HANEGRAAFF, Wouter J. Esotericism in Western culture: counter-normativity and rejected knowledge. Cambridge: Cambridge University Press, 2026.
O Que Entendemos por Esoterismo?
1. Um diálogo romanesco de Umberto Eco ilustra a hesitação diante do termo, em que a palavra “esotérico”, corrigida para “hermético”, provoca sorrisos e embaraço, sem que se encontre o termo exato para designar um gênero que todos reconhecem.
2. O esoterismo é um conceito evasivo que remete a um conjunto ainda mais evasivo de tradições, ideias, crenças, organizações e práticas espirituais, cada vez mais estudado pelas ciências da religião e pelas humanidades em razão da percepção de que a visão convencional da cultura ocidental, fundada no monoteísmo cristão de raízes judaicas e na racionalidade grega origem da ciência moderna, negligencia dimensões quase onipresentes nas três religiões monoteístas, na filosofia, na ciência e nas artes, marginalizadas por divergirem das ideologias normativas das elites e designadas por rótulos pejorativos, a começar pelo próprio termo “esoterismo”.
3. O esoterismo não se ajusta a nenhuma disciplina estabelecida, distinguindo-se da religião, da filosofia e da ciência, embora presente em todas elas e nas artes, e, se antes do século XVIII suas ideias eram debatidas seriamente por teólogos, filósofos e cientistas, após o Iluminismo desapareceram do discurso intelectual aceito, tornando-se academicamente órfãs no século XIX, com declínio do conhecimento especializado só parcialmente revertido a partir dos anos 1960 e 1990, permanecendo a percepção popular dominada pela erudição amadora e pela mídia comercial.
4. Um vasto domínio de atividade religiosa, espiritual e intelectual presente na cultura ocidental da Antiguidade tardia até hoje foi ignorado pela academia como se não existisse ou não devesse existir, fenômeno sem paralelo na história intelectual, cuja consequência terminológica é que todos os rótulos disponíveis, como esoterismo, oculto ou ciências ocultas, nasceram em contextos polêmicos e carregam conotações pejorativas, não havendo termo neutro e aceito, razão pela qual se adota pragmaticamente “esoterismo” como termo guarda-chuva, na esperança de que a pesquisa séria dissipe suas conotações duvidosas.
Das Definições aos Protótipos
1. O adjetivo “esotérico”, do grego esōterikos, interior ou reservado aos iniciados, surgiu no século II, mas o substantivo “esoterismo” foi cunhado em alemão em 1792, passando ao francês em 1828 e ao inglês em 1883, sendo um construto erudito moderno aplicado retroativamente a correntes, práticas e ideias que antes tinham nomes diversos, não se definiam pelo segredo nem eram vistas como um conjunto, cuja apresentação como campo único só surge no final do século XVII.
2. Afirmar o caráter construído do esoterismo não significa negar sua realidade, pois a categoria surgiu porque intelectuais e historiadores perceberam semelhanças estruturais reais entre o pensamento de uma grande variedade de autores e movimentos, como resultado de um empreendimento comparativo que revelou padrões e continuidades antes ignorados.
3. Várias tentativas de definir o esoterismo por critérios propuseram listas como a de Antoine Faivre, de 1992, com quatro características intrínsecas, correspondências, natureza viva, imaginação e mediações e transmutação, e duas não intrínsecas, transmissão e concordância, criticadas e substituídas por outras propostas que demarcam de modo muito diverso os limites históricos e conceituais do campo.
4. Segundo a antropóloga Tanya Luhrmann, na prática cotidiana não se categorizam as coisas por listas formais de critérios, mas por comparação com protótipos, conjuntos de características que constituem um bom exemplo de uma classe, perguntando-se, por exemplo, se o avestruz se parece mais com um pardal ou com uma vaca, ou reconhecendo-se imediatamente uma cadeira sem verificar critérios, já que muitos membros de uma categoria não possuem todos os seus traços aparentes.
5. Os estudiosos que propõem critérios formais para o esoterismo raciocinam na verdade por protótipos, comparando os fenômenos históricos a seus melhores exemplos implícitos, o que explica a inclusão ou exclusão de correntes conforme os modelos adotados e boa parte da confusão sobre os limites do campo.
6. Os três modelos mais comuns concebem o esoterismo como visão de mundo “encantada” pré-iluminista de raízes antigas, florescente sobretudo no Renascimento, como fenômeno social do “oculto” posterior ao Iluminismo e como dimensão espiritual “interior” e universal da religião, modelos pouco convincentes, mas influentes o bastante para exigir exame.
Protótipo 1: Encantamento Antes da Modernidade
1. Os critérios de Faivre funcionam como definição do encantamento oposto às visões desencantadas da ciência moderna, pois as correspondências, derivadas da simpatia cósmica estoica e plotiniana, supõem uma interconexão universal sem causalidade linear, a natureza viva opõe-se ao mecanicismo, a imaginação e as mediações supõem uma cosmologia platônica de múltiplos níveis com planos sutis acessíveis à imaginação como órgão de conhecimento, e a transmutação designa a passagem do homem ou da natureza a um estado espiritual superior ou divino.
2. Para Faivre, os protótipos do esoterismo ocidental eram a teosofia cristã e a Naturphilosophie, de Paracelso ao Romantismo, o que faz do início da modernidade sua idade de ouro, reduz as fontes antigas e medievais a pano de fundo e torna duvidoso que as correntes esotéricas e ocultistas dos séculos XIX e XX se qualifiquem como esoterismo, parecendo, na analogia de Luhrmann, animais híbridos facilmente desqualificáveis como pseudoesoterismos.
3. Frances Yates promoveu visão semelhante com sua grande narrativa da “Tradição Hermética” do Renascimento, nascida da tradução do “Corpus Hermeticum” por Ficino em 1471 e florescente até o século XVII como visão de mundo dominada pela magia, pela experiência espiritual e pela imaginação, mística afirmadora do mundo associada a uma ciência holística e encantada da natureza viva e expressão de uma mentalidade otimista confiante no poder humano de criar uma sociedade melhor pelas novas ciências.
4. Como o esoterismo de Faivre, a Tradição Hermética de Yates concentrava-se no início da era moderna como alternativa encantada à religião estabelecida e à ciência racionalista, separada das trevas medievais e extinta no início do século XVII pela filologia e pelas ciências naturais, e seus leitores da contracultura dos anos 1960 e 1970 concluíram que essa visão mágica fora derrotada pelo establishment teológico e científico, lançando o mundo num desencantamento crescente, e que, redescoberta por uma estudiosa marginal, poderia agora reencantar o mundo, vendo nos herméticos renascentistas seus próprios predecessores.
5. Esse modelo implica que o esoterismo é por definição incompatível com o mundo secular e só pode sobreviver na modernidade como contracultura antimoderna e fuga inútil da razão, como viam os sociólogos dos anos 1960 e 1970, que, sob a tese da secularização, interpretavam o renascimento ocultista e oriental da época como manifestação de impulsos irracionais e nostalgias de um passado romantizado.
Protótipo 2: O Oculto Moderno
1. Embora as formas modernas e contemporâneas de esoterismo se fundem em ideias e tradições muito antigas, é falsa a suposição de que tenham chegado à modernidade como sobrevivências inalteradas, pois o clichê positivista de que as concepções mágicas, esotéricas e ocultistas resistem à mudança foi repetidamente desmentido, tendo elas sido transformadas em sua substância pelos desenvolvimentos sociais, culturais e intelectuais da sociedade secular desde o século XVIII, gerando fenômenos esotéricos inéditos.
2. O modelo do encantamento pré-moderno negligencia essas transformações, supondo que as formas pós-iluministas de esoterismo sejam deformações derivadas e inautênticas do original, comprometidas pelo pensamento secular e materialista, o que conduz inevitavelmente a considerá-las pseudoesoterismo.
3. Invertendo o argumento, um segundo modelo sustenta que só a partir do século XVIII as tradições esotéricas e ocultistas emergem como fenômenos sociais próprios, com organizações e redes de praticantes que concorrem com as igrejas num mercado religioso pluralista, ao passo que antes eram especulações eruditas de uma elite, de modo que os protótipos do esoterismo devem ser buscados nos meios ocultistas dos séculos XIX e XX, posição menos explicitada por provir de cientistas sociais pouco interessados em contextualizações históricas.
4. Nesse segundo modelo, o esoterismo ou oculto não é objeto de nostalgia, mas dimensão vital do presente, inicialmente vista pelos sociólogos do “boom” ocultista como desvio social, conhecimento anômalo e rebelião juvenil inútil contra a modernidade, perspectiva que mudou com o declínio do otimismo modernizador e o reconhecimento do oculto como dimensão significativa e permanente da modernidade e da pós-modernidade, desmentidas as previsões sobre o fim da religião.
5. Os estudiosos atuais veem o oculto não como anomalia irritante, mas como ilustração de que religião, espiritualidade, esoterismo e oculto são formações históricas flexíveis, continuamente transformadas pelas condições sociais, como mostram os meios ocultistas pós ou metamodernos que, sob o impacto das novas tecnologias e redes sociais, apagam deliberadamente as fronteiras entre ficção e realidade, ou o fascínio pelos superpoderes nos quadrinhos e jogos, passando os termos esoterismo e oculto a designar abreviadamente o psíquico, o paranormal, os mistérios inexplicados ou simplesmente o “material estranho”.
6. A fraqueza do primeiro modelo está em não levar a sério os fenômenos contemporâneos, vistos como distorções do autêntico, e a do segundo na falta de profundidade histórica, esquecendo que as raízes de um fenômeno lhe são inerentes, como seria reduzir o 11 de Setembro a um ato terrorista ignorando a história do radicalismo islâmico e do colonialismo ocidental, devendo-se por isso integrar o estudo do oculto num contexto histórico de longa duração e tratar o esoterismo moderno com a mesma seriedade que seus antecessores pré-iluministas.
Protótipo 3: Tradições Interiores
1. O terceiro modelo concebe o esoterismo como conjunto de tradições “interiores” fundadas na existência de uma dimensão espiritual universal oculta por trás do mundo material, acessível aos iniciados e escondida da massa, sentido próximo do esōterikos antigo, referente aos ensinamentos secretos de elites como as confrarias pitagóricas ou os cultos de mistério, e presente nas noções judaicas de doutrina do segredo e do oculto e na distinção islâmica entre o sentido exterior (ẓāhir) e o interior (bāṭin) do Corão.
2. Esse modelo não se define apenas pela dialética entre segredo e revelação, ocultação e desvelamento, mas pela afirmação radical da verdade e realidade ontológica do esotérico, como na posição de Nicholas Goodrick-Clarke, segundo a qual as definições discursivas e sociais carecem de uma interpretação do espírito como realidade ontológica independente e as características perenes da visão esotérica refletem uma tradição duradoura e um aspecto autônomo e essencial da relação entre mente e cosmo.
3. Para Goodrick-Clarke, o esoterismo não se define apenas por afirmações humanas sobre uma dimensão oculta da realidade, mas oferece acesso filosófico ou espiritual direto a uma realidade ontológica autônoma situada além da superfície dos acontecimentos sociais e históricos.
4. Essa abordagem, tecnicamente chamada religionismo, não consiste na simples crença numa dimensão interior da realidade, mas na tese de que crer na presença ontológica de uma realidade espiritual sui generis é indispensável para que o historiador da religião ou do esoterismo compreenda seu objeto, o que encerra o paradoxo de exigir a negação da relevância da historicidade e da crítica histórica para praticar corretamente a história, situando o verdadeiro referente esotérico na experiência direta do sagrado e fazendo dos historiadores do esoterismo uma espécie de iniciados, posição assumida por estudiosos como Henry Corbin, o primeiro Faivre, Goodrick-Clarke e Arthur Versluis.
5. Se o esoterismo remete a uma realidade espiritual universal não condicionada pela história, ele não pode ser específico do Ocidente, devendo ser acessível em todas as culturas e épocas e convergindo os ensinamentos esotéricos das religiões ocidentais e não ocidentais numa mesma tradição perene, a “unidade transcendente das religiões”, cuja expressão mais radical, de negação total da historicidade, é o perenialismo, hoje chamado tradicionalismo.
6. A erudição religionista, dominante nas primeiras fases do campo, dos anos 1960 aos 1980, sob a escola de Eranos, foi amplamente abandonada pela academia por seus pressupostos problemáticos, sobretudo a convicção da existência real de uma dimensão esotérica universal, que não pode ser verificada nem refutada por nenhum método erudito, constatação que não é metafísica nem depreciativa, mas reconhecimento dos limites da pesquisa acadêmica, já que uma eventual presença divina no mundo não seria objeto possível de investigação científica.
7. O argumento é metodológico, pois os instrumentos eruditos, como facas próprias para cortar a carne dos dados históricos, são inúteis para atravessar a parede da realidade material rumo a um além, assim como o martelo da meditação profunda ou das práticas enteogênicas, talvez capaz de atravessá-la, é inútil para fatiar a manteiga social e histórica, tendo os instrumentos eruditos e os espirituais seus usos e limites próprios.
8. O modelo das tradições interiores privilegia o Ser eterno em detrimento do Devir histórico, buscando arquétipos universais, símbolos recorrentes e estruturas míticas, ao passo que os historiadores se interessam pelo singular, contingente, variado e criativo, de modo que a insistência em que tudo se reduz sempre à mesma coisa se torna profecia autorrealizadora que impede de perceber o novo e o inesperado.
9. Contra o foco religionista numa sabedoria universal de verdades eternas, privilegia-se a enorme variedade histórica e a complexidade criativa do esoterismo, pois textos herméticos antigos, cabalistas, sufis, alquimistas, teósofos como Böhme e Swedenborg, magos como Crowley, adeptos da Nova Era, magos do caos, bruxas adolescentes ou crentes do QAnon têm visões de mundo muito diferentes, que revelam mais sobre eles mesmos e seus contextos do que sobre uma sabedoria universal abstrata, sendo esses fatores contextuais precisamente o que torna o campo fascinante.
A Virada Discursiva
1. Além dos três modelos, uma perspectiva acadêmica de grande difusão, inspirada na teoria pós-estruturalista e desconstrucionista, pretende reduzir o estudo do esoterismo ao estudo do discurso esotérico, partilhando com os religionistas a compreensão do esotérico como distinção entre ensinamentos exotéricos destinados às massas e esotéricos reservados aos iniciados, mas preferindo o adjetivo ao substantivo, que teria implicações essencialistas, pois, segundo Kocku von Stuckrad, falar de “esoterismo” sugere uma tradição ou sistema objetivo, ao passo que falar de “discurso esotérico” enfatiza as operações discursivas da cultura ocidental e de seu estudo acadêmico.
2. A partir da distinção entre esotérico e exotérico, von Stuckrad definiu o discurso esotérico como dialética secreta de ocultação e revelação voltada para o conhecimento perfeito.
3. A virada discursiva não pretende apenas acrescentar uma abordagem ao estudo do esoterismo, mas transforma o discurso esotérico em instrumento de análise de outro objeto, a “história europeia da religião” para von Stuckrad ou, para Julian Strube, uma “história global da religião”, substituindo o estudo do esoterismo por um projeto mais geral de pesquisa histórica e comparada da religião e da cultura.
4. Esse programa pode gerar novas percepções ao estudar a dinâmica do segredo e da revelação em escala europeia ou global, compreendendo o esoterismo, segundo Hugh Urban, não por seu conteúdo, mas por suas formas e estratégias de ocultar ou revelar informações valiosas, sendo o segredo uma estratégia discursiva que converte o conhecimento em recurso escasso e capital simbólico.
5. Esse programa não tem conexão necessária com o estudo do esoterismo como conjunto específico de tradições históricas, tratando-se de projetos distintos confundidos apenas pelo uso da mesma terminologia, sem razão para a retórica de competição excludente, facilmente evitável pela distinção entre esoterismo1, conjunto de tradições, ideias, práticas ou formações sociais agrupadas por características comuns, e esoterismo2, dialética do segredo que regula socialmente o acesso a certos conhecimentos.
6. Ocupando-se do esoterismo1, cabe explicar com que base e por quais traços comuns certas tradições são agrupadas sob esse rótulo, ao passo que os estudos sobre o esoterismo2 examinam a dialética do segredo em contextos sociais diversos, muitos sem relação com o esoterismo1, como o livro de Urban sobre o segredo na administração de George W. Bush, que obviamente não faz do ex-presidente um esoterista comparável a Blavatsky ou Crowley.
7. Um obstáculo mais sério à convivência entre abordagens históricas e discursivas reside nas divergências filosóficas sobre linguagem e realidade, encruzilhada em que os construtivistas radicais se separam dos historiadores e realistas críticos, pois a virada discursiva adota a tese pós-estruturalista de que a linguagem não comunica, mas apenas constrói significado, e de que os textos se referem apenas uns aos outros, tornando o estudo do esoterismo um discurso acadêmico sobre discursos e não sobre realidades históricas e sociais.
8. Essa via não é inevitável, devendo-se distinguir a rejeição construtivista do essencialismo, plenamente aceitável, já que o termo esoterismo não designa nenhuma essência ou entidade a ser descoberta e nada é intrinsecamente esotérico, sendo a palavra apenas uma palavra, razão pela qual se pergunta não o que é o esoterismo, mas o que se entende por ele, da questão controversa do que se entende por realidade.
9. As palavras tornam-se significativas pelos discursos em que funcionam, em combinação com as formações imaginais reificadas que a linguagem suscita na mente, pois é o discurso que lhes permite mediar entre o que se diz e o que se quer dizer, tornando-se sem sentido quando perdem essa função, como na desconstrução radical, e é a consciência humana que torna possível essa mediação ao converter palavras em formações imaginais ambíguas que re-presentam a realidade, capacidade de enorme importância, considerada chave evolutiva da civilização, de modo que a mediação, função central da linguagem e da imaginação e fundamento do sentido, implica uma distinção entre linguagem e realidade não discursiva sem tornar irreal a linguagem, definível como realidade compreensível.
10. Há, portanto, uma realidade além do discurso, da qual o próprio discurso faz parte, conhecida pela experiência cotidiana de pessoas, objetos, seres vivos, visões, sensações, fantasias, ideias, histórias, música, símbolos, sonhos, energias e também linguagem, como exprime Karl Ove Knausgård ao refletir sobre sua formação literária.
11. Knausgård relata ter sido treinado a pensar abstratamente entre fenômenos secundários da filosofia, da literatura e da política, excluindo do pensamento o mundo concreto que tem cheiro, sabor e som e que se sente na pele, no qual pensava de modo prático para lidar com ele, sendo nesse mundo concreto, como corpo, olhar e voz, que se enraíza toda independência, inclusive a do pensamento.
12. Nenhuma das realidades conhecidas pela experiência pode ser posta diretamente em palavras, mas pode ser abordada indiretamente pela mediação da linguagem, como se faz constantemente ao tentar dizer ou escrever o que se quer significar.
13. Usar o termo esoterismo é apenas um modo indireto de falar de certos acontecimentos e fenômenos da realidade humana passada e presente, cuja única justificativa como rubrica erudita, contra a obsessão verbal do exclusivismo discursivo, é pragmática e provisória, servindo de rótulo para chamar a atenção para tradições, ideias, práticas e formações sociais negligenciadas que merecem estudo sério.
A Perspectiva Deste Livro: Conhecimento Rejeitado
1. O esoterismo1 será explorado como campo radicalmente pluralista de correntes, ideias e práticas desenvolvidas da Antiguidade tardia até hoje, sem privilegiar nenhum período ou visão de mundo como mais autenticamente esotérico, sendo o termo apenas um rótulo de menor importância que seus conteúdos, sem essência definidora, melhor exemplo ou esoteristas prototípicos.
2. O esoterismo pode ser descrito como a principal vítima da especialização acadêmica após o século XVIII, distinguindo-se por seu estatuto moderno de conhecimento rejeitado, desacreditado ou marginalizado, isto é, tudo o que os ideólogos iluministas e seus herdeiros lançaram na lata de lixo da história por considerá-lo incompatível com suas concepções normativas de religião, racionalidade e ciência, domínio imaginado como contraparte radical do que pessoas sérias devem levar a sério e por isso evitado no discurso acadêmico, resultado de uma longa história de batalhas apologéticas e polêmicas iniciadas na Antiguidade tardia, pelas quais as elites religiosas e intelectuais definiram sua identidade e os fundamentos normativos da modernidade secular.
3. Ser a lata de lixo acadêmica do conhecimento rejeitado, o domínio imaginal da alteridade contra o qual a academia definiu sua identidade, não faz do esoterismo uma coleção aleatória, pois formou-se no século XVIII um consenso sobre as características do domínio rejeitado que, embora exageradas pela polêmica, correspondem a visões de mundo, tradições e abordagens do conhecimento reconhecíveis e controversas na história ocidental.
4. O campo de pesquisa assim delimitado possui duas características básicas, ter sido posto à parte como o outro negativo contra o qual as elites religiosas e intelectuais dominantes definiram e definem sua identidade e enfatizar visões de mundo, epistemologias e práticas em conflito com a cultura normativa pós-iluminista do Ocidente moderno, o que constitui o mais próximo de uma definição formal de esoterismo.
Esoterismo e Cultura Ocidental
1. Quando o estudo do esoterismo emergiu como campo acadêmico nos anos 1990 e 2000, dominava a perspectiva de Faivre, que o designava como esoterismo ocidental, entendendo que uma visão de mundo de transmutação espiritual fundada em correspondências e no pensamento analógico mediado pela imaginação, comum nas culturas antigas, perdeu crédito no Ocidente latino com as revoluções intelectuais do averroísmo ao cartesianismo, sendo marginalizada como conhecimento rejeitado até retornar com a tradução do “Corpus Hermeticum” em 1471, razão pela qual Faivre via o esoterismo ocidental como fenômeno essencialmente moderno e cristão, tratando as tradições judaicas e islâmicas como influências ou antecedentes, já cobertas, de resto, pelos trabalhos de Scholem e Corbin.
2. Esses pressupostos não eram partilhados por todos, como mostra o “Dictionary of Gnosis and Western Esotericism” de 2005, cujo título reflete um compromisso ao estender o campo à Antiguidade tardia e à gnose, embora excluindo, por falta de competência e de recursos, os vastos domínios do esoterismo judaico e islâmico, decisão difícil cuja introdução reconhece os fortes argumentos em favor da inclusão das três religiões do Livro e nega qualquer intenção de excluir o judaísmo e o islã da história europeia das religiões ou da cultura ocidental.
3. Nas últimas duas décadas, muitos estudiosos procuraram preencher essas lacunas, produzindo concepções cada vez mais amplas, complexas e inclusivas do campo, a ponto de, na Sociedade Europeia para o Estudo do Esoterismo Ocidental, o esoterismo judaico e o islâmico deixarem de ser vistos como influências para se tornarem partes integrantes do campo.
4. O próprio adjetivo “ocidental” passou a ser criticado, muitas vezes em termos agressivos que acusam seus defensores de eurocentrismo, essencialismo, excepcionalismo, discurso da branquitude ou apagamento dos povos não ocidentais, polêmicas que obstruem o diálogo construtivo sobre temas importantes, razão pela qual o novo título da obra pretende indicar que o adjetivo “ocidental” não exerce função teórica significativa e pode ser abandonado, mas que o esoterismo1 só pode ser compreendido como parte da cultura ocidental e de seu complexo desenvolvimento histórico.
5. A constituição do esoterismo como domínio semiautônomo de conhecimento rejeitado resultou de um discurso polêmico desenvolvido na cultura cristã e dominante no Ocidente latino durante o Renascimento e o início da modernidade, após a divisão do Império em 395, o Grande Cisma de 1054, a queda de Constantinopla em 1453 e a Reforma, cabendo aos teólogos protestantes radicalizar a tradição polêmica cristã contra o paganismo, a idolatria, a superstição e a heresia, demonizando tudo o que se associasse à magia ou ao entusiasmo irracional, discurso adotado pelo Iluminismo, que definiu sua identidade contra uma categoria residual de superstição, irracionalidade e oculto, a qual, posta como o outro polêmico da ortodoxia cristã e da razão iluminista, tornou-se atraente para os descontentes e se converteu num reservatório de conhecimento alternativo chamado esoterismo.
6. A compreensão moderna do esoterismo como conhecimento rejeitado é produto de tradições polêmicas cristãs do Ocidente latino retomadas por autores protestantes e iluministas da Europa ocidental, e não do judaísmo, do islã, do cristianismo bizantino ou das religiões pagãs, o que remete ao problema central dos debates sobre o Ocidente, a influência persistente de visões hegemônicas e eurocêntricas da cultura ocidental que privilegiam a Europa ocidental sobre a oriental, o cristianismo sobre as demais religiões, o catolicismo sobre a ortodoxia ou o protestantismo sobre os demais cristianismos e, por fim, a ciência e a racionalidade iluministas sobre a religião, lógica cumulativa de um eurocentrismo interno que marginaliza tudo o que não se ajusta a uma visão ideológica estreita do Ocidente.
7. O estudo moderno do esoterismo procura corrigir as distorções desse eurocentrismo interno, restituindo à história da cultura ocidental as crenças e práticas marginalizadas, com implicações vastas para a história global da religião e para o estudo da cultura ocidental, ao expor também as manifestações externas desse eurocentrismo, base de políticas colonialistas, imperialistas e racistas que projetam estereótipos heresiológicos como superstição primitiva, magia sinistra ou idolatria pagã sobre os povos da África, da Ásia e da América Latina.
8. Os críticos pós ou decoloniais têm razão ao rejeitar esse discurso eurocêntrico, mas, ironicamente, tomam-no como descrição adequada do Ocidente em vez de desconstruí-lo como ficção ideológica, quando o necessário é reconstruir a noção de cultura ocidental a partir de uma perspectiva mais ampla, inclusiva e não ideológica, livre de implicações de superioridade ou inferioridade e fundada no conhecimento histórico e empírico tanto de suas dimensões aceitas quanto das rejeitadas, programa máximo da pesquisa sobre o esoterismo.
9. Geograficamente, a cultura ocidental abrangeu durante cerca de dois mil anos, antes da expansão colonial, toda a região mediterrânea, incluindo a Europa, o norte da África e o atual Oriente Médio, designada como Ocidente porque as grandes rotas culturais e comerciais da Antiguidade seguiam um eixo leste-oeste coincidente com o curso do sol, da China e do Japão até o Mediterrâneo, extremo ocidental da massa eurasiática além do qual havia apenas o mar.
10. Culturalmente, a cultura ocidental funda-se na interação dialética, conflituosa e nunca plenamente reconciliada, entre o helenismo pagão posterior a Alexandre e os monoteísmos exclusivos do judaísmo, do cristianismo e do islã, o que, contra as narrativas eurocêntricas ou filelenas que combinam ciência grega e moral judaico-cristã, implica reconhecer plenamente o islã, o judaísmo em seus próprios termos e as múltiplas tradições pagãs como partes integrantes do Ocidente.
11. Historicamente, a cultura ocidental é uma formação dinâmica que se desenvolve do século V a.C. até hoje a partir de histórias e ideias fundadoras de origem greco-helenística e monoteísta, com fronteiras flexíveis definidas pelo alcance dessas ideias em cada época, até que, a partir de 1492, com a chegada de Colombo à América e a expansão colonial, deixa de ser um espaço geográfico na Eurásia para tornar-se um espaço mental definido por suas histórias e ideias fundadoras em contínua evolução e em diálogo com as de outras culturas.
12. Embora o estudo do esoterismo exija essa concepção ampla e inclusiva de cultura ocidental, seu potencial inovador permanece em grande parte irrealizado, faltando uma história sintética não eurocêntrica do Ocidente e uma perspectiva integral de suas dimensões esotéricas, e não tendo sido sequer abordados os problemas conceituais de reunir os esoterismos judaico, cristão, islâmico, pagão e secular moderno sob um mesmo conceito, como mostra a Cabala judaica, já presente nos congressos, mas ainda não comparada sistematicamente a seus paralelos.
13. O esoterismo islâmico ganha destaque nos congressos, mas sua definição permanece em debate, concentrando-se muitos estudiosos na busca de equivalentes árabes ou persas do termo esotérico, como bāṭiniyya, ao passo que os projetos voltados para a história das ideias de longa duração, a filologia crítica e o comparativismo estrutural de práticas preferem falar de ciências ocultas ou ocultismo, com risco de confusão terminológica, adotando-se aqui essa segunda abordagem sob o nome de esoterismo islâmico1, enquanto o esoterismo bizantino ainda não foi objeto de estudos sistemáticos ou comparativos.
14. O estado atual da pesquisa limita o alcance da obra, centrada em tradições, crenças e práticas que adquiriram reputação controversa na Europa ocidental até acabarem na categoria residual do conhecimento rejeitado sob o impacto das polêmicas protestantes e iluministas, história de rejeição eurocêntrica interna ocorrida no cristianismo latino da Antiguidade tardia ao Iluminismo e prolongada nas sociedades seculares, mas que se procura situar no contexto mais amplo da cultura ocidental, incluindo plenamente as dimensões judaica e islâmica.
15. A narrativa iluminista do conhecimento rejeitado afetou intelectuais judeus da Wissenschaft des Judentums, como Heinrich Graetz, que via a Cabala como camada fúngica venenosa em torno do nobre núcleo do judaísmo, contra o que Gershom Scholem estabeleceu a Cabala como campo legítimo de pesquisa, permanecendo incerto se processos semelhantes de eurocentrismo interno ocorreram em contextos bizantinos, islâmicos ou outros, o que exige estudar as polêmicas das ortodoxias contra os equivalentes não cristãos do esoterismo e investigar os processos de rejeição do conhecimento também na Antiguidade, nos discursos árabes e judaicos e em contextos não europeus.
16. Essa agenda deve ser perseguida, pois a visão do esoterismo na cultura ocidental permanecerá incompleta enquanto faltarem tais análises, que só especialistas com profundo domínio linguístico e acesso às fontes primárias podem realizar, num trabalho demorado diante das enormes quantidades de manuscritos ainda não lidos, editados e traduzidos, de modo que passarão décadas antes que surja uma perspectiva abrangente do esoterismo na cultura ocidental, cabendo por ora oferecer uma impressão do campo e de seu potencial para uma futura história inclusiva e não eurocêntrica do Ocidente.