====== Vedas ====== //PANIKKAR, Raimon; CARRARA PAVAN, Milena. Hinduism. Maryknoll, New York: Orbis Books, 2016.// **A Epifania Védica** 1. Os Vedas constituem uma das mais grandiosas manifestações do Espírito e pertencem ao patrimônio da humanidade, de modo que sua função mais profunda se realiza não pela guarda zelosa de um tesouro fechado, mas pela partilha fraterna com todos, partilha que não deve ser profanação nem exploração sob pretexto erudito, e sim comunicação viva, quase comunhão, livre de propaganda ou proselitismo e dotada de possível poder transformador. 2. A experiência védica apresenta-se como experiência humana ainda válida, capaz de enriquecer e desafiar o homem moderno, inseparavelmente ligado a seus semelhantes, pois, embora experiências não possam ser transmitidas, podem ser descritas e servir de estímulo para que cada um atravesse seu próprio limiar e se aproprie da vivência fundamental do homem védico, não por ser antiga ou interessante, mas por ser humana e despertar aquilo que em nós foi entorpecido pelas pressões da vida moderna. 3. A chamada experiência védica não pretende ser idêntica à vivência íntima do homem védico, inacessível a uma geração posterior, mas visa tornar possível ao homem moderno reencenar uma experiência que, por integrar a totalidade da experiência humana, deixou pistas e vestígios dignos de serem seguidos, de modo que o que acontece é a experiência védica pessoal de quem lê. 4. A escolha do título sânscrito enfrenta a objeção de que, segundo a tradição mais estrita, os Brahmanas e os Upanishads não são mantras, razão pela qual foram considerados também shrutimanjari, vedamanjari e amnayamanjari, prevalecendo, porém, mantramanjari por dois motivos que exigem explicação. 5. A apresentação dos Vedas como monumento de significado religioso universal não pretende ferir as religiões nem desenraizá-los de sua identidade histórica, já que estão ligados para sempre às suas fontes, como a Bíblia e o Corão, mas sim contestar o congelamento das tradições vivas, sendo a palavra mantra mais apta a sustentar o crescimento do que amnaya, veda ou shruti, de modo que se respeita a ortodoxia e, ao mesmo tempo, se reivindica o direito de transmitir o valor tradicional de forma relevante, com mantra designando o sagrado e manjari, cacho de flores e também pérola, a dimensão secular do homem. 6. O propósito e o caráter deste estudo esclarecem-se melhor pelo comentário dos quatro conceitos contidos no subtítulo. **Uma Antologia** 1. Assim como não se colhem flores nem se arranja um buquê apenas para si, tampouco se reúnem mantras para fins egoístas, e um buquê autêntico abrange múltiplas cores e perfumes, constituindo um universo inteiro, colhido desde perto da raiz para que possa florescer por mais tempo e até brotar de novo, contando ainda com a água e a luz que vêm de fora. 2. Uma antologia védica mostra-se oportuna numa época carente de sabedoria serena e equilibrada, em que a tradição indiana atrai sobretudo os jovens apesar de conhecida apenas por fontes secundárias, situação comparável à da Bíblia no Ocidente católico de séculos atrás, teoricamente central mas praticamente desconhecida, pois os Vedas continuam negligenciados tanto no mundo quanto em seu próprio país de origem. 3. O buquê, ligado ao amor e à galanteria, é oferecido como dádiva de serviço, admiração e dedicação a quem nunca teve contato com o mundo védico e a quem, embora oriundo dessa tradição, perdeu contato com suas fontes, sendo a oferenda sacrificial do prado que se priva de seu ornamento para dá-lo ao amado, arrancado do solo, da língua e da vida que o sustentavam, mas passível de transplante e enxerto em novo terreno, como sugere o sentido original de cultura. 4. Um buquê é uma seleção representativa em que todas as flores do campo devem estar presentes, e da mesma forma uma antologia autêntica pretende representar o cânone da shruti inteira, conter a mensagem central dos Vedas e sua essência ou rasa, abrangendo toda a gama da experiência védica como o buquê completo reúne as sete cores do arco-íris. 5. O critério de seleção não pode ser sectário, mas universalmente aceitável e nascido de uma experiência humana simples, adotando-se o padrão mais básico da natureza, da vida e da história, inscrito no próprio cerne do ser e coincidente com o padrão iniciático quase universal de preparação, crescimento, declínio e renovação, padrão que a maioria dos povos vive sem reflexão explícita, situação espelhada na sétima parte, desprovida de introduções e notas. 6. A primeira parte, Aurora e Nascimento, corresponde à preparação para a emergência na existência, ao cultivo do solo, à preexistência e à irrupção no ser e na vida. 7. A segunda parte, Germinação e Crescimento, abrange o começo, o esforço, a afirmação da identidade e o estabelecimento no domínio da existência. 8. A terceira parte, Florescimento e Plenitude, representa o ápice, a conquista da plenitude e da maturidade, o zênite. 9. A quarta parte, Queda e Declínio, marca o início do caminho descendente e a descoberta de que nada resiste aos ácidos do tempo e ninguém está imune à corrosão da existência. 10. A quinta parte, Morte e Dissolução, trata do destino de todas as coisas existentes e do preço pago por ter estado vivo e ter portado a existência no tempo e no espaço. 11. A sexta parte, Vida Nova e Liberdade, revela o maravilhoso mistério do ser, o ressurgimento da vida a partir da provação da morte e a descoberta de que a vida é imortal, o ser insondável e a bem-aventurança e a realidade capazes de autorrenovação. 12. A sétima parte, Crepúsculo, como a fita que amarra o buquê, possui caráter inteiramente distinto, unindo tudo o que foi explicado, integrando tudo o que foi descrito e restaurando a unidade viva que o brilho dos aspectos isolados poderia ter ameaçado. 13. Cada parte é introduzida por ao menos um mantra ou antífona e compõe-se de seções, subseções e capítulos numerados e com títulos duplos em inglês e sânscrito, constituindo os capítulos o texto propriamente dito, enquanto as introduções não são comentários nem interpretações, mas apenas meios de aproximar o leitor da compreensão dos textos védicos. 14. Há uma ordem intrínseca em cada parte, como a cronológica sempre que possível sem romper a unidade interna, mas a estrutura deve sustentar o conjunto sem chamar atenção, dispensando-se a descrição do árduo trabalho preliminar de seleção e rearranjo, pois não se tratou de impor um esquema, e sim de descobrir um padrão. 15. A ênfase recai sobre os textos, que falam por si mesmos, de modo que a obra é uma versão dos próprios Vedas acompanhada de classificações e explicações que integram a tradução, exigindo do leitor atenção, concentração, dedicação e compromisso com a verdade, oração ou meditação, e oferecendo, diante de problemas existenciais, respostas oriundas das camadas mais profundas da experiência humana, que podem refrescar a memória de uma humanidade carente de redescobrir sua profundidade para enfrentar as ondas da tecnologia que ameaçam sua sobrevivência. 16. A experiência védica não revela uma alternativa à visão moderna, que seria alienante, mas uma dimensão já existente e oculta do próprio homem, não apenas informando sobre noções do passado, mas in-formando o presente ao manifestar essa dimensão como constitutiva da pessoa, pois a história humana acumulou-se na caverna do coração, nos dendritos do sistema nervoso e nas moléculas de DNA, muito mais antigos que a idade cronológica de cada um. **Dos Vedas** 1. Esta antologia não é tratado de filosofia indiana, espiritualidade hindu ou indologia no sentido estrito, nem escrutínio do passado por si mesmo, mas relato da Revelação Védica como desvelamento de profundidades que ainda ressoam no coração do homem moderno, sem introduzir nada de estranho, situando-se os Vedas numa posição privilegiada por não serem primitivos, já que apresentam profundidade e sofisticação crítica, nem modernos, já que exalam um perfume que o meramente moderno não possui. 2. O objeto é o saber védico, e não toda a religiosidade indiana nem exclusivamente o bramanismo, isto é, aquela porção da experiência humana condensada nos documentos da shruti, fruto do encontro de duas culturas no segundo milênio antes de Cristo que deu origem a mais de uma visão de mundo. 3. Os estudos védicos nem sempre estiveram livres de entusiasmos ideológicos e religiosos, positivos e negativos, que lhes deram vivacidade, mas também preconceitos e conotações políticas, oscilando entre quem viu nos Vedas um galimatias de mentalidade primitiva e mágica e quem neles encontrou a manifestação suprema e insuperável da verdade. 4. A shruti precisa ser resgatada do monopólio de qualquer grupo, seja o de pânditas e indólogos, seja o de facções político-religiosas, adotando-se uma perspectiva mais universal e central que a vê como revelação, como desvelamento de algo que enriquece a experiência humana, sem pressupostos religiosos ou filosóficos particulares, mas também sem reduzi-la a mero documento objetivo de pesquisa erudita. 5. A interpretação védica, realizada por inúmeras escolas orientais e gerações de estudiosos ocidentais, não pode ser ignorada, sendo necessário aprender com todas elas para compreender o que dizem os Vedas e transmitir os resultados com autenticidade, num tempo em que poucos aceitam a objetividade essencial, mas em que muitos desejam confrontar-se com o próprio texto como documento vivo, numa atitude que não despreza a erudição, mas é pós-escolástica. 6. Quanto à natureza dos Deuses, não se adota a tese de que sejam potências cósmicas, nem meras expressões da psique, nem servidores de um Deus único, nem resíduos históricos de forças pré-históricas, mas assume-se que são reais, sem elaborar a natureza ou o grau de sua realidade, buscando-se uma linguagem com sentido tanto para o crente quanto para o agnóstico. 7. Para evitar o plural de Deus, intolerável ao monoteísmo, as línguas europeias reservam a maiúscula para o singular, mas os Deuses não são o plural do Deus monoteísta, e como a palavra deva oscila, conforme o contexto, entre Deus, deus, aspecto do divino e até divindades menores como os órgãos dos sentidos, mantém-se a ambivalência grafando Deuses com maiúscula, salvo quando o termo designa claramente um traço humano. 8. Diante da tendência contemporânea de politizar tudo, a antologia não se posiciona a favor ou contra os arianos, o bramanismo, a religiosidade popular, a identificação da Índia com a Índia védica ou a ideia de uma comunidade indo-europeia, nem afirma a superioridade da tradição escrita ou das grandes religiões, dizendo apenas o que diz, pois louvar um caminho não significa denegrir outros, tendo como único contexto a própria humanidade, cuja textura inacabada mantém a obra aberta, humilde, esperançosa e serena. 9. Duas ideias paradoxais e dessemelhantes, uma ortodoxa e outra heterodoxa, servem de exemplo e apontam na mesma direção para os fins desta antologia. 10. A noção tradicional de apauruseya, a não autoria humana ou divina dos Vedas, frequentemente ridicularizada como contrária ao senso comum, expressa no fundo o desejo de purificar a relação com o texto e evitar a idolatria, pois qualquer um é autor dos Vedas ao lê-los, orá-los e compreendê-los, e o que não tem autor é a relação entre a palavra e seu significado, que não pode ser posta por ninguém sem regressão ao infinito, de modo que, quando a palavra deixa de transmitir sentido vivo, deixa de ser Veda. 11. Essa concepção liberta os Vedas tanto de um Deus escriba quanto da própria tradição hindu, pois somente quando alguém, por assimilação, se torna seu autor é que se revela sua autêntica autoridade, e a revelação, sendo shruti, aquilo que se ouve, não consiste em levantar o véu para ver a realidade nua, mas em revelar o véu, tomar consciência de que tudo o que se vê é o véu de maya, pelo qual a realidade se manifesta e do qual não pode ser separada, como a palavra de seu sentido, razão pela qual os Vedas só são Vedas no espírito e durante séculos não foram escritos nem expostos a estranhos. 12. A Revelação Védica não é primordialmente comunicação temática de fatos esotéricos, mas a iluminação discreta de um véu que era percebido como camada ou pele do próprio homem, desdobrando o processo de tomada de consciência de si e dos três mundos, não como mensagem de outro através de um meio, mas como iluminação do próprio meio, não como feixe de farol, mas como aurora, revelação da Palavra primordial enquanto símbolo, aspecto sonoro e significativo da própria realidade, que fala diretamente a cada um. 13. A ausência de autor e de autoridade anterior, com o valor dos Vedas residindo apenas no ato existencial de realmente ouvi-los, confere-lhes uma universalidade particularmente relevante hoje, dispondo à escuta e à confiança de que o que se ouve é também o que devia ser ouvido. 14. Pelo paradoxo de que rejeitar um valor pode realçá-lo, constata-se que é exagero piedoso dizer que o hinduísmo e a filosofia indiana se nutrem diretamente dos Vedas, pois os sistemas filosóficos, ortodoxos e heterodoxos, pouco extraíram deles, a Mimamsa limitando-se às injunções rituais e a Vedanta aos Upanishads sob perspectiva especializada, e os próprios Upanishads incorporando pouco dos quatro Vedas, de modo que essa integração parcial na tradição posterior confere aos Vedas uma universalidade além das fronteiras indianas, sendo, de origem ariana com elementos não arianos, monumento de interação intercultural. 15. Não se pode, contudo, negar a cor particular tanto da estirpe indo-europeia quanto do subcontinente indiano, motivo pelo qual se segue a tradição usual sobre os componentes da shruti, incluindo-se, por razões externas e internas, a Bhagavad Gita e os Grihya sutras, que não pertencem à shruti tradicional. 16. A continuidade na tradição indiana é tão importante quanto a ruptura, mas, assim como o hinduísmo é mais existência que essência, essa continuidade não é doutrinal, e sim existencial, uma pertença quase corporal e cármica mais relevante que a homogeneidade doutrinária. 17. Toda antologia verdadeira apresenta unidade e variedade, e se a variedade da Epifania Védica espelha quase toda a gama da experiência humana, sua harmonia interna foi afirmada desde a Antiguidade, como no aforismo do Brahma Sutra sobre o samanvaya, que não designa um bloco doutrinal nem mera unidade de intenção, mas um mito unificador, uma harmonia superior e uma reconciliação existencial, sendo o buquê uno precisamente por ser composto de muitas flores. 18. Há, portanto, ruptura e continuidade na tradição indiana conforme o ângulo de observação, assim como Espanha e Suécia não se confundem na Europa, mas vistas da Índia são inequivocamente europeias, o que se aplica igualmente aos Vedas e à tradição indiana. 19. Após grande hesitação, alguns textos foram omitidos e outros divididos em diferentes lugares, sendo possível a leitura contínua por meio das notas e introduções, e as omissões não obedeceram a esquema preconcebido, mas à repetição, à ausência de novidade ou à menor relevância, na esperança de que pessoas mais competentes lavrem novamente o campo e façam florescer essa primeira tentativa em forma melhor. 20. Para preservar a identidade da Revelação Védica, evitam-se referências aos desenvolvimentos filosóficos indianos posteriores e sobretudo comparações com movimentos espirituais de outras culturas, apesar da forte tentação e do imenso material comparativo reunido em mais de dez anos de preparação, pois o objetivo é descobrir o que a experiência védica significa para o homem moderno sem forçá-lo a comparações e avaliações. 21. Exige-se uma ascese intelectual e espiritual para abster-se de citar passagens paralelas, de evocar semelhanças com os pré-socráticos ou com a máxima de Anaximandro e de dissipar confrontos superficiais entre religiões, pois fazê-lo distorceria a mensagem da shruti, cabendo ao leitor descobrir os fios ocultos que unem o tecido da experiência humana, já que comentar o sentido dos textos exigiria não leitores, mas companheiros em Varanasi, às margens do Ganges, em longa e pacífica convivência sob as estrelas e acima do rio. **Para o Homem Moderno** 1. O estudo do saber védico teria pouco sentido se desligado das pessoas e de seu ambiente, sendo o homem moderno o ponto de referência, embora transitório, como sugere a etimologia de modo, pois não há outra chave para o homem senão o homem concreto de agora, e somente aceitando os limites dessa concretude se enraíza na verdade e se alcança maior universalidade, sendo inútil buscar uma validade geral artificial. 2. O homem moderno, passageiro, é a porta para as profundezas do homem perene, e precisamente por ser o homem mais do que o homem moderno busca-se ajudá-lo a tomar consciência de suas raízes, reconhecendo-se que nem todos os habitantes do planeta são modernos e que há muitas modernidades, sendo o leitor médio de uma língua ocidental contemporânea o destinatário visado, limitação séria e inevitável, em dois contextos principais: o secularismo e a situação transcultural. 3. O homem moderno é secular, o que não significa que tenha perdido a religiosidade ou o senso do sagrado, mas que ambos estão tingidos de uma atitude secular que confere ao tempo caráter positivo e real, levando a sério o mundo temporal e as interações humanas, sendo a atenção ao secular condição de sobrevivência diante da maquinaria social e dos processos cósmicos, de modo que ele é cidadão de um mundo temporal. 4. O homem moderno não pertence mais a uma cultura homogênea ou isolada, sendo bombardeado por ideias, imagens e sons de todo o mundo, num cenário em que culturas se misturam, religiões se encontram e línguas se influenciam como nunca, e embora sua cultura seja instável e até ameaçada de desaparecer, ele é inegavelmente influenciado transculturalmente, tanto nas minorias quanto na maioria passiva e sofredora. 5. A ausência de comentários e comparações pode permitir que os símbolos védicos voltem a ser símbolos vivos enxertados no crescimento das culturas modernas, num momento em que a humanidade necessita de uma cultura global que não se constrói por métodos dialéticos, mas por um processo rítmico e natural de assimilação, que não é mera compreensão mental, mas um comer o símbolo ou um ler no sentido de recolher e recolher-se no centro interior, oferecendo-se um buquê ou uma única flor, pois a flor é Brahman. 6. A oferenda requer fé, mas não basta oferecê-la na direção vertical, sendo também necessária a verdade no plano horizontal, já que fé e verdade formam o par mais sublime, colocando-se a questão concreta de como tornar a sabedoria assimilável para quem deseja recebê-la, pois cantar os Vedas aos Deuses ou recitá-los em círculos fechados pode não ser suficiente. 7. Em vez de elaborar uma teoria hermenêutica, a antologia procura pô-la em prática e fazer funcionar os dispositivos hermenêuticos, lembrando que Brahman é visível apenas em um quarto, e é dentro desse quarto visível que se apresentam reflexões concretas sobre o procedimento hermenêutico efetivo, que é a tradução. 8. O Veda fala sua própria linguagem nova, e sendo a linguagem revelação do Espírito, cada língua traz palavras que desvelam novas realidades e ordenações que oferecem novas perspectivas, sendo cada palavra a cristalização física e metafísica de séculos de experiência humana e cada textura verbal um tecido com cor e padrão próprios, pelo qual se partilha a realidade com o resto da humanidade. 9. Uma antologia não pode ser mera seleção de textos com notas filológicas, pois a consciência dos problemas da semântica, da linguística, da antropologia e dos estudos comparados, e sobretudo do caráter simbólico de toda manifestação humana, mostra a impossibilidade de traduções palavra por palavra ou de paráfrases equivalentes, o que leva a considerar as introduções e o próprio critério de seleção como partes integrantes da tradução, cuja exatidão filológica consiste na fidelidade humana e numa correta transposição de símbolos que permita ao leitor reencenar culturalmente a experiência védica. 10. Reconhecem-se o risco, a imperfeição e os limites desse empreendimento, pois a tradução não visa transpor signos, mas permitir que o leitor assimile o material em sua própria vida, tornando-o homogêneo e inteligível, sendo sempre provisória até o momento em que a iluminação surge por si mesma, a tradução é esquecida e o leitor se converte, isto é, se convence. 11. São necessárias técnica, metodologia e diversas disciplinas, que, como bons ingredientes de um prato saboroso, permanecem discretamente ao fundo realçando o rasa e favorecendo a compreensão das intuições subjacentes, sem predigerir ou adoçar o conteúdo dos Vedas, apresentando-se a experiência total do homem védico diante do horizonte humano atual para torná-la inteligível e para enriquecer, desafiar e talvez transformar esse horizonte, ainda que passagens menos importantes recebam menor destaque. 12. É tempo de abandonar a compreensão monolítica das culturas e a univocidade dos termos, pois não há equivalente único para Geist, esprit e mind, nem para manas, rita e prana, de modo que somente a shruti inteira pode ser transmitida de forma significativa, exigindo aprender outra visão de mundo como a criança aprende sua língua materna, sem termos de referência prévios, em conexão direta com a experiência transmitida pela palavra e com a relação viva entre quem fala e quem aprende. 13. É preciso superar a interpretação por procuração, que aceita com condescendência as crenças alheias porque fazem sentido para o outro, embora não para quem interpreta, pois relatar crenças sem de algum modo partilhá-las impede tanto expressar a interpretação correta quanto relatar fielmente a do outro, já que a crença do crente pertence ao próprio fenômeno, devendo a interpretação satisfazer simultaneamente as próprias convicções e as dos representantes do documento, de modo a fazer sentido ao homem moderno sem distorcer, mas apenas traduzir, as intuições do homem védico. 14. Não existem traduções fixas e imutáveis, pois as palavras são mais vivas do que se imagina e possuem rosto pessoal, de modo que o desafio não é encontrar a melhor tradução de atman, mas enfrentar o mesmo problema que enfrentou o homem védico, sendo a ambivalência dos termos prova de que se lida com algo vivo, em que até as etimologias cientificamente incorretas de Yaska e Sayana pertencem à história do sentido, o que não desculpa imprecisões, mas aumenta a responsabilidade de encontrar a palavra e a atmosfera certas. 15. As línguas ocidentais foram moldadas pela tradição judaico-helênico-cristã sobre fundo gótico, celta ou indígena, de modo que traduzir gandharva por anjo ou apsaras por espírito implica conceitos igualmente ligados a uma religião, e não há razão para aceitar como universais o áugure romano e a deusa Fortuna e rejeitar a terminologia indiana, pois fora do meio ocidental as expressões latinas também são apenas meio compreendidas ou reduzidas à banalidade. 16. As traduções transculturais perturbam a distinção entre nomes próprios e comuns, pois termos como graça, revelação, democracia, senhor e deus, comuns dentro de uma cultura, convertem-se inconscientemente em nomes próprios ligados a uma compreensão particular, assim como agni, karman, dharma, mantra e brahman não são propriedade exclusiva das religiões indianas, reconhecendo-se que as palavras têm suas ortodoxias e que não se pode adotar como critério um suposto objeto em si apreendido diferentemente por duas interpretações. 17. A antologia pode contribuir indiretamente para a linguagem moderna, entendida como expressão da consciência humana, ao introduzir numa língua as riquezas de outra sem dissolver a concretude das línguas vivas, pois graça nem sempre significa o que a teologia cristã define, mas algo legitima seu uso em relação a Varuna e não em relação a certa concepção de karman, assim como Brahman não é Deus, mas guarda com ele uma homologia que não existe com a palavra banana, sendo o jogo entre palavras e sentidos um dos desafios mais fascinantes do mundo atual. 18. Devem-se evitar os extremos das interpretações anacrônicas, que introduzem noções obsoletas em situações atuais, e catacrônicas, que interpretam o passado com categorias inadequadas do presente, embora toda leitura seja tanto extração quanto projeção, exigindo uma conexão não lógica, mas existencial ou mítica. 19. Durante muito tempo foi proibido traduzir os Vedas ou ensiná-los aos não iniciados, mas a tendência moderna rejeita esoterismos artificiais e separações sectárias, e enquanto o simbolismo védico estava vivo a tradução equivalia a traição, ao passo que, quando esse simbolismo já não vive, a sobrevivência pode exigir emigração, isto é, tradução. 20. A tradução começa dentro da própria cultura, como no trabalho dos grandes comentadores que transpõem até os nomes próprios da tradição quando deixam de designar símbolos vivos de um mito vivido, de modo que Usas, filha de Prajapati, torna-se Aurora ou simplesmente aurora, chegando a margens onde talvez ajude a restaurar a aurora como símbolo de esperança no mundo contemporâneo, buscando-se a conexão entre palavras e sentidos na esfera do rito, sem o qual o homem não vive, como mostra a possibilidade de traduzir Deusa por anjo, mulher, mãe, irmã ou até máquina. 21. Apesar das reservas quanto à tradução literal, tomou-se o máximo cuidado para oferecer uma tradução fiel, evitando fantasias e interpretações caprichosas e permanecendo sobriamente próximo dos textos, que por vezes são ecoados e traduzidos novamente nas introduções. 22. Manteve-se harmonia no uso dos nomes próprios dos Deuses e dos epítetos do divino, evitando-se muitas vezes os nomes próprios para não criar um sabor esotérico desnecessário, empregando-se termos como Senhor, Deus e poder para designar Agni, Indra e outros, sempre com o nome original indicado na nota correspondente, flexibilidade que permite leituras diferentes conforme o horizonte de leitores e ouvintes. 23. Como a obra é um fim em si mesma, destinada à meditação e à oração, e como o Veda merece a reverência devida a um documento humano de pelo menos três mil anos, as notas foram colocadas ao final dos textos e sem remissões, para que o leitor seja menos influenciado pelas explicações e possa incorporar o texto à sua vida sem intermediários desnecessários. 24. Reconhece-se a dívida para com os numerosos tradutores dos Vedas para línguas europeias, cujas sugestões foram adotadas quando felizes, já que seria impróprio buscar formulações diferentes apenas por buscar, prática que, aliás, é antiga e explica a existência de formas quase universalmente aceitas de verter certos textos célebres. **E Celebração Contemporânea** 1. Os textos devem ser estudados no sentido clássico, que inclui esforço intelectual, compromisso voluntário e entusiasmo humano, sendo recomendável ler as introduções duas vezes, como prólogos e como epílogos, e as escrituras exigem tornar-se reais pela própria representação, apoiando-se tudo na fé e na esperança de que, além da compreensão teórica, sejam possíveis a participação existencial e a reencenação litúrgica de sua mensagem. 2. O objetivo último não é uma nova tradução, mas a experiência védica, isto é, representação e reencenação existencial, não converter a sinfonia em poema, mas tocar de novo a música, ainda que com outros instrumentos e sem a perícia do compositor original, falando as palavras, dançando, orando, cantando, maravilhando-se, amando, duvidando, sofrendo, esperando e crendo junto com os Vedas, de modo a ouvir diretamente a shruti e transmitir suas vibrações, globalizando a experiência humana, sendo o traço distintivo da experiência védica seu caráter sacrificial, sua ortopraxia. 3. A experiência védica não se move no plano teórico nem transmite mensagem doutrinal, mas uma forma universal de celebração humana, coerente com a percepção moderna de que o homem não se salva só pela razão nem se liberta só pela vontade, buscando participação ativamente passiva no dinamismo do universo, sendo o núcleo dessa experiência o chamado a realizar o sacrifício que faz subsistir o mundo e os próprios Deuses, sem pretender introduzir novo rito ou religiosidade, mas estimular formas de culto existentes e servir a quem deseja celebrar com amigos e antepassados, daí o estilo destinado à recitação e ao uso litúrgico. 4. Tornar um texto disponível para a celebração contemporânea não significa forçá-lo a dizer o que não diz, mas supor que certos textos podem ser relevantes e que o esforço vale a pena, pois o homem moderno, isolado pela individualização ou precipitado na modernidade, necessita urgentemente celebrar sua comunhão com o próximo e com toda a realidade, e a Revelação Védica pode descobrir novas dimensões da vida se acolhida como celebração do homem. 5. Celebrar nem sempre é festejar com canto e dança, podendo incluir elementos interiores e sóbrios, mas envolve sempre a consciência de que os atos têm sentido mais profundo e transcendente, a solidariedade cósmica, a comunhão humana e frequentemente o acompanhamento divino, tornando todas as ações litúrgicas e expressivas, além da consciência dos ritmos da vida e de sua recorrência, pois não há celebração sem repetição, sendo necessária uma consciência rítmica para transcender a rotina mesquinha e a mediocridade desanimada. 6. O homem védico é fundamentalmente um homem que celebra, não suas vitórias ou festas da natureza, mas em concelebração com o universo inteiro, ocupando seu lugar no sacrifício cósmico em que todos os Deuses estão envolvidos, e se outras culturas tiveram melhores guerreiros, artesãos e aventureiros, a védica distingue-se por essa atitude litúrgica e esse extraordinário poder de celebração, do qual até as minúcias irritantes de períodos posteriores são apenas exageros. 7. A celebração contemporânea deve ser verdadeiramente contemporânea, não um retorno a ritos antigos nem adaptação de rituais passados, pois a imitação seria artificial, contraproducente e impossível, devendo ser espontânea, criativa e autêntica, sem planejamento nem imposição, crescendo naturalmente quando o tempo está maduro. 8. O único obstáculo ao poder humano de celebrar é a superficialidade, cujo remédio principal é a contemplação, o amor puro ou, em termos tradicionais, a vida de oração, sendo esta obra não um livro de orações, mas uma introdução à oração, jnana, dhyana e anubhava, e um convite à vida humana plena, que não se esgota no fazer nem no ser bidimensional, mas se realiza no devir total de tudo o que se pode ser. 9. A menção à celebração contemporânea indica que o fator temporal não pode ser eliminado, como se o homem fosse um ser atemporal que desliza sobre um mundo temporal, e embora a celebração do homem védico seja excelente, não satisfaria as necessidades atuais nem cumpriria o dever humano o simples retorno ao passado, tratando-se antes de tomar o passado e colocá-lo diante de si no futuro, para caminhar com mais esperança, com o passo leve e a despreocupação última do homem verdadeiramente liberto. 10. Concluída a apresentação do buquê, as flores são confiadas ao leitor, na esperança de que deseje fazer delas uma guirlanda. **Uma Nota sobre a Tradição Védica** **A Literatura Védica** 1. Não há começos absolutos na história humana, e o novum surgido no norte da península indiana por volta de 2000 a.C. ou pouco depois resultou de um encontro extraordinário e fecundo entre os invasores arianos, falantes de uma língua indo-europeia, e a população nativa, provavelmente falante de uma língua ancestral das línguas dravídicas. 2. Algumas considerações ajudam a situar a experiência védica em seu contexto próprio. 3. O primeiro resultado oral, e depois escrito, desse encontro intercultural foram os Vedas, cantados e falados no védico, língua indo-ariana antiga ancestral do sânscrito literário formalizado por Panini em meados do primeiro milênio a.C., designando o termo Veda, em primeiro sentido, toda a literatura considerada revelação ou shruti, em segundo sentido, os quatro Vedas, Rig, Sama, Yajur e Atharva, datados provavelmente entre 1500 e 1200 a.C. em suas partes mais antigas e até 600 a.C. nas mais recentes, e em terceiro sentido, as Samhitas, hinos e orações que formam a primeira de suas quatro etapas. 4. As Samhitas ou mantras são as coletâneas básicas e mais antigas de hinos, destacando-se o Rig Veda, com mais de dez mil versos em cerca de mil hinos recitados pelos sacerdotes Hotr, o Sama Veda, de cantos e melodias quase inteiramente extraídos do Rig Veda, o Yajur Veda, de fórmulas sacrificiais dos sacerdotes Adhvaryu, transmitido nas recensões Negra, com as Samhitas Taittiriya, Maitrayani e Kathaka, e Branca, com a Vajasanei, e o Atharva Veda, distinto pelo caráter popular de orações, encantamentos e feitiços, mas também portador de hinos de importante conteúdo filosófico. 5. Os Brahmanas, segunda etapa ligada aos diversos ramos das Samhitas, são obras claramente posteriores, escritas sobretudo em prosa, que explicam e descrevem extensamente os rituais e orações do sacrifício, contendo não apenas instruções rituais, mas abundante material explicativo de caráter simbólico. 6. Os Aranyakas, ou tratados da floresta, prolongam os Brahmanas e tratam das especulações e da espiritualidade dos que renunciaram ao mundo e vivem na floresta, representando um passo rumo à interiorização, já que o eremita não podia realizar os complexos rituais exigidos do chefe de família, e estão igualmente ligados aos ramos e escolas das Samhitas. 7. Os Upanishads constituem a quarta e última etapa, chamada Vedanta ou fim do Veda, representando a culminação mística e filosófica dos Vedas e reunindo os ensinamentos dos grandes mestres que apontam o caminho da libertação, moksa. 8. Com o tempo surgiu uma literatura exegética agrupada nos seis Vedangas, ou membros do Veda, que abrangem fonética, métrica, etimologia, gramática, astronomia para o calendário ritual e kalpa, o modo correto de realizar os ritos, expressos em sutras aforísticos e depois ampliados em shastras, incluindo, sob kalpa, os rituais domésticos e os samskaras de nascimento, casamento e morte, os grandes sacrifícios públicos e as regras do dharma, das quais derivou a literatura jurídica do Dharma-shastra. **A Recitação dos Vedas** 1. Os Vedas não são primordialmente documento escrito, conjunto de pensamentos ou coleção de injunções, mas linguagem falada, palavras dotadas de sentido, som e poder, que devem ser cantadas ou recitadas, sendo a recitação a participação total e sincera, porque pública ou ao menos audível, da pessoa para quem o Veda é conhecimento, intuição e, em última instância, libertação. 2. O Brahmana do Sama Veda mostra a centralidade da recitação ao prescrever jejuns e austeridades antes e durante o canto, como um jejum de doze dias, que não é superstição, mas participação integral num ato total, a ação sagrada, que só é real e eficaz quando realizada pelo ser inteiro, corpo incluído, e incorpora toda a realidade, pois tudo está interligado, o jejum do corpo relaciona-se à purificação da mente e, assim como não há bom canto sem sentir o raga, não há verdadeira compreensão da oração sem o envolvimento do corpo junto com a mente. 3. O homem moderno, que lê sem pronunciar e julga compreender sem compromisso, pode ter dificuldade em aceitar essa concepção, mas a questão de saber se ele tem razão é secundária, pois o que importa é compreender a natureza da Revelação Védica. 4. O acento védico marcado nas Samhitas e nos Brahmanas Taittiriya e Shatapatha é musical, e graças à arte da memorização e da recitação os Vedas foram transmitidos oralmente durante séculos com menos corrupções que os textos escritos, pertencendo a recitação à própria natureza da Palavra védica, atualizada nas vibrações sonoras, cujo caráter sacramental se manifesta na ligação necessária com o som como elemento físico, já que a shruti precisa ser ouvida. 5. Existem três acentos correspondentes a três alturas: o udatta, acento elevado de tom mais alto, o svarita, acento soante de tom médio, e o anudatta, acento não elevado de tom mais baixo. 6. A recitação varia conforme o Veda, o ramo ou shakha e a escola, tendo o Sama Veda desenvolvido, além da recitação simples, um canto musical elaborado com cinco a sete notas, enquanto a métrica védica, chandas, mede-se pelo número de sílabas, tendo como unidade o pada, quarta parte da estrofe, que não deve ser confundido com o pé grego, e a quantidade das sílabas longas e breves, embora presente, não se relaciona com o acento, encontrando-se no glossário a descrição dos principais metros, como Gayatri, Tristubh, Jagati e Viraj. {{tag>Veda Panikkar}}