Paracelsus. Selected Writings. Ed. Jolande Jacobi. Princeton: Princeton University Press, 1973
1. A fala e a audição, dons divinos destinados ao estudo da criação, obrigam o homem a buscar o conhecimento que permite distinguir o bem do mal e conhecer a Deus, pois a superstição, a vaidade e a tolice só prosperam na ignorância.
2. A fé autêntica funda-se no conhecimento das obras, sinais e maravilhas da natureza, exigindo que o crente filosofe segundo a ordem de saber, crer e frutificar, já que o saber estéril conduz à condenação e desqualifica o filósofo.
3. A sabedoria e as artes, como dons de Deus concedidos a certos homens, devem ser buscadas com empenho ainda maior que o do amante, a exemplo da rainha de Sabá diante de Salomão.
4. A oposição entre a razão angélica, eterna e divina, e a razão animal, que perece com o corpo, faz do homem a imagem de Deus destinada ao juízo, reduzindo à condição de animal quem renuncia à sabedoria e às artes.
5. A sabedoria existente no mundo divide-se em duas espécies, uma eterna e outra perecível.
6. A sabedoria eterna, oriunda do Espírito Santo, é única e perfeita, enquanto a sabedoria temporal, oriunda da luz da natureza, admite uma forma boa e outra má, cabendo ao homem, como imagem de Deus, discernir entre elas, antepor o eterno ao temporal e reter apenas o bem, pois só ele governa a si mesmo.
7. A plenitude humana não reside no corpo carnal, que é animal, mas na parte invisível e intangível que é a luz da natureza, sabedoria natural infundida por Deus nos astros e por eles transmitida ao homem.
8. A razão natural pode existir sem a sabedoria eterna, como entre os pagãos, mas a sabedoria eterna não prescinde da natural, pois o eterno deve ser encontrado no natural, devendo ambas guiar o homem que vive em Deus.
9. A sabedoria constitui uma herança comum e igual a todos os homens, cujo proveito, maior ou menor, depende apenas do modo como cada um a investe, usa e administra.
10. Todos os talentos nascidos da sabedoria divina são reconhecidos por Deus segundo seu caráter próprio, participam de seu amor e conduzem, pelo trabalho, ao grande conhecimento.
11. A sabedoria não tem outro inimigo senão o homem desprovido dela, isto é, a mentira, assim como quem ensina e escreve em Deus só tem por inimigo quem não está em Deus.
12. A sabedoria consiste em saber e não em imaginar, conferindo ao sábio uma razão livre de tolice, confusão e dúvida, pois é pelo conhecimento, segundo reta medida, que todas as coisas são governadas e levadas à perfeição.
13. O conhecimento é a raiz do amor, da compreensão e da fé, pois quanto mais se conhece uma coisa mais se a ama, e só crê em Deus quem o conhece.
14. A herança da sabedoria divina torna o homem semelhante ao anjo, pois Deus quer revelar seu poder nas sabedorias e nas artes, e não na castidade, no jejum ou nas obras do corpo, de modo que a ignorância contraria sua vontade e o conhecimento da criação mostra ao diabo que os homens pertencem a Deus.
15. A comunicação entre o homem e Deus depende de um anjo interior, mais rápido que o pensamento, que leva a Deus a mensagem humana e traz ao homem a obra divina, cabendo à alma, parte imortal do homem, servir-lhe de anjo.
16. Os anjos possuem em si toda a sabedoria e a arte de Deus e vivem em perpétua vigília, ao passo que o homem, prisioneiro do sono, deve despertar e buscar essa sabedoria na natureza, nas ervas, pedras e sementes, onde Deus depositou seu poder e onde se encontra a herança do Pai.
17. A virtude do homem corresponde à orientação de seus sentimentos, pois seu tesouro está onde está seu coração, em Deus ou na natureza, e uma atitude dividida gera uma obra igualmente dividida.
18. A fidelidade, como o amor e a verdade divina, não admite divisão nem mistura, faltando por completo no estudo movido pela aparência, pelo esplendor exterior e pelos títulos vazios.
19. O mandamento evangélico de compelir a entrar significa conduzir à força da mentira para a verdade, cabendo aos detentores do poder garantir que se ensine a verdade, pois o homem, inclinado por si ao mal, só descobre o bem quando compelido a ele.
20. O dever de escrever somente a verdade, abstendo-se diante da dúvida, aplica-se à medicina, à história, a todos os livros e à interpretação das Escrituras, pois a letra mentirosa mata, enquanto a escrita verdadeira transmite o espírito que vivifica.
21. As promessas devem ser cumpridas a qualquer custo, pois a mentira destrói o coração de quem mente e é a fonte de todo engano entre os homens.
22. Deus nutre todos os homens, bons e maus, segundo a forma que cada um deseja, dando a verdade a quem dela quer se nutrir e convertendo até a verdade em mentira em quem prefere a mentira.
23. A vontade divina exige que votos e promessas sejam mantidos com firmeza inabalável, sejam bons ou maus, pois o cumprimento revela a todos onde estão os justos e os injustos.
24. A fé, tesouro guardado no coração, deve ser aberta ao pobre sob a forma de amor, e só quem extrai amor desse tesouro e caminha no amor pode esperar a eternidade, sendo vã a esperança de quem não sabe fazê-lo.
25. A fala procede do coração, sede da verdade, da lealdade e do amor, sendo a língua mero instrumento, de modo que a mudez verdadeira é a do coração.
26. Quem fala do coração mantém a palavra dada, fazendo de seu sim um sim e de seu não um não, ainda que isso resulte em mal.
27. O modo de falar revela o que está no coração e permite conhecer quem fala.
28. As cerimônias são supérfluas, pois Deus olha os corações e concede seus favores para que sejam usados em obras de amor a Ele e de auxílio ao próximo.
29. A salvação e a vida são dadas igualmente a todos, assim como os bens da terra pertencem igualmente a todos, devendo quem recebeu mais dar mais e contentar-se com uma parte igual à dos outros, já que o bem supremo comum é o gozo da vida terrena e impõe a ajuda mútua.
30. A verdadeira religião do jurista deve fundar-se na misericórdia e no perdão, pois nenhum mortal pode julgar validamente diante de Deus sem inspiração do Espírito Santo, e a justiça da letra sempre favorece o rico e o astuto, condenando o ladrão à forca e o juiz à danação.
31. Tudo o que procede do Espírito Santo, seja sabedoria ou medicina, serve ao próximo, e o que não se orienta para o amor a Deus e ao próximo não provém dele.
32. A retidão do coração determina o valor das ações, a ponto de a própria oração do Pai-Nosso ser veneno na boca do perverso e caminho de vida na do justo, de modo que as obras dos santos nada valem num malvado e a pureza de coração persiste no justo ainda que nada tenha feito senão comer perdizes.
33. O Reino dos Céus não pode ser edificado sobre a inveja, que se volta contra quem a pratica, e Deus, conhecedor dos corações, às vezes protege um malvado de outro para evitar mal maior, como ilustra o ferido que preferiu manter as moscas já saciadas a atrair outras famintas.
34. A guerra é um castigo enviado por Deus para renovar o mundo, em que o inimigo aplica ao país a medida divina e excede a medida de malícia assim como o país a excedeu contra Deus.
35. A humildade deve ser praticada primeiro para com os homens e só depois para com Deus, pois quem despreza os homens não respeita a Deus, e as rixas não resolvidas na terra serão pagas no além.
36. A renúncia à vaidade e ao orgulho exige a confissão mútua dos pecados e o perdão recíproco, obrigação que recai sobretudo sobre os poderosos e os senhores, que só obterão o perdão divino se o obtiverem antes daqueles a quem oprimiram.
37. O arrependimento e o sofrimento são as únicas armas contra o diabo, perdoando Deus os pecados de quem clama a Ele do fundo da alma com firmeza de coração.
38. Ninguém pode opor-se ao poder e à vontade de Deus.
39. O coração deve manter-se vigilante dia e noite, sem jamais abandonar a esperança e confiando na grande misericórdia divina e na salvação que nela reside.
40. Ceder à tentação nas coisas que dizem respeito ao corpo e à vida é o maior dos males, e a ignorância de si mesmo abre caminho para ela, devendo-se agir sempre com plena lucidez, pois a tolice não encontra desculpa diante de Deus.
41. O bem já possuído deve ser conservado enquanto não se encontra algo melhor, para não perdê-lo na busca do melhor.
42. Todas as coisas têm igual valor segundo a luz da natureza, e a preferência do ouro sobre a prata nasce da cobiça e da razão mortal, não da sabedoria natural.
43. Deus não faz acepção de pessoas e condena o adúltero qualquer que seja sua condição, devendo os homens, a seu exemplo, tratar a todos com igualdade, sem desprezar nem favorecer ninguém.
44. Ninguém deve chamar o irmão de tolo, pois ninguém sabe o que realmente é e só Deus pode julgar.
45. O Reino dos Céus consiste no perdão e no amor recíprocos, aos quais corresponde o perdão e o amor de Deus, tornando-se presente na terra quando neles se encontra a felicidade.
46. O pecado é duplo, contra Deus e contra o próximo, e o perdão divino depende do perdão concedido aos inimigos e devedores, pois o começo está nos homens e o fim em Deus.
47. Os bens excedentes devem ser partilhados com servos e necessitados em vez de acumulados, pois os tesouros se corrompem e bem-aventurados são os pobres que não buscaram prazer na terra.
48. O trabalho limitado ao pão de cada dia, sem busca de riqueza, traz felicidade e preserva do roubo, do homicídio e do falso testemunho, cumprindo assim três mandamentos de Deus.
49. A verdadeira riqueza do homem feliz não está nos tesouros, mas nos filhos reunidos à sua mesa e no trabalho, riqueza que agrada a Deus, ao contrário da prole do ocioso.
50. A cavalaria verdadeira e a defesa da bem-aventurança residem na generosidade, e não nos adornos de ouro nem no derramamento de sangue.
51. A falta de generosidade dos ricos avaros, cruéis e orgulhosos conduz à danação eterna, segundo a sentença do Juízo sobre quem não alimentou, não deu de beber nem vestiu o necessitado, devendo-se por isso louvar e ensinar a generosidade.
52. A felicidade reside na satisfação das necessidades naturais, nas quais há amor, e não na riqueza, que defrauda o próximo, devendo médico, paciente e artesão receber apenas o necessário, pois a riqueza leva à danação e a pobreza à bem-aventurança.
53. Ricos e pobres estão unidos como elos de uma corrente cuja ruptura impede os ricos de alcançar o céu, e todos, senhores ou miseráveis, jazem igualmente no único hospital de Deus, sujeitos à mesma doença e à mesma morte.
54. A pobreza é graça divina que liberta o homem das tentações da usura, do roubo e do homicídio, ao passo que a riqueza o expõe a todos os males, devendo a doutrina da vida bem-aventurada dirigir-se aos que amam a pobreza e a comunidade solidária dos pobres.
55. A pobreza voluntária, embora acarrete o abandono do papa e do imperador e a fama de louco, traz paz e uma loucura que é grande sabedoria aos olhos de Deus, ao passo que quem a recusa se afasta triste como o discípulo a quem Cristo mandou vender tudo para segui-lo.