===== ANSARI ===== O xeque Abou Ismaïl Abdallah ben Abi Mançour Mohammad alegou ser de origem árabe e descendente do famoso Abou Ayyoub el-Ançâri (companheiro de Maomé). Ele nasceu em Herat em 1006 e morreu em 1088. Ele é um dos mais antigos místicos persas. De suas obras, algumas em árabe, outras em persa, a mais famosa é a coleção persa de Monâdjât (Orações), impressa várias vezes; a sinceridade de seus pensamentos é adornada com um estilo harmoniosamente assonante. Ele dedicou seu Nacîhat (Admoestação) ao famoso vizir Nizâm-ol-Molk. Além de outras obras místicas e várias quadras, ele escreveu uma versão em prosa de José e Zalîhra, uma lenda anteriormente tratada em verso por Firdousi (consulte a p. 69). Anthologie persane (XI-XIX siècles). Henri Massé. Payot, Paris, 1950 ---- //SMDI// * As províncias orientais do Irã consolidaram-se historicamente como solo fértil para almas de inclinação mística, destacando-se a figura de ʿAbdullāh-i Anṣārī como contemporâneo de Qushayrī e Hujwīrī. * A obra de Anṣārī, à semelhança da de Hujwīrī, foi parcialmente redigida em persa, sua língua materna. * A coexistência de mestres com perspectivas tão distintas quanto Qushayrī e Anṣārī, em um período de instabilidade política, evidencia a amplitude do espírito do sufismo. * Enquanto Qushayrī aderia ao credo ashʿarita dos seljúcidas, Anṣārī pertencia à rigorosa escola jurídica hanbalita. * A tese de que o rigorismo hanbalita e a emoção mística seriam excludentes é refutada pela trajetória de Anṣārī e de ʿAbduʾl-Qādir Gīlānī, fundador da mais extensa fraternidade mística. * A estrita observância da letra da lei divina e o profundo respeito pelo verbo sagrado possibilitaram aos hanbalitas uma compreensão exegética mais densa dos segredos da revelação. * O percurso acadêmico e espiritual de Anṣārī iniciou-se sob a influência de seu pai, também místico, conduzindo o jovem aos centros de estudo em Herat e Nishapur. * Tentativas frustradas de realizar a peregrinação a Meca ocorreram devido à turbulência política após a morte de Maḥmūd de Ghazna em mil e trinta. * Maḥmūd de Ghazna, conquistador do noroeste da Índia, destacou-se como defensor do califado e da ortodoxia muçulmana. * O encontro com o místico Kharaqānī em mil e trinta e quatro reorientou a existência de Anṣārī, apesar de o mestre ser um camponês iletrado e destituído de sistematização teológica. * As sentenças de Kharaqānī, preservadas no Tadhkirat al-auliyā, manifestam uma força espiritual descomunal. * Kharaqānī caracterizava-se como um uwaysī típico, iniciado pelo espírito de Bāyezīd Bisṭāmi e não por um mestre vivo. * Relatos hagiográficos mencionam que o aroma de Kharaqānī alcançou Bāyezīd antes mesmo do nascimento do discípulo espiritual. * Atribui-se a Kharaqānī o milagre de enrolar o espaço, permitindo-lhe orar em Kharaqān e Bistam em uma mesma noite. * As preces de Kharaqānī são marcadas por um amor intenso e pelo anseio de devolver a alma diretamente a Deus, recusando a mediação do anjo da morte. * O mestre afirmava que não entregaria sua alma ao anjo da morte, pois a recebera de Deus e somente a Ele a devolveria. * Em sonhos raros, o Senhor revelou-lhe que seu longo sofrimento era ínfimo diante do amor divino estabelecido na pré-eternidade das eternidades. * Kharaqānī expressava a certeza de ser ressuscitado entre os mártires, declarando ter sido morto pela espada do anseio por Deus. * A influência transformadora de Kharaqānī impulsionou Anṣārī a iniciar um comentário do Alcorão, projeto que restou inacabado diante das perseguições seljúcidas iniciadas em mil e quarenta e um. * O mestre de Herat enfrentou anos de indigência e sofrimento sob a autoridade defensora da teologia ashʿarita. * O grão-vizir Niẓāmulmulk exilou Anṣārī de Herat em mil e sessenta e seis, embora o califa tenha posteriormente honrado sua fama de orador e pregador. * O autor transcorreu os últimos oito anos de vida em cegueira e sob ameaça de nova expulsão, falecendo em março de mil oitenta e nove. * A produtividade intelectual de Anṣārī permaneceu notável, resultando em obras fundamentais como Manāzil as-sāʾirīn, As Estações no Caminho, que recebeu inúmeros comentários. * O místico realizou a tradução das Ṭabaqāt de Sulamī para o vernáculo persa de sua região. * A obra Munājāt, Orações, escrita em prosa rimada, consolidou-se como seu texto mais admirado pela expressão melódica do amor e do conselho espiritual. * O livro serve como um manual de devoção e meditação para momentos de recolhimento solitário. * A comparação entre as Munājāt e os Lawāʾiḥ de Maulānā Jāmī, escritos quatro séculos depois, revela a mudança de ênfase no pensamento sufi, do fervor emocional para o rigor intelectual. * Jāmī retrabalhou o material hagiográfico de Anṣārī, porém adotou uma abordagem racionalista sobre a existência absoluta e o ser relativo. * A sofisticação técnica de Jāmī distancia-se da seriedade intensa e da simplicidade das orações originais de Anṣārī. * Enquanto Anṣārī sofria perseguições, Abū Ḥāmid al-Ghazzālī colaborava com o regime seljúcida, tornando-se uma figura central na teologia ashʿarita e no misticismo posterior. * Ghazzālī é frequentemente reverenciado como o maior muçulmano após Muhammad. * Jāmī relata uma visão de Abūʾl-Ḥasan ash-Shādhilī na qual o Profeta exaltava Ghazzālī diante de Moisés e Jesus. * O relato onírico descreve a punição daqueles que negaram Ghazzālī, cujas marcas de açoite permaneceram visíveis até a morte.