====== 2 ====== //Farīd al-Dīn ’Aṭṭār. Il Poema celeste. A cura di MARIA TERESA GRANATA. Biblioteca Universale Rizzoli.// ** Resposta do pai ** * a necessidade biológica do desejo carnal é apresentada pelo filho como o fundamento da continuidade da espécie humana e da estabilidade das estruturas sociais e regais. * a existência de todas as coisas é justificada por sua utilidade intrínseca, sendo a luxúria o motor que permite o surgimento de novas vidas no mundo. * a organização complexa do trabalho humano e a manutenção da ordem pelos governantes dependem, em última instância, dessa sabedoria natural que rege o instinto. * a superação do desejo efêmero é defendida pelo califa como o caminho para atingir a intimidade eterna e a união mística com o amado. * o desapego das paixões luxuriosas é descrito como o estágio necessário para que a alma se anule na divindade, partindo do amor sensível para o amor espiritual intenso. * a busca pela solidão e pela perfeição exige que o homem deixe o efêmero em favor do que permanece, comparando a companhia da luxúria à de um asno em contraste com a proximidade de jesus. * o sacrifício da própria vida na via espiritual é considerado superior à sujeição pelas inclinações da carne. ** A mulher e o príncipe ** * a beleza arrebatadora de um príncipe é descrita como uma força que cativa a terra inteira e subjuga o coração de todos os que contemplam seu rosto. * as feições do jovem, comparadas a rubis e gemas, exercem um domínio absoluto sobre os apaixonados, transformando o olhar em uma oferenda de sacrifício. * a lanugine do rosto e o desenho das sobrancelhas funcionam como sentenças e guardas que protegem a alma do sultão interno. * a obsessão amorosa de uma mulher pobre a conduz ao desespero absoluto, manifestado em lamentos noturnos e na disposição de sofrer qualquer castigo para seguir o amado. * a mulher, em sua aflição, dispõe—se a correr como uma bola diante do cavalo do príncipe, suportando a zombaria da multidão e os açoites das guardas. * o ardor do sentimento é tal que ela transforma a própria vida em cinzas, habitando no fogo da paixão sem se queixar do fardo penoso. * a sentença de morte por despedaçamento é proferida pelo rei para livrar o filho do incômodo causado pela mendicante. * o monarca ordena que os cabelos da mulher sejam atados às patas de um cavalo para que ela seja reduzida a farrapos em praça pública. * a multidão presente no local da execução verte lágrimas de sangue diante da crueldade do destino imposto à mulher desamparada. * a súplica final da condenada revela a profundidade do seu amor ao solicitar que o carrasco seja o próprio objeto de seu desejo. * a mulher renuncia à vida e à graça, pedindo apenas que seus cabelos sejam atados ao cavalo do príncipe para que a morte lhe seja concedida pela mão do amado. * a sinceridade da petição comove o coração do rei, que a perdoa e a envia ao palácio para viver junto ao apaixonado como uma alma devolvida à vida. ** O descendente de Ali, o discípulo e o eunuco ** * o dilema entre a apostasia forçada e a morte é enfrentado por três prisioneiros capturados por infiéis em direção a bizâncio. * o descendente de Alī e seu discípulo optam por fingir a adoração ao ídolo, confiando na intercessão futura de seus antepassados e mestres para validar sua fé oculta. * a preservação da vida física é colocada acima da integridade religiosa pelos dois homens, que buscam justificativas teológicas para ceder à idolatria. * a firmeza espiritual de um eunuco destaca—se como o verdadeiro exemplo de coragem masculina diante da ameaça de decapitação. * o eunuco recusa—se a inclinar a cabeça diante do ídolo, alegando que, por não possuir intercessores, sua fidelidade deve ser absoluta e irrepreensível. * a narrativa exalta o comportamento do eunuco, que se porta como um leão enquanto os outros, outrora considerados superiores, buscam refúgio em concessões vís. ** Salomão e a formiga ** * a determinação de uma formiga em remover uma colina de terra é apresentada como um modelo de firmeza e fidelidade ao amor. * Salomão questiona a fraqueza do inseto diante de uma tarefa que exigiria a paciência de Jó e a longevidade de Noé, julgando o esforço desproporcional à sua força. * a formiga justifica seu trabalho como uma prova de devoção a um par amoroso, preferindo morrer no esforço a falhar em seu propósito ou mentir sobre sua resolução. * o exemplo do pequeno ser serve para instruir os homens sobre a intensidade da paixão que deve habitar o coração dos servidores da via. ** O Príncipe dos Crentes, ’Alī, e a formiga ** * o remorso de Alī por ferir acidentalmente uma formiga sob o sol intenso ilustra a sensibilidade que o fiel deve ter para com todas as criaturas de deus. * o leão de deus é tomado pelo pânico e pelo pranto ao perceber o sofrimento do inseto, buscando meios de curá—lo e aplacar sua própria angústia. * uma visão profética de Maomé adverte Alī de que os céus se encheram de repreensão por sua falta de cuidado com um ser que glorifica constantemente o criador. * a formiga é apresentada como futura intercessora daquele que a molestou, demonstrando que a magnanimidade divina se manifesta mesmo através dos seres mais humildes. * a necessidade de vigilância constante em cada passo na via espiritual é enfatizada como garantia contra a ruína e o sofrimento na tumba. * a caminhada justa neste mundo multiplica—se em benefícios na eternidade, enquanto a inércia e a ignorância levam o homem à condição de mendicante. * o intelecto deve guiar o movimento do caminhante, pois cada suspiro e cada ação são contados desde a lua até o peixe. ** Anūshīrvān e o velho agricultor ** * a sabedoria de um velho agricultor ao plantar árvores cujos frutos não colherá é louvada pelo rei Anūshīrvān como um ato de responsabilidade geracional. * o ancião explica que sua dedicação é uma retribuição ao trabalho daqueles que plantaram no passado para o seu proveito atual. * a resposta imediata da terra, através da recompensa em ouro dada pelo rei, simboliza que o trabalho dedicado à fé e ao próximo nunca é desprovido de frutos. ** O cachorro está com dor de barriga. ** * a recusa de Khwāja Jandī em considerar—se superior a um cão demonstra a humildade radical necessária diante das incertezas do destino e da fé. * o sábio impede que seus discípulos ataquem um provocador, afirmando que sua verdadeira condição só será clara se ele superar o povo da rua na firmeza de sua crença. * a origem comum entre o homem e o animal na poltrona da terra impede qualquer sentimento de vaidade ou pretensão de superioridade espiritual. ** Ma’shūq de Tūs, o cão e o cavaleiro ** * a repreensão de um cavaleiro a Ma’shūq de Tūs após este apedrejar um cão reforça a ideia de que todas as criaturas derivam do mesmo modelo divino. * o cavaleiro adverte que o homem e o animal compartilham a mesma natureza primordial e que o desprezo pela criatura é uma afronta ao criador. * as qualidades ocultas do cão e seu conhecimento de segredos divinos são destacados como motivos para que se olhe além das aparências desagradáveis. ** Abū Sa’īd, o sufi e o cão ** * a queixa de um cão ferido perante Abū Sa’īd revela que a aparência de piedade em um homem pode mascarar uma natureza maligna e violenta. * o cão afirma que confiou no saio de ṣūfī como um símbolo de paz e segurança, sendo traído pela agressividade do homem que o agrediu por um motivo fútil. * a punição sugerida pelo animal é a privação da veste religiosa, punição considerada adequada para quem desonra o caminho dos homens de paz. * a natureza canina é atribuída àqueles que, por vaidade, se exaltam acima das outras criaturas, esquecendo—se de sua origem comum no pó. ** Abū’l Faḍl Hasan em agonia ** * o desejo de Abū’l Faḍl ḥAsan de ser sepultado entre pecadores e taverneiros exemplifica a esperança na misericórdia divina que se volta para os abandonados. * o sábio recusa o repouso ao lado dos pios e perfeitos, identificando—se com os ladrões e os marginalizados que habitam na obscuridade. * a proximidade com a luz divina é atribuída àqueles que reconhecem sua sede e seu desamparo, atraindo sobre si o olhar intenso da compaixão.