====== 6 Tantrismo ====== //ELIADE, Mircea. Le Yoga. Immortalite et liberte, 1954// **YOGA E TANTRISMO** **APROXIMAÇÕES** 1. O tantrismo, cuja denominação remete à extensão e à continuidade do conhecimento, constitui um movimento filosófico e religioso de difícil definição que se anuncia a partir do século IV e adquire ampla difusão desde o século VI, influenciando filosofia, mística, ritual, moral, iconografia e literatura e sendo assimilado pelo budismo, pelo hinduísmo, por certas práticas jainistas e por diversas correntes de devoção. 2. As tradições budistas vinculam a introdução do tantrismo a Asaṅga e Nāgārjuna, mas suas origens históricas permanecem incertas, embora o Vajrayāna, ou Veículo do Diamante, tenha alcançado sua máxima expansão no século VIII e encontre no Guhyasamāja-tantra um de seus documentos mais antigos e importantes. 3. Os Tantras budistas dividem-se em kriyā-tantra, caryā-tantra, yoga-tantra e anuttara-tantra, com predominância das orientações rituais nos dois primeiros e dos procedimentos iogues nos demais, embora geralmente combinem ritual, prática e filosofia e sejam relacionados pela tradição tibetana às diferenças de temperamento e condição dos praticantes. 4. O desenvolvimento inicial do tantrismo em regiões fronteiriças e pouco hinduizadas favoreceu a incorporação de divindades, mitos, ritos e crenças autóctones e exteriores à Índia, prolongando a assimilação religiosa iniciada no período pós-védico e apresentando possíveis relações, mediadas pelo Irã, com a gnose, o hermetismo, a alquimia greco-egípcia e as tradições ocidentais dos Mistérios. 5. A ascensão do tantrismo confere à Grande Deusa uma posição predominante na espiritualidade da Índia ariana, expressa no budismo pelas figuras de Prajñāpāramitā e Tārā e no hinduísmo pela elevação de Śakti, a força cósmica, à condição de Mãe divina que sustenta o universo, representando uma renovada afirmação das tradições populares pré-arianas de devoção à maternidade sagrada. 6. A mulher, reconhecida como encarnação de Śakti, reúne os mistérios da geração, da fecundidade e do próprio ser, simbolizando a dimensão irredutível e transcendente do sagrado, enquanto a oposição entre o espírito contemplativo e a natureza produtiva prolonga o esquema do Sāṁkhya e encontra expressão no mito da Deusa que, formada pela reunião das energias divinas, derrota Mahiṣa e restaura a potência primordial do universo. 7. A primazia de Śakti permite a incorporação da espiritualidade autóctone e popular ao hinduísmo e fundamenta a apresentação do tantrismo como revelação adequada ao kali-yuga, quando o enfraquecimento espiritual torna insuficientes os caminhos tradicionais e exige partir das experiências corporais fundamentais, fazendo do rito vivente, do coração e da sexualidade veículos de transcendência. 8. O Vajrayāna apresenta-se igualmente como uma revelação adaptada às possibilidades reduzidas do ser humano no kali-yuga, ensinando que o cosmos está presente no corpo e que a sexualidade e a disciplina respiratória podem servir à libertação do domínio temporal, de modo que corpo, cosmos vivente e tempo constituem elementos fundamentais da prática tântrica. 9. A orientação antiascética e antiteórica do tantrismo decorre da valorização do corpo como presença do cosmos e dos deuses e como ponto de partida indispensável para a libertação, exigindo saúde e vigor e levando certas escolas a rejeitar até mesmo os métodos meditativos em favor da espontaneidade pura. 10. A realização da própria natureza não depende necessariamente de ascetismo, mantras, imagens, fórmulas rituais ou sistemas de meditação, pois o apego a esses procedimentos pode produzir confusão e impedir o reconhecimento direto de si. 11. A meditação e a expectativa de adquirir poderes extraordinários não garantem a superação do sofrimento, tornando necessário abandonar as práticas complicadas e reconhecer a vacuidade como a própria natureza. 12. A utilização ritual do vinho, da carne e da união sexual e a afirmação de que os desejos podem conduzir à perfeição conferem ao tantrismo uma aparência de facilidade, enquanto as permissões transgressoras de certos textos se apoiam na concepção de que as oposições entre bem e mal carecem de realidade última e de que o reconhecimento da vacuidade universal permite alcançar a condição de Buda. 13. A facilidade do caminho tântrico é apenas aparente, pois sua realização exige uma disciplina longa e difícil destinada a reunir no corpo e na interioridade do discípulo os princípios polares separados pela manifestação cósmica, restaurando a unidade não dual da realidade absoluta e, no tantrismo budista, a condição adamantina, mediante uma iniciação e uma transmissão esotérica que dependem indispensavelmente do guru. {{tag>Eliade Yoga Tantra}}