===== MANDANA ===== //PEPIC// * Maṇḍana Miśra não é discípulo de Śaṅkara e sua obra Brahmasiddhi se insere na perspectiva geral do Advaita, mas também na Mīmāṃsā e na esteira de Bhartṛhari. * Ele ignora Śaṅkara e pode ser anterior ou contemporâneo a ele. * Sua obra não aborda de frente o problema das relações entre o ego e o Ser e não usa o termo ahamkāra. * Seu objetivo é mostrar que as Upaniṣads têm autoridade e fazem conhecer o brahman como uma entidade positiva, especialmente sob seu aspecto de felicidade (ānanda). * Seu pensamento é interessante por ser uma démarche regressiva que parte da felicidade constitutiva do brahman, não da dor. * O discurso filosófico de Maṇḍana prioriza a “defesa e ilustração” da unidade do brahman. * A referência aos seres finitos e à sua miséria-ignorância só é feita na medida em que sua presença parece comprometer essa unidade. * Há um desequilíbrio ontológico entre o brahman (demonstrado) e o jīva (bem conhecido pela experiência comum). * O jīva é o que já está em potência o brahman e precisa se desfazer de suas limitações imaginárias. * A nescience, longe de ser uma potência positiva do Ser, é uma magia inconceituável, superável praticamente pela autopurificação do sujeito. * Os três aspectos interdependentes da doutrina do ego em Maṇḍana são: continuidade ontológica entre brahman e indivíduos, insubstancialidade da nescience, “individualismo otimista” no acesso à libertação. * Maṇḍana afirma que “o brahman não é feito de todas as coisas, mas todas as coisas são feitas do brahman”. * A fórmula visa evitar o panteísmo (esfarelamento do brahman na multidão dos seres finitos). * Recusa-se qualquer relação todo-partes entre o brahman e os seres finitos. * Qualquer interpretação realista dos “modelos” de delimitação é rejeitada. * No nível do cit (consciência), a unidade do brahman é ameaçada pela estrutura sujeito-objeto do conhecimento e pela presença da nescience e seus efeitos. * Maṇḍana responde que a relação entre o vidente e o visível só é possível na hipótese de sua unidade, no sentido de que o vidente se transforma, ou parece se transformar, na forma visível. * A consciência, quando conhece um objeto, na realidade “opera sobre si mesma” (svātmaprayoga). * Ao contrário de Śaṅkara (que usa o exemplo do fogo que não pode se queimar), Maṇḍana usa o exemplo da lâmpada que se ilumina a si mesma. * Sobre o local da nescience (avidyā), Maṇḍana afirma categoricamente: “Aos que perguntam ‘de quem é a nescience?’, respondemos: ‘dos viventes individuais’”. * Os viventes individuais (jīvas) é que estão sujos pela nescience, não o brahman. * Se o brahman transmigrasse, a libertação de um único indivíduo acarretaria a de todos. * A singularidade de Maṇḍana reside na ausência de uma contrapartida cósmica para este subjetivismo da avidyā. * Ele raramente usa termos como māyā, prakṛti e śakti, que evocam uma dimensão cósmica. * Outros Advaitins buscam compreender o que, do lado do brahman, corresponde à avidyā que estrutura a condição dos seres finitos. * Maṇḍana reconhece a dificuldade de atribuir a imaginação diferenciadora (kalpanā) ao brahman ou ao jīva. * O adversário apresenta um dilema: a imaginação não pode ser do brahman (feito de conhecimento, livre de imaginação) nem dos jīvas (que não existem antes da imaginação). * Maṇḍana responde apresentando duas “opiniões”, sem escolher entre elas: * É próprio de toda māyā (ilusão mágica) ter por objeto o impossível. * Nescience e jīva se condicionam reciprocamente desde toda a eternidade (como a semente e o broto). * Ele menciona que “aqueles que consideram a nescience como a causa material da diferenciação” afirmam que ela é sem começo e sem objetivo. * Maṇḍana aparece como alguém que percebe a impossibilidade de qualquer “dialética descendente” que pretenda deduzir do brahman os jīvas e o mundo múltiplo. * No que tange ao ānanda (felicidade) do brahman, Maṇḍana enfrenta a objeção de que “conhecimento” e “felicidade” não constituem uma só coisa. * O adversário (Naiyāyika) propõe que o termo “felicidade”, aplicado ao brahman, significa simplesmente a cessação da dor. * Maṇḍana argumenta que os dois termos (conhecimento e felicidade) fazem conhecer uma luz particular que, como a da lua, é feita de alegria. * Ele usa o exemplo do sol: “o sol é uma luz superior” – “superior” e “luz” não são sinônimos, mas fazem conhecer um único objeto particular. * Na fórmula “o brahman é conhecimento, felicidade” (BAU III 9 28), os dois termos servem para fazer compreender que a essência do brahman é uma espécie particular de conhecimento ou de felicidade. * O brahman consiste apenas numa suprema felicidade que se ilumina a si mesma. * Cit (consciência), ānanda (felicidade) e sat (ser) são qualificativos provisórios do brahman, por referência aos seres finitos. * A Revelação anuncia a convergência desses três aspectos para o brahman “ele mesmo”, ponto de fuga único. * Maṇḍana mostra indiferença quase total em relação aos diversos “modelos” teóricos da relação brahman-jīva e seu vocabulário é incerto. * Ele enumera nove hipóteses sem indicar claramente suas preferências. * Entrelaça constantemente a linguagem “idealista” da kalpanā e a linguagem “realista” Sāṅkhya dos upādhi (condições limitantes) e do adhyāsa (sobreposição). * Usa a mesma expressão (“lié par la nescience” – avidyānubaddha) tanto para o jīva quanto para o brahman, omitindo a distinção entre suporte (āśraya) e objeto (viṣaya) da nescience. * Maṇḍana discute longamente a natureza do desejo de libertação (mumukṣā), opondo-se à concepção negativa do Naiyāyika. * O Naiyāyika argumenta que, se o brahman tivesse a felicidade por essência, a conduta do buscador da libertação decorreria de um apego passional a essa felicidade, o que é fonte de transmigração. * Para o Naiyāyika, todo desejo é em si mesmo dor e ignorância. * O desejo é dor como sentimento de “falta”. * É ignorância na medida em que visa um prazer positivo ligado a um bem exterior, enquanto o prazer é apenas um alívio momentâneo da tensão dolorosa do desejo. * O desejo de libertação deve ser um “recuo horrorizado” (udvega) diante da dor do mundo, um sentimento não patológico. * Para Maṇḍana, existem prazeres que não são meros alívios, e o desejo pode não encontrar satisfação alguma. * O prazer é a realidade positiva que subjaz tanto ao desejo quanto à sua satisfação; a dor é sua diminuição ou eclipse momentâneo. * O desejo se torna um impasse por ser buscado nos objetos sensíveis exteriores, onde o prazer nunca está presente em estado puro. * A destruição da nescience assume a forma de uma reflexão sistemática (prasaṃkhyāna) que, eliminando todos os objetos “defeituosos”, deixa subsistir apenas o ātman-brahman como o único lugar possível da fruição sem mistura. * Maṇḍana reabilita os “instintos” do jīva, que convergem para a libertação, “fim supremo do homem”. * O saccidānanda simboliza o cumprimento simultâneo e a unidade última das três tendências fundamentais: perseverar no ser, estender o conhecimento, aprofundar a fruição. * A relação entre rituais (karman) e conhecimento liberador (jñāna) é discutida por Maṇḍana. * Se os rituais e a conduta profana são igualmente meios de satisfazer desejos, suscitados pelo apego passional, o que torna uns propícios ao conhecimento do Ser e outros opostos a ele? * Maṇḍana rejeita soluções que tornam a relação puramente extrínseca (esgotar desejos, liberar de dívidas, desviar a atenção dos prazeres). * Sua solução combina o testemunho da Revelação (que apresenta os sacrifícios como meios de chegar ao conhecimento) e a teoria dos samskāra (disposições) que os rituais produzem no próprio sacrificante. * A natureza dessas disposições permanece enigmática, mas elas tornam o psiquismo receptivo às palavras reveladas. * A repetição da visão da realidade (tattvadarśanābhyāsa), a meditação (dhyānābhyāsa, upāsanā) e o esforço de atenção (paribhāvanā) produzem samskāra que, assim como os rituais e a ascese, concorrem para tornar o psiquismo receptivo. * Maṇḍana discute o estado do “vivente-liberto” (jīvanmukta), apresentando duas interpretações. * Primeira interpretação: a visão do brahman, abolindo a nescience, abole todos os atos (karman) indistintamente, levando à “queda do corpo” e à libertação imediata. O “homem confirmado em sabedoria” (sthitaprajña) é um adepto (sādhaka) muito avançado, não um liberto. * Segunda interpretação: a visão do brahman destrói todos os atos, mas justifica o lapso de tempo até a morte pelos samskāra deixados pelo karman que já começou a frutificar (prārabdha). O sthitaprajña é chamado de “vivente-liberto”, mas não há “ponto de não retorno”; ele pode recair. * Maṇḍana não percebe as duas interpretações como incompatíveis; ele substitui um evento crucial (a visão do brahman) por um processo contínuo. * Ao fazer da libertação o horizonte de uma progressão indefinida, Maṇḍana corre o risco de reduzir sua realidade à imanência de sua antecipação, como um contentamento interior complacente.