===== PROBLEMAS E MÉTODOS DE HISTÓRIA DAS RELIGIÕES ===== //HCIF// Corbin relata sua iniciação como jovem filósofo, formado por Etienne Gilson na filosofia medieval, que, sob o impulso de Masson-Ouserl, se lançou na aventura do orientalismo para tentar «repôr em comunicação estes dois mundo (Oriente-Ocidente) como o foram por um breve tempo no século XII». Vemos igualmente as «diferentes peregrinações de um filósofo» em seu esforço para vencer as barreiras entre ciência das religiões e investigação metafísica. ==== RESUMO ==== **Um volume jubilar oferece a oportunidade de explicar as motivações pessoais de uma carreira de pesquisa** * O pesquisador pode responder à pergunta “por quê?” devido à própria existência da seção de ciências religiosas * O ensino recebido na École Pratique des Hautes Études despertou uma vocação de orientalista * Esse ensino levou o pesquisador a guiar outros na busca por regiões espirituais inexploradas **O encantamento do jovem estudante de filosofia com o ensino magistral de Étienne Gilson** * Durante os anos de 1924 em diante, Gilson pensava e trabalhava em voz alta diante de seus alunos * Ele mostrava as dificuldades suscitadas pelos textos e como encontrar uma saída * A frase “aprender a trabalhar” é frequente, mas o trabalho como arte levanta questões sobre como se aprende * Gilson demonstrava experimentalmente o que se faz com um texto, e sua emergência em plena luz era uma festa do espírito **Os anos dedicados por Gilson às traduções latinas medievais das obras árabes de Avicena abriram uma via fora da rotina acadêmica** * Surgiu a questão de se retirar para as rotinas sábias ou tentar a grande aventura até o fim na via aberta por Avicena * Mais de uma vez, o destino de toda uma vida se decidiu no recolhimento da Escola * O pesquisador tornou-se arabista e, subsequentemente, estudioso de persa **Os predecessores imediatos na direção de estudos de islamismo são evocados como memórias de uma família espiritual** * Gaudefroy-Demombynes iniciou várias gerações de arabistas nos arcanos da gramática árabe e do texto do Alcorão * Louis Massignon atribuía um significado simbólico ao gesto da transmissão pessoal de um livro, ligado à era do manuscrito * Massignon entregou ao pesquisador, em 1928, um exemplar da edição iraniana litografada de uma obra de Sohravardi com comentário de Molla Sadra Shîrâzî **O gesto de Massignon selou o destino do pesquisador como editor das obras de Sohravardi** * Sohravardi levou o pesquisador para longe de suas funções na Biblioteca Nacional * O pesquisador passou seis anos na Turquia como “guardião” do Instituto Francês de Arqueologia de Istambul durante a Segunda Guerra Mundial * Em seguida, passou dez anos no Irã organizando o departamento de Iranologia do Instituto Franco-Iraniano em Teerã **Em 1954, a seção chamou o pesquisador para suceder Louis Massignon, após dezesseis anos vivendo em terras do Islã** * Os anos passados no Irã, terra de eleição e afinidade, colocaram o pesquisador em contato com os problemas, os homens, sua história e seus livros * Isso permite ao pesquisador concluir sua resposta à pergunta “por quê?” **Cada diretor de estudos cobre apenas uma parte do campo que lhe é virtualmente aberto, mas deve estar pronto para acolher as iniciativas dos jovens pesquisadores** * O essencial é permanecer pronto para acolher todas as iniciativas dos jovens pesquisadores que possam se apresentar * O diretor de estudos deve assumir pessoalmente a exploração dos domínios mais negligenciados ou recentemente abertos à pesquisa * No caso presente, a formação e as inclinações do pesquisador o designavam imperativamente para o islamologia **O pesquisador abordou a islamologia como filósofo, buscando abrir caminho até as grandes obras frequentemente inéditas da consciência espiritual do Islã** * Há poucos antecedentes para orientar o pesquisador, e houve poucas vocações entre os filósofos para assumir o que lhes concerne diretamente na islamologia * Por muito tempo, estimou-se que o conteúdo da filosofia islâmica residia essencialmente em sua influência sobre a escolástica latina medieval * Negligenciou-se a existência de monumentos de pensamento onde convergem correntes espirituais que agora solicitam o interesse das ciências religiosas **O filósofo islamizante ainda busca seu lugar e seu habitat, enfrentando dificuldades tanto entre orientalistas quanto entre filósofos** * Expor questões técnicas diante de um congresso de orientalistas resulta em sinais de tédio * A atenção dos filósofos é garantida, mas é necessário explicar nomes próprios e termos técnicos que ainda não são familiares * Uma primeira urgência é restabelecer a comunicação entre esses mundos, como foram brevemente no século XII **O termo “filosofia” é inadequado ao objeto visado, pois o termo árabe hikmat ilâhîya equivale exatamente a teosofia** * Os grandes pensadores do Islã foram filósofos-teólogos “teosofos” * Enquanto a reflexão filosófica tem por órgão o intelecto e a dialética teológica se alimenta da tradição, o órgão do conhecimento teosófico é a intuição interior * O acúmulo dessas três fontes é possível apenas pela intervenção da terceira e é característico, desde Sohravardi, da mais alta consciência espiritual do Islã iraniano * Algo muito mais vasto continuou no Islã oriental, em contraste com o que se terminou com Averróis no Islã ocidental **Nomear o Islã iraniano é nomear o Islã xiita, cujo estudo foi negligenciado por muito tempo devido a preconceitos** * A distância e as dificuldades de acesso às fontes fizeram com que o estudo da teologia xiita fosse completamente negligenciado * Preconceitos inspiraram julgamentos sumários e até injuriosos dos orientalistas em relação ao xiismo * O pesquisador em ciências religiosas é estranho a qualquer preconceito que despreze a importância das minorias religiosas, pois os fatos religiosos mais significativos ocorrem no seio delas * O Islã iraniano atesta a vocação propriamente religiosa e supranacional do Islã **A imensa literatura teológica iraniana em árabe e persa ofereceu-se como o terreno de eleição das pesquisas** * A análise e o inventário dessas obras massivas, em edições litografadas ou manuscritos, nunca haviam sido realizados em uma língua europeia * Esse trabalho só poderia ser realizado na seção de ciências religiosas, em nenhum outro lugar **A direção de estudos de islamismo tem a tarefa específica de abordar monumentos de pensamento cujo conteúdo ultrapassa os programas estabelecidos sobre resultados já adquiridos** * Não há confusão possível entre ciências religiosas e ciências sociais para as “religiões com teologia” * As obras dos pensadores islâmicos têm seu próprio mundo espiritual, que não se confunde com o “meio” que poderia tentar explicá-las com categorias que não eram as suas * A seção permitiu ao pesquisador tentar fazer, para os pensadores do Islã em árabe e persa, o que Gilson fez outrora para o avicenismo latino **As intenções e o método de Louis Massignon podem ser resumidos por sua aversão à “crítica histórica nominalista”** * Massignon professava que a interpretação gnóstica de uma personalidade não substitui um fato humano autêntico por um fantasma póstumo * Ele acreditava que a interpretação gnóstica expressa uma necessidade de explicação total, abrangendo simultaneamente vários planos do ser e da consciência * Massignon não podia aceitar que o Profeta tivesse construído o islamismo combinando elementos judaico-cristãos, nem que o léxico árabe do Alcorão resultasse de empréstimos conscientes **Massignon enunciou algumas regras de ouro sobre o hadith** * “A crítica puramente formal dos isnâd (cadeias de transmissão) não deveria ter saído de seu papel negativo de servente que varre a casa” * “Um hadith não tem curso entre os crentes em razão de sua data de origem, mas em razão de seu teor” * Ele pressentiu que o hadith qodsî poderia se beneficiar de uma compreensão inspirada na Formgeschichte **Ao estender o benefício do espírito e do método de Massignon a todos os que não haviam sido admitidos, estabeleceu-se uma relação essencialmente positiva entre os dois ensinamentos** * As razões que inspiraram essa extensão podem ter alterado a relação, mas a alteração consistiu na exclusão de uma exclusão * A objeção de que o método de Massignon confundia história como ciência e história como testemunho não é seriamente considerável para quem conhece as contestações dos filósofos ao historicismo ingênuo **O método aplicado pelo pesquisador ao longo de sua carreira foi essencialmente “fenomenológico” no sentido de salvar os fenômenos** * “Salvar” o fenômeno religioso significa deixá-lo se mostrar tal como é para aquele a quem ele se mostra * O Alcorão tal como foi lido e compreendido pelos crentes e pelos grandes espirituais é o fato propriamente religioso que concerne em primeiro lugar às ciências religiosas * O pesquisador prefere falar de uma hermenêutica do fenômeno religioso que revela simultaneamente o fenômeno e aqueles a quem ele se mostra **O pesquisador evoca os anos em que supriu Alexandre Koyré e esteve ligado a Jean Baruzi, cujas lições no Collège de France foram um extraordinário estimulante** * O pesquisador foi o primeiro tradutor francês de Heidegger, mas suas primeiras publicações em mística islâmica (1933, 1935) são muito anteriores a essa tradução (1938) * A ideia de que, decepcionado pela filosofia existencial, ele buscou refúgio na mística do Islã é pura fantasia **Os relatórios anuais da seção formam como que um livro que seria o “diário” das pesquisas** * É útil marcar sumariamente as etapas, pois elas só aparecem depois * O eixo de orientação é o “fenômeno do Livro santo revelado”, comum às religiões do Livro * O fenômeno do Livro santo implica uma gnosiologia, um princípio e uma hierarquia dos modos de “compreender” **O fenômeno xiita apareceu essencialmente sob seu aspecto hermenêutico, com a ideia da walâyat do Imã como sentido esotérico da revelação profética** * O ensino dos Imãs constitui fundamentalmente a hermenêutica xiita como hermenêutica espiritual do Alcorão * O “versículo do Trono” recebeu comentários como os de Molla Sadra Shîrâzî e Sayyed Kâzem Reshtî * O ensino dos Imãs foi um estimulante para a meditação filosófica e teosófica, respondendo por que a filosofia islâmica continuou até hoje no meio xiita **As pesquisas sobre o Islã iraniano incluíram ciclos sobre ishraq, ismaelismo, sufismo e imamismo** * Um ciclo foi consagrado à obra de Sohravardi e ao comentário de Molla Sadra Shîrâzî * Molla Sadra foi a grande figura da chamada “Escola de Ispahan” e mestre a pensar de várias gerações de filósofos até hoje * A obra de Sohravardi, contemporâneo de Averróis, está na chave da divergência entre o avicenismo latino e o avicenismo iraniano **Sohravardi deu aos termos ishraq e mashriq um sentido espiritual, não geográfico, visando a instauração de uma “teosofia oriental”** * Ele queria uma “ressurreição da sabedoria teosófica dos antigos persas” como conhecimento do “Oriente” espiritual * O conceito zoroastriano de xvarnah é, em Sohravardi, a própria fonte da metafísica e teosofia da Luz * O ensino e as visões extáticas de Hermes, Zoroastro e Plotino formam uma linhagem que conduz até o mi’râj do profeta do Islã **A ética sohravardiana é rigorosa: a filosofia é vã se não preparar para a experiência mística, e a experiência mística sem formação filosófica corre grande perigo de se extraviar** * Molla Sadra insistiu sobre essa dupla exigência que marcou toda a filosofia no Irã * Sohravardi foi o primeiro a fixar o rango ontológico do ‘alam al-mithal (mundo imaginal) * Em Molla Sadra, a necessidade profetológica e escatológica desse “Oriente intermediário” resultou em uma doutrina da Imaginação ativa como veículo ou corpo sutil da alma post mortem **Outra forma da teosofia da Luz foi encontrada no sufismo de Najmoddîn Kobrâ e sua escola** * Najm Kobrâ foi o primeiro a atentar para os fenômenos da aura e para as percepções de luzes coloridas suprassensíveis * Semnani esboçou uma fisiologia do corpo sutil, onde cada luz corresponde a um centro (latîfa) tipificado por um dos sete grandes profetas * Isso resulta em uma interiorização da profetologia que determina toda a hermenêutica do Alcorão **As pesquisas sobre o xiismo se dividiram em dois ciclos: o ismaelismo (setimanismo) e o imamismo (duodecimanismo)** * Foram estudadas obras de Abû Ya’qûb Sejestânî, Hamîdoddîn Kermânî e Qâzî No’mân * A obra de Kermânî estabelece uma teologia apofática rigorosa sem a qual o tawhîd degenera em idolatria metafísica * A teosofia de Kermânî admite o esquema aviceniano das dez Inteligências, diferindo de seus predecessores **O pesquisador dedicou-se a fixar a diferença entre o ismaelismo reformado de Alamût e o ismaelismo fatímida, e como o ismaelismo iraniano sobreviveu sob o “manto” do sufismo** * Existe uma gnose e uma teosofia mística do xiismo duodecimano que não perde em nada para a do ismaelismo * A obra de Haydar Âmolî (século XIV) já continha toda a armadura da “filosofia profética” do xiismo desenvolvida na era safávida * A obra de Haydar Âmolî mostra como o pensamento de Ibn Arabi foi rapidamente assimilado pela teosofia xiita **Haydar Âmolî não transige sobre a questão do “Selo da walâyat”** * Ibn Arabi havia feito de Jesus o Selo da walâyat * Para Haydar Âmolî, essa tese é contraditória e sem apoio, tradicional ou filosófico * Assim como o profeta do Islã é o “Selo da profecia”, somente o Imã pode ser o “Selo da walâyat” **A obra de Haydar Âmolî introduziu um ciclo de pesquisas sistemáticas sobre os hadith dos Imãs do xiismo duodecimano** * Foram estudados o Kâfî de Kolaynî com o comentário de Molla Sadra Shîrâzî * Foi estudado o Kitâb al-Tawhîd de Sadûq Ibn Bâbûyeh com o comentário de Qâzî Sa’îd Qommî * Os autores tinham consciência das razões da diferença entre a concepção xiita e a sunita do Imã **A concepção sunita condiciona a necessidade de um imã puramente temporal por considerações sociais e políticas** * A concepção xiita é uma concepção metafísica do que faz a essência do Imã, que condiciona todo o universo do ser e da consciência * Falar de um “legitimismo” alida é uma maneira moderna e ocidental de interpretar as coisas, pois os hadith dos Imãs nunca falam de política * A descendência carnal não legitima os Imãs como sucessores do Profeta; é necessária a ’ismat (imunidade ao erro e ao pecado) **A escola xáica é uma escola de pensamento e espiritualidade xiita que apresenta traços comuns com o sufismo, mas não pode ser confundida com ele** * O ciclo dedicado às obras de Shaykh Ahmad Ahsa’î convenceu o pesquisador de que se tratava de um pensamento de extrema dificuldade, mas de incomparável profundidade * A doutrina de Shaykh Ahmad Ahsa’î é uma teosofia imamita integral, fundada no ensino integral dos Imãs * A metafísica do ser em Ahsa’î se expressa em termos de adomologia, que engloba os diferentes planos de manifestação do Anthrôpos **O pesquisador expressa seu reconhecimento pela fidelidade e atenção de seus ouvintes e alunos** * A presença de jovens filósofos confirmou sua convicção de que as obras comentadas tinham um interesse que ultrapassava o quadro de um especialista * São mencionadas teses de Osman Yahia, Hermann Landolt e Karim Modjtehedi * Osman Yahia assumiu a tarefa da primeira edição crítica do Kitâb al-Fotuhat al-Makkîya de Ibn Arabi **Atividades complementares incluíram o círculo Eranos em Ascona, que permitiu condensar resultados essenciais das pesquisas em andamento no Eranos-Jahrbuch** * O pesquisador manteve contato regular com o Islã iraniano através de uma missão anual para dirigir o departamento de Iranologia do Instituto Franco-Iraniano * A coleção “Biblioteca Iraniana” recolheu textos estudados nas conferências e forneceu o textbook delas * Um breve curso de filosofia islâmica foi dado voluntariamente na Universidade de Teerã a cada trimestre de outono **A Universidade MacGill decidiu criar um Instituto de Estudos Islâmicos em Teerã, dedicado às pesquisas em filosofia islâmica** * O diretor designado para esse novo instituto é Hermann Landolt, professor na Universidade MacGill e aluno diplomado da seção de ciências religiosas * Em Teerã, um círculo de estudos privado, iniciado por um eminente shaykh professor na Universidade Teológica de Qom, tem sido uma fonte inapreciável para o ensino do pesquisador **O título “Islamismo e religiões da Arábia” é adequado, havendo entre islamismo e Islã uma relação análoga à entre cristianismo e cristandade** * O estudo das religiões árabes pré-islâmicas, baseado na epigrafia, prossegue bem em outros lugares, evitando-se qualquer duplicação * A conjunção “e” pode ser repensada, pois a teologia ou teosofia dos nomes divinos ocupa um lugar fundamental na doutrina de Ibn Arabi e sua escola * O pesquisador não desespera que o futuro lhe deixe tempo para engajar uma pesquisa comparativa que daria um novo sentido à conjunção “e” **O pesquisador expressa sua esperança em uma nova via de pesquisas que se oferece à seção de ciências religiosas, reunindo o que não se encontra reunido em nenhum outro lugar** * O conjunto dos ensinamentos da seção compreende o grupo das “teologias das religiões do Livro” * Hermeneutas da Bíblia e do Alcorão se encontraram diante dos mesmos problemas na busca do sentido espiritual como sentido verdadeiro * A teologia do Logos se desenvolveu por vias diferentes, mas comparáveis, na imamologia e na cristologia primitiva * Uma das tarefas futuras será levar os grandes temas de pesquisa a um estado que permita colocações em comunicação como as que foram sugeridas