====== 3. INICIAÇÃO AO ESOTÉRICO COMO INICIAÇÃO AO SEGREDO DO VERBO DOS PROFETAS ====== //HCHA// **III. A iniciação no esotérico como iniciação no segredo do Verbo dos profetas** O ensino do Sábio ao seu novo discípulo começa pela cosmogonia, que explica as leis do setenário e da dodecada como fundamento das correspondências entre os mundos. * O Sábio explica a lei do setenário e a lei da dodecada como fundamentos das correspondências entre os mundos, revelando assim sua estrutura comum, o “isomorfismo”. * O discípulo então pergunta por que os Sábios professam renunciar ao mundo se esta é a ordenança do mundo. * O //dâ‘î// explica o sentido dessa renúncia, mostrando que a verdade de qualquer atitude em relação ao mundo depende do grau de compreensão da verdadeira relação entre o exotérico e o esotérico, entre o aparente e o oculto. * A perpetuação dessa verdadeira relação pressupõe a perpetuação da Palavra divina, e tudo já está orientado para a conclusão final do diálogo: ou o tempo dos profetas está fechado e a Palavra se perde, ou a Palavra permanece e o tempo dos profetas não está fechado. Na origem das origens, o Princípio instaura uma Luz da qual procedem três Verbes designados como Vontade, Imperativo interior e Imperativo proferido. * O Princípio (//Mobdi‘//) instaura uma Luz da qual procedem ou derivam três Verbes (//Kalimât//): Vontade (//Irâdat//), Imperativo interior (//Amr//) e Imperativo proferido (//Qawl//). * //Ab initio//, a Criação é a Vontade de um imperativo que profere o Verbo, sendo o Verbo proferido o Verbo criador, isto é, a “vocação” do ser posto no imperativo (//Esto//, e não //fiat//). * Na origem, o ser se manifesta sob a forma de seu imperativo, não ainda como ser ou como ente, superando-se de imediato o emanatismo e o criacionismo ingênuo. * Do ser no imperativo procede, como uma resposta sem intervalo, o ser que é, o ente, expresso pelas palavras do Alcorão: //Kon fayakûn//, cuja grafia árabe tem sete letras (KN fykwn), as sete letras-fontes, primeira manifestação da lei do setenário. Dessas sete letras procedem sete coisas: da Luz primeira criada cria-se o Espaço; dos três Verbes criam-se respectivamente a Água, a Treva e a luz visível; desta segunda tríade procedem respectivamente a fumaça ou vapor cósmico, o limo e o fogo. * Da Luz primeira criada (//protoktistos//) é criado o Espaço. * Dos três Verbes são criados, respectivamente: a Água, a Treva e a luz visível (a luz dos Céus e da Terra). * Desta segunda tríade procedem, respectivamente: a fumaça ou vapor cósmico, o limo e o fogo. * Sete fontes estão na origem da Criação primordial, manifestando-se os primeiros efeitos da lei do setenário nos sete Céus criados do princípio-vapor e nas sete Terras criadas do princípio-limo. Os nomes que designam os três Verbes totalizam doze letras em sua grafia árabe, primeira manifestação da dodecada, cujos signos no Céu são os doze signos do Zodíaco e na Terra são as doze //jazira//. * Os signos dos três Verbes no Céu são os doze signos do Zodíaco, e seus signos na Terra são as doze //jazira//. * Céus e Terra eram um bloco soldado pelas Trevas, e o Criador separou Luz e Trevas, surgindo a Noite e o Dia, que verificam a lei do setenário (sete dias e sete noites) e a lei da dodecada (doze horas do dia e doze horas da noite). Todas as coisas que procedem das sete fontes originárias foram dispostas em díades ou pares, e nisso mesmo está encerrado o mistério do nascimento eterno da “Religião” que é gnose. * Dentre todos os pares do ser, que são aspectos manifestados de seu Imperativo (as duas letras KN), o Criador escolhe um para si, tirado da quintessência de sua Vontade e do segredo de seus mistérios. * Esse par é formado pela Conhecimento e pela Luz (gnose e //phos//), e isso é //Din//, a Religião absoluta no sentido ismaeliano. Para essa Religião que é gnose e luz, Deus instituiu na terra uma elite espiritual de homens que são os templos do Verbo profético, os tesouros de sua sabedoria e os hermeneutas de sua revelação, formando uma hierarquia esotérica cuja estrutura simboliza com a do universo. * Esses homens são os //boyût al-nobouwat// (templos do Verbo profético), os tesouros de sua sabedoria e os hermeneutas de sua revelação. * Há o Enunciador (//Nâtiq//), “aquele que fala” o exotérico das revelações divinas (cada um dos seis grandes profetas, Imã-Natiq), que simboliza com o sol (sua forma exotérica). * Há o seu Limiar (//Bâb//) ou sua “prova” (o Imã-Wasî, Imã herdeiro de um profeta, //asâs// do Imâmat), e a Lua é seu exotérico e seu símbolo. * Há os pregadores, os emissários que “chamam” (//do‘ât//), cujo exotérico e símbolo são as estrelas. * Os sete grandes profetas simbolizam com os sete Céus, e os sete Imãs do período de cada grande profeta simbolizam com as sete Terras. * Os doze //noqabâ// (chefes espirituais) que acompanham cada grande profeta simbolizam com os doze signos do zodíaco, e os doze //Hojjat// (provas, garantidores) simbolizam com as doze //jazïra//. A lei fundamental dessa cosmologia é que a díade do esotérico e do exotérico exemplifica a relação entre a confraria (o hierocosmo) e os fenômenos cósmicos (o macrocosmo). * A lei das correspondências entre os mundos define a estrutura que permite o //ta’wîl//, a hermenêutica que promove todas as coisas à categoria de símbolos. * O //ta’wîl// consiste em “reconduzir” todas as coisas de um plano a outro, descobrindo em cada plano as figuras homólogas. * Sem essa lei, que mantém indissociavelmente unidos o //zâhir// e o //bâtin//, não haveria mais símbolos e o mundo seria mudo. * Essa lei é o segredo do Verbo, pois por ela toda coisa se torna “falante” e toda história se torna uma parábola. O Sábio conclui sua exposição afirmando que o esotérico é a Religião divina professada pelos Amigos de Deus, enquanto o exotérico são as Leis religiosas e os símbolos dessa Religião. * “O esotérico (o sentido interior) é a Religião divina que professam os Amigos de Deus. O exotérico são as Leis religiosas (//sharâ’i//) e os símbolos da Religião divina.” * “Assim a Religião divina (a Religião interior dos Amigos de Deus) é para as Leis religiosas a alma e o espírito, enquanto reciprocamente as Leis religiosas são para a Religião esotérica um corpo material e um índice que a ela remete.” * “Do mesmo modo que o corpo não subsiste senão pelo Espírito, e o Espírito não subsiste neste mundo senão pelo corpo, assim o exotérico da Lei religiosa não subsiste senão graças à Religião esotérica (//al-Dîn al-bâtin//), e reciprocamente o esotérico não subsiste senão pelo exotérico.” * “O exotérico é o conhecimento deste mundo, e só é visível por ele. Mas o esotérico é o conhecimento do além-mundo, e só é visível por ele.” * O Sábio acrescenta ainda: “Não há uma palavra (ou uma letra) das palavras do esotérico, nem um só Amigo dos Amigos de Deus, cujos testemunhos não sejam múltiplos no exotérico (no mundo exterior), dada a multitude dos símbolos e a amplitude do que abrangem as prescrições exotéricas.” O discípulo, então, manifesta seu assombro e sua angústia: por que os Sábios denigram o mundo e professam renunciar a ele, enquanto os Ignorantes se apaixonam por ele? * O discípulo pergunta se não seriam os Ignorantes que visam justo e encontram o sentido oculto, ao se apaixonarem pelo mundo e fazerem dele o objeto de sua ambição. * O Sábio responde que os Sábios não se enganaram, pois sabem o que dizem, enquanto os Ignorantes, no apreço que dedicam ao mundo, não podem visar justo, pois ignoram seu sentido espiritual oculto. * O discípulo pede então que lhe seja mostrada a mentira dos Ignorantes, pois a aparência vai de encontro a isso, e seu coração só encontrará quietude quando compreender. A resposta do Sábio é que, como os Ignorantes ignoram o sentido oculto que é o Espírito e a vida das coisas deste mundo, eles manipulam apenas um cadáver, e o mesmo ocorre com a religião. * “Este mundo, com tudo o que te descrevi, é a aparência de uma realidade oculta (//zâhir li-bâtin//), e não subsiste senão graças a ela, porque o esotérico é para o exotérico como o Espírito em relação ao corpo.” * “Aquele que conhece o Espírito pode se alegrar com o corpo. Mas, para aquele que não conhece o Espírito e só reconhece o que é corpo, o corpo é, de fato, apenas um cadáver. Ora, o cadáver é algo que não é permitido tocar.” * “Portanto, se nossos Sábios proíbem este mundo, é porque este mundo é um cadáver; eles proíbem tocar nele, porque tal é a prescrição alcorânica (5/4), até que a vida lhe seja dada na medida em que Deus o quiser.” O Sábio explica ainda, a propósito da hermenêutica dos sonhos do Faraó por José, que Deus não diz “que este mundo não vos seduza”, mas “que a vida deste mundo não vos seduza”. * “A vida pode ser entendida em vários sentidos: há a vida exterior (exotérica) neste mundo, cujo desfecho é o aniquilamento; e há a vida do além-mundo, cujo desfecho é a perenidade.” * “O que significa a primeira é uma vida pelo simples conhecimento do //zâhir//; o que significa a segunda é uma vida pelo conhecimento do //batin//, pois o conhecimento do exotérico é a vida deste mundo, o conhecimento inferior, enquanto o conhecimento do esotérico é a vida do além-mundo.” * “E é por causa disso que o versículo declara: ‘que não vos seduza a vida deste mundo’, isto é, que não vos seduza o conhecimento do exotérico que se apega à letra e à aparência.” * O Sábio conclui que a mentira dos Ignorantes é evidente quando elogiam este mundo, pois não conhecem seu sentido oculto, nem o que Deus quis com o mundo, imaginando que Deus o criou sem nenhum sentido. A pedagogia ismaeliana não opõe um dogma a outro dogma, nem inicia a um dogma, mas ensina a descobrir o sentido oculto de todas as coisas, ilustrando a divisa do segundo Fausto: “Todo o efêmero não passa de símbolo”. * O Sábio afirma que este mundo, com o conjunto de seus símbolos, é o exotérico do além-mundo e do que ele contém, sendo este além-mundo o Espírito e a Vida. * “Quem quer que não trabalhe neste mundo senão para este mundo, sem conhecer o além-mundo, age no desvamento; seu trabalho não tem sentido, pois é sem saída.” O diálogo então se volta para um exercício prático sobre a simbólica, e a aptidão para decifrar os símbolos e pensar em símbolos é o que determina as categorias dos humanos. * O discípulo pede que lhe sejam explicados os pontos de referência deste mundo e que sejam confrontados os símbolos com os simbolizados (os aspectos interiores, esotéricos). * O Sábio afirma que Deus não criou nenhuma coisa neste mundo, grande ou ínfima, sem que essa coisa proponha um SÍMBOLO, princípio presente também nos //Arcana caelestia// de Swedenborg. * O Céu simboliza com o Imã-falante (o profeta “falando o Livro”); os doze Signos do zodíaco com os doze //Noqabâ//; as estrelas com o //dâ‘î//. * A Terra em sua imensidão simboliza com o herdeiro espiritual do profeta (o Imã como “Livre falante”); as doze //jazîra// com os doze //Hojjat// de cada Imã. * Os sete Anjos dos sete céus simbolizam com os intermediários entre Deus e cada Imã-falante; as sete mares com os intermediários entre Deus e os Imãs sucessores. * A água salgada e amarga simboliza o conhecimento do exotérico reduzido a si mesmo; a água doce simboliza o conhecimento do esotérico. * O Espaço, que contém tudo e que nada contém, não simboliza com nada além, sendo o símbolo daquilo que não simboliza com nada, “Daquele a quem nada se assemelha” (42/9). * O Espaço supremo é o símbolo da incognoscibilidade divina, da inefabilidade Daquele que não simboliza com nada, e este é o sentido do versículo alcorânico (16/62): “A Deus pertence o símbolo supremo” (//al-mathal al-a‘lâ//). * Além do Espaço, entre ele e o Princípio, está o Tempo qualitativo puro, a “estação” eterna que é o tempo da Vontade divina proferindo o ser no imperativo. O discípulo, tonto diante do abismo, pede para retornar aos conhecimentos deste mundo e seus símbolos, e o Sábio lhe diz ironicamente que seu intelecto está ofuscado. * O Sábio adverte: “Se eu te desvendasse o esotérico deste esotérico, estaríamos juntos como Moisés e Khezr (cf. sourate XVIII: Moisés chocado e escandalizado pelos atos de Khezr, seu iniciador, que não compreende).” * O discípulo pergunta se o esotérico tem um esotérico ainda mais esotérico que ele, e o Sábio atesta que sim, sendo este o mais elevado das moradas, o alvo e o termo de todos os índices que assinalam a via da salvação. * O discípulo então distingue três graus do conhecimento: o exotérico, o esotérico e o esotérico do esotérico (//bâtin al-bâtin//). O Sábio mostra que as condições de inteligibilidade de toda proposição formam uma tríade (nome, qualificação, sentido), e a estrutura do ovo (casca, clara, gema) serve como símbolo. * A tríade da proposição é: um nome, uma qualificação, um sentido (//ma‘nâ//) que os conjunta e que é a intenção visada pela proposição. * A estrutura do ovo é o símbolo: o exotérico é a casca que o envolve; o esotérico é a clara; o esotérico do esotérico é a gema, que é sua substância e seu sentido. A esses três modos de conhecer e compreender uma coisa (//modi intelligendi//) correspondem três modos de ser (//modi essendi//). * Aquele que conhece o exotérico sem conhecer o esotérico está no nível das bestas (“ele não tem a Palavra”). * Aquele que conhece o esotérico é um verdadeiro crente, no nível daqueles que merecem o nome de homens. * O conhecimento do esotérico do esotérico é o conhecimento próprio dos Anjos. “Aquele que o possui é espiritual pelo conhecimento, embora sendo material pelo corpo. É um profeta que Deus suscita como seu vigário sobre sua Terra... Ele é o órgão e o hermeneuta da Revelação divina, tem as chaves do paraíso no qual só entram aqueles que o seguem.” * Os que merecem o nome de homens se dividem em duas categorias: o Sábio divino (//‘âlim rabbânî//, o teósofo) e aqueles que recebem seu ensino na via da salvação. Todo o resto é plebe. O discípulo pergunta como ousar visar o nível a que Deus eleva seus amigos, e o Sábio responde que é possível ajudar, mas não criar o resultado. * O Sábio afirma: “É possível ao agricultor melhorar o solo; semear e regar a terra; não está em seu poder fazer sair da terra a planta e o cálice das flores. É sempre possível ao homem fazer experiências quando quer; não lhe é possível criar o que quer.” * O Sábio diz que Deus ilumine sua consciência íntima, que ele está na via da salvação, a via dos homens de vigilância, e deve seguir seu caminho, agarrando-se firmemente à sua corda até que, por uma corda vinda de Deus, seja guiado até a corda de Deus. * O discípulo pergunta se a corda de Deus não é o Imã para o qual ele o chamou, e o Sábio responde que o Imã é o que dela é visível (//zahir//) e é sua corda, a “asa sólida”. O Sábio então usa a invocação piedosa //lâ hawl wa lâ qowwat illâ bi’llâh// (“não há força e poder senão por Deus”) para ensinar sobre a passagem do Verbo divino ao Verbo humano. * O Sábio pergunta ao discípulo sobre o sentido da fórmula, e o jovem só pode responder o que aprendeu na madrasa, cuja exegese se revela pífia e um exemplo do tipo de //ta’wîl// do qual é preciso se guardar. * A raiz //hwl// comporta a ideia de mudança, mutação, passagem de um estado a outro, e remete ao //Nâtiq//, ao profeta “falante”, em cuja pessoa se realiza a mutação do Logos ou Verbo divino (//Kalâm al-Khâliq//) ao Verbo humano (//Kalâm al-adamîyin//). * “O Verbo da Sabedoria (//Kalâm al-Hikmat//, o Verbo do Sábio de Deus, do profeta, //Verbum theosophicum//) torna-se então para o Verbo divino um corpo e um invólucro material; reciprocamente, o Verbo divino, o Verbo do Criador, é para o Verbo da Sabedoria o Espírito da Vida e a Luz da salvação.” * O Verbo da Sabedoria é o único //subjectum incarnationis// concebível, representando a //caro spiritualis// do Verbo divino, que só pode espiritualizar toda carne na qual ele “se encarna”. * Dizer //lâ hawl illâ bi’llâh// equivale a dizer: não há mutação do Verbo divino em Verbo humano que se realize senão por Deus, e isso é o //tanzîl//, “fazer descer” o Verbo divino pelo órgão do profeta. O profeta que falou a Revelação não está mais presente, deixando aos homens o “Livre falado” por ele, e para que o Espírito vivifique esse corpo é necessário que ele seja permanentemente o “Livre falante” (//Qorân nâtiq//), qualificação que o xiismo dá ao Imã. * O Imã é “aquele a quem Deus dá a força de portar esse Verbo”, incumbindo-lhe a hermenêutica do sentido esotérico, ou seja, o ofício de “reconduzir” o Verbo humano exotérico ao Verbo que se esconde nele, manifestando-se nele, e isso é o //ta’wîl//. * A fórmula piedosa //lâ hawl wa lâ qowwat// equivale a dizer: não há //tanzîl// nem //ta’wîl// senão por Deus. * Para aquele que não conhece nem reconhece o Imã, o “Livre falante”, há apenas um livro que é um Verbo humano vazio do Verbo divino, e o drama do Verbo perdido, da “Palavra esvaziada de seu sentido”, é o mesmo do que o da gnose recusada. O diálogo conduz à questão sobre aquele que tem a ciência do //bâtin// mas negligencia o //zâhir//, e aquele que se apega ao //zâhir// sem conhecer o //bâtin//. * O discípulo pergunta sobre aquele que tem a ciência do //bâtin// mas negligencia o //zâhir//, e o Sábio responde que ele está na situação de alguém que pretende colher os frutos antes do tempo da colheita. * O discípulo pergunta sobre aquele que se apega ao //zâhir// sem conhecer o //bâtin//, e o Sábio responde que é a pior das situações, pois é o modo de conhecimento que está no nível das bestas e manipula um cadáver. * Para aquele que se apega ao //zâhir//, a Palavra está perdida; para aquele que acede ao conhecimento do esotérico, a Palavra é recobrada, pois percebe o Verbo da Sabedoria como invólucro do Verbo divino. O Sábio afirma que tomar posição neste mundo sem o olhar dos Sábios, à luz da Vida no sentido verdadeiro, é da mesma ordem que perseguir uma ciência que ignora a realidade do mundo supremo. * Todos aqueles que agem assim deveriam saber que não têm desculpa, nenhum argumento a fazer valer contra Deus, pois, como diz o versículo alcorânico (54/4), “chegaram-lhes informações onde havia o que os colocasse em guarda”. * Deus terá um argumento contra eles, pois colocou à disposição deles, dentro deles mesmos, o mesmo órgão que nos Sábios, mas eles o deixaram atrofiar, conforme o versículo (7/178): “Eles têm corações com os quais não compreendem nada, olhos com os quais não veem nada, ouvidos com os quais não ouvem nada.” Os espíritas, os “professos” da Religião esotérica (//Ahl al-Dîn//), formam uma hierarquia que não depende de nenhuma circunstância exterior, sendo a capacidade espiritual o único critério. * A hierarquia espiritual não depende de qualquer consideração de fortuna, e a capacidade espiritual outorgada a cada um e posta em valor por cada um é o único critério. * Embora essa capacidade espiritual não seja igual em todos, eles formam todos juntos uma única companhia (a Ordem de uma mesma //fotowwat//) com os profetas, os justos e os mártires, como dizem os versículos alcorânicos (4/71-72). O discípulo, pronto a engajar toda sua alma e fortuna, pede para conhecer o limite ao qual deve tender o máximo de seu esforço, e o Sábio, comovido, recusa sua fortuna. * O Sábio diz: “Ó meu filho! É para teus semelhantes que os Sábios empreendem suas viagens (os //dâ‘î// são missionados nas //jazïra//). É por teus semelhantes que a Terra é portada e que o Céu permanece... É por teus semelhantes que o orvalho do Céu espiritual desce pelas fendas das nuvens.” * O Sábio recusa a parte da fortuna, dizendo que há muito se exilou da fortuna e fugiu de suas seduções, e que a parte reservada para os irmãos e para o //zakât// é um depósito que pertence a seu possuidor. * O Sábio ordena que o discípulo guarde tudo consigo até encontrar aquele que decidirá sobre ele e por ele (o Imã). O discípulo pergunta quem é esse cuja nobreza é tal que o Sábio não transgrediria seu julgamento nem sua ordem. * O Sábio responde que é alguém a quem Deus lhe impõe o dever, a ele e a todos os crentes, de fazer justiça. * “É alguém em cuja mão estão as chaves do paraíso (//mafâtîh al-jinân//, as chaves da inteligência espiritual, como o cavaleiro branco do Apocalipse comentado por Swedenborg), bem como os altos conhecimentos do mundo espiritual (//Malakût//).” * “Alguém cujas palmas das duas mãos, ao se abrirem, dispensam a luz do Sinai. Ele é a causa dos Signos (o esotérico dos versículos alcorânicos), alguém que pelo seu conhecimento se eleva até os mais altos cumes. Por ele será completa a tua luz, por ele Deus aperfeiçoará o que te concerne.” * O discípulo pergunta quem ele é em relação ao Sábio, e quem é o Sábio em relação a ele. O Sábio responde: “Eu sou seu filho espiritual, um benefício dentre seus benefícios.” * O discípulo pergunta se tem desculpa por não o ter conhecido até então, e o Sábio responde: “Certamente, tens desculpa, enquanto não se te falou dele.” O discípulo então pergunta se não é chegada a hora de ser conduzido ao Templo de luz do Imã, e o Sábio concorda, com a condição de que a permissão venha do próprio Imã. * O discípulo pergunta: “Devo falar ou me abster?” O Sábio responde: “Dize o que te parecer dever dizer.” * O discípulo pergunta se não é chegado o momento de ser conduzido ao Limiar onde será apagada sua negligência, para penetrar no Templo da Luz (//Bayt al-Nûr//) e receber ele mesmo a luz. * O Sábio, compreendendo que o grande momento chegou, responde: “Certamente, isso se impõe a ti, mas é preciso que seja de sua permissão e decisão (é preciso que o chamado venha do Imã, como é o Graal que chama seus Eleitos; senão, ninguém pode encontrar o caminho).” O Sábio deve se ausentar para ir até aquele que designa como seu “pai maior” (//al-wâlid al-akbar//), o “Xeique”, um dignitário ismaelita de grau superior na hierarquia esotérica. * O Sábio se dirige ao seu “prior” para lhe fazer seu relatório e explicar o caso do seu neófito. * O prior responde: “Apresse-se a me trazer este jovem, pois espero que ele seja a porta de uma Misericórdia que Deus abrirá a seus contemporâneos.” * O //dâ‘î// retorna à cidade onde reside seu discípulo, encontra-o doente e abatido pela separação, e lhe traz a boa nova. O Sábio anuncia ao discípulo que Deus projetou no coração de seu Amigo (//Walî//, o Imã ou seu substituto) a Misericórdia para com ele, e que irá conduzi-lo ao que faz sua esperança. * O Sábio diz: “Em verdade, Deus sabia o que há em teu coração. Ele te facilitou a prova. Ele projetou no coração de seu Amigo Misericórdia para contigo. Toma teus efeitos de viagem. Eis que vou te conduzir ao que faz tua esperança, e te fazer alcançar o limiar de teu objetivo.” * O jovem chora de alegria e de temor reverencial, agradece, toma seus efeitos de viagem e deixa sua morada por uma longa ausência, enquanto seu pai segundo a carne, o //shaykh al-Bokhtorî//, é mantido na ignorância de tudo. * Tal como Gurnemanz conduzindo Parsifal ao domínio do Graal, o Sábio ismaeliano conduz então seu discípulo ao Templo da Luz, ao misterioso “grão-prior” designado como “sábio maior” (//al-‘âlim al-akbar//) e “pai maior” do //dâ‘î//.