No penúltimo ano da vida e do reinado de Elizabeth, a gloriosa e para sempre célebre rainha da Inglaterra, o rigor do inverno, que sepultava o Monte São Bernardo sob uma espessa camada de neve e obstruía completamente a rota da Itália, obrigou-me a permanecer na cidade de Avignon durante todo esse período invernal. Foi ali que, recebido na casa de um certo Capitão com muitos outros jovens cavalheiros de boa educação e instruídos pelos próprios jesuítas, certa noite, entre as taças do banquete, comecei a falar sobre filosofia com eles. Percebi em seus espíritos opiniões diferentes sobre a Astrologia geomântica, pois alguns negavam completamente seu valor, enquanto outros, entre os quais eu me encontrava, defendiam vivamente a força desta arte. Ora, apresentei em seu favor inúmeros argumentos, pelos quais provei ser bastante versado nesta ciência. Assim, terminado o repasto, no momento em que me dirigia ao meu quarto, um deles seguiu-me até minha morada e pediu-me, em nome de nossa amizade, que tentasse por minha arte, que ele considerava grande, livrá-lo de uma dúvida, e não das menores, sobre cuja solução ele se dizia fortemente angustiado. Após muito me escusar, deixei-me, contudo, vencer enfim por suas preces. Por isso, projetei imediatamente a figura geomântica para a questão que ele me havia proposto e que era a seguinte: se a jovem, pela qual ele concebera um violento amor, corresponderia do fundo do coração, preferencialmente a outros. Ora, projetada a figura, afirmei poder descrever suficientemente bem tanto a natureza quanto a disposição do corpo daquela que ele amava e, depois de ter descrito exatamente o corpo ou a estatura e o exterior da jovem, um sinal particular ou alguma marca, uma verruga bastante notável em seu corpo, especifiquei inclusive o lugar desta, indicando que ela possuía na pálpebra esquerda essa espécie de verruga. O que ele próprio reconheceu inteiramente. Disse inclusive que ela se comprazia muito nas vinhas. E isso também ele confessou mui alegremente, acrescentando que ela se encontrava assim porque sua mãe fizera construir sua casa em suas próprias vinhas. Respondi, enfim, à questão posta: aquela que ele amava era inconstante e de modo algum firme, ao ponto mesmo de amar a outro mais do que a ele próprio. Ao que ele disse ter sempre suspeitado grandemente de tal coisa e a via como se seus olhos tivessem se aberto. Saiu então de meu quarto com passo rápido e relatou aos seus companheiros, com certa admiração, a verdade de minha arte e sua virtude.
Mas alguns deles, que conheciam bem essa jovem, negavam absolutamente o sinal descrito em sua pálpebra, até que no dia seguinte, conversando com ela sobre a verdade dessa coisa que eu lhes havia exposto sobre a arte da geomancia, e que na verdade eles não haviam observado anteriormente, colocaram-se eles próprios do lado das testemunhas. Daí, portanto, mais do que eu desejava, tornei-me conhecido, ao ponto de o rumor chegar aos ouvidos dos jesuítas. Dois deles, apressando-se a ir escondidos ao palácio, contaram tudo isso ao vice-legado e, excitados pela indignação, disseram-lhe que havia um certo estrangeiro, inglês de nação que, por uma ciência reprovada pela Igreja Católica, a saber, a Geomancia, predizia o futuro. Essas coisas me foram relatadas na manhã seguinte pelo Capitão do Palácio, chamado Jean, que me revelou a resposta dada pelo vice-legado a essas coisas, a qual resposta ele me afirmou ter sido a seguinte: O quê, disse ele, isso não é uma abominação tão grande quanto vós vos esforçais para fazer parecer: pois qual é aquele entre todos os cardeais da Itália que não tenha feito seu horóscopo seguindo o procedimento astrológico ou geomântico? Poucos dias depois, de fato, o próprio vice-legado desejava falar-me e convidava-me graciosamente para seu almoço. Com meu mui querido amigo o senhor Malceau, boticário do papa, dirigi-me ao Palácio. Lá, feita a reverência obrigatória da maneira acostumada, o vice-legado começou assim o diálogo comigo: Compreendo, disse ele, que sois mui versado na arte da Geomancia. Qual é o vosso sentimento íntimo sobre esta ciência? Respondi-lhe que havia demonstrado por minhas experiências que esta ciência era certa e repousava sobre bases ocultas. “Como é possível, disse ele, que alguma certeza esteja nela, sendo que ela consiste em pontos acidentais?” Eu disse: “O princípio e a origem desses pontos feitos pela mão do homem é interior e certamente de essência íntima, visto que o movimento deriva da alma, sua origem.” Acrescentei que os erros desta ciência são causados não pela alma, mas por um movimento do corpo defeituoso, e operado em desacordo contra a intenção da alma e da regra geral da Geomancia, de que a alma deve estar calma e que o corpo deve obedecê-la, e que, da mesma forma que o corpo nem a alma causem uma perturbação qualquer ou qualquer intervenção, mas como se fosse de certo modo um juiz justo e equitativo, e que olhe para Deus orando de coração, a fim de que a verdade apareça e a fim de que o operador pense fortemente na questão posta e não seja perturbado por pensamentos estranhos.
“O que é, então, respondeu ele, essa alma de que falais? Compreendeis, talvez, por essa alma, seja o Daimon de Platão, seja, ao menos, algum Anjo?” A isso, repliquei: “Um anjo não pode ser a origem desta ciência, porque os Anjos se dividem em bons e maus: pois os bons Anjos raramente se manifestaram a esses pagãos, a saber, os árabes, os caldeus e os egípcios, que são os inventores desta arte; e, em verdade, os maus Anjos são os autores das mentiras antes que da verdade, como testemunham as Santas Escrituras.”
“Por aí, portanto, disse ele, é evidente que vós mesmo não podeis tornar distinta e certa a razão do princípio nesta ciência.” Respondi-lhe: “O corpo humano comporta-se em relação à alma como um escravo para com seu senhor. Pois o senhor pode enviar seu escravo aqui e ali, sem que este perceba de modo algum a intenção de seu senhor.
E mesmo um grande pintor pode enviar ao rei uma pintura admirável por seu servo, enquanto este ignora completamente as misturas das cores e suas proporções simétricas. Assim, um rei pode fazer lançar sobre seu povo impostos por outros, enquanto a razão desses impostos é apenas conhecida pelo próprio rei. Não é de outro modo, em verdade, que o corpo pode também fazer o que a alma lhe ordena secretamente, enquanto, no entanto, o corpo não percebe de modo algum os motivos, senão apenas por seus efeitos.”
Tendo ouvido tudo isso, o vice-legado chamou-me, em meio a bispos e diáconos, para junto de uma mesa que ali se encontrava e onde, tomando uma pena e tinta, compôs uma figura geomântica e discorreu sobre ela de modo inteiramente sábio, de tal sorte que vi ser ele muito mais sábio e experiente do que eu nesta ciência, a respeito da qual os jesuítas me haviam acusado diante dele. E, terminado o repasto, agradeci-lhe por sua boa graça e visitei-o com bastante frequência; pois comprovei que era um Príncipe ávido por aprender, instruído nas ciências, benevolente com os estrangeiros e de modo algum inclinado à tirania.
Tendo sido essas coisas divulgadas entre os jesuítas, um professor de filosofia daquela ordem desejou muito conferenciar comigo. Cedendo às preces de meu mui querido Reinaud, grande pelo espírito e jovem pela modéstia, fui à sua casa e fui por ele graciosamente acolhido. Lá, após uma conversação sobre alguns temas filosóficos, ele chegou imediatamente à ciência geomântica, pensando talvez que eu desejaria refutá-lo mui facilmente. “O quê, então, disse ele, é possível que alguém tenha o poder, pela Geomancia, de predizer a tal ou qual homem seja um perigo, seja a morte em uma viagem a Roma por exemplo? Qual é a comunicação que se pode estabelecer entre a alma do sujeito e a do operador e qual é o papel de cada uma destas últimas almas enquanto cada uma delas permanece no corpo que a contém?”
“Eis o que vos responderei brevemente”, disse-lhe.
“A alma de um corpo é sua luz principal e nela domina preferencialmente a todas as outras potências. Ela conduz-se como o sol no meio de nosso sistema. É, portanto, precisamente o sol do microcosmo que dirige, por meio de seus raios vivificantes, o corpo inteiro. É, pois, indubitável que ela atue sobre todo o corpo e até sobre suas partes mais ínfimas, transmitindo seus raios pelo crivo dos quatro elementos. Eis como o autor concebe a ação da alma sobre o corpo material: a alma para ele é simultaneamente a mens e o spiritus; ela é, de certo modo, o centro da entidade; ela emite raios (são eles que a ciência positiva acaba de constatar) e esses raios são análogos àqueles que contém a luz solar, eles comandam os movimentos do corpo como o aour comanda os movimentos dos astros, mas em função dos quatro elementos e do círculo de onde a expressão de crivo. Ora, os astros estão em correlação uns com os outros por meio dos aspectos, isto é, da amplitude do arco de eclíptica ou de equador que possuem entre si; é, aliás, constatando e analisando esses aspectos que se pode dar conta dos eventos deste baixo mundo. Pois bem! Assim como as relações dos astros entre si, as relações das almas possuem consequências aqui na terra, pois as almas são invisíveis focos de luz e emitem raios que estabelecem comunicações entre si. Daí os fenômenos de telepatia, de sugestão etc. Eis como o operador, ou antes sua alma, pode prever um perigo que o ameaça a si mesmo ou ameaça a um de seus amigos; e se esse perigo está por vir, a alma conduzir-se-á em relação ao corpo à feição de um guardião: ela se dará conta do que deve acontecer e isso lhe será fácil pois ela é divina e imortal. A divindade e a imortalidade são duas qualidades que são atribuídas à alma para explicar que ela está fora do espaço e do tempo, enquanto a densidade é atribuída ao corpo, para dizer que ele está, ao contrário, no espaço e no tempo, e, consequentemente, apto a conhecer o presente e o futuro, enquanto o corpo, por causa de sua densidade, nada pode prever. Nessas condições, uma alma calma e tranquila, exercitada em compreender os movimentos de seu corpo, estando este bem submetido e obediente, pode sem dificuldade profetizar.”
“Olaus Magnus, prelado sueco, publicou em 1555: Historia de gentibus septentrionalibus, em sua História da Finlândia, relata várias coisas surpreendentes a respeito dos feiticeiros de seu país, e notadamente isto. Uma certa feiticeira procedia da seguinte maneira quando recebia a visita de alguém que desejava conhecer os fatos e gestos de seus amigos: ela entrava com outra mulher em um quarto, murmurava primeiro à meia voz várias palavras, tomava em seguida uma serpente de latão e, segurando-a pela cauda, batia nela duas ou três vezes com um pequeno martelo; imediatamente caía inanimada e sua companheira punha-se no dever de impedir as moscas e os outros pequenos animais de incomodá-la. Esse estado hipnótico durava meia hora. Depois do que a feiticeira voltava a si e dava notícias dos amigos de seu visitante.”
“Como teria ela podido proceder se sua alma não tivesse podido entrar em comunicação com as daquelas pessoas? O semidiâmetro do orbe dos raios de sua alma era sem dúvida muito fraco para atingir o orbe dos raios das almas das pessoas em questão, e era necessário necessariamente aproximar a distância, então ela se exteriorizava de seu corpo e dirigia-se aos lugares ocupados pelas referidas pessoas; ali chegando, sua alma podia tomar contato e entrar em comunicação com os raios das outras almas. O tradutor de Robert Fludd entregou-se, com alguns amigos, a semelhantes experiências de exteriorização que o conhecimento das coisas do oculto lhe permitiu levar a bom termo; ele obteve assim resultados verdadeiramente espantosos que foram objeto de vários artigos e mesmo de entrevistas que emocionaram o mundo erudito.”
“É fora de dúvida que os raios emitidos pelos corpos organizados estendem-se sensivelmente além dos raios visuais; isso se deve, portanto, à sua fluidez e à pureza de sua essência e de sua natureza; eles podem, pois, penetrar sem obstáculo, no plano elementar, à feição dos influxos e isso se deve ainda à superioridade de sua forma e à excelência de sua origem. Em resumo, o autor indica que os raios humanos, como todos os dos corpos organizados, são eminentemente fluidos e muito puros, encontram-se situados em um plano elevado e vinculam-se a uma ordem de fenômenos superiores.”
Discutimos e conversamos assim sobre este assunto. Ao fim, ele abraçou-me, jurando que me consideraria doravante como seu irmão e pedindo-me autorização para vir ver-me frequentemente com seus colegas. Não pude anuir a esse desejo, pois deixei precipitadamente a cidade para ir a Marselha encontrar o Duque de Guise que ali se encontrava e mandava me avisar por seu próprio irmão o cavaleiro de Malta, um matemático mui eminente.
A conclusão desta introdução impõe-se, portanto, que a Geomancia deve ser considerada como uma ciência que depende imediatamente do psiquismo, porque a alma é o seu fundamento, e, além disso, como uma ciência mais delicada do que todas aquelas acessíveis ao homem neste mundo perecível.