====== IBN ARABI ====== //Charles-André Gilis - Por uma abordagem tradicional de Ibn Arabi – posfácio de A Oração da Sexta-feira// Ibn Arabi é o maior dos mestres do esoterismo islâmico, sua via iniciática própria é a do Conhecimento metafísico, sua obra engloba todas as vias de realização possíveis no islã e sua ortodoxia não pode ser posta em dúvida — pois são seus escritos que determinam os critérios dessa ortodoxia — sendo que os ataques e reservas de que é objeto refletem inevitavelmente uma incompreensão da tradição islâmica. * No Ocidente, a obra akbariana contribuiu poderosamente para a formação de uma elite intelectual cuja função aparece cada dia mais necessária diante da desordem geral e da confusão das mentalidades sobre a natureza da revelação islâmica. * O interesse que essa obra suscita não cessa de crescer, mas a abundância das publicações não implica sempre uma melhor inteligência da doutrina — única coisa que importa. * Os critérios qualitativos inerentes à essência iniciática do ensinamento akbariano não são os que prevalecem no Ocidente moderno — e isso se aplica tanto aos apresentadores ocidentais quanto aos orientais arabófonos que seguem os modos e preconceitos da educação universitária. A apresentação da doutrina akbariana deve ser essencialmente "tradicional", ou seja, em um espírito conforme aos princípios enunciados pelo Cheikh Abd al-Wahid Yahya — cuja obra foi publicada sob o nome de René Guénon —, obra escrita inteiramente para modificar o estado de espírito dos ocidentais a fim de que reconheçam a existência e a autoridade da tradição universal representada hoje pelo islã. * Existe uma relação constante entre a vontade de rejeitar toda referência à obra guénoniana e as apresentações profanas do Shaykh al-Akbar. * Os princípios de Guénon foram formulados sem nenhuma referência ao islã ou à obra de Ibn Arabi, pois foram definidos a propósito das doutrinas hindus — o que revela sua universalidade. * O Cheikh Mustafá Abd al-Aziz (Michel [[trd>Valsan]]) extraiu desses princípios a significação do ponto de vista da universalidade islâmica, notadamente no estudo sobre Les mystères de la lettre Nûn. * Relendo as considerações desenvolvidas em 1921 na Introduction générale à l'étude des doctrines hindoues, o que mais impressiona é sua atualidade — não há uma palavra a mudar. O ensinamento tradicional transmite-se em condições estritamente determinadas por sua natureza: deve adaptar-se às possibilidades intelectuais de cada um, graduar-se em proporção dos resultados já obtidos e exige um esforço constante de assimilação pessoal — o que indica a necessidade do ensinamento oral e direto, ao qual nada pode suprir. * "O Oriental está a salvo dessa ilusão, demasiado comum no Ocidente, que consiste em crer que tudo pode ser aprendido nos livros, e que acaba por colocar a memória no lugar da inteligência; para ele, os textos nunca têm senão o valor de um 'suporte'..." — Guénon, Introduction générale, p. 262-263. * A erudição é reduzida por esse princípio ao seu justo valor — o de meio subordinado e acessório do conhecimento verdadeiro. * Nenhuma obra publicada numa perspectiva tradicional jamais comportou bibliografia; toda obra publicada com bibliografia demonstra por isso mesmo que não é inteiramente tradicional, pois contém uma concessão à mentalidade profana incompatível com a natureza do ensinamento iniciático. Não é apenas a Universidade que convém questionar, mas também todas as derivas originárias da degenerescência das organizações iniciáticas ocidentais — principalmente a Maçonaria moderna —, pois onde prevalece o respeito à Tradição as hierarquias intelectuais se estabelecem por si mesmas, enquanto onde domina o igualitarismo é preciso exercer uma "ação de polícia tradicional" para reduzir a erudição ao grau inferior que normalmente lhe convém. * Em matéria iniciática, as referências verdadeiras implicam um vínculo a princípios metafísicos manifestados neste mundo e a uma Companhia visível e invisível. * "Não há nenhuma coisa cujos Tesouros não estejam junto d'Ele; e Nós os revelamos somente segundo uma medida definida pela ciência que temos delas" (Alcorão 15:21). * A referência doutrinal é haurida diretamente na "Mina original do Enviado e dos enviados" no caso dos iniciados que atingiram o grau da "profecia geral" (an-nubuwwat al-'amma), ou transmitida pelos "elos" de uma cadeia mais ou menos longa. O fetichismo da referência acadêmica acompanha-se de estranhas ilusões: se o valor de uma tradução depende sem dúvida da exatidão do texto, engana-se quem imagina que os critérios da crítica universitária possam ser suficientes para estabelecer a versão correta de ensinamentos iniciáticos, pois a mentalidade de que procedem esses métodos é incapaz de atingir o que ultrapassa a ordem individual. * Michel [[trd>Valsan]] traduziu uma passagem do Prefácio das Futûhât al-Makkiyya referindo-se a uma "luz azul (azraq)"; críticos bem-intencionados mas superficiais afirmaram tratar-se de uma "luz brilhante (azhar)", que é o termo indicado na edição crítica de Othman Yahya, onde a variante azraq nem sequer é assinalada. * Porém é azraq a versão correta, em virtude de um segredo iniciático ignorado tanto pelos copistas quanto pelos críticos — e Chodkiewicz, embora passando por campeão da referência universitária, menciona por sua vez a "luz azul" sem dar a menor explicação, o que sugere que tinha ele próprio conhecimento do segredo. * Segundo o Shaykh al-Akbar, a autoridade doutrinária em matéria de hadith pertence àqueles que, à semelhança dos profetas "legiferantes", a extraem diretamente de Deus — podendo confirmar a autenticidade de hadiths de transmissão "fraca" ou infirmar a de hadiths de transmissão "forte." A necessidade do ensinamento oral e direto aplica-se ao ensinamento tradicional em seu conjunto; a bênção divina (baraka) concerne mais especialmente os ritos vinculados ao Profeta por meio de um rito iniciático, e cada via de realização é única por coincidir com a Face divina do ser. * "É a luz dessa Face que se descobre eventualmente graças ao ensinamento oral de um mestre (cheikh murshid) dirigido a tal discípulo particular, o que não podem fazer nem a leitura de um livro nem a prática de um rito coletivo." * Esse ensinamento consiste mais frequentemente não em explicar pontos de doutrina, mas em tirar o discípulo de seu estado de sono e inconsciência, combatendo sua imaginação, retirando suas ilusões e inculcando-lhe o sentido das conveniências — esse adab em que "reside todo o bem." * Mais essencial ainda do que o ensinamento "oral e direto" é o transmitido pelo silêncio ou, no caso de um santo, pela pura presença do mestre que manifesta de forma imediata a Presença divina. O islã, por sua posição cíclica final e recapitulativa, pode "herdar" de ensinamentos reservados de tradições anteriores — Alcorão 19:40, 15:23, 21:105 — e esses aportes encontram necessariamente sua correspondência na revelação islâmica total, vivificando a inteligência do islã e frutificando em seu seio com uma profusão que frequentemente já não é mais possível em sua tradição de origem. * Essa possibilidade não implica nenhuma "mistura de formas tradicionais" e só pode realizar-se no respeito de regras precisas — pois "é Deus, e só Ele, que propõe as similitudes aos homens, pois Ele possui a ciência de toda coisa" (Alcorão 74:25). * Tais transmissões, quando operam num espírito tradicional, fazem ressaltar imediatamente o caráter fictício e irrisório dos trabalhos universitários que tratam dos mesmos assuntos. * Guénon observou que o orientalismo procede por um "temor instintivo de tudo o que ultrapassa a erudição" combinado com o interesse consciente de manter o monopólio da ciência oficial — com a "vontade decidida de não tolerar o que poderia ser perigoso para as opiniões admitidas." A situação atual difere da época de Guénon: hoje já não se trata de abrir caminho às ideias tradicionais, mas de combater uma abordagem especulativa que consiste em reduzir as doutrinas reveladas do islã a essas mesmas ideias, desligando-as da inspiração divina de que procedem. * "A Universidade rejeitou René Guénon como rejeitou Michel [[trd>Valsan]] — e não há razão para se surpreender que ela se empenhe igualmente em dar uma visão falseada e incompleta do ensinamento akbariano." * A Universidade aparece como uma instituição parcial e partidária utilizada para a "defesa do Ocidente" a fim de impedir a irradiação do Oriente tradicional em geral e do Espírito universal do islã em particular. Os escritos de Ibn Arabi encerram uma orientação espiritual e iniciática equivalente ao ensinamento "oral e direto" de um mestre espiritual — modalidade da baraka muhammadiana que só pode ser preservada por meio de uma apresentação adequada. * Essa presença divina oculta não reside necessariamente nos desenvolvimentos doutrinais, mas antes nas anécdotas, nos detalhes pessoais, nos exemplos e nas observações insólitas que se assemelham, por sua familiaridade, a um ensinamento dado em viva voz. * Exemplo: um homem que bebia vinho entre duas taças dizia "faço retorno a Deus (lî tawba)" e aguardava sem saber se o Senhor lhe concederia o êxito de recusar a próxima taça ou o abandonaria de modo a bebê-la — ao que Ibn Arabi comentou: "Tal é, com efeito, a preocupação dos sábios verdadeiros"; esse homem morreu com o pesar de não ter podido encontrar Ibn Arabi, embora este uma vez estivesse perto dele sem ser reconhecido — episódio ocorrido em Múrcia em 595 H. A apresentação tradicional de Ibn Arabi deve igualmente levar em conta como ela é percebida nos países islâmicos, onde tem constantemente sido objeto de ataques e suspeitas gerados pela incompreensão, inclusive no interior de organizações iniciáticas (turuq). * Uma preocupação de prudência excessiva e mal esclarecida opõe a seu ensinamento uma referência exclusiva "ao Alcorão e à Sunna do Profeta" — esquecendo que os dados revelados podem dar lugar a interpretações diversas e sobretudo a uma hierarquia de pontos de vista. * A doutrina universal de Ibn Arabi inclui todas as profissões de fé legítimas; comentando Alcorão 50:37, o Shaykh declara: "Deus não disse: para os dotados de intelecto especulativo, pois o intelecto condiciona... não se trata de modo algum de um lembrete para os que professam credos, que se declaram infiéis uns aos outros e se amaldiçoam." * Michel [[trd>Valsan]] observou que, se se quisesse ater ao sentido literal, poder-se-iam encontrar em Ibn Arabi formulações tão diferentes da mesma doutrina que pareceriam contraditórias com a posição da wahdat al-wujud — mas seus adversários nunca têm a objetividade de assinalar o fato nem a perspicácia de colocá-lo em contradição consigo mesmo. * O termo majmû' — "Síntese" — é da mesma raiz que jumu'a — o Dia de Sexta-feira —, dia da "síntese final" contida na revelação feita ao "Selo dos profetas": é o que secorre e o que é socorrido. * O nome Muhyi d-Din indica que Ibn Arabi é, por excelência, o "vivificador da religião" — aquele cuja ciência "é útil" segundo a recomendação profética.