====== Passagem pelas esferas ====== //[[.:start|Ordem e Desordem das Esferas]]// * Comparando os textos entre si com base na ordem convencional "caldeia" dos planetas, constata-se que o Poimandres apresenta correspondências com os demais testemunhos para a Lua, Vênus e Marte, e que a associação entre Saturno e a mentira é muito antiga. * Os "meios ilícitos de procurar riqueza" no Poimandres aproximam-se do desiderium honorum de Sérvio. * A "ostentação do comando" corresponde ao Sol como hegemon cósmico na ordem caldeia. * Mercúrio mitológico é o senhor das "indústrias da malícia". * A ordem dos planetas no Poimandres é a ordem "caldeia", como em Macróbio. * Quatro ordens planetárias distintas estão presentes nos testemunhos: a ordem "caldeia" (Macróbio, Sérvio ad XI 51, Poimandres), a ordem "egípcia" (Proclo), a ordem dos regentes da semana planetária (Sérvio ad VI 127) e uma quarta ordem de sucessão presente em Sérvio (ad VI 714). * A quarta ordem, qualificada erroneamente de "aberrante", corresponde à ordem em que os "sorts" dos planetas aparecem no tratado astrológico Panaretos: Sol, Lua, Júpiter, Mercúrio, Vênus, Marte, Saturno. * A mesma série planetária, com leve inversão de Mercúrio e Vênus, reaparece nos Apotelesmata do Pseudo-Manetão e em um ostracon demótico do século I d.C. * Segundo W. e H. G. Gundel, essa série remonta a uma ordem planetária egípcia de venerável antiguidade. * Essa ordem aparece também no capítulo 136 do escrito gnóstico Pistis Sophia: Cronos, Ares, Hermes, Afrodite, Zeus. * A história das ordens "egípcia" e "caldeia" é mais conhecida, mas suas relações internas só foram elucidadas pelo estudo recente de Flamant, que demonstrou derivarem ambas da teoria heliosatélica ou geocêntrica atribuída por Calcídio a Heráclides do Ponto. * O postulado fundamental dessa teoria é que Mercúrio e Vênus giram em torno do Sol, não da Terra. * Dependendo de Vênus e Mercúrio estarem acima ou abaixo do Sol, obtém-se o Ordem I ("egípcia") ou o Ordem II ("caldeia"), cada uma com duas variantes segundo a posição relativa de Vênus e Mercúrio entre si. * A ordem Ia (Platão) é: Terra, Lua, Sol, Vênus, Mercúrio, Marte...; a Ib (Eratóstenes): Terra, Lua, Sol, Mercúrio, Vênus, Marte...; a IIa ("caldeia" usual): Terra, Lua, Mercúrio, Vênus, Sol, Marte...; a IIb (raríssima): Terra, Lua, Vênus, Mercúrio, Sol, Marte... * Macróbio é partidário da ordem platônica ("egípcia", var. Ia) e tenta conciliá-la com a ordem ciceroniana por meio da teoria heliosatélica; Proclo adere à ordem "caldeia", o que torna surpreendente o fato de cada um expor nos textos citados um sistema em discordância com suas próprias posições. * Macróbio recorre à ordem "caldeia" e Proclo à "egípcia" nos textos transcritos, o que indica que ambos expõem teorias segundo fontes com as quais não estão inteiramente de acordo. * A fonte de Macróbio não coincide com a de Proclo. * Flamant propõe que a origem da doutrina da descida da alma pelas esferas deva ser buscada em Numênio, que preferia a ordem "caldeia", e que Porfírio teria reproduzido fielmente essa doutrina em seu Comentário à República, de onde Macróbio a teria tomado. * No Comentário ao Timeu, Porfírio teria modificado levemente a teoria de Numênio, alterando a ordem dos planetas, sendo essa a fonte direta de Proclo. * O ponto fraco da hipótese é que Numênio não pode ser o autor original da doutrina, já presente no gnosticismo popular anterior a Basilides; contudo, isso não exclui que ele a tenha conhecido e exposto em seus escritos. * A verdadeira origem da doutrina é astrológica, e é Sérvio quem aponta o caminho. * Sérvio expõe a teoria a partir de três fontes distintas: possivelmente Porfírio (De regressu animae ou De Styge), uma fonte hermética e uma fonte que utiliza a doutrina astrológica dos "regentes" dos dias da semana. * O terceiro texto de Sérvio não descreve uma descida da alma, mas reproduz uma teoria astrológica de correspondências entre micro e macrocosmo, pois afirma que na naissance recebemos a influência (sortimur) dos regentes, sem mencionar passagem pelas esferas. * A sucessão dos dias da semana não coincide com a disposição das planetas no universo e não se presta à doutrina da descida. * O verbo sortior remete à teoria astrológica dos sorts (kleroi) planetários; a ordem "aberrante" de Sérvio (ad VI 741) permite identificar sua fonte como o tratado pseudo-hermético Panaretos, comentado por Paulo de Alexandria e por seu discípulo Heliodoro. * A teoria dos sorts planetários provém de uma técnica divinatória muito antiga, segundo W. Gundel, e pode ser calculada pelo lançamento de dados ou por cálculo astrológico a partir das posições relativas do Sol, da Lua e do Ascendente no tema natal. * O Panaretos indica os sorts das planetas na ordem: Sol (bom gênio), Lua (boa fortuna), Júpiter (rango), Mercúrio (necessidades naturais), Vênus (amor), Marte (coragem e risco), Saturno (fatalidade/nemesis). * Segundo o comentário de Heliodoro, a Lua age sobre tudo o que concerne ao corpo humano; do Sol depende o daimon pessoal do homem; Júpiter determina a vitória e a glória; Mercúrio, a inteligência e as capacidades expressivas. * A aplicação prática do método empírico dos sorts é atribuída ao último rei egípcio, o astromago Nectanebo. * A mesma doutrina astrológica da vulgata hermética reaparece, com variantes especulativas ou práticas, no tratado astrológico atribuído a Néchepso e Petósiris e nos astrólogos Serapião, Vetio Valente e Firmicus Maternus. * O gnosticismo popular, expresso por tratados como o Apócrifo de João, se apropria dessa doutrina, acentuando o caráter exclusivamente maligno das planetas em polêmica com a doutrina dos astrólogos. * Basilides e seu filho Isidoro são os representantes oficiais desse novo espírito. * O Poimandres hermético se inspira em parte nas mesmas produções gnósticas. * Transmitida também por filósofos que não partilham a concepção pessimista do mundo dos gnósticos, a teoria do passage da alma pelas esferas planetárias adquire importância maior nos neoplatônicos tardios e goza de enorme prestígio no Renascimento, quando é difundida por Marsílio Ficino.