Os Budas são tão numerosos quanto as areias do rio Ganges e Gautama representa um mestre cuja experiência de iluminação pode ser revivida por qualquer indivíduo.
Gautama.
Nirvana como sossego na morada do Ser.
Citação — Chega o momento em que as trevas se desvanecem, no qual já não há árvore, nem mundo, nem meditante, senão apenas Nirvana, sossego na morada do Ser, e do Ser tal como é.
Siddhartha Gautama tornou—se um iluminado após o despertar espiritual assim como ocorreu com predecessores históricos e lendários.
O Buda histórico viveu na Índia entre os séculos seis e cinco antes de Cristo com dados biográficos que se assemelham à incerteza da figura de Lao—tse.
A lenda atribui ao Buda um nascimento real dentro da família dos Sakia cuja capital era Kapilavastu.
A trajetória vital de Gautama foi movida pela piedade em relação à multidão de seres desorientados e pelo desejo de despertá—los para a iluminação.
A biografia compilada pelo monge Pao—tch’eng apresenta a figura de Buda sob a perspectiva da salvação de milhões de seres.
Dinastia Ming.
León
Wieger e a obra sobre as vias chinesas de Buda.
A vida búdica divide—se tradicionalmente em três períodos que correspondem às experiências fundamentais de Maya, Bodhi e Dharma.
Maya — A ilusão.
Bodhi — A iluminação.
Dharma — A lei.
O isolamento palaciano marcou a infância e a adolescência de Gautama por meio de um luxo inaudito destinado a protegê—lo de qualquer contrariedade.
O esforço para manter o príncipe no mundo secular fundamentou—se na profecia do asceta Ashita sobre a futura iluminação suprema do menino.
Citação — Um dia, este menino tão perfeito, reluzente como o ouro, possuidor de todos os dons, abandonará definitivamente o mundo, obterá a iluminação suprema e se dedicará à salvação de todas as classes sociais e de todos os seres.
Estrutura palaciana com três mil escravas e portões pesados e ruidosos.
O casamento feliz não impediu que o karma búdico triunfasse sobre a ilusão de Maya através de quatro encontros transformadores.
O primeiro encontro revelou a decadência física por meio da figura de um velho decrépito de cabelos brancos e passos trêmulos.
O diálogo com o cocheiro evidenciou que a velhice é uma humilhação inevitável a que ninguém escapa independentemente da riqueza.
A visão da velhice mergulhou o príncipe em um mar de dúvidas sobre a natureza da existência.
O segundo encontro apresentou um enfermo pálido e ofegante que simbolizava a vulnerabilidade absoluta do corpo.
Citação — Estava fraco, pálido, ofegante, inseguro, e parecia próximo a expirar.
A consciência da doença gerou fúria no príncipe ao perceber que a saúde e a energia são apenas miragens vãs.
O terceiro encontro consistiu em um cortejo fúnebre que demonstrou a brevidade da vida e a destruição da juventude pela morte.
O destino de Gautama foi definitivamente revelado pelo quarto encontro com o deva Suddhavasa manifestado na forma de um monge.
O príncipe questionou a identidade do homem e recebeu a explicação sobre o estado monástico.
A exaltação das virtudes da libertação e da sabedoria monástica motivou o voto de Gautama para abraçar tal estado.
A fuga do palácio ocorreu aos vinte e nove anos logo após o nascimento do primeiro filho para evitar que os laços paternos impedissem a partida.
O período subsequente foi marcado pela morada em bosques e pela prática de meditação, jejum e mortificações severas.
A ascese praticada por Gautama não visava recompensa em outro mundo mas o despojamento total guiado pela razão.
A insatisfação com a ascese búdica surgiu após sete anos de práticas que visavam a fusão entre o atman e o brahman.
O príncipe questionou se a cessação das operações mentais garantia a libertação ou se apenas ocultava a subsistência do eu.
Citação — Se o eu subsistente é inconsciente, o homem não se diferencia em nada dos vegetais. Se o eu subsistente é consciente, está ainda submetido à responsabilidade moral, capaz de novas faltas, não liberado ainda.
Necessidade da extinção do eu para a verdadeira libertação.
O esgotamento físico e a proximidade da morte levaram Gautama a interromper o jejum por considerá—lo inútil para o despertar.
A compreensão da vanidade dos esforços ascéticos ocorreu após sete anos de austeridades que quase destruíram o corpo.
O bramanismo define a separação entre o sujeito e o objeto como a origem da ilusão de Maya que afasta o homem da unidade essencial.
O sacrifício divino cria o mundo enquanto o sacrifício humano permite o retorno a Deus através da reintegração na unidade primordial.
A plenitude divina é descrita como uma realidade simultaneamente explícita e silenciosa que habita tanto o coração quanto o sol.
Citação de Amanda K. Coomaraswamy — O Personagem que habita em nosso coração, comendo e bebendo, é também o Personagem que habita no Sol.
Atman como o Em—si Universal de todas as coisas.
O problema humano reside na libertação através do conhecimento e do despertar do eu profundo para alcançar o estado de Brahman.
A libertação ou moksha é obtida no quarto estágio da vida após os períodos de estudante, homem casado e retirante.
Gautama abandonou a via da ascese extrema provocando o desprezo de seus companheiros de prática.
A extinção do eu proposta por Buda não implica no desprezo ao corpo mas na percepção de que castigar o físico enfraquece a inteligência.
A meditação solitária prosseguiu sob a árvore da iluminação onde Gautama sentou—se com determinação inabalável.
O Bodhisatva Gautama tornou—se Buda após superar os quatro graus de contemplação e vencer as tentações de Mara.
O ideal de atman apresentava ambiguidade ao ser concebido como uma realidade a ser alcançada por meio de um retiro egoísta.
Buda exaltou o despertar inigualável e perfeito como uma experiência da qual nada pode ser dito objetivamente.
Os budismos Mahaiana e
Zen privilegiam a experiência iluminadora em detrimento das interpretações intelectuais da doutrina primitiva.
As lições teóricas possuem apenas o sentido prático de conduzir o praticante à iluminação final.
Suzuki sobre o papel das instruções como guias intelectuais.
A tradição do
Zen fundamenta—se em uma transmissão particular de Buda que difere da linhagem primitiva.
O intercâmbio silencioso entre Buda e Mahakashyapa através de um ramo de flores sintetiza a essência da transmissão espiritual.
Buda enfrentou dúvidas sobre a possibilidade de pregar uma verdade tão profunda e difícil de compreender para homens movidos por paixões.
A intervenção de Brahma convenceu o Iluminado a pregar a lei salvadora aos seres que possuíssem ouvidos para ouvir.
O Iluminado dirigiu—se a Benares após recusar a tentação da solidão e do ingresso imediato no Nirvana.
A presença majestosa de Buda transformou a hostilidade inicial dos antigos companheiros em reverência e serviço.
O discurso inicial em Benares proclamou a descoberta do Eterno e a necessidade de atenção por parte dos buscadores.
A vida espiritual exige o abandono dos extremos representados pelo prazer grosseiro e pela maceração vã.
O Caminho Nobre de oito ramos conduz à clarividência, sabedoria, repouso, iluminação e Nirvana.
Visão, Vontade, Palavra, Ação, Vocação, Aplicação, Atenção e Meditação perfeitas.
A Nobre Verdade sobre o sofrimento identifica o nascimento, a velhice, a doença e a morte como formas de dor.
A origem do sofrimento reside na sede de existir e no apego que leva de um renascimento a outro.
A supressão do sofrimento consiste na extinção total do desejo e na libertação de toda cobiça.
O Sermão de Benares constitui a base essencial do ensinamento primitivo de Buda à qual todos os sutras se referem.
O
Zen enfatiza o caráter experimental da iluminação de Gautama mais do que a estrutura doutrinária propriamente dita.
O Caminho do Meio é comparado a um alaúde cujas cordas não devem estar nem frouxas nem excessivamente tensas para a afinação correta.
A negação da existência do sofrimento é considerada uma loucura assim como o é a resignação passiva diante dele.
A primeira das Quatro Nobres Verdades responde por que o homem sofre ao apontar a desarmonia e as dificuldades contínuas.
O sofrimento humano decorre da impermanência e da ausência de um eu sólido em meio à fluidez da realidade.
Duhkha, anitya (transitoriedade) e anatman (ausência de si).
Ilusão da personalidade resultante da atividade dos skandhas ou agregados.
Os cinco skandhas que constituem o ser humano são o corpo, os sentimentos, as percepções, as emoções e a consciência.
O pensamento de Tao—iu afirma que os quatro elementos e os cinco agregados carecem de existência real.
Hsiuan—t’seu define a verdade última como serena e calma onde a substância e a função pertencem a uma única essência.
A vacuidade do eu exige a renúncia às operações da consciência habitual para a penetração no reino interior.
O universo revela seu esplendor primigênio apenas quando o praticante atinge a profundidade do próprio coração.
Incomunicabilidade da experiência da verdade do
Zen.
Os mestres tratam os conceitos fundamentais do budismo de maneira não especulativa demonstrando desconfiança em relação ao intelecto.
A frase sobre os cinco agregados como sofrimento é ilustrada por anedotas que combatem a erudição vazia.
Alan
Watts traduz a quíntupla agregação fundada no apego como a essência da frustração.
O desejo ou sede de existir procede da ignorância primordial que engendra a cadeia de causalidade.
A ignorância desencadeia doze causas independentes que culminam na velhice e na morte.
Paticcha—samuppada — Cadeia de causas.
Consciência, nome, forma, sentidos, contato e sensação como elos.
A morte e a velhice são consequências diretas do nascimento que por sua vez depende do processo de devir.
A extinção da ignorância interrompe a cristalização das formações mentais e anula o desejo de captura.
Sem a sensação e o desejo o homem desliga—se da existência e fica liberado do ciclo de renascimentos.
As explicações intelectuais sobre a origem e o fim do sofrimento pertencem à tradição dos budistas theravadinos.
O
Zen concebe a iluminação búdica como um ato irracional e inconcebível que transcende qualquer terminologia racional.
Os sutras Prana—paramita utilizam o raciocínio poético para abordar a penetração da ignorância na vida humana.
A iluminação é um evento em que o pensador e o pensamento se fundem em um ato único de visão da essência.
O Supremo e Perfeito Conhecimento é designado pelos mahaianistas como prana e não comporta definição.
Prana reina sobre as virtudes de caridade, ética, paciência, fervor e meditação permitindo alcançar a outra margem.
O Bodhichitta ou desejo de iluminação sustenta todos os mundos e consome a lógica restritiva.
Citação do Ganda—vyuha sutra — O Bodhichitta é como a terra, porque sustenta todos os mundos. É como a água, porque lava todo o lodo das paixões. É como o vento, porque se eleva sobre o mundo inteiro sem encontrar obstáculos. É como o fogo, porque consome tudo o que alimenta a triste lógica.
O fim do sofrimento implica na cessação do conhecimento como objeto de desejo e posse.
A iluminação manifesta—se no reconhecimento de quem se é através de atos simples e da ausência de desejos.
O mantra da profunda sabedoria é capaz de apaziguar toda dor ao conduzir o praticante para a outra margem.
Citação — Gate, Gate, paragate, parasamgate bodhi, svaha!
As lições de Buda são indissociáveis de sua própria presença e não podem ser descritas por inteligências obtusas.
As interpretações literais dos preceitos devem ser evitadas em favor da compreensão do objetivo da pregação de Gautama.
A quarta Nobre Verdade indica o Caminho Justo de oito ramificações para escapar ao ciclo de nascimento e morte.
O adepto busca o conhecimento da realidade tal como ela é sem as distorções do pensamento interpretativo.
A visão perfeita atua simultaneamente como o ponto de partida e a finalização do percurso espiritual.
A serenidade permite compreender que as categorias de bem e mal são fantasmas sem permanência ou solidez.
O conhecimento da realidade abrange a compreensão do sofrimento e da via para sua abolição.
A abolição dos pecados de desejos sensuais, da existência e da ignorância permite que o real inimaginável se manifeste.
A unidade entre terra, lago e céu reflete a totalidade da existência no espírito do praticante.
A palavra, a ação, a vocação e a aplicação são consideradas perfeitas quando ordenadas à visão e à compreensão supremas.
O budista liberta—se de toda lei moral ao renunciar à posse do objeto em que consiste a lei.
O karma representa tanto o ato quanto seu resultado constituindo a expressão da finitude e do destino individual.
O ideal reside em superar as categorias de existência e não existência compreendendo a vacuidade dos agregados.
O eu e os sentimentos são tratados como puras ilusões assim como os conceitos de pecado, inferno e paraíso.
A liberdade do ser subsiste na ausência do eu movendo—se com a intrepidez característica do Rei—Dharma.
Toda moralidade tem origem no pensamento dualista enquanto a visão perfeita exclui qualquer discriminação.
A visão perfeita designa a ausência de drishti ou do espejismo das palavras que intoxica o espírito.
Citação do Maha—parinabbana—sutta — O espírito associado à inteligência está liberado por completo das intoxicações, ou seja, da intoxicação da sensualidade, do devir, do espejismo das palavras e da ignorância.
O samadhi é o objetivo final de um processo que utiliza o dhyana como meio de recolhimento e concentração.
A prática do dhyana envolve reunir pensamentos, tranquilizar—se e permanecer no gozo da lei intuída.
A tendência analítica dos filósofos resultou na classificação do dhyana em quatro ou oito espécies distintas.
O primeiro estágio do dhyana é alcançado quando o espírito se estabiliza e surgem sentimentos de alegria e paz.
O segundo estágio envolve a imersão profunda no Ser com a dilatação do coração e a transformação da música interior.
O silêncio final permite que o espírito planeie imóvel no espaço infinito sentindo—se plenamente integrado e não separado.
Os quatro estágios tradicionais progridem da contemplação do espaço infinito até a cessação da noção de não distinção.
O método direto de meditação busca interromper as operações do espírito e o diálogo com os sentidos de forma abrupta.
O
Zen valoriza o conteúdo positivo da iluminação de Buda e não apenas o aniquilamento da consciência.
A iluminação deve ser encontrada na própria vida e em suas expressões livres e não na cessação absoluta da atividade.
O budismo é interpretado como um sistema sobre a personalidade do Mestre onde o espírito de Gautama se afirma intensamente.
O ideal mahaiana equilibra sabedoria e compaixão em uma via que não se caracteriza pelo egoísmo.
O Ganda—vjuha sutra define a morada dos Bodhisatvas por meio de uma série de paradoxos sobre a vivência no mundo impuro.
Citação — Ali se encontra a morada de quem compreendeu a vaidade da forma e não está satisfeito com o ideal de Shravaka; dos que se regozijam ali onde não existe o não nascimento e, no entanto, não se apegam ao não nascimento das coisas.
Vivência no nascimento—e—morte sem pertencer a ele por amor a todos os seres.
A literatura búdica utiliza a reconciliação de contrários para expressar a tentativa de viver segundo o espírito da lei.
O Arhat é visto como um santo inacessível pelo ascetismo enquanto o Bodhisatva retorna ao mundo para pregar.
Ts’ing—iuan Uei—hsin ilustra a verdade do
Zen através da percepção das montanhas e águas antes e depois do estudo.
Citação — Antes de um homem estudar o
Zen, considera as montanhas, montanhas, e as águas, águas; após a visão interior, montanhas não são montanhas nem as águas, águas; quando chega realmente ao repouso, de novo as montanhas se convertem em montanhas e as águas em águas.
O nirvana e o samsara são considerados uma mesma realidade dentro da perspectiva mahaiana.
O sutra
Lankavatara distingue quatro formas de dhyana que vão do exercício do ignorante até a autorrealização do Tathagata.
O dhyana do ignorante foca na ausência do ego mas mantém o apego às noções de cese e ausência de pensamento.
O segundo dhyana consiste na análise intelectual e meditação sobre as verdades doutrinárias do budismo.
O dhyana do Tathata busca estabelecer o praticante na realidade de ser tal como se é superando percepções contraditórias.
O dhyana do Tathagata caracteriza—se pela visão correta e pela dedicação a obras incompreensíveis para a salvação universal.
A rejeição das aparências leva ao encontro com todos os Budas que acariciam as mãos do praticante benfeitor.
O nirvana é definido como um estado e não como um lugar geográfico ou físico para onde se possa ir.
O entendimento ocidental frequentemente associa o nirvana equivocadamente à ideia de nada absoluto.
Citação — Não haverá coisa mais difícil de compreender que o cese de todos os samskaras, o rejeito dos upadhis, a destruição do desejo, a morte da paixão, a paz do coração, o nirvana.
O nirvana foi interpretado por vertentes búdicas como a aniquilação dos agregados e o oposto do ciclo de renascimentos.
Conceber o nirvana como um objeto a ser alcançado é considerado um erro contra o qual os mestres advertem.
Tai—tchu explicava que buscar o nirvana como algo a ser realizado mantém o praticante preso ao karma da transmigração.
Citação — Buscar o grande Nirvana, abandonar a contaminação e dedicar—se a seguir o não contaminado, afirmar que existe algo que se pode alcançar e algo que se pode realizar, não estar liberado da doutrina dos contrários: eis aqui o karma que trabalha em favor da transmigração.
A verdadeira via reside em agir conforme os sentimentos sem segundas intenções ou busca por libertação.
O nirvana para os mahaianistas é um termo intercambiável com conceitos como vacuidade, sabedoria trascendental e limite da realidade.
Prana, sambodhi, dharma—kaya, tathata, sarvajnata, shunyata e bhutakoti.
O
Lankavatara define o nirvana como a visão na permanência da realidade tal como ela é transcendendo categorias dualistas.
O ingresso no nirvana provoca uma revolução na consciência profunda onde o conhecimento ilusório desaparece.
Buda proclama que o alcance do nirvana envolve permanecer desprendido de formas de conhecimento e morar na visão correta das coisas.
Citação — Compreender perfeitamente o que significa a manifestação do próprio Espírito, não ligar—se ao mundo exterior, permanecer desprendido das quatro proposições, morar na visão yathabhutam das coisas, não cair nos erros dualistas, estar liberado das ideias de sujeito e objeto.
Ultrapassagem definitiva de Citta, Manas e Manovijnana.
Após os ensinamentos em Benares, Gautama fundou a comunidade espiritual e dedicou cinquenta anos à instrução.
O momento da morte física ou pari—nirvana marca a dissolução definitiva dos agregados movidos pelo apego.
A lenda relata que Buda recapitulou as etapas de sua meditação e os preceptos ensinados antes da extinção final.
A origem do mundo de renascimentos é atribuída à ignorância enquanto o nirvana é definido como o repouso na extinção da ação.