===== Philip Renard ===== //‘I’ is a Door. The essence of Advaita as taught by Ramana Maharshi, Atmananda (Krishna Menon) and Nisargadatta Maharaj.// **"Eu Sou" É o Maior Inimigo e o Maior Amigo** 1. A resposta à questão vem pela oferta de um único conceito específico, o "conhecimento eu sou" ou "eu-sou-idade", que aponta para o simples sentimento de ser e de estar conscientemente presente, de modo que a grandeza de Nisargadatta Maharaj reside tanto em ter minado todo e qualquer conceito quanto em ter apresentado este, a ser digerido, engolido e dissolvido como "o remédio supremo", embora frequentemente chamado também de "a própria doença" ou "a maior miséria", configurando o paradoxo de algo que é doença e, em sua natureza essencial, o próprio remédio e indicador da liberdade. 2. Uma única citação contém a chave de entrada para esse paradoxo e, em poucas frases, descreve todo o mistério da existência juntamente com o meio de nele penetrar, oferecendo a perspectiva a partir da qual todos os demais ensinamentos de Maharaj podem ser interpretados. 3. O toque do "eu sou" está presente em cada ser como amor pelo Absoluto e como sua representação, pois apenas o Absoluto, o Para Brahman total, prevalece, e nele começou o toque do ser com o qual surgiram a separação e a alteridade, sendo esse "eu sou" a própria Mula-Maya, a ilusão primordial, cujo poder envolve completamente, faz obedecer a todos os seus truques e por fim extingue a luz do ser, Maya que significa "eu sou" e "amo ser", sem outra identidade além do amor, conhecimento que é ao mesmo tempo o maior inimigo e o maior amigo e que, devidamente propiciado, se volta e conduz ao estado supremo. **O Toque do "Eu Sou" É a Primeira Vibração** 1. O sentido de "eu sou" é um princípio universal, presente exatamente da mesma forma em cada ser e anterior à interpretação "eu sou João" ou "eu sou Ana", designado pelo termo consciência (chetana), cujo significado específico merece atenção por ser chamado ilusório nesse ensinamento enquanto outros mestres usam a mesma palavra, geralmente traduzindo chit, para indicar o Supremo, e cujos numerosos sinônimos, como conhecer, estado de Krishna, consciência infantil, Atman, semente, testemunha, Deus, ser, sattva, a substância química, Saguna Brahman, o manifesto e o princípio supremo, remetem todos à mesma realidade. 2. Trata-se de um toque, algo que surge espontaneamente e sem razão alguma dentro daquilo que não é experiência, conhecimento, forma nem coisa alguma, sendo possível dizer que algo surge apenas quando isso é notado, de modo que manifestação e percepção são uma só e mesma coisa, e essa primeira vibração, o mais sutil dos toques, constitui a consciência, o princípio "eu sou". 3. O elemento decisivo reside na afirmação de que o conhecimento "eu sou" é o maior inimigo e o maior amigo, formulação que abarca tudo e pode gerar desorientação esmagadora, reforçada pela ênfase recorrente no caráter ilusório e na descrição do Absoluto como inexperienciável, mas o essencial é que, mesmo podendo ser o maior inimigo, convém adorá-lo plenamente, pois, ilusão ou não, ele é em última instância Deus, o princípio eternamente criador de tudo, capaz tanto de seduzir ao apego a uma forma quanto de libertar desse mesmo apego. **Adorar Este Toque do "Eu Sou"** 1. Num dos Puranas, os antigos livros do hinduísmo, encontra-se a ideia semelhante de que Ela, quando satisfeita, torna-se propícia e causa da liberdade humana, pois tudo consiste em adorar esse princípio da forma mais total possível, dar-lhe atenção e agradá-lo, e justamente por ser o sentido de "eu sou" tão comum e ordinário que facilmente passa despercebido, impõe-se honrá-lo plenamente como o Deus supremo, aquietar-se nele e dedicar-se inteiramente a essa consciência, a esse toque. 2. O próprio "tu és" é o Atman, que não consiste em conhecer algo, mas é esse mesmo conhecimento, devendo ser adorado como Deus, pois nada mais existe nem precisa ser feito, e esse conhecimento, presente enquanto houver o sopro vital, conduz ao Supremo e, adorado como Saguna Brahman, à imortalidade, exigindo lembrança contínua, ruminação e reflexão incessante. 3. Adorar não significa necessariamente oração verbal, mas prestar atenção contínua a algo com todo o coração, cujo melhor exemplo cotidiano é a paixão amorosa, em que a atenção se dirige totalmente ao ser amado, queira-se ou não, e tudo o que se volta para ele ocorre sem esforço, sendo esse mesmo enamoramento o que se convida a praticar em relação à consciência ordinária, à experiência sem forma em si, ao toque e ao sentimento de ser. 4. A prática consiste em fundir-se totalmente com esse ser, essa vibração primordial, levando toda a paixão a esse lugar não localizável, aplaudindo a vibração sem se preocupar por ainda ser uma forma de dualidade, energia ou corporeidade, adorando-A, celebrando-A e entregando-se sem reservas até derreter-se nEla, quando Ela mesma revela, na fusão, que o dois deixou de existir, pois Ela só se torna inimiga quando se cede à Sua tentação. 5. A fonte de toda felicidade é o próprio ser, no qual convém estabelecer-se, pois envolver-se no fluxo de Maya, nas atividades das quais se procura extrair prazer e que são produto do ser, gera miséria, ao passo que permanecer quieto no ser, lembrar, ruminar e recordar o ensinamento conduz à quietude e ao estabelecimento nesse conhecimento. **Conhecer e Entrega** 1. No princípio supremo do "eu sou" é possível distinguir o elemento libertador do elemento sedutor e aprisionador, à semelhança de um chafariz num lago, cuja boca, onde a água jorra com força formando milhares de gotas, mal tomou forma e é apenas a experiência da força propulsora de ser, o impulso em direção à forma, cabendo permanecer nessa boca do chafariz e render-se à sua vibração sem forma, sem tentar de modo algum manipular a própria força. 2. Nenhum processo natural pode ser detido, pois tudo é espontâneo, e estando-se agora na consciência agitada e vibrante, não cabe julgar-se algo separado dela. 3. Permanecer na boca do chafariz, adorando Aquilo que produz todo esse desdobramento, liberta. 4. O devoto, com sua firme determinação, e Deus, com seu fascínio pela devoção, atraem-se mutuamente e, ao se encontrarem face a face, fundem-se um no outro, perdendo o devoto automaticamente sua consciência fenomênica e descobrindo, quando ela retorna, que sua identidade se perdeu na de Deus, da qual já não pode ser separada. 5. Deus, devoto e adoração são um único e mesmo princípio comum. 6. O aspecto aprisionador de Deus como Maya, a Sedutora, desvanece-se tão logo se compreende que não é preciso deixar-se arrastar por Ela até Suas formas de criação, bastando notar Aquilo que A vê. 7. Convém meditar sobre aquilo que sabe que se está sentado aqui, pois sentir que o corpo está aqui é identificação corporal, ao passo que aquilo que sabe que este corpo está sentado é expressão do Absoluto. 8. O caráter libertador do princípio "eu sou" está presente tanto no aspecto do conhecer quanto no da entrega, fundindo-se completamente as vias do jnana e da bhakti, de modo que ora a entrega dispensa a discriminação, ora a compreensão impede o erro de tomar a entrega como submissão às próprias formas transitórias, sendo correta apenas a entrega Àquilo que é permanente. 9. Primeiro Maya foi seduzida e, uma vez que se rendeu, já não tendo serventia alguma, foi lançada fora. **O Aspecto Dinâmico da Consciência** 1. Notar o corpo aqui sentado é o conhecer, que é de fato o Conhecer enquanto tal e constitui o elemento libertador, por ser literalmente expressão do Absoluto, Consciência Absoluta que se exprime como "conhecer algo", de modo que consciência e Absoluto não são duas coisas distintas, como muitas vezes se imagina, mas uma única Consciência ou Percepção, com um aspecto absoluto e um aspecto dinâmico, vivo e experienciador, o toque, bastando ver que uma vibração é sempre o conhecer dessa vibração e que esse conhecer é o próprio Conhecer Absoluto, sem separação alguma, enquanto no Absoluto nada há a conhecer, razão pela qual é chamado estado de não-conhecer ou de não-mente, no qual a atenção se dissolve em si mesma. 2. Existe apenas um estado e não dois, pois embora na consciência do "eu sou" ocorram muitas experiências, o "eu sou" e o Absoluto não são dois, já que no Absoluto surge o "eu sou" e então a experiência acontece. 3. O termo chetana, traduzido por consciência, permanece delicado porque a maioria dos mestres do Advaita usa a mesma palavra para designar precisamente o Supremo, exigindo que se entenda sempre a consciência no sentido de Nisargadatta, definida como aquilo que confere senciência à pessoa e também como a experiência primordial, distinta de uma experiência particular, já que um acontecimento só se torna experiência quando há envolvimento emocional. 4. Do Absoluto não pode haver experiência, pois ele está além de toda experiência, ao passo que o Si é o fator experienciador presente em cada experiência e, de certo modo, valida a multiplicidade das experiências. 5. O Absoluto está ininterruptamente presente e, embora não possa ser experimentado, confere constantemente realidade a tudo o que é experimentado, qualidade de certo modo transmitida pelo Si, a Experiência primordial, que por sua vez confere realidade temporária às múltiplas experiências. **O Casamento de Duas Qualidades (Sattva e Rajas)** 1. Por forte influência do Samkhya, antiga escola dualista indiana, o processo de aprisionamento é explicado pelas três gunas, qualidades que determinam e colorem todas as ações, sendo rajas o excitante e inquieto que incita à atividade, tamas o inerte, solidificante e obscurecedor, e sattva a qualidade do equilíbrio, do ser, do conhecer, da quietude e da lucidez. 2. No estado de vigília, saber que se é constitui em si uma miséria, sustentável apenas pela ocupação com tantas outras coisas, pois a qualidade do ser, sattva, o conhecimento "eu sou", não suporta permanecer sozinha conhecendo apenas a si mesma, razão pela qual existe rajas, que leva o ser a passear por diversas atividades para que não habite só em si, enquanto tamas, a qualidade mais baixa, fornece a possibilidade de reivindicar a autoria de todas as atividades no sentimento "eu sou o autor". 3. O poder de rajas é originalmente uma força bastante livre, que em si não precisa prender-se a nada, sendo apenas o efeito de tamas que faz as coisas se colarem, causando fixação, apego, isolamento e preocupação e levando a grudar uma história pessoal numa atividade espontânea. 4. Não se pode senão permitir que rajas surja, por ser inerente ao poder criativo espontâneo, cabendo acolhê-la e continuar reconhecendo o ponto de partida, o primeiro toque ou picada de alfinete, a boca do chafariz onde se testemunha o casamento de sattva e rajas, união entre quietude e poder vibrante, permanecendo-se na quietude de sattva em meio ao poder vibrante e borbulhante de rajas. **"Eu" É Termo para Todos os Níveis** 1. Dedicando-se a isso e honrando essa picada de alfinete, essa consciência, a busca deixa de existir, podendo-se abandonar o fazer, a tentativa de ultrapassar essa consciência, pois isso de nada adianta. 2. Jamais é possível isolar-se da consciência a menos que ela, satisfeita, se desfaça de quem a habita, pois é a consciência que abre o portão para transcendê-la, havendo dois aspectos, a consciência conceitual e dinâmica, repleta de conceitos, e a consciência transcendente, onde nem sequer o conceito "eu sou" existe, sendo o Brahman conceitual e qualitativo, Saguna Brahman, resultado do reflexo da Percepção, Nirguna ou Para Brahman, no corpo em funcionamento. 3. Embora inicialmente seja importante e correto distinguir a consciência (chetana) da Consciência ou Percepção (Chit), chega um momento em que convém simplesmente abraçar a consciência enquanto toque, para que toda resistência e com ela toda dualidade se dissolvam, já que a Percepção está sempre em harmonia e paz com seu objeto presente e o toque é a Auxiliadora que unge na entrega mútua e revela que sempre se foi intocado, íntegro, livre e não separado, sem necessidade de lutar por isso. 4. O Absoluto não é essa eu-sou-idade, e no entanto o "eu" não difere nos diferentes níveis, pois como Absoluto é o "eu" que, ao manifestar-se, necessita de uma forma, tornando-se o mesmo "eu" absoluto o "eu" manifestado, no qual a consciência é a fonte de tudo, sendo o estado manifestado o Absoluto-com-consciência. 5. A palavra "eu" é usada reiteradamente para designar o Supremo, na expressão "eu, o Absoluto", na afirmação de que nada existe além de mim e apenas eu existo, e na constatação de que, quando o estado de ser é totalmente engolido, o que resta é esse "eu" eterno. 6. "Eu" revela-se assim como o termo válido nos três níveis, pois a pessoa pensa e sente "eu", o toque do ser é a experiência do "eu" sem pensamento e sem "meu", e o Supremo é "eu" sem experimentá-lo, significando que o Real que se é já o é sempre e agora mesmo, e que, mesmo em meio à identificação com uma forma, há o convite a reconhecer o mais próximo, o "eu", em sua natureza essencial. 7. À pergunta sobre se o "eu" seria uma porta, a resposta do Mestre é que não existem portas para o Para Brahman. {{tag>Nisargadatta eu-sou}}