HANEGRAAFF, Wouter J. Esotericism and the Academy: Rejected Knowledge in Western Culture. Cambridge: Cambridge University Press, 2012.
Moisés Secreto: Giovanni Pico della Mirandola e a Cabala Cristã
1. Em 1486, o jovem nobre e prodígio intelectual Giovanni Pico della Mirandola concebeu o projeto sem paralelo de reunir em Roma, sob a presidência do papa e a suas expensas, intelectuais de toda a Europa para debater publicamente com ele nada menos que novecentas teses, quando os debates habituais raramente ultrapassavam vinte ou vinte e cinco.
2. As novecentas opiniões dialéticas, morais, físicas, matemáticas, metafísicas, teológicas, mágicas e cabalísticas, próprias ou dos sábios caldeus, árabes, hebreus, gregos, egípcios e latinos, seriam debatidas pelo “Conde da Concórdia”, agrupadas por nações e heresiarcas, mas misturadas quanto às partes da filosofia.
3. Esse debate universal destinado a resolver definitivamente todos os problemas nunca se realizou, pois Inocêncio VIII, após censurar treze teses, condenou todas em 1487, sobretudo as que renovavam erros pagãos, acalentavam enganos judaicos ou dissimulavam a magia como filosofia natural, tornando-se o primeiro livro impresso universalmente proibido pela Igreja.
4. O traço mais inovador desse exemplo extremo da narrativa da sabedoria antiga foi a inclusão de numerosas teses cabalísticas, situadas ao final de ambas as séries como culminação do argumento sobre os mais antigos mestres da sabedoria pagã, fazendo de Pico o fundador da Cabala cristã, uma das correntes mais importantes do esoterismo ocidental moderno.
5. A pesquisa recente sobre a Cabala cristã tem mostrado que a influência foi recíproca, afetando também o desenvolvimento da Cabala judaica no Renascimento, e tem revelado a importância e complexidade das relações judaico-cristãs, em consonância com a visão da religião europeia como campo pluralista de discursos concorrentes.
6. Os especialistas em Cabala cristã, em geral oriundos dos estudos judaicos, tendem a tratá-la como fenômeno de interação judaico-cristã e a mencionar a prisca theologia apenas de passagem, ao passo que os estudiosos da prisca theologia e da philosophia perennis se concentram nas fontes pagãs e negligenciam a Cabala cristã, com a notável exceção de Moshe Idel.
7. A Cabala cristã deve ser vista como manifestação típica, ainda que específica, da narrativa da sabedoria antiga, pois Pico, Reuchlin e seus sucessores não se interessavam pelo esoterismo judaico em si, mas pela sabedoria antiga e universal, que, sendo verdadeira e divina, era cristã por definição, apenas preservada pelos judeus, os quais deveriam converter-se ao cristianismo quando lhes fosse revelado o verdadeiro segredo de sua tradição.
8. Esse raciocínio foi tomado dos apologistas patrísticos, inclusive sua insistência em Moisés como fonte originária da sabedoria, com a diferença de que os cabalistas cristãos julgavam ter descoberto que Moisés recebera de Deus, além da Lei escrita destinada a todos, uma teologia secreta reservada a poucos.
9. Moisés recebeu no monte não só a Lei escrita nos cinco livros, mas também sua interpretação mais secreta e verdadeira, que Deus lhe ordenou não escrever nem divulgar, mas revelar sob grande juramento de silêncio apenas a Josué, que a transmitiria aos sumos sacerdotes seus sucessores.
10. As filosofias pagãs participavam da verdadeira religião na medida em que concordavam com essa Cabala originária, razão pela qual materiais cabalísticos intervêm também nas teses herméticas, caldeias, mágicas e órficas de Pico, mas, ao contrário das religiões antigas extintas, a Cabala sobrevivia como tradição viva, bastando revelar a seus adeptos seu verdadeiro sentido cristão para convertê-los e unir todos os povos sob a sabedoria antiga e universal.
11. A conversão dos judeus tinha fortes implicações milenaristas, e Pico quis iniciar seu debate na Epifania, data simbólica da submissão dos pagãos a Cristo na pessoa dos Magos, ambicionando ir além de Ficino ao imaginar não só os sábios pagãos curvando-se simbolicamente diante do Evangelho, mas os judeus submetendo-se literalmente a Cristo, a ponto de talvez ter considerado, segundo Steven Farmer, que o debate terminaria com os Cavaleiros do Apocalipse irrompendo nos céus de Roma.
12. Esse sonho missionário, retomado por Reuchlin e seus sucessores, nada tinha de tolerância, irenismo ou apreço pelo judaísmo em si, sendo inteiramente apologético e polêmico, contra os judeus e a favor dos cristãos, como atestam as próprias declarações de Pico.
13. Onde os hebreus concordassem com os cristãos, seriam mantidos nas tradições de seus pais, e onde discordassem seriam atacados por legiões católicas, refutando-se o que fosse alheio ao Evangelho e tomando-se da sinagoga, como de possuidor ilegítimo, o que fosse santo e verdadeiro para os legítimos israelitas.
14. Moshe Idel, único estudioso que examinou sistematicamente a relação entre Cabala cristã e sabedoria antiga, propôs distinguir uma perspectiva “unilinear”, de transmissão única a partir de Moisés, e uma “multilinear”, de revelações separadas a líderes pagãos e monoteístas, distinção provavelmente inspirada em D. P. Walker.
15. A distinção de Idel perde utilidade na aplicação, pois a unilinearidade não implica necessariamente origem mosaica, como mostram Zoroastro em Pletão e Ficino ou Hermes em Lazzarelli, os cristãos supostamente multilinearistas pouco elaboraram essa teoria, Pico era na verdade firme partidário da origem mosaica e Ficino só forçadamente se encaixa nela, residindo o problema central na suposição de que a prisca theologia implica genealogias lineares, quando há uma terceira opção, não linear, que concebe a sabedoria de uma era em que o próprio tempo mal começara.
16. O sincretismo extremo de Pico não se limita a pôr as filosofias em paralelo, pois seus escritos cabalísticos se baseiam na tese patrística, retomada de Eusébio, de que toda sabedoria fluiu dos bárbaros aos gregos e destes aos cristãos, sendo Moisés, apenas um grau abaixo da fonte divina, o mais antigo teólogo, com um senso de temporalidade mais explícito que o de Ficino.
17. Após percorrer as tradições pagãs, Pico retorna a Moisés para revelar o segredo de que todas dependem, deduzindo de uma passagem do Eclesiástico que Josué foi o primeiro herdeiro da sabedoria secreta mosaica, a Cabala, transmitida oralmente aos sumos sacerdotes, preservada em segredo pelos filósofos antigos e por Jesus e escrita em setenta volumes sob Esdras após o cativeiro babilônico.
18. Essa sabedoria mosaica secreta alcançou finalmente os cristãos, capazes de perceber a grande verdade a que os judeus são cegos, a de que sua tradição mais antiga e sagrada é cristã.
19. Nos livros cabalísticos, adquiridos e lidos com grande esforço, Pico encontrou uma religião mais cristã que mosaica, com a Trindade, a encarnação do Verbo, a divindade do Messias, o pecado original, a redenção, a Jerusalém celeste, a queda dos demônios, os anjos, o purgatório e o inferno, além das doutrinas de Pitágoras e Platão, a ponto de quase não haver disputa com os hebreus em que estes não possam ser refutados por seus próprios cabalistas.
20. Pico acreditava numa sucessão da sabedoria iniciada em Moisés e difundida dos hebreus aos bárbaros e aos gregos, sem interesse pelos pormenores dessa transmissão, pois sua preocupação central era apologética, mostrar que as doutrinas cristãs se encontram na mais antiga teologia secreta, a Cabala, e em vestígios pagãos, num prolongamento da perspectiva patrística ampliada pela Cabala, sem nenhuma doutrina multilinear de revelações pagãs independentes.
21. A primazia do “Moisés secreto” é uma constante na obra de Pico, que, além da transmissão inicial de Deus a Moisés, a Josué e ao sacerdócio, não estabelece ordem precisa de sucessão, interessando-se apenas pelas grandes linhas do orientalismo platônico e pela centralidade dos hebreus, sem se preocupar com as vias de transmissão nem com eventuais revelações pagãs paralelas.
22. Reuchlin, no “De verbo mirifico” de 1494, mostrou mais interesse pelas viagens dos filósofos gregos aos bárbaros, mas para afirmar a primazia da revelação mosaica, supondo que quem fora ao Egito em busca da verdade teria visitado também a Judeia para beber da fonte depois de provar os riachos, e sugeriu que as fases mais antigas, próximas da origem divina, participam tanto da eternidade quanto do tempo, de modo que a busca da origem última se afasta do tempo à medida que remonta a ela.
23. No “De arte cabalistica” de 1517, Reuchlin fez remontar a Cabala a Adão após a Queda, como doutrina messiânica de restauração transmitida de geração em geração, com pouca ênfase em Moisés, e a descoberta de correspondências ocultas assentava na ideia de que os antigos teólogos foram poetas que velaram as coisas divinas sob a fábula mitológica, permitindo à mitologia pagã servir à teologia cristã ao ocultar a sabedoria concordante com a verdade cristã, tema de uma “Teologia Poética” que Pico planejou escrever.
24. Segundo os antigos teólogos, os mistérios divinos não deviam ser divulgados levianamente, razão pela qual os egípcios esculpiam esfinges em seus templos para indicar que as coisas divinas, mesmo escritas, deviam ser cobertas por véus enigmáticos e dissimulação poética, como fizeram os poetas gregos e latinos.
25. A sabedoria antiga equivalia, assim, a sabedoria oculta, noções de segredo e ocultação inerentes à própria estrutura da narrativa renascentista, pois seus adeptos cristãos sempre precisavam sustentar que sob a crosta da religião pagã havia um núcleo oculto de verdade cristã.
26. O fascínio de Pico pelo segredo, muito superior ao de Ficino, levou-o a deleitar-se com a obscuridade e a mistificação, escrevendo em linguagem exótica inteligível a poucos e falando por enigmas para que suas palavras fossem publicadas e não publicadas, e a introdução da Cabala, somada ao simbolismo dos números, elevou a nova proeminência a concepção da sabedoria antiga como sabedoria oculta, dada a centralidade da dialética entre ocultação e revelação na Cabala judaica e sua condição de revelação secreta a Moisés.
27. Divulgar ao povo os mistérios ocultos sob a casca da Lei e as palavras rudes, segredos da divindade suprema, seria dar aos cães o que é santo e lançar pérolas aos porcos, razão pela qual não a prudência humana, mas um mandamento divino determinou mantê-los secretos e comunicá-los apenas aos perfeitos.
28. A verdade cabalística permanecia oculta não só por elitismo, mas por resistir à verbalização, exigindo uma linguagem paradoxal e situando-se em níveis superiores da escala platônica do ser, acessíveis por cálculos linguísticos e numéricos e intuíveis pelo intelecto, mas não plenamente compreensíveis, o que implicava a rejeição da linguagem comunicativa e a busca da sabedoria antiga nas camadas não semânticas da linguagem, sendo a Cabala definida por Reuchlin como filosofia simbólica e o símbolo entendido como mediador que simultaneamente revela e oculta.
29. Com Pico e Reuchlin, a Cabala integrou-se ao discurso renascentista da sabedoria antiga e produziu forte ênfase no esoterismo como preocupação com segredos ocultos e sua revelação, potencial já implícito na exegese alegórica dos mitos pagãos e plenamente desenvolvido sob influência de uma tradição essencialmente esotérica, como mostra o “De occulta philosophia” de Agrippa, de 1533, que reúne a sabedoria dos sábios pagãos, incluindo a magia e as ciências ocultas, a Cabala mosaica e a ideia de uma filosofia oculta fundada na verdade cristã.
30. A crescente ênfase no segredo resultou da confluência da noção patrística do cristianismo como núcleo oculto do paganismo, da concepção dos antigos teólogos como poetas, das alusões orientalistas à transmissão oral e às iniciações, do simbolismo e da alegoria como alternativas à lógica aristotélica, da dialética cabalística entre ocultação e revelação, das novas técnicas exegéticas, do gosto pessoal pelo mistério e da simples prudência diante dos perigos de parecer apologista do paganismo, do judaísmo ou da magia, como mostra a carta de Mutianus Rufus em que afirma a existência de um só Deus e uma só Deusa sob muitos nomes, de Júpiter a Cristo e Maria, recomendando guardar silêncio como sobre os mistérios eleusinos.
31. Com tais ideias a caixa de Pandora do paganismo estava aberta, e as acusações contra Pletão, as inquietações em torno de Ficino, a condenação de Pico e a fama injusta de Agrippa como mago negro parecem indicar que a narrativa da sabedoria antiga, apesar de seus fundamentos patrísticos, era tida por herética, conclusão que exige antes consultar o bibliotecário do Vaticano.