O universo em que estamos mergulhados é fundamentalmente ambíguo, e em suas profundezas ocultas é ainda mais “informe” e “repulsivo”.
A misericórdia de Deus dissimula esse aspecto revestindo-o de uma cobertura — a matéria — para que se veja uma aparência suportável.
Essa aparência, ou “Maja”, não é por si mesma nem verdade nem mentira.
Baader joga com a ideia de que schonen (“poupar”, no sentido de “preservar”) é aparentado a schön (“belo”): a beleza é querida por Deus na natureza para preservar nossos olhos e ocultar o abismo de forças caóticas ou o “carbono radical” por trás de uma face de luz.
Sem esse envoltório seríamos tomados de pavor e horror, assim como a epiderme que envolve a forma humana mais bela impede que ela se revele em sua verdade anatômica: “Non impune videbis!”
Assim como o amor produz astúcias, produz também a arte — Baader aproxima Lust e List (“desejo” e “astúcia”), Kunst e Gunst (“arte” e “favor”).
A natureza deve servir de degrau espiritual; a união de um homem e uma mulher edifica o corpo como andaime no interior do qual a personalidade divina andrógina pode crescer.
Do fato de que os braços são apenas o prolongamento das costelas pode-se inferir que a união andrógina se situa na região do peito.
A física natural, que carrega em si a marca da criação, nos faz passar sem solução de continuidade a uma física divina, um corpus spirituale à imagem de Deus.
Cultur é aproximado de cultus: culto, humanidade e cultura têm uma mesma fonte, como três formas de amor que aparecem e desaparecem ao mesmo tempo.