2 Homem e seu corpo

Paracelsus. Selected Writings. Ed. Jolande Jacobi. Princeton: Princeton University Press, 1973

1. A medicina deve fundar-se na verdade e não em artifícios verbais.

2. O verdadeiro médico nasce da natureza e recebe dela sua experiência, não sendo médico quem escreve, fala e age segundo raciocínios contrários à natureza e a seus caminhos.

3. O médico é servo e não senhor da natureza, cabendo à medicina seguir a vontade natural.

4. O bom médico deve apoiar sua fé e toda a sua arte na luz racional da natureza, pois Cristo quer uma fé nascida do conhecimento, e Deus deu a cada homem a luz necessária para não se extraviar.

5. Toda verdade é recebida de um mestre, a da alma de Deus e a da filosofia da natureza, cujos mestres pessoais ensinam sem palavrório, pois a verdade nasce do ver e do tocar.

6. A doença e o remédio não procedem do médico, que pode apenas agravar ou melhorar seu curso, sendo a natureza, detentora do conhecimento e compositora das receitas, a mestra de quem a arte de curar deve partir com espírito aberto.

7. As forças da natureza superam toda arte médica, havendo numa única erva mais virtude que em todos os volumes lidos nas universidades.

8. O médico deve ter como livro seus pacientes, que nunca o enganam, pois quem se contenta com a letra é um médico morto que mata seus doentes, já que nem o matador de cães aprende seu ofício nos livros, mas pela experiência.

9. A teoria médica não se aprende pela cabeça, mas pelo que os olhos veem e os dedos tocam, como mostra o erudito monástico que, formado apenas em especulações humanas, nada sabe fora de seus costumes e jamais alcança o fundamento das coisas, devendo teoria e prática formar uma unidade fundada na experiência, assim como o carpinteiro só concebe a casa em sua mente graças à prática.

10. A prática não deve basear-se na teoria especulativa, mas a teoria deve derivar da prática.

11. A experiência é o juiz que decide se uma coisa deve ser aceita ou rejeitada.

12. Cada experimento é como uma arma de função específica, exigindo um homem experiente que conheça suas verdadeiras forças ativas para aplicá-lo segundo sua natureza.

13. O bom cirurgião deve possuir, por temperamento, consciência limpa, desejo de aprender, coração gentil, vida moral e sóbria, mais apreço pela honra e pelo paciente que pelo dinheiro e por si mesmo, e evitar a presunção, a credulidade, a jactância e o desprezo pelos outros.

14. O cirurgião deve conhecer a fundo o corpo, suas carnes, ossos, vasos, órgãos e articulações, as relações entre suas partes, as lesões que cada órgão pode sofrer e suas necessidades, bem como onde estão a vida e a morte.

15. Na prática de sua arte, o cirurgião deve conhecer as ervas vulnerárias, os remédios regeneradores, as essências, o curso das doenças cirúrgicas, o efeito de cada remédio, os emplastros e loções, e o que proibir ou permitir ao paciente.

Missão da Medicina

1. O caminho certo da medicina conduz à experiência, da qual o médico, nascido cego, recebe toda a sua habilidade, agindo não por si mas por Deus, que lhe concede a graça de socorrer o próximo em suas necessidades, não devendo a medicina servir à vaidade nem ao dano alheio, pois é Deus quem age por meio dela.

2. Os olhos que se deleitam na experiência são os mestres do médico, e não as fantasias, especulações e sofismas dos pseudocientistas que julgam conhecer todo o universo e até o coração de Deus.

3. A arte médica não se herda nem se copia dos livros, mas deve ser assimilada repetidamente e com atenção constante.

4. A medicina exige escritos breves e grande inteligência, valendo mais conhecer a fundo uma única erva do prado do que ver o prado inteiro sem saber o que nele cresce.

5. É melhor conhecer e compreender um único remédio do que revolver as grandes bibliotecas dos mosteiros, pois a natureza não exige receitas longas.

6. Como qualquer médico pode ser surpreendido por uma anomalia que confunde livros e experiência, deve estudar sem descanso, nada desprezar, não confiar demais em si, aprender com os mais experientes e viajar para explorar e acolher todo saber sem vergonha de seu título.

7. O médico deve aprender não só nas universidades, mas também com velhas, ciganos, magos, viajantes e camponeses, que sabem mais dessas coisas que todas as escolas superiores.

8. As artes estão distribuídas pelo mundo inteiro e devem ser buscadas onde se encontram, pois, como Deus convida a ir até Ele, a arte não persegue ninguém e deve ser perseguida.

9. O remédio deve ser composto segundo o sangue, a carne, os costumes do país e a natureza inata do paciente, embora a essência da arte esteja no que efetivamente se realiza.

10. Como cada região tem propriedades particulares de terra, alimentos e produtos, o médico deve considerá-las e ser também cosmógrafo e geógrafo.

11. Ninguém se torna bom geógrafo junto à lareira, pois o testemunho dos olhos é o fundamento seguro do saber, e, como as doenças migram pelo mundo, o médico deve viajar para conhecê-las.

12. A natureza deve ser explorada de país em país, como um livro cujas páginas são os países e que se lê com os pés.

13. A medicina repousa em quatro pilares, a filosofia, que conhece a terra e a água, a astronomia, que compreende o fogo e o ar, a alquimia, que explica os quatro elementos e suas transformações, e a ética, que dá ao médico as virtudes que devem acompanhá-lo até a morte.

14. O médico deve dominar profundamente a filosofia, a física e a alquimia, fundando-se na veracidade e na experiência, pois é ele quem mais estuda a natureza e sua luz para socorrer os doentes.

15. A alquimia merece louvor por revelar os mistérios da medicina, mas só merece louvor o médico que é também alquimista, pois o conhecimento e a preparação, a medicina e a alquimia, jamais devem ser separados.

16. O filósofo da terra e o astrônomo do céu constituem apenas aspectos parciais do médico, pois as coisas do céu, da terra e do homem diferem apenas na forma, existindo um único arcano de quatro faces, como uma torre de quatro lados, sem as quais o médico não é completo.

Doença e Saúde

1. A medicina deve ser ensinada com clareza na língua pátria e o médico, revelador dos mistérios do céu e da natureza, deve conhecer as doenças no macrocosmo, relacionando a urina, o pulso, a fisionomia e a febre ao mundo exterior, ao firmamento, aos astros e aos fenômenos naturais, pois só pelo conhecimento do homem exterior, que é céu e terra, pode aproximar-se do interior.

2. O sol e a lua estão impressos no homem como no firmamento, uma imagem refletindo a outra, devendo o médico conhecer o homem no espelho dos quatro elementos, onde todo o microcosmo se revela.

3. Reconhecer os sintomas visíveis está ao alcance de qualquer um, só se tornando médico quem conhece o que é invisível, imaterial e inominado, mas eficaz.

O Médico Misericordioso

1. O bom médico deve nascer médico, pois a vocação de toda a vida é inata e não se transforma, o que explica a multidão de estudantes que só prejudicam a reputação da faculdade.

2. Há três espécies de médico, o nascido da natureza pela conjunção das constelações, o formado pelos homens e o dado e ensinado diretamente por Deus, que, embora divergentes na teoria, convergem para o mesmo fim, devendo todo saber transmitido provir de Deus e da natureza sob pena de erro.

3. Criado por Deus e não pelos homens, o médico deve agir de boa-fé e sem mentira, sabendo que só pode ajudar quem tem a graça.

4. O médico, cujo único dever é expulsar a doença, deve imitar a Deus, médico do grande mundo que a cada ano remove a doença do inverno, sendo ele um deus do pequeno mundo, delegado divino que deve aprender com o Médico supremo e considerar-se seu discípulo.

5. Para os cristãos, Deus é o primeiro e mais poderoso médico, a quem se deve recorrer e que envia o santo, o médico ou Ele mesmo para curar.

6. Assim como seria lamentável o jurista que ignorasse as leis do imperador ou o cristão que ignorasse os artigos de fé, ninguém pode ser algo sem os meios que lhe correspondem, como o pássaro sem asas.

7. Assim como a fé sem obras é morta, o médico sem medicina é morto, pois Deus ordenou que cada coisa tenha duas faces mutuamente dependentes, fé e obras, médico e remédio, mestre e maestria.

8. Só é sábio quem não teme as obras de Deus, devendo o futuro médico buscar a medicina em sua fonte e estudar todos os livros, retendo o que concorda com a luz da natureza e rejeitando o que dela diverge como um labirinto sem saída.

9. O médico deve revelar e usar retamente as obras maravilhosas de Deus ocultas no mar, na terra, no ar e no firmamento, cuja ignorância é cegueira mortal como a cegueira espiritual, devendo a ciência médica ser estudada como as palavras de Cristo, pois o anúncio da Palavra e a cura dos doentes são inseparáveis, já que o corpo é a morada da alma.

10. Há médicos que trabalham por amor, reconhecíveis por seu amor ao próximo, e médicos que trabalham por lucro, lobos vorazes que colhem sem ter semeado e transgridem o mandamento do amor.

11. A malevolência entre os médicos, capazes de prejudicar ou matar um paciente para negar mérito a um colega, revela que se tornaram médicos por dinheiro e não por amor ao doente, gerando inveja, ódio e orgulho.

12. Deus deu às ervas poder para libertar o homem de suas enfermidades e prolongar sua vida contra a morte, pois sua misericórdia, como a erva criada antes do homem, precedeu sua severidade, tendo criado o médico e os remédios como dons dessa misericórdia, que o sábio deve acolher.

13. A frivolidade humana, que leva a empreender obras sem domínio do ofício e a querer voar antes de ter asas, é a causa das decepções, devendo a medicina ser praticada com assiduidade, experiência e temor de Deus.

14. O ofício do médico, ao contrário dos demais homens, consiste em compaixão pelos outros, compaixão que, como a eficácia do remédio, não procede dele, mas da caridade e do amor com que Deus o dotou para cumprir sua vontade.

15. Ensinar sem fazer é pouco, sendo completo apenas quem ensina e faz, como o canteiro que ensina com as mãos e não pode ensinar o que não sabe fazer, exigência ainda maior para o médico.

16. Assim como as palavras de Cristo eram sempre acompanhadas de atos, na medicina palavras e obras devem estar unidas, e os que se perdem em disputas ociosas prestarão contas de suas palavras vãs.

17. O médico, ao contrário do teólogo teórico, deve provar-se por palavras e atos como um santo, pois só é médico aquele cujos remédios são eficazes.

18. Na medicina, arte verdadeira, palavras e atos são uma só coisa, e o médico deve fundar-se no espírito e seguir o caminho de Deus, sem o que será um pseudomédico extraviado no erro.

19. A arte médica enraíza-se no coração, de modo que um coração falso faz um médico falso e um coração justo um médico verdadeiro.

20. Ninguém precisa de maior amor de coração que o médico, para quem só conta a aflição humana, diante da qual privilégios e linhagens nada valem.

21. O médico deve ser puro e casto, livre de luxúria, vaidade e maus pensamentos, pois só da verdade brotam frutos puros e duradouros, ao passo que os médicos de base perversa produzem apenas obras mentirosas.

22. Toda doença tem seu remédio, e amar a Deus e ao próximo implica nunca declarar o doente incurável, mas reconhecer a própria ignorância e prosseguir os estudos até descobrir a arte que funda as boas obras.

23. Na medicina nunca se deve perder a esperança, pois todas as doenças são curáveis e só não as combatemos por não saber tratá-las nem compreender a essência da vida e da morte.

24. A terapêutica é a pérola mais nobre da medicina, pois, depois do amor a Deus, nenhum amor ao próximo é maior que o de descobrir as virtudes curativas dos remédios para livrá-lo do sofrimento e da morte.

25. Assim como o homem só é completo com a mulher, sendo ambos da mesma terra, homem e remédio derivam da mesma substância e a doença deseja seu remédio como esposa, devendo o médico encontrar o remédio que se harmonize com ela.

26. O médico deve cuidar de sua mão, objeto mais precioso aos olhos do Criador, e conhecer o mundo, os elementos e o firmamento para descobrir a natureza do homem, que é céu e terra, ar e água.

Natureza da Doença

1. Tudo o que fere o corpo destrói a morada do Eterno.

2. As doenças podem penetrar em dois domínios, o material, o corpo, e o imaterial, o espírito invisível do corpo, que pode sofrer as mesmas doenças, havendo por isso doenças espirituais e materiais.

3. As doenças procedem de cinco princípios ativos, o ens astrorum dos astros, o ens veneni do veneno, o ens naturale da constituição natural, o ens spirituale do espírito e o ens Dei de Deus, este o mais importante, pelo qual se reconhece a natureza de todos os outros.

4. Desde o ventre materno o homem traz em si todas as doenças e só nasce vivo graças a um médico interior, pois a natureza lhe deu tanto o destruidor quanto o conservador da saúde, que lutam com igual empenho, cada um com seus instrumentos de demolição e de construção.

5. Ninguém se protege sem conhecer o inimigo, e assim como Deus revela o diabo como inimigo da alma, revela a morte e as doenças como inimigas do corpo, juntamente com os meios de vencê-las, pois não há doença sem um remédio criado contra ela.

6. A natureza e a força de uma doença devem ser descobertas por sua causa e não por seus sintomas, como se apaga o fogo e não apenas a fumaça.

7. Só Deus conserva a vida e obriga até os inimigos a fortalecê-la, como o cardo que, embora fira com seus espinhos, oculta na flor um remédio, sendo sempre de Deus o auxílio, venha de onde vier.

8. A saúde nasce da mesma raiz que a doença e as duas seguem o mesmo caminho.

9. Saúde e doença, outrora unidas, separaram-se como o sol e a lua e, como os astros entrelaçados no corpo, devem estar todas presentes para que o firmamento interior seja completo.

10. O céu traz muitas doenças no curso do tempo, das quais nenhum homem são pode proteger-se, devendo aceitar diariamente o que ele envia.

11. O tempo, que faz surgir chuvas, rosas e todas as coisas, pode fazer eclodir doenças a seu bel-prazer, sendo um mestre misterioso e cambiante que brinca com o médico como o gato com o rato e que este nunca deve esquecer.

12. Saúde e doença são dadas por Deus, devendo distinguir-se as doenças naturais das enviadas como castigo, advertência e sinal da insuficiência e fragilidade de todo saber humano.

13. Deus, que dá a doença, poderia retirá-la sem o médico, mas quer realizar a cura, mesmo milagrosa, por meio do homem.

14. Toda doença é um purgatório cujo termo só Deus conhece, de modo que o paciente só se cura quando chega a hora providencial, sendo enviado ao médico apenas então, pois Deus retém os remédios e o médico até o momento predestinado.

15. O remédio não é o sumo bem, pois maior é quem o criou e ainda maior quem cura a alma, que vale mais que o corpo.

16. Deus decreta a fortuna e o infortúnio de todas as criaturas e administra dois castigos, um nesta vida e outro após a morte.

17. Deus é o mestre que mede as doenças e os astros segundo uma sabedoria insondável.

18. Quem deposita sua esperança no medicamento não é cristão, mas quem a deposita em Deus.

Os Remédios do Médico

1. Não há doença tão grave que Deus não tenha criado um remédio contra ela.

2. A medicina terrena está sujeita à ordem e às forças da natureza, ao passo que a celeste dispensa ervas e astros e opera pela palavra divina, mais poderosa que toda a natureza, agindo apenas no corpo eterno do homem renascido.

3. Como a farmácia não oferece a preparação adequada dos remédios, o médico deve recorrer à alquimia, apesar de seu descrédito, para separar o puro do impuro e obter remédios perfeitos, pois Deus quer que o homem os prepare por seu trabalho e não os receba prontos.

4. O primeiro e supremo livro da medicina é a Sabedoria, isto é, o próprio Deus, criador e conhecedor da causa primeira de todas as coisas e de todos os remédios, devendo toda investigação começar pela busca do Reino de Deus e da graça divina, da qual a sabedoria flui como o calor do sol.

5. O segundo livro da medicina é o firmamento, que contém todas as virtudes e deve ser lido pelo médico como uma carta, decifrando as estrelas em conjunto para compreender o sentido de suas frases.

6. O livro da medicina é a própria natureza, na qual se devem reencontrar todas as ciências com a mesma certeza com que alguém se vê num espelho.

7. Os remédios possuem virtudes maravilhosas que só o grande artista formado pela experiência das mãos pode descobrir, merecendo o nome de arcanos, cuja origem a mente mal consegue conceber.

8. A divisão das ervas em masculinas e femininas corresponde à existência de dois mundos, o do homem e o da mulher, cujas enfermidades e remédios diferem.

9. O remédio cresce nas mãos do bom médico como a planta na terra, sendo uma semente cujas potencialidades ocultas ele deve desenvolver até que se torne o fruto que está destinado a ser.

Regras para os Sãos

1. Há tantos tipos de estômago, fígado e saúde quantos os homens, cada um adequado a seu portador, de modo que as prescrições dietéticas devem respeitar essas diferenças tanto na doença quanto na preservação da saúde.

2. O homem deve estar desperto aproximadamente das quatro da manhã às oito da noite e dormir no intervalo, seguindo o curso do sol, pois a violação dessa ordem natural provoca doenças desconhecidas.

3. A obediência à natureza exige que todas as coisas guardem número, peso, medida e ritmo, sem desequilíbrios como a alternância entre excesso e privação no alimento, no trabalho e no repouso.

Dieta e Dosagem

1. O médico deve distribuir e pesar todas as prescrições para não sobrecarregar a natureza em excesso de um lado e deficiência de outro.

2. A dieta deve considerar não só a idade do paciente, mas também os costumes e a natureza de seu país e as estações do ano, cada uma com seu regime próprio.

3. Os remédios não devem ser dosados por peso, mas, como o fogo, segundo a extensão da doença, pois, assim como uma centelha sem peso incendeia uma floresta, a ação do remédio não se mede na balança.

4. Assim como o ouro, o remédio tem pouca virtude se não for purificado no fogo, pelo qual todas as coisas renascem úteis ao homem.

5. A arte de prescrever consiste em extrair e não em compor, pois a natureza já compôs em cada coisa uma virtude simples e indivisa, devendo o médico aprender com ela, verdadeira médica, onde estão suas farmácias e seus tesouros.

6. Toda a natureza é uma única farmácia coberta pelo céu, em que campos, prados e montanhas são boticas manejadas por um único Ser, das quais o homem possui apenas uma parte.

Preparação dos Remédios

1. Um bom remédio vale o mesmo em qualquer época e um mau remédio continua sem valor por mais antigo que seja, devendo-se abandonar o mau sem complacência.

2. Ainda que os antepassados se surpreendessem com os novos remédios, preserva-se o que há de bom nos deles.

3. A experiência sobre os remédios é incompleta, pois sua ação varia segundo o dia, o paciente e as circunstâncias, enganando sempre aquilo que não se domina.

4. Todos os remédios estão na terra prontos para a colheita, faltando apenas os ceifeiros, que um dia virão para curar leprosos e cegos apesar da presunção dos sofistas.

5. A natureza não produz nada perfeito em si, cabendo ao homem, pela alquimia, levar ao seu fim destinado o que ela produz, arte que os artesãos cultivaram e que a medicina negligenciou, permanecendo a mais grosseira das artes.

6. Deus criou o ferro e os remédios, mas não em estado acabado, cabendo a Vulcano, senhor do fogo, libertá-los da escória, sendo alquimia tudo o que o fogo realiza e o remédio oculto sob a escória visível de ervas, pedras e árvores.

7. O médico, seguindo o Grande Médico que deixou ao mineiro o refinamento do minério, deve combater a transitoriedade das coisas purificando o corpo humano para torná-lo indestrutível como o ouro, agindo o remédio como o fogo.

8. O mercúrio manifesta-se em três formas, ainda não nascido no minério, separado e purificado pelo fogo e preparado pela arte alquímica, nas quais se baseia a cura do mal francês.

9. A prática médica é uma obra de arte que deve provar seu mestre e cujas partes só se julgam pela obra inteira, criada pela sabedoria da arte.

10. O veneno encerra um mistério da natureza e uma virtude curativa abençoada por Deus, não devendo ser desprezado, mas usado sem medo para seu fim próprio, pois o arcano nele contido não é afetado por ele.

11. Todas as coisas contêm veneno e só a dose determina se algo é veneno, devendo-se separar do arcano o que não lhe pertence e prescrevê-lo na dose certa, pois só é veneno o que prejudica o homem.

12. O remédio deve corresponder ao astro e ao princípio da doença, opondo-se entidade a entidade como esposa a esposo.

13. Toda cura deve proceder da força do coração e agir de dentro para fora, expulsando a doença para os confins do corpo e nunca a impelindo em direção ao coração.

14. Bem-aventurado o médico que reconhece os remédios em sua ação viva, pois muitos já morreram e outros morrem com a renovação dos tempos, enquanto o céu infunde novas virtudes nos remédios ocultos do futuro.

15. O médico deve considerar a idade das pessoas, das doenças, dos remédios e do mundo, pois curar se torna mais fácil com o passar dos séculos.

16. A medicina subsistirá até o Juízo Final e, ainda que todos os médicos morressem, novos surgiriam sempre, instruídos por Aquele que criou a arte médica e o médico.