====== 2.2 Palavras, coisas e imagens ====== //FRONTISI-DUCROUX, Françoise; VERNANT, Jean-Pierre. Dans l'œil du miroir. Paris: Éditions Odile Jacob, 1997. (Coleção "Le temps de la pensée").// 1. As palavras de uma língua são tão reveladoras quanto os escritos mais eruditos, e os gregos dispunham de múltiplos termos para designar o espelho, além das metáforas e perífrases poéticas como o "bronze reluzente" ou o "disco de bronze". **Modos de dizer** 1. Dos três termos principais, esoptron, enoptron e katoptron, o mais conhecido não é o mais antigo, já que o primeiro nome do espelho num texto grego é dioptron, num fragmento de Alceu segundo o qual o vinho é um espelho para os homens, ocorrência única e talvez criação poética, mas significativa porque o grego tardio conhecerá o feminino dioptra, instrumento óptico de medir distâncias, ângulos e altitudes, origem de "dioptro" e "dioptria", e também a sonda do cirurgião. 2. O dioptron de Alceu relaciona-se com termos homéricos como o verbo "espiar" e o nome "espião, batedor", que também designará tardiamente a sonda cirúrgica, e com o verbo que significa "distinguir" ou "ver claramente", cujo prefixo dia indica separação ou penetração, sendo provável que domine este último sentido, pois o vinho age por dentro, trazendo à luz os pensamentos e permitindo ver através do indivíduo, de modo que esse primeiro espelho, metafórico e não reservado às mulheres, mas a toda a espécie humana, sugere um instrumento de exploração interna. 3. O termo esoptron aparece em Píndaro com valor metafórico, o canto poético como espelho das belas ações, e com valor concreto nos poemas anacreônticos, dando origem mais tarde, sobretudo em Plutarco, a derivados ligados ao fenômeno da reflexão e a um feminino atestado na Antologia Palatina. 4. O verbo correspondente, formado com o prefixo de direção "rumo a" e de contato "sobre", é corrente nos poemas homéricos com o sentido de olhar, considerar e contemplar, num olhar de respeito, admiração ou penetração, como o de Hélio, cuja luz observa e faz ver os homens e as coisas, pois a vista é luz e a reciprocidade entre ver e ser visto é fundamental na concepção grega da visão. 5. O termo katoptron surge em Ésquilo com sentido metafórico, espelho da amizade e espelho do vinho, torna-se depois frequente no sentido próprio, com variantes como katopton e o feminino de Calímaco para o espelho desdenhado por Atena, e produz o vocabulário da catóptrica, ciência da reflexão, enquanto o verbo correspondente designa um olhar de cima para baixo, privilégio dos deuses que contemplam os homens do Olimpo ou do Ida, como o Sol, e também um olhar que procura penetrar de fora para dentro numa visão distinta e examinadora. 6. O termo enoptron, depois de designar concretamente o acessório feminino, como em Eurípides, também origina derivados técnicos da reflexão, e o verbo correspondente, "ver dentro, notar", aplica-se à observação do inimigo, especializa-se na óptica para a percepção de imagens em superfícies polidas ou líquidas e pode significar, em contexto erótico, fixar com os olhos. 7. Os nomes gregos do espelho fundam-se na noção de ver, como na maioria das línguas, a partir da raiz op de opsis, origem de "óptica", enquanto os prefixos conferem ao olhar modalidades espaciais, para, sobre, penetrante, atravessante e sobretudo descendente, sugerindo que o reflexo não é apreendido apenas na superfície, orientação talvez devida à reflexão em superfícies líquidas, que explica a dimensão de profundidade e de mergulho e faz do mito de Narciso o desfecho da problemática antiga da reflexão, além de valores suplementares que se encontrarão ao interrogar os espelhos gregos. **Formas e funções** 1. Os objetos também ensinam, e a arqueologia, ao exumar grande número de espelhos gregos, permite o contato com os realia e confirma os testemunhos antigos, embora o contexto de uso não venha com o objeto e deva ser reconstruído, pois os espelhos sozinhos, de decoração predominantemente feminina, não deixam suspeitar a interdição que pesa sobre eles do lado masculino. 2. O material básico é o bronze de ligas variáveis, enquanto os espelhos de prata e ouro, como os de Helena, eram raros e os de vidro só surgem no início do Império Romano, predominância refletida nas denominações metafóricas, pois o chalkos, que para um homem pode designar a armadura, remete inevitavelmente ao espelho em contexto feminino. 3. A parte refletora do espelho grego é sempre circular, mas existiram três tipos, os de mão, os de suporte e os de estojo. 4. O espelho de mão tem cabo de metal, marfim ou madeira, podendo ser de peça única como os etruscos, mas frequentemente com cabo em forma de corpo humano, muitas vezes feminino, ligado ao disco por uma parte trabalhada com motivos vegetais, florais ou animais fabulosos, leões, esfinges, górgonas, sereias, e às vezes com argola de suspensão. 5. O espelho de suporte, feito para ser usado apoiado, é frequente nos séculos VI e V, sobretudo na produção do Peloponeso, com suporte e base decorados com cariátides de moças, às vezes nuas, Eros, sereias e flores de lótus. 6. No fim do século V surge o espelho de estojo, de grande fortuna, uma caixa redonda semelhante a uma caixa de pó, com fundo e tampa encaixáveis ou articulados, que pode conter um disco plano, mas cujo fundo geralmente serve de espelho côncavo, assim como às vezes o interior da tampa, fornecendo dois espelhos, um convexo e outro côncavo. 7. O estojo, funcional para retardar o embaciamento do metal, tem valores simbólicos tão interessantes quanto suas vantagens práticas, pois pertence à categoria das píxides, caixas e cofres que constituem o essencial do mobiliário feminino, figura exemplar do encerramento associada à mulher, destinada a viver no interior e a tornar-se ela mesma recipiente e corpo reprodutor, associação que o termo enoptron sugere e que Aristófanes confirma nas Nuvens, onde Estrepsíades pensa em fazer uma maga tessália descer a lua para fechá-la num estojo redondo como um espelho e assim suprimir o vencimento de suas dívidas, encerrando o disco feminino por excelência e espelho do sol, num gesto que sugere também o olhar de cima para baixo sobre o espelho horizontal no fundo do estojo. 8. O estojo destinado a encerrar imagens é ele mesmo decorado, sobretudo na face externa da tampa, com motivos variados e às vezes um perfil feminino. 9. A decoração é constante nos espelhos gregos, objetos de luxo e de preço, e a abundância de figuras sublinha a relação consubstancial entre espelho e imagem, já que eikon designa tanto o reflexo quanto toda representação figurada, de modo que o espelho feminino, acessório indispensável ao adorno e à beleza de finalidade erótica, é um aparelho de imagens, confundindo-se com frequência nos textos o instrumento e as imagens que produz. 10. O reflexo dos espelhos gregos não tinha a precisão dos espelhos de aço estanhado, e as superfícies côncavas ou convexas deformavam a imagem, diminuindo-a ao ampliar o campo ou aumentando os detalhes ao restringi-lo, enquanto as pequenas dimensões do disco limitavam a visão ao rosto ou a parte dele, salvo o espelho excepcional de Demóstenes, reduzindo o encontro com o espelho a um estrito face a face, quase de olho a olho, entre o olhar que vê e o disco que o olha ver-se. 11. A direção do olhar só é obrigatoriamente horizontal no espelho de suporte, enquanto os outros tipos permitem um olhar para baixo, oblíquo ou até vertical como nas superfícies líquidas, posições com implicações importantes no modo de pensar a imagem do espelho. 12. Os espelhos de suporte e de estojo, sobreviventes em grande número, quase não aparecem nas pinturas dos vasos áticos, que só representam o espelho de mão, divergência explicável pela produção e pela cronologia, mas sobretudo por escolhas iconográficas com consequências no plano dos valores simbólicos. **Em imagens** 1. Ao contrário dos testemunhos lexicais, textuais e arqueológicos, de gêneros variados e escalonados entre os séculos VII a.C. e V d.C., com diferenças de concepção e mentalidade, o dossiê iconográfico da cerâmica ática é limitado no tempo e homogêneo, abrangendo pouco mais de um século e transmitindo representações da Atenas clássica do século V. 2. As pinturas com espelho mostram mulheres em algumas de suas atividades, num interior sugerido por poucos signos, assentos, cofres de roupa e objetos, onde o espelho convive com frascos, lécitos ligados à toalete e à beleza, cofres de cosméticos ou joias e instrumentos de fiação e tecelagem. 3. O espelho nem sempre está na mão, aparecendo de frente como pendurado na parede, às vezes de cabeça para baixo pelo cabo, representação talvez realista mas também necessária para torná-lo identificável, e, além de denotar o espaço feminino e a beleza, pode ser sinal da reflexividade da própria decoração, já que o interior representado deveria reproduzir o ambiente de uso do vaso, alusão reforçada quando o espelho se justapõe a um frasco de forma igual ao vaso suporte, como em dois lécitos em que ninguém o olha e o disco parece abrir o espaço da imagem ao espectador, num jogo em abismo entre as mulheres pintadas e as usuárias do lécito. 4. No vaso de beber destinado aos homens, o espelho pode valer como indício do vislumbre oferecido ao olhar masculino sobre os segredos do gineceu, como na cratera da chuva de ouro sobre Dânae, figura exemplar do encerramento, deitada num leito côncavo equivalente ao kolpos, regaço e matriz para onde desce o sêmen de Zeus, sob um espelho que resume os valores simbólicos da cena, feminilidade, beleza, erotismo e fecundidade, e abre o lugar fechado à visão da concepção misteriosa de Perseu. 5. Quando segurado, o espelho tem um papel não apenas funcional e aparece em diversas configurações, com a mulher sentada ou de pé, olhando-o, desviando-se ou passando-o a outra, visto de frente, de perfil ou de três quartos, vertical ou oblíquo, muitas vezes abaixo do rosto, e o paralelismo entre o perfil do espelho e o da mulher sugere a reflexividade, como no lécito em que uma mulher ajeita a franja, ou na taça em que uma companheira de Helena verifica o laço do cabelo enquanto Helena, sonhadora com um cofre no colo e Eros a seus pés, se desvia, talvez no primeiro encontro com Páris, incapaz de suportar a aparição do jovem ou a própria beleza, com o Julgamento representado na outra face. 6. A posição mais comum mostra a mulher de perfil com o espelho de frente, muitas vezes dele desviada, carregando-o ou brandindo-o como emblema de feminilidade, e mesmo quando o rosto se volta para ele o espelho denota a beleza, frequentemente acompanhado por outro atributo equivalente na outra mão, frasco de perfume ou lenço bordado, objetos-signos mostrados como prolongamentos do corpo feminino, como a cabeleira ou os brincos. 7. No interior de uma taça, uma mulher inteiramente de frente, entre uma bacia e um assento com cesto de lã, segura um frasco e eleva à altura do rosto um espelho circular, numa dupla frontalidade que equivale graficamente ao paralelismo entre rosto e reflexo e devolve ao espectador o face a face da reflexividade. 8. A relação visual pode dar-se apenas entre o espectador e o disco, quando a mulher não se olha, ou nos planos interno e externo da imagem, quando ela se mira, geralmente sentada, como Afrodite numa hídria do julgamento de Páris, no centro entre Hermes e um belo jovem, com Hera e Atena nas margens, sublinhada por um Eros e pelo espelho em que se contempla mas cujo disco está voltado para o espectador, que se insere no face a face e partilha as funções de voyeur e juiz assumidas por Páris. 9. Às vezes o espelho é estendido por uma serva ou companheira, como a uma senhora que completa um adorno refinado entre cofres luxuosos ou a uma jovem nua lavando-se numa bacia, motivo também presente numa tampa de espelho, e nesses casos o disco, de frente e voltado para fora, concentra todos os olhares, da serva, da que se mira e de outra companheira. 10. A relação entre beleza e cabeleira é frequentemente sublinhada nesses face a face, como no anforisco de Oxford em que uma senhora sentada, de cabeça inclinada para o espelho, leva a mão aos cachos como para acentuar sua ondulação. 11. Ao espelho, emblema feminino, opõem-se signos masculinos como a bengala, sinal do cidadão em Aristófanes, enquanto o espelho marca apenas a feminilidade sem precisar o estatuto, e nas cenas em torno da bacia o espelho da toalete feminina responde ao equipamento do atleta para os cuidados masculinos, como num skyphos que opõe dois estilos de toalete de mesma finalidade, ou em dois lécitos gêmeos em que a barba de um homem disfarçado ritualmente com touca e manto femininos responde ao espelho da mulher para especificar o sexo de cada figura. 12. Em nenhuma dessas pinturas aparece um reflexo, salvo numa única hídria ática do fim do século V em que o rosto de uma serva que leva o espelho à senhora parece refletir-se, de modo que a imagem canônica da mulher que se olha no espelho só está realmente atestada na pintura italiota do sul da Itália no século IV. 13. Na cratera do Cabinet des Médailles com os preparativos do julgamento de Páris, Hera, sentada de perfil, ergue o véu da cabeleira e inclina-se para o espelho em que se desenha nitidamente seu perfil simétrico e invertido, devolvendo-lhe o olhar, enquanto postura e adornos dizem o luxo e a beleza que o espelho capta e efetivamente reflete, mas o vaso é da Magna Grécia e do século IV. 14. A precisão do reflexo de Hera torna ainda mais notável o vazio dos espelhos áticos do século V, cujas mulheres são mostradas antes olhando o espelho do que contemplando o rosto, ou apenas segurando-o, de modo que a visão de si por reflexividade, que os autores gregos reservam à mulher para o fim fútil do adorno, não é explicitamente representada pelos pintores de Atenas, embora façam do espelho acessório e emblema feminino essencial. 15. Os pintores áticos recorrem a outros procedimentos, como num lécito em que uma mulher de pé segura à altura do peito um espelho cujo disco traz no centro uma cabeça feminina que repete em miniatura seu perfil, figura gravada no verso como nos perfis das tampas de estojo, paralela e não simétrica, sem que a mulher o olhe, de modo que o pintor representa não o reflexo realista e ilusionista da pintura italiota, mas um equivalente ou metáfora, uma eikon que evoca o reflexo designado pelo mesmo termo, sublinhada pelo contraste entre a figurinha em silhueta negra sobre fundo vermelho e o rosto em figura vermelha. 16. Noutro lécito, diante de uma fiandeira sentada, um espelho pendurado mais alto que sua cabeça traz um perfil feminino gravado, quase do tamanho do dela e com a mesma faixa no cabelo, agora em figura vermelha e voltado para ela em simetria invertida, como se o espelho fosse o receptor da imagem do rosto feminino e a gravura o equivalente virtual de um reflexo. 17. Esses pintores mostram minúcia, gosto pelo detalhe e reflexão sobre sua prática e o estatuto das imagens ao sugerir indiretamente a finalidade "iconopoiética" do espelho fora de uso, e o engenhoso pintor de Pan talvez pretendesse assinalar, ao evocar o reflexo pela figura gravada, o caráter material das imagens do disco de bronze e a "coisificação" implicada em buscar conhecer o rosto num instrumento de metal e não, como o homem, na pupila viva do semelhante, mostrando a mulher, duplicada por imagens duráveis e cinzeladas, como belo objeto à semelhança de Pandora, artefato saído das mãos divinas. **A esposa e as outras** 1. As imagens classificadas como "cenas da vida feminina" que mostram mulheres entre si num interior às vezes indicado por uma porta são lidas imediatamente como a dona de casa dividida entre os filhos, as servas, a arrumação, a lã e o cuidado de uma beleza reservada ao marido, programa grato aos atenienses e aos helenistas e conforme a escritos como o Econômico de Xenofonte e os Preceitos conjugais de Plutarco. 2. Nas cenas de casamento, como num cofre com a preparação do leito nupcial sob um espelho pendurado, semelhante ao de Dânae, e sobretudo nas hídrias do ritual matrimonial, o espelho intervém como instrumento do adorno nupcial e indício da beleza que, com o amor, deve presidir ao himeneu, pois sem desejo o casamento corre o risco de ser infecundo, como significa a presença de Eros, que situa a imagem num plano mais simbólico que realista, assim como os nomes de heroínas e deusas inscritos e a semelhança entre cenas anônimas e mitológicas desaconselham ver nelas puros reflexos da vida cotidiana. 3. A série de vasos com mulheres nuas na toalete é mais problemática, pela dificuldade de situar o lugar, aparentemente exterior, pátio ou ginásio feminino, e de identificar as figuras, jovens atletas não atestadas em Atenas ou talvez heteras, embaraço atribuível em parte à lacuna no conhecimento do referente histórico, sobretudo do mundo feminino. 4. As numerosas imagens de senhoras em seu interior, entregues às mesmas ocupações com espelho ou roca, mas em companhia de homens em traje de rua, com manto e bengala, gestos de "conversa erótica" e oferta de flores, presentes ou bolsas, sugerem antes cortesãs do que mães de família, homologia que perturba os bons espíritos e suscitou explicações como a prostituta que tricota nas vitrines de Amsterdã ou o marido que traz o dinheiro à esposa, interpretações que repousam numa concepção errônea da imagem, julgada realista e reflexo "como um espelho" da vida cotidiana por causa da familiaridade e da sedução de seu grafismo clássico. 5. A analogia das imagens-espelho, sugerida pelos próprios gregos, só é aceitável lembrando que os espelhos antigos não primavam pela exatidão, pois as pinturas dos vasos informam sobre o imaginário dos atenienses e sobre como quiseram ver-se, mas pouco sobre sua vida cotidiana, e essa iconografia intimista, presente sobretudo em recipientes femininos, aparece igualmente em vasos de vinho masculinos, saída das mesmas oficinas e regida pelas mesmas representações de uma sociedade masculina em que a mulher ocupa o lugar que o homem lhe atribui, de modo que, como os textos, as imagens de Atenas são produto exclusivo do olhar masculino, destinadas ao prazer dos olhos dos homens e de suas esposas, amantes ou companheiras, sem necessidade de diferenciação. 6. Todas essas cenas têm tonalidade erótica, explícita nas preparações nupciais com Eros e no casamento consumado na união sexual, evidente na mulher nua oferecida ao bebedor no fundo da taça e nas visitas masculinas de relações amorosas virtuais, e extensível às cenas de gineceu mais sóbrias, onde uma porta se abre às vezes para o quarto e o leito entrevisto indica a proximidade de Eros, pois o espelho é inseparável da mulher e a mulher com espelho não se concebe fora do desejo amoroso. {{tag>Vernant mito espelho}}