===== 1.3-4 Predições ===== //DANIÉLOU, Alain. **La Fantaisie des dieux et l'aventure humaine**. Monaco: Éditions du Rocher, 1985.// **III – PREDIÇÕES** * O período que precede o cataclismo destruidor da espécie humana atual é marcado por desordens anunciadoras de seu fim, pois, como no caso dos Assuras, Shiva só pode destruir as sociedades que se afastaram de seu papel e transgrediram a lei natural. * O fim do Kali Yuga é a idade dos conflitos, das guerras, dos genocídios, das malversações, dos sistemas filosóficos e sociais aberrantes e do desenvolvimento maléfico do saber caído em mãos irresponsáveis, em que raças e castas se misturam e tudo tende ao nivelamento, prelúdio da morte, num processo de aceleração que é ele próprio sinal da catástrofe próxima. * Segundo o Linga Purana, os homens do Kali Yuga são movidos pelos instintos mais baixos, preferem as ideias falsas, perseguem os sábios, desprezam os livros sagrados e negligenciam os ritos, enquanto se espalham doenças, fome, medo, secas e conflitos entre regiões. * As classes trabalhadoras pretendem apoderar-se do poder real e partilhar o saber dos antigos príncipes, a maioria dos novos chefes é de origem operária, sacerdotes e sábios são perseguidos, os fetos são mortos no ventre materno, os heróis assassinados, ladrões tornam-se reis e reis tornam-se ladrões. * Desaparece o equilíbrio das quatro classes e das quatro idades da vida, os dirigentes confiscam a propriedade e deixam de proteger o povo, homens vis dotados de algum saber são honrados como sábios, sacerdotes vendem os sacramentos e multiplicam-se os deslocados que vagam de país em país. * Diminui o número de homens e aumenta o de mulheres, alimentos cozidos são postos à venda, livros sagrados são vendidos nas esquinas, multiplicam-se mendigos, desempregados, bandos de malfeitores, estupros e falsas virtudes, e a censura dos puritanos hipócritas e moralizadores caracteriza o fim do Kali. * Aventureiros assumem a aparência de monges de cabeça raspada e vestes alaranjadas, as pessoas tornam-se letárgicas e sem objetivo, atormentadas por doenças, ratos e substâncias nocivas, e refugiam-se em abrigos subterrâneos, enquanto hereges se opõem às castas e massacres se generalizam. * Segundo o Vishnu Purana, as pessoas do Kali Yuga fingem ignorar as diferenças de raça, o caráter sagrado do casamento que assegura a continuidade de uma raça, a relação entre mestre e discípulo e a importância dos ritos, e uniões passam a ocorrer entre pessoas de quaisquer origens. * As mulheres tornam-se independentes, buscam os belos machos, abandonam maridos pobres por homens ricos, tornam-se egoístas e pouco respeitadas, enquanto os homens só procuram ganhar dinheiro e os mais ricos detêm o poder, reduzindo os pobres à servidão. * Os chefes de Estado apropriam-se das riquezas por meio de impostos, os agricultores abandonam a terra para se tornarem operários não especializados, muitas crianças morrem por culpa dos poderes públicos e algumas têm cabelos brancos aos doze anos. * Falsos deuses são venerados em falsos ashrams onde se decretam arbitrariamente jejuns, peregrinações e penitências, pessoas de baixa extração vestem trajes religiosos para se fazerem respeitar, os ritos domésticos e fúnebres são abandonados e os trabalhadores reivindicam igualdade com os sábios. * A água falta, as chuvas cessam, os campos tornam-se estéreis, muitos se suicidam e emigram em massa para os países onde crescem o trigo e o centeio, enquanto a linhagem dos ancestrais deixa de ser respeitada e a família, o clã e a raça perdem todo sentido. * Durante o crepúsculo que encerra o Yuga, virá um justiceiro da dinastia lunar chamado Guerra (Samiti), que a partir do trigésimo segundo ano de vida e durante vinte anos percorrerá a terra com um vasto exército, destruindo os bárbaros do Ocidente, os usurpadores do poder real, os falsos filósofos, os criminosos e os de sangue mestiço. * Milhões de homens serão mortos, a terra será arrasada e restarão apenas grupos dispersos que se matam e se roubam mutuamente, sem leis, sem educação e sem dinheiro, vivendo de vinho, carne, raízes e frutos e vestidos de cascas e peles, até que alguns comecem a refletir. * O fim do mundo (pralaya) é de três espécies: o provocado (naimittika), que atinge todos os seres vivos da terra no fim de cada ciclo dos Yugas; o natural (prakrita), que concerne ao universo inteiro quando cessa o sonho divino e desaparecem matéria, espaço e tempo; e o imediato (atyantika), que corresponde à libertação (moksha) do indivíduo, para quem o mundo aparente deixa de existir. * A destruição provocada ocorre no fim do Manvantara, quando o criador não encontra outro remédio senão a destruição total para pôr fim à multiplicação desastrosa e imprevista dos seres vivos, e começará por uma explosão submarina chamada Vadava, a égua, no oceano do sul. * Essa destruição será precedida de uma seca de cem anos que eliminará os seres frágeis; sete explosões de luz secarão todas as águas, doze sóis evaporarão os mares, sete sóis reduzirão a cinzas os três mundos, a terra ficará dura como o casco de uma tartaruga e um fogo saído da boca de uma serpente subterrânea abrasará os mundos inferiores, a superfície e a atmosfera. * Quando a lua estiver na constelação de Pushya, nuvens invisíveis chamadas Pushkara, nuvem da morte, e Avarta, nuvem sem água, cobrirão a terra, e nuvens gigantescas de todas as cores, semelhantes a cidades ou montanhas, despejarão uma chuva de poeira que apagará o fogo e depois um dilúvio de doze anos que destruirá a humanidade e fará da terra um imenso oceano mergulhado na escuridão. * O mundo da espécie humana compõe-se de quatro esferas: Bhur, a terra; Bhuvar, a atmosfera; Svar, o mundo planetário; e Mahar, um mundo extraplanetário de duração muito mais longa, talvez aquele hoje atribuído aos extraterrestres, onde alguns homens se refugiarão antes da dissolução para depois retornar ao mundo da vida (jana-loka) e tornar-se progenitores da humanidade futura. * Sete humanidades ainda se sucederão na terra e, quando reaparecer a idade de ouro, sete sábios se manifestarão para ensinar de novo a lei divina aos poucos sobreviventes das quatro castas. * O Apocalipse de João apresenta uma visão análoga à dos Puranas, cuja tradição não era desconhecida em sua época, como atesta a existência de templos hindus na Armênia, construídos sob um monarca arsácida e destruídos por são Gregório apenas em 304 da era cristã. * O fim da era de Peixes coincide com o fim da era de Cristo e a entrada na era de Aquário implica transformações profundas, e a descrição de João inclui terremotos, estrelas caindo, o sol obscurecido pela fumaça, granizo de fogo e sangue, homens queimados e ulcerados, chefes refugiados em cavernas, mercadores lamentando seus estoques destruídos, a morte dos seres do mar, um exército couraçado com caudas, semelhante a carros com canhões, e o salvador vestido de branco sobre um cavalo branco. * A destruição natural está implícita no próprio ato da criação e segue um processo inverso no pensamento do Criador: quando a força de expansão (tamas) e a de concentração (sattva) se equilibram, a tensão (rajas), causa primeira e substância do universo, deixa de existir e o mundo se dissolve no imperceptível. * Tudo se reúne então numa única massa líquida, um oceano de fogo (ekarnava), no qual Brahma, o princípio organizador, adormece até que, no fim da noite, desperta e, sob a forma de um javali, ergue um mundo novo para fora das águas. * A duração do universo exprime-se por um número de dezoito algarismos, e no fim dos tempos desaparecem sucessivamente o princípio do olfato e a matéria sólida, o do paladar e o elemento líquido, o do tato e o elemento gasoso, depois o da visibilidade e, por fim, a vibração do espaço. * Essa vibração é reabsorvida no princípio dos elementos (bhutadi), isto é, no princípio de individualidade (ahamkara), que se dissolve no grande princípio (mahat tattva), princípio da consciência (buddhi), enquanto o plano indestrutível (purusha), emanação do Ser, retorna à sua fonte. * O jogo (lila) do nascimento e do desaparecimento dos mundos é um ato do poder do Ser, que está além da substância, do plano, do manifesto, do não manifesto e do tempo, e como o tempo do Ser não tem começo nem fim, o ciclo de nascimento, duração e desaparecimento dos mundos jamais cessa. **IV – RETARDAR O DESFECHO** * A destruição da humanidade só ocorre quando sua razão de ser está superada, tanto do ponto de vista do ser de carne quanto do ser de saber, isto é, quando as linhagens se degradam pela mistura das raças e a tradição do saber oculto já não encontra receptáculo para receber e transmitir sua herança. * Na medida em que alguns homens souberem inverter as tendências do mundo moderno e reencontrar modos de vida e de pensamento conformes à sua verdadeira natureza, o desfecho fatal poderá ser adiado ou, ao menos, alguns grupos poderão escapar ao cataclismo e participar da formação da humanidade futura e da nova idade de ouro após o próximo dilúvio. * Por isso não é inútil buscar isolar-se do mundo moderno e recuperar os valores e virtudes cujas regras e princípios foram preservados pelo ensinamento esotérico. * Segundo os Agamas, a sobrevivência mais ou menos longa da humanidade atual depende de um retorno às concepções religiosas, morais e sociais ligadas ao shivaísmo, cujos ensinamentos constituem o germe da idade de ouro futura. * O budismo Mahayana do Tibete, ao reincorporar numerosos aspectos filosóficos, rituais e eróticos do shivaísmo, reintegrou-se de certo modo na tradição ancestral e oferece uma via alternativa. * Nos primeiros séculos da era cristã, enquanto na Índia o vishnuísmo, derivado de Arihat, substituía novamente o shivaísmo, o cristianismo místico e libertador dos primeiros gnósticos transformou-se numa religião dogmática, moralista e puritana sem qualquer relação com os ensinamentos de Jesus. * A reaparição recente de numerosos textos gnósticos, muito próximos das concepções shivaítas, e dos evangelhos rejeitados pela Igreja como apócrifos constitui um presságio favorável para o futuro. * A época atual apresenta sinais de retorno a valores shivaítas e dionisíacos que podem anunciar uma prorrogação do fim brutal do Kali Yuga, entre os quais se destaca o restabelecimento da unidade entre a pesquisa científica e a especulação cosmológica, numa continuidade entre física, metafísica e espiritualidade que se opõe ao dogmatismo das religiões derivadas de Arihat. * Conforme Michel Maffesoli em A Sombra de Dioniso, a nova aliança entre pensamento e ciência remete à sabedoria dionisíaca, as múltiplas práticas licenciosas atuais podem preparar uma ressurgência do mistério dionisíaco, a liberdade de costumes frequentemente garantiu grandes desenvolvimentos culturais e o mito da bissexualidade e da androginia primordial, perceptível em comportamentos da juventude contemporânea, exprime a totalidade divina. * O fim do Kali Yuga é um período particularmente favorável à busca do verdadeiro saber, pois os méritos adquiridos em um ano no Treta Yuga podem ser obtidos em um único dia na idade de Kali. * No fim do Kali Yuga, Shiva se manifestará sob uma forma secreta e oculta para restabelecer o caminho justo, e a porta que conduz à via da sabedoria se entreabre, restando saber se os homens terão discernimento e coragem para trilhá-la e assim adiar o desfecho, sendo certo que haverá poucos eleitos. {{tag>Daniélou ciclos}}