecia; mas esta profecia é um segredo do Bund. A forma da adivinha necessariamente se insere, como uma ambiguidade, entre o oráculo e seu questionador estrangeiro, o perguntador não iniciado. * Seja uma questão de mito ou de outra coisa, é certo que o adivinhador se encontra de posse do conhecimento e que ele representa o grupo, a associação. Poderia-se também expressar assim: o significado da associação – e o que é encriptado para o não iniciado – é o conhecimento como algo a ser possuído. VI. Como as adivinhas são feitas? – linguagem especial – gesto verbal da adivinha * Assim, chega-se à terceira pergunta: Como ocorre a encriptação? E isto traz à verdadeira forma da adivinha. Se o que é encriptado é condicionado e definido pelo significado do que é ocultado, pelo segredo do Bund, então deve ser concebido na linguagem do Bund. Pode-se dizer: o teste consiste acima de tudo em estabelecer se o estranho entende a linguagem do iniciado. * Recorda-se a ideia do catecismo. Catecismo – a palavra é derivada do verbo grego ἠχέω, ēcheō (‘soar ou ressoar’) – está relacionado à adivinha, no entanto difere dela por não ter a espontaneidade da adivinha. O catecismo igualmente permite a entrada em uma comunidade e a realização da iniciação, mas aqui as perguntas não são resolvidas de dentro: a resposta é aprendida pelo catecúmeno. Mais uma vez se vê o conhecimento como algo a ser possuído. * Viu-se anteriormente como o conhecimento se completa no mito, como é produzido em um ato de cognição. O conhecimento como posse, no entanto, pode não apenas ser encriptado; pode também ser aprendido. As histórias de adivinha expressam algo semelhante. Na história do ‘morto agradecido’, o adivinhador sempre ouve a resposta de outra pessoa: ele a aprende. * Enquanto isso, o catecismo mostra que a iniciação exige que palavras particulares sejam tomadas em um sentido particular, que quando se fala de batismo não se quer dizer apenas água, mas água subsumida no comando de Deus e conectada com a palavra de Deus … * Encontra-se algo semelhante na adivinha, mas de uma forma muito mais forte. Quando se ouve: “Ein Baum steht in der ganzen Welt, / der zweiundfünfzig Nester hält, / in jedem Neste sieben Jungen, / doch sämtlich sind sie ohne Zungen” [Uma árvore está no mundo inteiro, / que contém cinquenta e dois ninhos, / em cada ninho sete jovens, / no entanto todos eles são sem línguas], então se sabe antecipadamente que árvore, ninho, jovens não devem ser entendidos no sentido comum das palavras, mas que devem ser tomados de forma diferente. * Ou se se olha para a adivinha da Esfinge – Quem anda sobre quatro pernas pela manhã, sobre duas ao meio-dia, sobre três à noite? – então se sabe também aqui que manhã, meio-dia e noite não são necessariamente para ser entendidos como horas do dia, e que as pernas em questão não podem ser simplesmente partes do corpo. * Por outro lado, também se sente que esses significados não podem ser produzidos simplesmente pela substituição de um nome incomum por algum objeto encriptado. As palavras em questão têm um significado cuja estrutura difere fundamentalmente da de outros modos de significado linguístico: enquanto os significados linguísticos normalmente indicam apenas um estado de coisas, aqui palavras como árvore, ninho, jovem, ou manhã, meio-dia, noite indicam estados de coisas correlacionados. * Esses exemplos são atualizações flutuantes, adivinhas que foram transcritas da fala popular por coletores. Quanto mais se aproxima da adivinha como forma simples, melhor se pode entendê-la como uma senha permitindo a iniciação em uma comunidade particular, e melhor se vê que a igualdade da qual se falou deriva de um significado que, dentro desta comunidade, significa o significado do mundo. * Para apreender a adivinha em um lugar onde a forma simples ainda é vital, pode ser útil notar que Walter Porzig, examinando sinopticamente as adivinhas do Rigveda, descobriu que neste material, elementos móveis (sol, lua, ano, pé) se tornam roda ou carro; elementos coordenados (dias, meses) são irmãos; fenômenos aéreos (sol, faíscas, relâmpago) são pássaros; algo do qual outra coisa emana (nuvens, amanhecer, fogo) é vaca; o que está embaixo é pé, o que está em cima é cabeça. * Assim, quando ‘o sol brilhando através das nuvens’ é encriptado, obtém-se: ‘Aquele que sabe a resposta deve dizê-la, o traço oculto deste querido pássaro. De sua cabeça as vacas extraem leite, e, velando sua figura, beberam água com seu pé.’ * Porzig continua discutindo em detalhe a natureza de tal linguagem, contribuindo assim para a compreensão de Sondersprachen, ou linguagens especiais. Pois uma linguagem especial é o que se chama de uma linguagem cujo conhecimento proporciona inclusão dentro de um círculo fechado, que constrói o mundo dentro do sigilo do círculo. * Porzig afirma: “Linguagens especiais, como as linguagens comuns, constituem um mundo, o mundo real da comunidade linguística em questão. Mas enquanto a linguagem comum apresenta as coisas imediatamente como coisas e é assim absoluta e unívoca em um sentido estrito, a linguagem especial transmite o sentido das coisas, seu imbricamento interno e significado mais profundo; é por isso que é tão ambígua, como o mundo sempre é quando visto de dentro.” * “As linhas estruturando a imagem do mundo transmitida pela linguagem comum são acessíveis apenas através de estudo cuidadoso; os falantes têm um mundo, mas não o conhecem. O mundo da linguagem especial, por outro lado, revela imediatamente a estrutura de sua construção; este mundo é conhecido muito antes de se tornar propriedade de sua comunidade. Estas principais linhas de força carregam tanto peso que os detalhes desaparecem em comparação …” * Porzig então demonstra os vetores contrários da linguagem comum e da linguagem especial com um exemplo do domínio da significação: “Nossa descrição do caráter das linguagens especiais já deixou claro que toda linguagem dada inclui significados especiais dentro de si. Quando falamos do pé de uma montanha ou do pé de uma lâmpada, a palavra ‘pé’ tem um significado do mesmo tipo que nas adivinhas do Rigveda em que o amanhecer é carregado pelo pé do sol ou as nuvens bebem água com seu pé.” * “E quando traçamos cada fenômeno de volta à sua ‘origem’, a palavra emphaticamente assume um significado especial. Estes são os processos de mudança semântica que comumente chamamos de ‘metáfora’ ou ‘expressão figurada’. Na realidade, o que se tem aqui é um tipo diferente de linguagem, com um tipo diferente de significado. Na linguagem comum, pé significa uma parte do corpo com uma forma determinada, entendida como um objeto existente; na linguagem especial, pé significa algo cuja natureza inteira consiste em sustentar e carregar.” * “Sem dúvida, se refletirmos sobre a natureza do pé humano, descobrimos que ele compartilha esta qualidade com tudo o que é significado na linguagem especial por pé. No entanto, na linguagem comum, o objeto é nomeado não de acordo com sua natureza, mas de acordo com sua aparência fenomênica. No alemão moderno, ambos os significados coexistem pacificamente ao lado um do outro, e mesmo para o Rigveda sabemos que toda expressão na linguagem da adivinha é também uma expressão na linguagem comum, apenas com um significado alterado. Linguagem comum e linguagem especial não são assim dois campos linguísticos situados lado a lado e se excluindo mutuamente, mas são antes estratos da mesma linguagem sobrepostos um ao outro …” * Para mais detalhes, remete-se a Porzig, cujas observações – sobre sintaxe também – são de grande significância para o conceito de adivinha. No entanto, esta citação já mostra que com esta forma é possível definir mais claramente o que se chamou de seu gesto verbal: sem exceção, o gesto verbal da adivinha se origina na linguagem especial. VII. Linguagem especial e forma da adivinha – solução dupla * Quando se diz que como regra a adivinha contém a linguagem especial de um grupo, ainda se está longe de determinar sua forma. O gesto verbal da adivinha é linguagem especial, mas a linguagem especial não precisa assumir a forma de uma adivinha – não o faz, por exemplo, dentro do grupo que faz uso dela. Ou para tomar outro exemplo da linguagem real, um na interseção da linguagem comum e especial: quando se fala do pé de uma montanha, isso é linguagem especial, mas não uma adivinha; seria uma adivinha se se perguntasse: Quem tem um pé, mas não pode andar? * Aqui se deve mencionar um novo aspecto do problema, que permitirá julgar a relação do adivinhador com o adivinhador. Se era objetivo do adivinhador estabelecer se o adivinhador é ou não digno de ser aceito, a conquista do adivinhador, ao encontrar a resposta, foi romper para algo que havia sido selado. Não importa se ele pretende fazer uso deste mesmo fechamento em confronto com outros, sentir e agir a partir de agora como um iniciado. * No momento em que ele fala a resposta, o sigilo da associação de fato não existe mais. As histórias de adivinha expressam isso colocando a vida do adivinhador em jogo. Assim que a adivinha da Esfinge é resolvida, ela morre. Isso também determina a forma da adivinha: não é simplesmente uma encriptação do segredo da associação, é também uma defesa, e é aqui que se encontra o que se chamou de astúcia [Heimtücke] da adivinha. * Em grego, há duas palavras para adivinha: αἶνος, ainos (com o termo relacionado αἴνιγμα, ainigma), e γϱῖφος, griphos. Se não se está enganado, a primeira destas alude mais ao fato da encriptação, enquanto a segunda, que literalmente significa ‘rede’ – uma rede que nos apanha, em cujos nós nos emaranhamos – expressa a astúcia da encriptação. * Mais uma vez, é a linguagem especial que torna a astúcia possível. Se os significados da linguagem especial pressupõem uma noção consciente da totalidade do mundo, bem como algum sistema de ambiguidade no qual tudo o que é efetivamente unívoco deve ser integrado, então esses significados não serão prontamente compreensíveis para o estranho. A linguagem especial de um grupo é incompreensível para aqueles que estão fora do grupo – como se vê com linguagens especiais como jargão de caçadores ou gíria de ladrões. * Esta capacidade da ambiguidade de ser incompreensível é, por assim dizer, o que a forma da adivinha deliberadamente ostenta. Não é apenas composta na linguagem especial do grupo; também é composta de tal maneira a dar a impressão de que esta linguagem é incompreensível para o não iniciado. Chamou-se de linguagem especial quando se falou do pé de uma montanha, uma adivinha quando se diz: Quem tem um pé, mas não pode andar? * O que a adivinha faz aqui? Ela leva novamente da linguagem especial para a linguagem comum, do pé que, ambiguamente, sustenta e carrega toda uma série de coisas, para o pé inequívoco do homem, a parte do corpo com a qual ele avança – e ao passar da ambiguidade para a inequivocidade, torna a linguagem especial ininteligível da perspectiva da linguagem comum. * A adivinha abre e fecha ao mesmo tempo; a maneira como a adivinha encripta é tal que simultaneamente contém e oculta, retém e retém. Pergunta e resposta estão em conflito. Encontra-se isso expresso nos concursos de adivinha que ainda acontecem aqui e ali, ou que foram transmitidos – no norte, por exemplo – na tradição literária. Nestes concursos, as penalidades são devidas não apenas daqueles que não conseguem adivinhar a adivinha, mas também daqueles cujas adivinhas são adivinhadas. * Aqui a adivinha da Esfinge coincide com a adivinha de Ilo. Uma iniciação ocorre ao lado de outra, um iniciado é colocado contra outro. Sabe-se que tais concursos, nos quais a própria divindade às vezes toma parte, normalmente terminam com a parte mais poderosa propondo uma adivinha pertencente ao nível mais alto de iniciação. Nenhum mortal pode adivinhar a adivinha de Odin, e através deste segredo também o deus tem a vida dos homens na mão. * Mas se o adivinhador consegue, ao adivinhar, romper o fechamento, é porque com a adivinha o adivinhador lhe deu a possibilidade de fazê-lo. Toda atualização contém dentro de si não apenas a possibilidade de uma solução, mas também a própria solução. Recorda-se a adivinha: ‘Qual é o nome do cachorro do imperador?’ – para a qual a resposta é: ‘O quê.’ Esta forma é meramente um exemplo claro do fato geral de que a resposta é encontrada em algum lugar em cada atualização. * O adivinhador que encripta também se trai em sua própria adivinha. Aqui uma nova adivinha se insere na adivinha – isso é permitido pelo tipo de linguagem especial que neutraliza o mundo da factualidade inequívoca. A resposta fecha a lacuna, a abertura que permitiu a pergunta surgir: esta resposta, também, é linguagem especial, é ambígua. A primeira resposta recupera e oculta uma segunda; esta resposta, também, não abandona o segredo mais profundo. Isto é o que explica o fato frequentemente notado de que adivinhas ‘verdadeiras’ – ao contrário das formas derivadas de hoje – não têm solução definitiva. * Este tipo de solução dupla se torna um jogo em algumas das ‘adivinhas de salão’. Há adivinhas que têm uma solução inofensiva em companhia feminina, uma menos inofensiva em companhia masculina. Esta ideia de ‘companhia masculina’ [Männergesellschaft] pode ser relacionada ao tipo de organização que os etnógrafos chamam de ‘associação masculina’ [Männerbund]. A solução feminina, também, transmite algo que simultaneamente retém. * Além disso, há adivinhas que parecem levar a uma solução escabrosa, mas que então permitem uma solução perfeitamente inofensiva – adivinhas cuja astúcia consiste no fato de parecerem revelar algo diferente do que realmente encerram. A coleção de Wossidlo demonstra como tais adivinhas são frequentes – elas lembram quão antiga e difundida é a linguagem especial da sexualidade. VIII. A disposição mental do conhecimento – exemplos – a runa * Tentou-se mostrar a forma da adivinha em suas muitas convoluções. Com relação à própria era, viu-se que, por um lado, a adivinha vive em formas derivadas que se separaram quase inteiramente da forma simples como tal, e, por outro, em adivinhas populares que indicam algum significado passado, e a partir das quais se poderia derivar uma forma simples reconhecível, mas que não têm mais relação com seu propósito original. * Para observar a atualização vital da forma simples, foi-se obrigado a recorrer às adivinhas do Rigveda – no próprio tempo, tanto a chamada ‘adivinha literária’ quanto a chamada adivinha popular são meramente jogo. Por que isso? Já se viu com a lenda e o mito como, em certos tempos e sob certas condições, uma disposição mental pode ser reprimida e se tornar menos ativa, e como em tais casos suas atualizações também se tornam mais tênues e mais difíceis de reconhecer. Algo semelhante aconteceu com a adivinha. * Na sociedade atual, o conceito de Bund e de seu sigilo foi em sua maioria perdido, enquanto o conceito de linguagem especial, em um sentido profundo, não está mais ativo. Mais uma vez, encontra-se evidência disso em Porzig. Ele escreve: “Exige-se mesmo dos conceitos eruditos mais ‘abstratos’ que designem fatos inequivocamente. Disciplinas científicas influentes insistem que os termos eruditos não podem e não devem ser nada além de nomes para questões de fato: tão forte é a aversão da época atual ao uso de linguagem especial.” * O conhecimento como propriedade comum, como algo a ser adquirido pelo maior número possível de pessoas, deslocou o conhecimento encriptado, o conhecimento como poder. No mundo do século XIX, não havia lugar para a adivinha. Pode haver outros lugares assim. Franz Boas, o maior especialista em etnografia norte-americana, relata que o norte da Sibéria e a América parecem ambos carecer de adivinhas. * Mas onde quer que o Bund e seu sigilo ainda sejam encontrados – mesmo que apenas vestigialmente – aí novamente se encontra a verdadeira adivinha. Recentemente, tem-se falado muito de uma sociedade cujo sentido vinculante se supõe ser o mito – de uma associação na qual o mundo se anuncia como um templo. Esta guilda, também, se abre e fecha em uma adivinha, e a palavra Franco-Maçom é um bom exemplo de linguagem especial. Neste caso também, observaram-se os esforços de estranhos para demolir o isolamento desta associação, e viu-se como seu meio para este fim foi revelar a resposta para a adivinha. * A luta contra a Franco-Maçonaria mostra outra coisa: a conexão entre a natureza clandestina do Bund e a natureza clandestina da criminalidade. Pode parecer que se perdeu de vista a segunda encriptação, aquela pela qual um réu pode salvar sua própria vida. Na verdade, esta situação é um pouco diferente – é uma inversão, mas uma inversão que pode ser explicada da mesma maneira. O criminoso, também, se fechou com seu crime e seu segredo: ele e os seus são os únicos iniciados. * Aqui também, é uma questão de irromper através dele; aqui também a solução proporciona acesso ao que havia sido selado. Sempre que o estranho não reconhece o Bund em seus próprios termos e em seu fechamento, ele realiza esta inversão: ele o acusa de criminalidade, assim como se vê acontecendo com a Franco-Maçonaria hoje. * Na própria era, o sigilo do criminoso, a adivinha do crime, foi expandida de uma forma curta para um gênero narrativo mais longo, a história de detetive. Aqui se têm duas figuras complementares: o criminoso, que se encripta a si mesmo e ao seu crime, mas cuja encriptação também abre uma possibilidade de descoberta; e o detetive, o descobridor que resolve a adivinha e penetra o fechamento. Esta forma narrativa – que é uma das muitas na literatura atual nas quais a forma literária do romance está se dissolvendo – certamente merece estudo mais aprofundado. * Para concluir: viu-se como, no mundo da lenda, há objetos carregados com o poder da forma, que em sua concretude incarnam a forma como um todo; chamou-se tal objeto de relíquia. No caso da Sage, foi o objeto concreto chamado herança que correspondeu à relíquia da lenda. No caso do mito, falou-se do símbolo. Encontram-se tais objetos no mundo da adivinha também, objetos nos quais o poder da adivinha se instalou, objetos carregados com adivinhas – objetos contendo algo que também retêm de nós, que são como abrigos para uma solução que também escondem, que abrem algo enquanto ao mesmo tempo o fecham. * Gostaria de chamar tais objetos – que murmuram sigilo – de runas, uma palavra relacionada ao gótico antigo rûna e à palavra anglo-saxônica rún, bem como a Alraune, ‘mandrágora’. Deve permanecer como uma das muitas tarefas inacabadas avaliar como este objeto e suas conexões de longo alcance – com a escrita especialmente – estão relacionados à disposição mental da adivinha.