===== Prolegômenos ao Vedanta ===== //ŚAṄKARĀCĀRYA. Prolégomènes au Vedânta. Tradução: Louis Renou. Paris: Almora, 2011.// **PREFÁCIO** 1. O mais ilustre dos filósofos da Índia, ainda hoje assim reconhecido, nasceu no fim do século VII ou início do VIII, no atual Estado de Kerala, numa piedosa família brâmane, abraçou cedo a condição de asceta itinerante ou renunciante e, após estudar com o mestre Govinda, percorreu o subcontinente em todas as direções, polemizando em praça pública com outros mestres espirituais e empenhando-se em reformar e purificar as práticas rituais do hinduísmo de seu tempo, fundando dez ordens de ascetas e cinco mosteiros ainda existentes em diversas regiões da Índia, até desaparecer, ainda jovem, ao que parece durante uma peregrinação, em algum lugar do Himalaia. 2. Seu nome permanece ligado ao Vedanta não dualista, o Advaita-Vedanta, do qual é o verdadeiro fundador, entendido como uma interpretação da revelação védica que nela distingue uma parte propriamente religiosa ou ritualista e outra esotérica e mística, seu acabamento ou anta, de onde provém o termo Vedanta, parte que coincide praticamente com um grupo de dez Upanishads tidas como as mais antigas, e essa doutrina inaugura na Índia o não dualismo ao apresentar-se como uma releitura das Upanishads que nelas descobre a redução sistemática de toda a multiplicidade fenomênica a uma substância única e indiferenciada chamada brahman, daí o qualificativo de não dual, a-dvaita. 3. Cedo se passou a considerar que a doutrina vedântica se apoiava não apenas na Revelação védica, a shruti, de origem supra-humana e autorrevelada, mas também na Tradição, a smriti, palavra humana porém inspirada, o que levou à concepção da Tríplice Via vedântica, formada pelas Upanishads, pela Bhagavad-Gita e pelos Brahmasutra, aforismos sobre o brahman atribuídos ao sábio Badarayana, ativo por volta do século II, cuja extrema concisão os torna quase ininteligíveis sem comentário contínuo, e dos comentários certamente existentes desde a origem nenhum chegou até o presente, embora Shankara mencione e discuta alguns predecessores, como Bodhayana e Bhartriprapancha, e depois dele muitos outros autores, defensores de diversas versões do não dualismo e do dualismo, como Bhaskara, Ramanuja, Nimbarka, Madhva e Vallabha, tenham comentado os mesmos sutras, sem que nenhuma dessas glosas alcançasse a difusão da de Shankara, a obra mais popular de toda a filosofia indiana, que não cessou de suscitar comentários praticamente até hoje. 4. Os sutras dividem-se em quatro capítulos, cada um com quatro seções, sendo o primeiro uma visão geral da doutrina, o segundo sobretudo uma longa polêmica com os budistas e com outras escolas bramânicas, notadamente o Nyaya e o Samkhya, que aborda ainda se o mundo fenomênico é produzido no tempo ou eterno como o próprio brahman, o terceiro dedicado à alma individual, aos diversos estados de consciência, à transmigração das almas e ao conhecimento como único meio de alcançar o brahman, e o quarto à condição da alma liberta e à sua relação com o brahman. 5. A parte traduzida e anotada por Louis Renou corresponde à primeira seção do primeiro capítulo, trinta e um sutras com seu comentário, acrescida de uma espécie de introdução geral, apenas um décimo do texto shankariano, mas onde se expõem os fundamentos da doutrina, em especial a teoria da sobreposição recíproca, adhyasa, do Si e do Não-Si, destinada a lançar uma ponte inteligível entre a essência ideal do homem, enunciada na fórmula upanishádica Tat tvam asi, Tu és Aquilo, isto é, o brahman ou absoluto, e a condição humana de fato, pois o sujeito que se sabe de direito idêntico à realidade última percebe-se ao mesmo tempo como entidade limitada, contingente, submetida ao curso do mundo e votada ao sofrimento, sendo essa sobreposição apresentada como logicamente inconcebível e, contudo, efetiva desde toda a eternidade como forma primária da nesciência, avidya, ou ignorância metafísica, conatural a todo vivente, sob cujo império o Si agrega determinações estranhas, os upadhi ou condicionamentos limitantes extrínsecos, tomados do mundo sensível e cristalizados num corpo próprio formado por uma hierarquia de órgãos de sensação e de ação em sinergia, sobreposição que fundamenta todos os comportamentos empíricos, cognitivos, volitivos ou afetivos, e confere o estatuto de individualidade concreta, jiva, imersa no mundo fenomênico e sujeita a vicissitudes cuja forma mais geral é a perpétua transmigração, o samsara. 6. A finalidade dos sutras consiste em fazer cessar a sobreposição do Si e do Não-Si por meio do conhecimento, que deve tornar-se intuitivo, do brahman não dual, sendo essa cessação condição necessária e suficiente para o fim da transmigração e o acesso à libertação, moksha, e em consonância com isso o comentário dos quatro primeiros sutras mostra em que sentido o brahman é velado pela nesciência e ao mesmo tempo revelado pela palavra védica, exigindo elucidação sistemática de sua verdadeira essência, discussão que prossegue nos sutras 5 a 31, em que Shankara, apoiado nos métodos de leitura do corpus védico elaborados pela escola exegética da Mimamsa, define critérios de interpretação dos textos sagrados e onde surge pela primeira vez a distinção entre o brahman supremo, além dos atributos, nir-guna, e o brahman portador de atributos, sa-guna, interpretável como Supremo Senhor, Criador do universo, objeto legítimo de culto e oração. 7. A introdução e os quatro primeiros sutras contêm, de forma condensada, todo o Vedanta não dualista, razão pela qual foram objeto de glosas particularmente minuciosas, como as de Padmapada, discípulo direto de Shankara, de Vachaspati Mishra e de Prakashatman, e enquanto estas não se tornam acessíveis em tradução francesa, a reedição destes Prolegômenos ao Vedanta de Louis Renou, havia muito esgotados, constitui um acontecimento, pois oferece não só uma versão extremamente fiel e precisa do discurso shankariano, mas também o esclarecimento de suas articulações internas, em especial da estrutura dialogal que lhe é inerente, além de numerosas notas que revelam o recurso constante de Shankara aos métodos de interpretação da tradição gramatical e da Mimamsa, prestando assim um serviço notável aos estudos indianos clássicos nos países de língua francesa. {{tag>Sankara Hulin Renou vedanta}}