===== INUTILIDADE DA PALAVRA ===== //[[.:start|FJPC]]// * Confúcio manifesta o desejo de abdicar da fala, provocando inquietação em seus discípulos quanto ao que restaria para transmitir. * Eu desejaria não mais falar — diz Confúcio. * Mas, se assim fosse, o que teríamos nós para transmitir? — questionam os discípulos. * Acaso o Céu fala? — retruca o Mestre. * No entanto, as quatro estações se sucedem e todos os seres proliferam. Que necessidade tem o Céu de falar? * Wang Fuzhi reforça a ideia de que não se deve esperar uma mensagem ou revelação, pois a perfeição do Céu e do Sábio se manifesta sem a necessidade de palavras. * Inexistência de um ensinamento verbal fundado pelo Sábio, cuja conduta expressa por si só uma virtude perfeita. * Diferenciação entre o processo do Céu, que se realiza espontaneamente, e o Sábio, que deve buscar deliberadamente a realização de sua própria moralidade. * Analogia entre a perfeição da sabedoria e a evidência natural do Céu, revelando a totalidade da coerência interna em cada movimento. * Crítica à visão taoísta de Zhuangzi, defendendo que a menor parcela do real revela a lógica indefectível do Processo, em vez de uma plenitude indiferenciada. * Caracterização do aprendizado como assimilação por imitação, conforme o duplo sentido do termo xue, que une aprender e imitar. * Rejeição de uma problemática do sentido independente da evidência dada, uma vez que a mediação da fala romperia a espontaneidade da influência. * O verdadeiro ensinamento opera de forma tácita e invisível, assemelhando-se à dimensão do espírito ou shen que atua continuamente no mundo. * Alerta de Wang Fuzhi contra interpretações supersticiosas da dimensão invisível, negando qualquer intenção de impressionar o povo com o sobrenatural. * Perspectiva puramente objetiva do efeito, denominada yong, onde a integridade interior ou cheng age por si mesma no exterior. * Propagação inevitável da influência através de outrem a partir de uma plenitude interior. * A difusão da influência ocorre sem resistência porque o Céu e o Sábio são isentos de parcialidade e de uma consciência egoísta. * Vacuidade do Céu em relação a atualizações particulares, o que impede desvios na plenitude de seu funcionamento. * Libertação da consciência do Sábio de traços de egoísmo, permitindo a conexão com a comunidade originária de toda existência. * Identificação da natureza do Sábio com a lógica que opera em todo o mundo, confundindo sua influência com a do Processo do Céu e da Terra. * O ensinamento do Sábio obtém uma adesão espontânea que prescinde da retórica, a qual busca conquistar ou coagir o outro por meio da pressão do discurso. * Caracterização da retórica como um combate entre individualidades constituídas e bloqueadas em suas particularidades. * Eficiência do discurso que atravessa o outro por não emanar de uma parcialidade interessada. * Coincidência entre a pessoa individual do Sábio e a universalidade não intencional do Processo, atingindo o outro na raiz de seu devir. * Existe uma incapacidade inerente à linguagem em captar o Processo, pois as palavras pertencem ao estágio da atualização particular e estática. * Impossibilidade de expressar completamente a condução do Sábio e o processo do Céu, que se situam no estágio do invisível ou shen. * Limitação da lógica da linguagem em apreender apenas o que se imobiliza e se torna visível, falhando diante do fluxo e do influxo. * Afirmação da influência como um curso invisível que pertence legitimamente ao inefável. * A eficiência do Sábio não provém do agir, mas de uma incitação que se espalha como uma emoção, transformando o mundo sem a necessidade de planos ou desígnios específicos. * Ausência de projetos particulares no Sábio, permitindo que ele adote o curso do grande processo mundial. * Crítica ao agir baseado em experiências e conhecimentos limitados, que resultam em regras complicadas e insatisfatórias. * Percepção do agir como uma ingerência que suscita resistência por estar bloqueado em atualizações particulares. * Atuação do Sábio na raiz do devir, em oposição à reificação das ações concretas e fragmentárias. * A tradição letrada demonstra reticência em relação a regras e instituições, pois estas são parciais, rígidas e incapazes de acompanhar a fluidez do devir. * Impossibilidade de instituir uma regra para cada coisa e ocasião devido à infinita diversidade do real. * Crítica às normas como fixações arbitrárias e abstratas que exercem contrainte e resultam em imitações forçadas. * Comparação entre a artificialidade da fala e da ação concertada e a espontaneidade da exemplaridade do Céu e do Sábio. * Centralidade ou zhong alcançada pelo Sábio ao abraçar a lógica interna do Processo, dispensando construções teóricas minuciosas. * Redução da formulação lógica a tautologias como o que faz o Sábio ser Sábio e o que faz o Céu ser Céu. * A atenção chinesa à influência invisível e cíclica das estações contrasta com o modelo de comando e palavra das civilizações pastorais. * Referência de Jacques Gernet à tese de Haudricourt sobre o Deus judaico-cristão como um deus de pastores que comanda e exige. * Contraste com o Céu chinês, que não fala e atua de forma contínua por influxos sazonais. * O confronto com a tradição chinesa torna problemático o apego ocidental ao logos, questionando não apenas o que pode ser dito, mas a própria necessidade da fala. * Impacto do pacto lógico ocidental que privilegia a palavra como revelação, história ou destino. * Valorização chinesa da eficácia invisível da interação em detrimento dos prestígios manifestos da ação, resumidos na fórmula No princípio era a ação — Am Anfang war die Tat...